Os Dons Permanentes (3)

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Esta é uma série de sermões de John MacArthur sobre dons espirituais e homens especialmente dotados. Veja os links no final deste texto.


DONS ESPIRITUAIS PERMANENTES – PARTE 3 (veja os links dos sermões anteriores no final da página)

1. INTRODUÇÃO

Hoje continuamos em nosso estudo bíblico olhando para os dons espirituais. Como texto base estamos utilizando o capítulo 12 de I Coríntios. Para os nossos amigos visitantes, posso dizer uma palavra para contextualizar um pouco. Estamos estudando a carta de I Coríntios. Tendo chegado ao capítulo 12 e ao versículo 8, começamos a olhar para os dons espirituais e percebemos que eles eram apenas parte de um todo maior.

E então, estamos parando no meio do fluxo da carta para discutir todas as passagens relativas aos dons espirituais. Assim, é realmente uma espécie de estudo teológico no meio de um estudo expositivo do livro. Nós estamos incorporando o versículo 28 do capítulo 12, no qual há menções de dons espirituais, assim como os versículos 8 a 10. Também acrescentamos Efésios 4 e Romanos 12. E assim, em todas essas partes das Escrituras, reunimos a lista dos dons espirituais que o Espírito Santo concedeu à igreja.

Precisamos estudá-los para obter uma compreensão do que eles são e como eles operam. É claro para nós que o Espírito de Deus tem dado dons à igreja, que são capacitações, manifestações, serviços. Todas essas palavras diferentes são usadas para descrever as mesmas realidades. Os dons são capacitações do Espírito Santo que nos permitem ministrar uns aos outros dentro do corpo de Cristo, para que não sejamos meros espectadores, mas que estejamos envolvidos na operação real da igreja que está realizando o ministério como Deus o projetou e o Espírito de Deus o planejou.

E assim, à medida que aprendemos sobre nossos dons, à medida que aprendemos como eles operam, que entendemos como o Espírito de Deus opera através de nós, podemos firmar um maior, mais profundo e mais amplo compromisso para fazer aquilo que Deus nos deu para fazer. Agora, para começar, deixe-me lembrar de Efésios 2:22, que diz isto: “No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito.” Aqui o apóstolo Paulo diz que a igreja coletivamente é uma habitação do Espírito.

Em outras palavras, o Espírito de Deus não apenas habita em cristãos individuais, mas reside na assembléia coletiva dos crentes. O Espírito de Deus habita na igreja como um todo. O Espírito habita em cada crente individual. Então, nós aqui  somos uma assembléia de crentes que se tornaram, em certo sentido, a habitação do Espírito de Deus. Ele vive dentro de nós individualmente e coletivamente ou corporativamente, assim como Ele habita no corpo total de Cristo espalhado pelo mundo.

Isso é repetido em I Coríntios, capítulo 3, como um conceito. I Coríntios 3:16: “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?“. E o sujeito da frase aí está no plural. Vocês coletivamente, vocês no total são o templo de Deus e o Espírito de Deus habita em vocês. E, no final do versículo 17, “…porque o templo de Deus, que sois vós, é santo.” Então, vemos que coletivamente somos o templo do Espírito de Deus.

O Espírito de Deus não habita neste prédio onde estamos agora . É por isso que não o chamamos de santuário. Nós o chamamos de auditório. O santuário é o nome do Santo dos Santos no Antigo Testamento, onde o Espírito de Deus habitava, onde Deus era manifesto, mas hoje em dia o Espírito de Deus habita no cristão individual e nos corpos coletivamente da assembléia corporativa dos crentes. Agora, já que somos uma assembléia de crentes que são a habitação do Espírito, parece óbvio e razoável que o Espírito de Deus deveria estar no controle desta assembleia. Nós estaríamos negando nossa própria identidade se Ele não estiver.

