Heresia do Sistema Sacramental

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As doutrinas da graça são incompreendidas pela maior parte da igreja moderna. Ao longo dos séculos, a igreja foi atacada pela heresia do pelagianismo, que diz que o homem é totalmente responsável por sua própria salvação, minimizando o papel da graça divina. Uma variante, chamada semipelagianismo, tomou conta da igreja, dizendo que o homem é salvo exclusivamente por Deus mediante a graça, mas que a salvação parte somente da inciativa da boa vontade no coração do homem para com Deus. Esta última tem diversas variantes amplamente aceitas pela igreja moderna. Assim, boa parte dos cristãos creem num sistema doutrinário que anula as doutrinas da graça soberana de Deus e da depravação total do homem. O protestantismo de nossos dias crê numa justificação que se encaixa muito mais nos cânones católicos do Concílio de Trento do que nas páginas das Escrituras. No meio do catolicismo romano impera o sistema sacramental, onde a salvação se tornou algo retratado pelo texto abaixo.

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A principal pergunta do mundo medieval era a antiga pergunta do carcereiro de Filipos: O que devo fazer para ser salvo? Não havia nenhuma pergunta mais urgente, que pressionasse mais as pessoas na era medieval do que esta. Suas preocupações mais profundas eram expressas quando eles faziam esta pergunta e tentavam descobrir a resposta.

O que eu gostaria de fazer nesta lição é imaginar um diálogo entre um leigo sincero, um homem ou uma mulher no mundo medieval, na Europa, e um padre ou conselheiro espiritual. Esta pessoa está pedindo ajuda ao padre para tentar entender como ser salva. Esta pessoa diria:

Leigo: “Diga‐me como posso ser salvo dos meus pecados?”

O padre tem uma resposta pronta: “A igreja tem a resposta. Não se preocupe. ’Facere quod in ce est‘ é a resposta. É latim para ‘faça o que estiver em você’. Ou poderia se dizer ‘faça seu melhor’. Isso é o que a igreja está lhe dizendo: faça seu melhor e Deus não negará a Sua graça àqueles que fazem o seu melhor. Em linguagem clara significa que Deus ajudará aqueles que se ajudam.”

Leigo: “O que faço para me ajudar? Por favor, seja específico sobre isto porque eu realmente estou interessado em conseguir a resposta certa e saber como ser salvo dos meus pecados e ir para céu.”

O padre diz: “A resposta é fácil. Há um sistema estabelecido. É chamado o sistema sacramental. A igreja oferece estes sacramentos a você e à medida que você faz bom uso deles você encontrará, por fim, o seu caminho para o céu.”

Leigo: “Quais são os sacramentos? Sobre o que estamos falando quando você diz que há sacramentos disponíveis para mim?”

O padre diz: “Os sacramentos são atividades religiosas aprovadas pela igreja. Estas atividades são coisas que você faz e à medida que as faz, a graça de Deus lhe é concedida.”

Leigo: “Quantos sacramentos há?”

Padre: “Costumava haver muitos sacramentos. São Francisco falou em 30 ou 40 aproximadamente. Mas o grande Pedro Lombardo conseguiu reduzir a lista a sete. Assim a igreja vê os sacramentos agora como sete. Você os conhece. Eles são batismo, confirmação, eucaristia, penitência, extrema unção, matrimônio e ordenação. Esses são os sete meios de graça que a igreja usa para conferir a graça de Deus a você para que você possa ir para o céu. Claro que a maioria das pessoas vai experimentar somente cinco ou, no máximo, seis desses sacramentos. A igreja vê o matrimônio como um sacramento, mas nem todo o mundo vai se casar. Ordenação também é um sacramento, mas um padre não se casa. Assim você não pode ter todos os sete sacramentos, mas pode ter pelo menos seis deles. Você pode ter cinco sacramentos, conforme for ordenado ou casado ou não. À medida que você usa estas cinco ou seis ajudas, isto será o seu caminho para o céu.

Leigo: “O que eu faço primeiro, então? Eu certamente quero ir para o céu. Fale‐me como começar essa caminhada.”