Já que Ele habita em nós, Ele deve manifestar a Sua habitação pelo Seu poder e controle sobre nós. Isso é verdade na vida cristã. Você pode possuir o Espírito Santo e não ser controlado por ele, certo? Isso é carnalidade e a igreja pode ser igualmente carnal. Há assembleias onde o Espírito de Deus habita, porque os cristãos estão lá, mas porque eles manifestam carnalidade, egoísmo e vontade própria, o Espírito de Deus não está no controle.

Esse é exatamente o caso da Igreja dos Coríntios. Eles eram crentes, possuíam o Espírito Santo, eram a habitação do Espírito Santo, mas por causa de sua pecaminosidade e carnalidade, o Espírito de Deus havia sido removido da liderança, Seu poder foi usurpado e eles mesmos estavam no comando da igreja. Eu oro a Deus para que nós sejamos uma igreja onde o Espírito de Deus governe, que sejamos cheios do Espírito, que o Espírito de Deus esteja no controle e que nos capacite.

E quando olho para a igreja, quando olho para esta igreja ou para qualquer outra igreja, há certas maneiras de saber se, de fato, o Espírito de Deus está no controle. Deixe-me dar-lhe oito delas rapidamente. Número um: você pode dizer se o Espírito Santo está no controle de uma igreja por sua unidade. O Espírito é o Espírito da unidade, Efésios 4. E onde há uma unidade amorosa, onde há uma unidade sem individualidade esmagadora, o Espírito de Deus está no controle. Ele mantém a unidade.

Em segundo lugar, você pode dizer se uma igreja está sob o controle do Espírito de Deus por sua comunhão. Sua comunhão será profunda, honesta, íntima, real, abrangente, inclusiva, cuidadosa. Será não-separatista e será uma comunhão não superficial. Em terceiro lugar, você sempre pode conhecer uma igreja onde o Espírito de Deus está no controle por sua adoração. A adoração a Deus se dá realmente, genuinamente, honestamente e é compartilhada por todos. Em outras palavras, essa igreja se reúne para honrar a Deus, para honrar a Cristo e o Espírito Santo. Eles louvarão a Deus, cantarão louvor, viverão louvor, falarão louvor.

Em quarto lugar, você pode dizer se uma igreja é controlada pelo Espírito Santo por seu evangelismo. O Espírito Santo veio nos apontar para Cristo. O Espírito Santo é aquele que proclama Cristo. Em uma igreja onde o Espírito de Deus está no controle, Cristo será proclamado. O evangelismo será espontâneo. Será a prioridade máxima. Será um fluxo natural na vida das pessoas que compõem essa assembléia.

Número cinco: você pode dizer se o Espírito de Deus está no controle de uma igreja por seu amor. Será uma assembléia de pessoas que se preocupam umas com as outras, pessoas controladas pela atitude de altruísmo, onde o amor verdadeiro opera, onde existe  sacrifício recíproco. Em sexto lugar, você pode dizer se uma igreja está debaixo do controle do Espírito de Deus por sua obediência. Será uma igreja que estará caminhando no caminho que a Palavra de Deus prescreve. Será uma igreja onde a obediência espontânea é o padrão da vida. Onde tudo que precisa ser dito é o que a Bíblia diz e a submissão à Palavra é imediata.

Em sétimo lugar, em uma igreja onde o Espírito de Deus controla haverá pessoas que são submetidas ao senhorio de Cristo. Ele as governará e elas amorosamente, alegremente, voluntariamente se submeterão a esse governo. Em oitavo lugar, você pode sempre dizer que uma igreja é cheia do Espírito por haver nela ministérios. Haverá santos ministrando dons espirituais. Não haverá apenas um púlpito profissional, não haverá profissionais contratados, apenas pastores, professores e ministros, mas haverá a massa da comunidade de crentes ministrando seus dons espirituais.

E nós temos ensinado em todas essas áreas, não temos? Ensinamos sobre unidade, sobre comunhão, adoração, evangelismo, amor, obediência, o senhorio de Cristo. Agora estamos ensinando sobre o ministério dos dons. Se o Espírito de Deus está prosperando em Seu controle sobre nós aqui, haverá ministração dos dons e a maneira pela qual ministramos, amados, é por meio da capacitação, da energização do Espírito. Então, você vê como é importante para nós entendermos os dons. É por isso que no capítulo 12 de 1 Coríntios Paulo começa dizendo: “não quero que vocês sejam ignorantes quanto a esse assunto“.

Agora, já vimos que Deus deu à igreja apóstolos, profetas, evangelistas, pastores-mestres e mestres, para o trabalho de realmente instruir os santos em termos de edificá-los até à maturidade, para que possam usar seus dons. Agora, já vimos quais são os dons que os crentes individuais possuem e através dos quais o Espírito Santo ministra. Nós dissemos que há um total de onze dons que são mencionados no Novo Testamento. Onze dons, onze habilitações, onze categorias de ministério.

E você se lembra da nossa ilustração na semana passada? Nós dissemos que aqueles onze dons são como cores na paleta de um artista e o Espírito Santo é como um artista. Ele pega essas onze cores primárias e as mistura em combinações. Do mesmo modo, os dons se apresentam distintos em cada crente. E esse é o significado do verso 11 de I Coríntios 12. O Espírito concede dons a cada homem individualmente, de modo que não há dois cristãos iguais na área de suas capacidades espirituais.

Temos estudado esses dons primários, essas cores primárias na paleta, a fim de obtermos uma compreensão de todas as categorias de ministério, das áreas de ministério. E dissemos que há duas categorias básicas de dons: os dons de falar e os dons de serviço. Lembram-se disso? Os dons de falar: profecia, conhecimento, sabedoria, ensino e exortação. São os dons verbais. Agora estamos olhando para os dons de serviço.

Nós dissemos que há seis dons de serviço mencionados nas duas passagens que estamos olhando, I Coríntios 12 e Romanos 12. O primeiro que mencionamos foi liderança. O segundo é o dom de servir ou ministrar ou de ajudar. O terceiro é o dom de dar. Agora vamos para os últimos três.

2. DONS DE SERVIÇO PERMANENTES (Continuação)

O DOM DA MISERICÓRDIA Romanos 12:8 diz isto no final do versículo 8: “o que exercita misericórdia, com alegria“. Algumas pessoas no corpo de Cristo receberam o dom da misericórdia, mostram misericórdia. Eu diria que este é um dos dons em relação ao qual há um melhor entendimento na igreja. Simplesmente não há tanto desvio doutrinário no que diz respeito a esse dom e como ele funciona. Ele é bonito e eu quero que você o entenda. Então, vou gastar um pouco de tempo explicando esse dom para você.

A palavra misericórdia usada no texto original que estamos vendo é a palavra “eleon”, que significa piedade, misericórdia ou compaixão. E é um termo bonito. É um termo que é típico do caráter de Deus. No Salmo 103, você tem algumas declarações maravilhosas sobre a misericórdia de Deus, ilustrando para nós Seu caráter misericordioso.

Salmo 103, por exemplo, versículo 8: “O Senhor é misericordioso e clemente, vagaroso em irar-se e abundante em misericórdia.” Verso 11: “Pois assim como o céu está elevado acima da terra, assim é grande a sua misericórdia para com os que o temem.”  Verso 13: “Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece daqueles que o temem.

Deus é misericordioso. Deus tem piedade. Deus é compassivo. Deus concede misericórdia, de acordo com Mateus 5. Agora, geralmente, o conceito de misericórdia se confunde com o conceito de graça na Escritura. Falamos sobre a graça de Deus e a misericórdia de Deus e às vezes não as distinguimos. Deixe-me ver se eu posso te dar uma passagem na Escritura que irá ajudá-lo a distinguir a misericórdia da graça. Vou dar uma definição agora e depois vou mostrar como isso funciona.