O padre diz: “O primeiro sacramento não é algo que você faz. É algo que é feito por você porque o primeiro sacramento é o batismo. Você foi batizado quando criança. O batismo é muito importante porque é necessário para remover o pecado original. Você nasceu neste mundo num estado de pecado e o batismo é o sacramento que remove o pecado. Ele torna possível que você por fim alcance o céu se você fizer mais algumas outras coisas no caminho. A propósito, a igreja considera este sacramento tão importante que permite que qualquer pessoa batize em uma emergência. Você sabe, no nosso mundo, muitos bebês morrem no nascimento. E é muito importante que esses bebês sejam batizados porque sem batismo não há nenhuma esperança de alcançar o céu.

Então a igreja diz que não é necessário que um padre esteja presente para batizar um bebê que está morrendo. Qualquer um pode fazê‐lo; até mesmo uma parteira pode fazê‐lo. A parteira deve ter água limpa disponível de forma que, se o bebê parece estar morrendo, ela mesma possa realizar o batismo. Normalmente é o pai e os padrinhos que trarão o bebê à igreja quando ele tiver aproximadamente seis semanas. A mãe não vem porque a mãe não comparece à adoração pública durante várias semanas até que se passe algum tempo. Então a mãe vem para um culto de purificação. O batismo precisa acontecer até que o bebê tenha no máximo seis semanas, de preferência até mais cedo. Assim o bebê pode ser batizado o mais cedo possível. Aquele batismo que você recebeu quando bebê colocou em você um selo indelével. Você está selado com aquele batismo. Nunca será repetido.”

Leigo: “Isto significa que eu vou para céu? Significa que o céu está garantido para mim?”

Padre: “Não exatamente, mas sem o batismo você nunca chegaria lá. Com ele, você tem uma boa chance. Por isso agradeça a Deus pelo seu batismo; você já iniciou o caminho para o céu.”

Leigo: “O que vem depois?”

Padre: “O próximo sacramento é a confirmação.”

Leigo: “O que é isso?”

Padre: “Confirmação é um sacramento no qual a criança confirma os votos que foram feitos por ela no batismo. Quando você foi batizado como criança alguns votos foram feitos. Você não sabia nada sobre eles porque você não podia entendê‐los. Você era apenas uma criança. Mas à medida que você cresce, começa a entender alguma coisa do que estava envolvido no seu batismo. Assim existe a época da confirmação na qual você é trazido à igreja, algumas perguntas lhe são feitas e você faz os votos por si mesmo. Agora é você, por conta própria, que abraça esses votos que foram feitos por seu pai e seus padrinhos.”

Leigo: “Quando eu deveria fazer isto?”

Padre: “Você faz isto quando você tem aproximadamente 3, 6, 9 anos, ou talvez até mais tarde. Mas você provavelmente nunca passará pela confirmação. Há um problema aqui. É que a Igreja Católica ensina que só o bispo pode confirmar. E o bispo não vem muito freqüentemente a esta pequena cidade; assim a maioria das pessoas nunca é confirmada.

É um sacramento da igreja, mas não é praticado freqüentemente nos nossos dias. Mas não se preocupe. Há alguns outros sacramentos. Há a Eucaristia. Isso é a Ceia do Senhor ou Comunhão.”

Leigo: “Como ela me ajuda?”

O padre diz: “Como a comida que você come lhe fortalece e lhe permite crescer fisicamente, assim a comida que você come na Eucaristia, a comida sacramental do pão e do vinho, lhe fortalece espiritualmente.”

Leigo: “Com que freqüência eu devo fazer isso?”

Padre: “O Quarto Concílio de Latrão ocorrido em 1215, determinou que você deveria fazê‐lo uma vez por ano. Todo Católico, todo crente, deveria participar da Eucaristia uma vez por ano.”

Leigo: “Isso soa bastante estranho porque, se isso é comida, por que eu só como uma vez por ano? Eu não ficaria muito bem se eu comesse comida física só uma vez por ano. Eu preciso de comida com mais freqüência que isso.”