Aqui está a definição: a graça é estendida aos homens em relação à culpa. Tem a ver com o pecado deles. A misericórdia é estendida aos homens em relação à miséria. Tem a ver com a situação deles. A graça está relacionada com a culpa, a misericórdia está relacionada com a miséria. Graça é Deus cuidando do nosso pecado. Misericórdia é Deus cuidando da miséria em que nos encontramos, nossa situação.

Eu quero ilustrar isso em Provérbios 14:20,21 e 31, mas poderíamos olhar para muitas passagens do Antigo Testamento. Provérbios 14:20: “O pobre é odiado até pelo seu próximo, porém os amigos dos ricos são muitos.” As pessoas pobres têm vida difícil. Mas há muita gente tentando entrar no bolso do homem rico. Pessoas pobres não têm muitos amigos. E continua, verso 21: “O que despreza ao seu próximo peca, mas o que se compadece dos humildes é bem-aventurado.” Ou seja: observe como você trata esse pobre homem.

Misericórdia não está conectada com o pecado, mas com a necessidade. Pessoas necessitadas precisam de misericórdia. E aqui está a introdução do padrão de que a misericórdia está relacionada à miséria. A misericórdia está relacionada a um estado. Veja o versículo 31: “O que oprime o pobre insulta àquele que o criou…“, porque Deus não oprime os pobres. Ele estende a mão para eles. O verso continua:  “…mas o que se compadece do necessitado o honra.” Se você quer honrar a Deus, tenha misericórdia dos pobres.

Agora, a conexão que estou tentando fazer é a seguinte: a misericórdia está ligada a algo que você faz por alguém que é necessitado. Está ligada à miséria e não ao pecado. Agora quero te mostrar outro pensamento sobre isso. Olhe para Oséias, capítulo 4, verso 1: “Ouvi a palavra do SENHOR, vós filhos de Israel, porque o SENHOR tem uma contenda com os habitantes da terra; porque na terra não há verdade, nem benignidade, nem conhecimento de Deus.”

O que aconteceu foi que aquela se tornou uma sociedade terrivelmente opressora, em que todos estavam oprimindo os pobres e ninguém os estava ajudando. E suprir as necessidades de um homem é exercer misericórdia. Esse é o ponto de Oséias. Mas, ao invés de ajudar aos pobres, havia xingamentos, mentiras, assassinatos, roubos, adultérios, e assim por diante. E, no final do livro de Oséias, no terceiro versículo do 14º capítulo, lemos: “Em ti os órfãos acham misericórdia“.

Agora, observe que a misericórdia está conectada com pessoas necessitadas. A misericórdia está ligada aos órfãos. Você entendeu isso? Se você traçar o perfil da misericórdia através do Antigo Testamento, verá que a misericórdia de Deus é relacionada com a miséria do homem. E Deus é misericordioso no sentido que, sem qualquer merecimento de nossa parte, Ele age nos tirando de nossa miséria e atendendo às nossas necessidades.

Então, você diz: “Tudo bem, John, esse é o conceito geral. Como ele se relaciona com o dom de misericórdia? O que é o dom da misericórdia?”.  O dom da misericórdia é a mesma coisa. Agora ouça, o dom da misericórdia é relativo às pessoas que estão necessitadas, pessoas pobres e órfãs, dentre outros. Deixe-me citar uma parábola sobre a misericórdia. Olhe para Lucas 10:30. Jesus está tendo uma conversa com um doutor da lei,  provavelmente também rico, e esse homem pergunta a Jesus: “Quem é o meu próximo?”.

E Jesus disse, verso 30: “Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto.” É a parábola do bom samaritano. Nela o Senhor faz uma acusação realmente forte contra o sacerdócio judaico, pois tanto o sacerdote como o levita não quiseram ajudar aquele homem ferido. “Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão“. Agora, aqui você tem a introdução do conceito de misericórdia ou compaixão e é bonito, porque não há nada aqui para motivar este homem, além da compaixão.

Jesus não estava dizendo que se ele ajudasse aquele pobre judeu espancado, ele iria ser aplaudido no meio dos samaritanos. Na verdade, ele nem sequer ousaria dizer a qualquer samaritano que prestou essa ajuda. Isso porque os samaritanos não tinham como lidar com os judeus e não havia nada além de animosidade entre aqueles dois povos. Aquele samaritano não se tornaria popular entre o seu próprio povo ajudando esse pobre judeu espancado. E, então, ele fez algo que não lhe geraria nenhuma recompensa externa, exceto o alívio que advém por dispensar a compaixão que estava em seu coração.

Essa é a beleza da abnegação da maneira como um dom espiritual opera. “E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre o seu animal, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele. E, partindo no outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que de mais gastares eu to pagarei quando voltar.” (vv. 34-35). O samaritano provavelmente estava com pressa. Não sabemos que tipo de negócios ele tinha em Jericó, mas ele pára e aproveita o dia para tratar de seus negócios e cuidar desse sujeito.

Ele trata suas feridas do melhor jeito que pode, leva-o para uma estalagem, cuida dele, sai no dia seguinte, deixa algumas moedas para o anfitrião e diz: “tudo o que de mais gastares eu to pagarei quando voltar.” Você diz: “Por que ele fez isso? O que ele tinha a ganhar? Por acaso se tratava de um sujeito famoso deitado à beira da estrada?”. Não. Era apenas um ninguém. Não nos é dito nada sobre ele. Por que aquele samaritano fez tudo aquilo? Porque ele tinha compaixão. Em algum lugar no seu coração havia compaixão. Havia misericórdia.

Então, Jesus diz ao doutor da Lei, verso 36: “Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?“. Bem, ele respondeu: “Aquele que teve misericórdia“, verso 37. Jesus disse: “Vai, e faze da mesma maneira.” É o espírito de misericórdia. É dar sem qualquer pensamento de qualquer retorno e dar a alguém que está na miséria.

Então, compreendemos que os alvos da misericórdia são os pobres, os órfãos e os maltratados, os espancados, os deficientes, os rejeitados, os desprezados. Agora, deixe-me dar um passo adiante. Olhe para Mateus 9, e você verá algo muito consistente nos Evangelhos. Mateus 9:27, agora observe isto: “ E, partindo Jesus dali, seguiram-no dois cegos, clamando, e dizendo: Tem compaixão de nós, filho de Davi.

Agora, Jesus está sendo seguido por duas pessoas cegas. Eles dizem: “Filho de Davi, tenha graça em nós”. É isso que eles dizem? O que eles dizem? Tenha misericórdia. Por quê? porque a misericórdia está ligada à miséria. Jesus disse a eles: “Credes vós que eu possa fazer isto? Disseram-lhe eles: Sim, Senhor. Tocou então os olhos deles, dizendo: Seja-vos feito segundo a vossa fé.” (vv. 28-29). Ele teve misericórdia. O que foi alvo da misericórdia? A miséria humana.

Mateus 15:21-22: “E, partindo Jesus dali, foi para as partes de Tiro e de Sidom. E eis que uma mulher cananéia, que saíra daquelas cercanias, clamou, dizendo: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim, que minha filha está miseravelmente endemoninhada”. Aqui está uma senhora cuja miséria é uma filha possuída por demônios e, novamente, há um pedido por misericórdia. Na mentalidade judaica, a misericórdia estava sempre relacionada à miséria, fosse a miséria da pobreza, a miséria de ser um órfão, a miséria de ser espancado e deixado para morrer, a miséria de ser cego, de ter uma filha possuída por um demônio.