Padre: “Não vamos entrar nesta questão. Eu, na verdade, não estou muito seguro como responder a isso. A igreja diz uma vez por ano, então é uma vez por ano.”

Este Leigo sincero diz: “Mas há outra coisa que me aborrece sobre a Eucaristia. Por que só o pão? Quando as pessoas participam da Ceia do Senhor, elas nunca recebem o vinho, somente o pão. É só o padre que bebe o vinho. As pessoas só recebem o pão.”

Padre: “Você mencionou algo muito importante aqui. Você percebe que quando o pão e o vinho são consagrados, esses elementos na verdade tornam‐ se o corpo e sangue de Cristo. Eles ainda se parecem com pão e vinho, mas eles não são mais realmente pão e vinho. Eles são agora o corpo e o sangue de Cristo. Uma coisa assombrosa aconteceu. Você vê por que a igreja não quer passar o cálice entre os leigos? É porque alguns de vocês são muito desajeitados e descuidados. É possível que se derrube ou derrame um pouco do vinho. O que você fez então foi derramar o sangue de Cristo. Isso seria uma coisa terrível se viesse a acontecer. Por isso você recebe o pão. Às vezes ele é simplesmente colocado em sua língua. Deste modo você não pode perder nem uma migalha dele porque é o corpo de Cristo. Mas não preocupe com isso também. A igreja tem uma doutrina chamada con cobatens que diz que se você recebe qualquer um dos dois dos elementos consagrados, você recebe ambos.

Se você recebe o pão consagrado, com efeito, você está recebendo o pão e o vinho. Na verdade já é o bastante só assistir tudo isto acontecendo. Você realmente não tem que receber o pão ou o vinho. A igreja diz que você deve recebê‐los uma vez por ano, mas é o bastante apenas assistir. É o bastante assistir à hóstia consagrada, o Senhor exaltado. Anos atrás, quando o padre dizia as palavras que transformavam o pão e o vinho no corpo e sangue de Cristo, alguns leigos gritavam para que ele levantasse os elementos bem alto para que eles pudessem vê‐los. Isso se tornou parte da Missa agora, o padre levanta a hóstia e a segura no alto. Você pode vê‐la. Você pode ver o verdadeiro corpo de Cristo lá. Isso realmente é tudo o que você precisa fazer.”

Leigo: “Parece estranho pensar que alguém poderia receber qualquer benefício apenas por ver comida e não por comê‐la, mas eu acreditarei na sua palavra.”

Estes dois amigos provavelmente têm que dar um pequeno intervalo nesta intensa conversação teológica e tomar uma taça de vinho ou alguma outra coisa em uma taverna local. Mas depois eles continuam discutindo estes assuntos.

O Leigo diz: “Diga‐me, o que mais há? Nós falamos sobre o batismo e a Eucaristia como também a confirmação. Mas há outros sacramentos.”

Padre: “Sim, há outros sacramentos. Vamos falar agora sobre penitência.”

Leigo: “Por que eu preciso de penitência?”

Padre: “Você precisa de penitência por causa de seu pecado.”

Leigo: “Mas eu pensei que meu batismo havia cuidado de meu pecado.”

Padre: “E cuidou; cuidou do seu pecado original e qualquer pecado que você tenha cometido até ser batizado. Mas isso não é o fim do pecado. Na verdade o batismo apaga todos os pecados cometidos antes do sacramento e lhe dá um pouco de força para resistir a pecados futuros. Mas não garante que você não pecará novamente. Você pecou muitas vezes desde seu batismo. Pense em sua vida cristã assim: Pense nela como uma viagem de navio muito perigosa. Assim que você embarca no navio ele naufraga. Você é lançado na água e está em risco de se afogar. Esse é um quadro de como você entra neste mundo como um pecador. Você é lançado neste frio e tempestuoso oceano. Mas existe uma tábua de salvação – o batismo – na qual você pode se agarrar e ser salvo de se afogar. Mas a tempestade é bem feroz e as chances são de que você vá cair daquela tábua em algum momento. Você precisa de uma segunda tábua, como nós a chamamos . Essa é a penitência. É uma forma de voltar quando você cair.”