O miserável é alguém em sofrimento humano; alguém na miséria. E, claro, é maravilhoso ver o que Jesus fez. Jesus curou as pessoas que estavam nessas misérias, nesses pecados e doenças terríveis e assim por diante. Agora, neste caso, você tem um resultado interessante, versículo 23: “Ele não lhe respondeu nenhuma palavra“. A questão aqui, claro, é relativa a Jesus ter que lidar com os judeus antes de tratar dos gentios. Mais tarde, Ele respondeu:

 24 Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.
 25 Então chegou ela, e adorou-o, dizendo: Senhor, socorre-me!
 26 Ele, porém, respondendo, disse: Não é bom pegar no pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos.
 27 E ela disse: Sim, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus senhores.
 28 Então respondeu Jesus, e disse-lhe: Ó mulher, grande é a tua fé! Seja isso feito para contigo como tu desejas. E desde aquela hora a sua filha ficou sã.

Jesus não podia dar as costas ao apelo dessa persistente gentia, embora seu ministério primário tenha sido focado em Israel. Mas, aqui Ele novamente está mostrando misericórdia. Esse é o ponto principal dessa passagem.

Olhe para o capítulo 17 de Mateus, versos 14-15: “E, quando chegaram à multidão, aproximou-se-lhe um homem, pondo-se de joelhos diante dele, e dizendo: Senhor, tem misericórdia de meu filho, que é lunático e sofre muito; pois muitas vezes cai no fogo, e muitas vezes na água”. Novamente, a miséria humana de um pai com uma criança epiléptica.

Vamos para Mateus 20:29-30: “E, saindo eles de Jericó, seguiu-o grande multidão. E eis que dois cegos, assentados junto do caminho, ouvindo que Jesus passava, clamaram, dizendo: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós!”. E, novamente, no versículo 31: “E a multidão os repreendia, para que se calassem; eles, porém, cada vez clamavam mais, dizendo: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós!”. E Jesus os tocou e abriu-lhes os olhos. Ele teve compaixão. Ele teve misericórdia. O versículo 34 diz: “Então Jesus, movido de íntima compaixão, tocou-lhes nos olhos, e logo seus olhos viram; e eles o seguiram.

Mais e mais exemplos nos Evangelhos. Confira Marcos 10:46 e Lucas 17:11. Você vai encontrar a mesma coisa: a misericórdia conectada com a miséria humana. Agora, vamos dar um passo adiante em Atos 9. Aqui encontramos uma moça muito adorável e quando a encontramos ela está morta, mas ela não ficará morta por muito tempo. Ela tem um “ministério de morte”, literalmente falando.  Pedro a ressuscita dos mortos, coisa que não podemos fazer. Vejamos o versículo 36 de Atos 9: “E havia em Jope uma discípula chamada Tabita, que traduzido se diz Dorcas. Esta estava cheia de boas obras e esmolas que fazia.Dorcas significa gazela.

Essa mulher estava cheia de boas obras, ou seja de bondade, caridade, benevolência.  A palavra traduzida como “boas obras” aqui é interessante. Alguns de vocês conhecem a palavra na língua inglesa, “eleemosynary”, que é é usada para se referir a uma organização sem fins lucrativos, uma organização de caridade. Doa mais do que recebe. A palavra, em inglês, vem do grego “eleemosunein”, que deriva da palavra “eleon”, que significa “misericórdia”. Assim, este versículo seria bem traduzido assim: Dorcas “estava cheia de boas obras e ações de misericórdia”.

Dorcas era uma senhora com o dom da misericórdia. O que descobrimos sobre suas ações de misericórdia? Bem, aconteceu naqueles dias que ela estava doente e morreu e eles a lavaram e a puseram em um quarto superior e deixaram seu corpo lá por um tempo e a história continua, verso 39: “E, levantando-se Pedro, foi com eles; e quando chegou o levaram ao quarto alto, e todas as viúvas o rodearam, chorando e mostrando as túnicas e roupas que Dorcas fizera quando estava com elas.

Um monte de senhoras viúvas estava chorando. E você sabe o que elas estavam fazendo? Estavam mostrando os casacos e roupas que Dorcas tinha feito enquanto estava viva. Você sabe o que é o dom da misericórdia? O dom da misericórdia é combater a miséria dos órfãos, dos pobres, doentes, maltratados, das viúvas, mesmo que seja fazendo casacos ou cobertores para eles. Esse é o dom da misericórdia. É fazer tudo o que precisa ser feito para demonstrar compaixão a alguém na miséria.