Leigo: “Como a penitência funciona?”

Padre: “Há várias etapas. Primeiro você tem que sentir‐se arrependido do seu pecado. Isso é chamado contrição. Você não pode simplesmente fingir arrependimento. Você realmente tem que sentir‐se arrependido pelo seu pecado e experimentar a contrição. Depois, você tem que ir e confessar a um padre, falando o que você fez. Ele pronunciará a absolvição ou perdão a você. Você estará perdoado até a próxima vez em que você pecar, então você terá que fazer tudo novamente. Mas a estória não termina aí. Embora o padre pronuncie a absolvição a você, o que lhe dá o perdão de Deus, você recebe certos castigos temporais por causa do seu pecado. Você precisa pagar por eles. Você tem que fazer algumas coisas que o padre lhe pedirá que faça. Quando ele lhe diz o que fazer então você pode pagar por esses pecados. Você pode remover a ameaça de castigo ou pelo menos reduzi‐la.”

Então o Leigo responde: “Acho que posso entender isso. Mas é um pouco difícil unir a idéia de que Deus perdoa meus pecados, e ainda assim eu tenho que fazer algo para pagar por eles. Eu aceito o que a igreja diz, por isso eu o farei. Quais são algumas das coisas que me serão exigidas para pagar pelos meus pecados?”

O Padre diz: “Há várias coisas. Primeiro podem lhe pedir para dizer algumas orações muitas vezes, como a Oração do Pai Nosso. Há outras orações, também. Essas são coisas boas a fazer e lhe ajudarão a equilibrar sua conta. Ou o padre pode lhe dizer para jejuar certo número de dias. Provavelmente ele dirá que é necessário que você dê esmolas (dinheiro) à igreja ou aos pobres. Ele talvez lhe diga que você deve fazer uma peregrinação.”

Leigo: “Esta última soa um tanto interessante. Eu sempre gostei de viajar. E para onde eu deveria ir? O que é uma peregrinação?”

Padre: “Estão disponíveis peregrinações a muitos lugares. Você tem que ir a um lugar sagrado, a um santuário, a algum lugar que esteja de alguma forma conectado ao nome de um santo, à Virgem Maria ou ao próprio Cristo. A igreja acredita que Deus responde orações em todos os lugares, e os santos nos ajudam em nossas orações. Os santos também podem responder orações onde quer que você esteja. Mas as orações dos santos são mais efetivas nos seus santuários. Portanto, se você quer conseguir maior crédito pelo que está fazendo e ter maiores chances de ter suas orações respondidas, é preciso ir exatamente para o lugar onde estes santos são lembrados. Os lugares mais importantes para ir são Jerusalém e Roma. Você pode não querer ir para Jerusalém no atual momento porque as Cruzadas estão acontecendo, e você sabe sobre elas. É bem arriscado. Mas você pode ainda assim querer ir porque se você vai para Jerusalém, especialmente com as Cruzadas acontecendo , você tem a chance de receber muitas bênçãos e muito crédito. No mínimo, vá para Roma. Se você não pode ir a Roma, há centenas e centenas de santuários muito mais próximos aonde você pode ir.

Visitando um destes lugares, duas idéias se unem. Uma é a necessidade da penitência pelos pecados, e peregrinações são atos penitenciais. Elas requerem sacrifício de tempo e dinheiro. Portanto estes são atos de penitência. Mas a outra coisa boa de ir em uma peregrinação é que você entra em contato com as relíquias dos santos. Pessoas querem orar diretamente no lugar onde os ossos daquele santo estão colocados normalmente num lindo e grande recipiente feito de ouro e jóias preciosas. Às vezes não são todos os ossos de um santo mas somente um ou outro osso está lá. Afinal de contas, todo o mundo quer relíquias e não havia esqueletos suficientes. Assim estes ossos foram desmontados reverentemente. Um osso seria dado a uma igreja e outro osso seria dado a outra igreja. Algumas pessoas bastante frívolas dizem que, como conseqüência, há 13 cabeças de João Batista em diferentes igrejas na Europa. Mas não dê atenção a elas. Não é necessário o esqueleto inteiro do santo. Apenas um osso basta para fazer com que um lugar seja santo. Até mesmo algo que seja associado ao santo pode tornar um lugar santo, como uma peça de vestuário, um pedaço da cruz na qual aquele santo foi crucificado ou parte da espada que foi usada para executá‐lo.”

O sincero inquisidor leigo diz: “Isso tudo está ficando um tanto complicado e muito difícil. Não há um modo mais fácil para alcançar o céu em vez de fazer tudo isso?”

O Padre diz: “Deus não prometeu tornar a salvação fácil, meu amigo. A igreja está fazendo tudo que pode para torná‐la atingível. Mas você ainda tem que fazer a sua parte.”

O Padre continua: “Você já ouviu falar de indulgências?”

Leigo: “Sim, eu já ouvi falar de indulgências. Todo o mundo está falando sobre indulgências, mas eu ainda não tenho certeza sobre o que eles estão falando. Fale‐me sobre as indulgências.”

O Padre diz: “Por aproximadamente 100 anos a igreja tem ensinado a doutrina da recompensa por mérito. Você já ouviu falar disso?”

Leigo: “Sim. A recompensa por mérito.”

Padre: “Nesta vida, a maioria das pessoas não faz boas obras suficientes para si mesmas. Suas obras más são muito mais do que suas boas obras, assim a sua conta espiritual está sempre em débito. Mas há algumas pessoas nesta vida que não somente fazem boas obras suficientes para si mesmas, mas elas fazem algumas boas obras extras.”

Leigo: “Isso é impressionante. Boas obras extras. Quem são essas pessoas?”

Padre: “Eles são os santos cujos cadáveres você vê em vários lugares. Eles fizeram boas obras extras. Especialmente Maria, pense em todas as boas obras da Virgem Maria. Elas são muito mais do que é requerido para sua própria salvação. Pense nas boas obras do próprio Cristo. Isto produz uma enorme recompensa no céu. Graças a Deus que esta recompensa divina está disponível para o Papa. Ele pode utilizar‐se desta conta bancária divina. Ele pode pegar um pouco desse excesso de boas obras. Não se preocupe, há tanto nesta conta bancária divina que ela nunca será esvaziada. O Papa pode pegar algumas dessas boas obras e pode usá‐las para pessoas como você que não têm boas obras suficientes.”

Leigo: “Essas são realmente boas notícias, que o Papa está disposto a fazer isto por mim. Quando ele vai fazer isso?”

Padre: “Ele não o fará a menos que você compre uma indulgência. Você tem que adquirir uma indulgência; você compra uma indulgência. Quando você comprá‐la, isto permitirá ao Papa que ore para que Deus lhe dê algumas das boas obras extras de Cristo, de Maria e dos santos. Não pense que você está comprando perdão porque você não está. Na Verdade você está dando esmolas. A maioria das pessoas que eu conheço acha que isto é comprar o perdão. Tudo bem se eles quiserem pensar assim. Mas tecnicamente você está dando esmolas. Você está fazendo a boa obra de dar esmolas quando você compra uma indulgência.”

Leigo: “Isso é muito interessante. Para onde vai todo esse dinheiro?”

Padre: “Vai principalmente para Roma. Vai para o Papa.”

Leigo: “O que ele faz com o dinheiro?”

Padre: “Ele constrói grandes igrejas e ele consegue que um grande artista decore essas igrejas. Manter uma igreja custa caro e nós temos que conseguir dinheiro de alguma maneira. Este é um bom modo de conseguir dinheiro. Mas não se preocupe sobre para onde o dinheiro vai. O que você tem que preocupar é sobre para onde você vai. Nós estamos tentando levá‐lo para o céu, por isso deixe a cargo da igreja o que vai ser feito com todo o dinheiro que ela recebe. Você deve preocupar‐se com a salvação da sua própria alma.”