E, claro, Pedro se ajoelhou, orou e disse: “Tabita, levanta-te. E ela abriu os olhos, e, vendo a Pedro, assentou-se” (v. 41). Esse é o dom da misericórdia. Diz respeito à compaixão do coração. A ênfase do dom da misericórdia não está na doação. Esse é um dom diferente do dom de dar. Frequentemente esses dois dons vêm em combinação, mas a ênfase do dom da misericórdia está na compaixão do coração envolvido. É como diz I Corintios 12:26: “Quando um membro do corpo sofre, todos os membros sofrem“.

É o dom da misericórdia. É a capacitação para simpatizar com a pessoa que sofre, para acompanhar os pobres, os doentes e os destituídos, os órfãos e viúvos. E eu acrescentaria até mesmo ministrar para aqueles que estão na prisão. E talvez possa ser que você não lhes dê nada, além do seu coração.

O Dr. Criswell conta a bela história de uma menininha que chegou da escola e disse: “Mamãe, minha melhor amiga veio à escola hoje e disse que sua mãe morreu”. A mãe disse a sua filhinha: “Bem, o que você disse a ela, querida ?”. A criança respondeu: “Oh, eu não disse nada, mãe, eu simplesmente fui até a mesa dela, sentei-me ao lado dela e chorei com ela”. E talvez esse seja o dom da misericórdia. Ter simpatia pelo sofrimento alheio.

E você sabe o que diz em Romanos 12:8?  Os que exercem misericórdia devem fazê-lo com alegria. E a palavra grega traduzida como alegria ai é “hilaraus”, de onde vem a nossa palavra ilário, uma alegria divertida. É a alegria sentida por aquele que oferece simpatia ao sofredor. Isso é misericórdia. Muito importante. Alguns de vocês são talentosos nessa área. Eu sei disso. O Espírito de Deus deu a você essas áreas de ministério, e você está envolvido com a visitação hospitalar, ministérios de convalescença, pessoas presas, pobres e necessitados.

Eu vejo senhoras aqui fazendo colchas e vejo pessoas indo para casas de convalescentes e às vezes eu vou ao hospital para visitar alguém e eles me dizem: “Olhe, já estiveram aqui muitas pessoas daquela igreja Grace Community, e você, quem é?”. Fui visitar George Berry e eles me perguntaram: “Quem é você?” E eu disse: “Bem, eu sou o pastor”. Eles disseram: “Ah, já ouvimos isso cinco vezes…”. Algumas pessoas têm esse ministério. Deus os abençoe por isso.

DOM DA FÉ – I Coríntios 12: 9 menciona o dom da fé. Você diz: “O que é o dom da fé?” Bem, obviamente, é uma capacidade sobrenatural para crer em Deus. Alguém para quem os obstáculos são apenas desafios. Alguém que acredita além do que é visível. Nos primeiros anos da igreja, no primeiro século, o dom da fé estava conectado com o dom de operar milagres, e estava conectado com milagres muito surpreendentes, mas em nossos dias o dom da fé está conectado com a oração e com a resposta de Deus à oração, quando O vemos trabalhar hoje.

O dom da fé não se trata da fé que recebemos para sermos salvos. Todos nós, que fomos salvos, recebemos essa dádiva. Também não se refere à fé que todos temos para vivermos como cristãos. Mas trata-se de um dom especial limitado a certos cristãos. Tem a ver com uma capacidade intensiva de confiar em Deus, uma capacidade incomum de crer em Deus diante de uma tempestade, diante de enormes obstáculos. Jesus identificou o dom da fé em Mateus 17:20, quando disse: “se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e há de passar; e nada vos será impossível.