O Leigo sincero diz: “É com isto que eu estou preocupado; é por isso que eu estou falando com você. Eu estou tentando conseguir um pouco de ajuda nesta questão. Mas eu ainda estou confuso. De quanto crédito eu realmente preciso? Como posso saber quando já fiz o bastante, quando eu já fiz boas obras suficientes, quando eu já confessei o bastante, quando eu já comprei indulgências o bastante? Como eu posso saber isso?”

Padre: “Isso não é fácil de dizer. É muito complicado. Os teólogos trabalharam nisto, mas você provavelmente não entenderia. Na realidade, eu mesmo não entendo muito do que eles disseram. Digamos apenas que quanto mais, melhor. É claro que é melhor estar seguro do que arrependido. A propósito, nós já falamos sobre isto, mas você tem muita ajuda no caminho. Não a despreze. Pense em todos os santos. Os santos querem levá‐lo ao céu e Maria também.

Há centenas de santos. Nós temos 55 dias especiais de santos em nosso calendário. Nós temos um Dia de todos os Santos em 31 de outubro. Esses são dias importantes para você rezar aos santos. Há um santo para quase todo problema. Há até São Judas que é o santo das causas desesperadas. Se você não sabe para quem mais rezar, e você está no fim da linha, reze para São Judas. São Judas está acostumado a ouvir as orações de pessoas no desesperadas. Ele sabe como ajudar. Não esqueça de Maria também, porque ela é amável e compassiva. Ela levará suas orações diretamente a Deus. Ela está sempre pronta a ajudá‐lo.”

Leigo: “Terminamos? Nós falamos muito sobre estas coisas. Há mais alguma coisa que eu preciso fazer?”

Padre: “Não, na verdade não. Há mais um sacramento, mas não é algo que você possa fazer. É a extrema unção. É seu últimos direito. Será feito por você, assim como o batismo, quando você estiver morrendo. Esperemos que um padre esteja lá. Ele o ungirá com óleo e rezará por você. É a última coisa que pode ser feita pela sua alma.”

Leigo: “O que acontece então?”

Padre: “Vem o Purgatório.”

Leigo: “Purgatório? Você quer dizer que depois de tudo isto eu vou acabar no purgatório?”

Padre: “Sim, receio que seja assim. O céu é somente para aqueles que se utilizaram fiel e integralmente das graças sacramentais da igreja. Você fez isso?”

Leigo: “Não, eu acho que não.”

Padre: “Os maus e os excomungados vão direto para inferno. A maior parte dos restantes, a maioria dos batizados, vai para o purgatório. Eles por fim serão limpos dos seus pecados e então entrarão no céu. Mas há algumas boas notícias recentes sobre este assunto. Os papas decidiram que as indulgências ajudam as pessoas não só nesta vida. Em outras palavras, você pode comprar uma indulgência para si mesmo e isso remove alguns de seus pecados. Mas os papas disseram agora, bem recentemente, que você também pode comprar uma indulgência por alguém que está morto e no purgatório. Isso não é uma boa notícia? Pessoas ricas, por muito tempo, encomendaram missas ininterruptas por suas almas. A missa deles acontece o tempo todo. Estas são missas privadas para as almas das pessoas. Dinheiro foi deixado para um monastério. Este monastério recebe o dinheiro e providencia as missas. A missa é a forma de oração mais poderosa. Isso ajuda essas pessoas ricas que estão no purgatório. Mas a maioria das pessoas, pessoas como você, não pode dispor disso. Esta é mesmo uma boa notícia: que depois que você está morto um amigo ou um parente pode comprar uma indulgência. Algumas são baratas, outras nem tanto. Até mesmo as mais baratas ajudam alguns. Eles podem comprar essa indulgência e isso reduzirá seu tempo no purgatório.”

Vamos imaginar que nosso sincero questionador tem mais uma pergunta. Ele indaga:

Leigo: “Onde está a graça de Deus em tudo disto? Eu não sei muito sobre a Bíblia porque eu não tenho uma. Eu não a ouço muito sendo lida, mas eu ouvi alguma coisa sobre a Bíblia. Eu não sei muito sobre Santo Agostinho, mas eu ouvi falar um pouco dele. Assim como o apóstolo Paulo, ele fala sobre a graça de Deus.”

Padre: “Agora você está entrando em alguns assuntos teológicos pesados. Deixe‐me tentar ajudá‐lo. Talvez se eu desenhar um pequeno diagrama para você, isso irá ajudá‐lo a entender.

Na verdade, há duas formas de enxergar este assunto de como a graça de Deus se encaixa com as nossas obras. Teólogos diferentes apresentaram isto de forma diferente. Você já ouviu falar de São Tomás de Aquino, certo? Deixe‐me mostrar para você como Tomás via isto. Tomás achava que todo este assunto, este processo de salvação, começa com a graça. Nós não podemos fazer o que está dentro de nós até que Deus nos energize pela Sua graça. Assim Deus vem primeiro em graça e nos dá graça suficiente que nos capacita a acrescentar àquela graça o mérito das boas obras. Conseqüentemente a graça de Deus somada às nossas boas obras nos trará a salvação. Esta é uma maneira de enxergar isto. Você provavelmente sabe que alguns dos teólogos atuais, como William Avacome, Duns Scotus e Gabriel Biel estão vendo as coisas um pouco diferente. Eles dizem que nós não devemos pensar que nós começamos com a graça de Deus e fazemos o que está dentro de nós em um estado de graça. Nós não podemos somar mérito ou obras à graça para ganhar a salvação. Pelo contrário, eles dizem que nós fazemos o que está dentro de nós por nossa própria habilidade natural. Eles dizem que nós começamos com obras e fazemos o que podemos.

Então Deus acrescenta a Sua graça. De qualquer forma, é graça e obras. Quer comecemos com graça, como disse Tomás, e acrescentemos as obras, quer comecemos com obras, como dizem os nominalistas, e acrescentemos a graça, no final acaba sendo quase a mesma coisa. Você vai ser salvo pela graça de Deus. Nada disto é possível sem a graça de Deus, mas você vai ser salvo acrescentando à graça de Deus. Você acrescenta as boas obras sobre as quais a igreja lhe falou e que você pode praticar à medida que procura fazer o que existe dentro de você.”

Leigo: “Eu tenho uma última pergunta. Todo o mundo enxerga as coisas desta forma? Existem outras pessoas que vêem isto de outro modo?”

Padre: “Sim, há alguns que vêem isto de outro modo, mas eles são hereges. Há alguns Valdenses por aí. Eles não concordam totalmente com a igreja neste assunto. E também há aquele herege, John Wycliffe na Inglaterra. Os ossos dele foram desenterrados e queimados por causa do horror da igreja ao ensino dele. O discípulo dele, John Hus da Boêmia, foi queimado vivo no Concílio de Constança em 1415, há apenas alguns anos atrás. Assim, você estará melhor se evitar tudo isso e ficar com o que está claro e o que é certo.”


Embora a maioria das pessoas na Idade Média tentasse ganhar o perdão de Deus através de boas obras, alguns outros, além destes chamados hereges, viram que essa não era a mensagem de salvação como colocada na Bíblia. Um monge cartusiano escreveu: “Salvação não pode ser conseguida através das próprias forças naturais de uma pessoa, mas pelo livre dom de Deus.” Claro que não muito tempo depois, Lutero estaria dizendo isso, Calvino, estaria dizendo isso, e os Reformadores estariam dizendo isso.

Quando eu criei esta conversação imaginária, eu realmente estava tentando me manter dentro do mundo medieval do Catolicismo. Talvez outros de vocês pudessem responder se isto parece ou não Catolicismo moderno. Alguns diriam que soa da mesma forma em muitos aspectos.


Prof. David Calhoun
Covenant Theological Seminary
Tradução: Priscila Bernardi Heyse
Revisão: Juliano Heyse


 

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