E Paulo reitera, em I Coríntios 13: 2, e diz: “e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.” O dom da fé é aquele que pode lançar mão da promessa de Deus. Em Mateus 21, Jesus diz: “Em verdade vos digo que, se tiverdes fé e não duvidardes, não só fareis o que foi feito à figueira, mas até se a este monte disserdes: Ergue-te, e precipita-te no mar, assim será feito“. A fé ativa Deus. Há muitas partes do Novo Testamento que dizem que a fé ativa Deus, ou seja, põe Deus em ação.

Você diz: “Mas eu nem sempre tenho muita fé”. Sim,  mas você agradeça a Deus por existirem pessoas que têm essa fé. Há certas pessoas que quando eu tenho uma necessidade, eu quero que elas saibam sobre isso, porque elas têm a fé para ativar o poder de Deus. Deixe-me dar uma ilustração disso. Em Atos 27, houve uma tempestade enquanto Paulo estava num navio. Eles estavam tentando chegar a Roma, tendo um monte de problemas, o navio estava caindo aos pedaços. A tempestade era violentíssima e o navio estava sendo rasgado.

Aqueles homens estavam temendo ser esmagados. Eles perderam o controle do navio, que estava sendo conduzido agora pelas forças da natureza no meio da tempestade. Paulo aparece no versículo 21, no meio desta tempestade horrível que iria destruir todos eles, pois não havia maneira de navegar, o navio estava apenas sendo movido pela tempestade. Paulo levantou-se e disse: “Teria sido, na verdade, razoável, ó senhores, ter-me ouvido a mim e não partir de Creta, e assim evitariam este incômodo e esta perda.

E segue no verso 22: “Mas agora vos admoesto a que tenhais bom ânimo, porque não se perderá a vida de nenhum de vós, mas somente o navio.” Oh, isso é uma notícia maravilhosa! ‘O navio afunda e nós caminhamos para Roma, certo?’ De onde você tira essa confiança no meio da tempestade? Versos 23 a 25 respondem:

23 Porque esta mesma noite o anjo de Deus, de quem eu sou, e a quem sirvo, esteve comigo,
24 Dizendo: Paulo, não temas; importa que sejas apresentado a César, e eis que Deus te deu todos quantos navegam contigo.
25 Portanto, ó senhores, tende bom ânimo; porque creio em Deus, que há de acontecer assim como a mim me foi dito.

Conheço alguns cristãos que estariam no fundo do navio em pânico. Mas, havia um Paulo no convés animando a todos no meio de uma tempestade gigantesca, a mais severa tempestade que atinge o Mediterrâneo. Mas, Paulo está dizendo “porque creio em Deus…“.Isso não é bom? Estou feliz por existirem pessoas assim. Isso é uma fé especial. Agora, ouça, é esse tipo de fé que apóia a todos nós, que nos cinge, porque todos os dons edificam o Corpo. É o poder de se apossar das promessas de Deus para o benefício de todos.

Quando você chega ao capítulo 11 de Hebreus, verá os heróis da fé, como Abel, Noé, Abraão, Moisés, Josué e Davi. Cada vez que você lê sobre esses homens verá que a fé deles está fortalecendo alguém. É na fé deles que algo maravilhoso acontece com outra pessoa. Na história da igreja, houve milhares de santos que criam em Deus diante do terrível medo e até da morte, que fortaleciam os demais. Há pessoas hoje com esse dom, que não vêem nenhum obstáculo, que apenas creem em Deus de modo incrível. Isso é excitante.

Hudson Taylor acreditava que Deus poderia ganhar o povo chinês de sua época. Sem dinheiro, sem qualquer apoio, recusando-se a pedir um centavo, ele fundou a Missão no Interior da China e é responsável pela maior obra missionária da história daquela nação. George Mueller fez o mesmo. Houve missionários que foram e reivindicaram tribos, pessoas e nações para Deus. Houve evangelistas que reivindicaram uma cidade inteira, um condado inteiro, um país inteiro para Deus. E isso já aconteceu, em resposta à fé. E a história da fé dessas pessoas é excitante para nós, que não temos esse tipo de fé, pois essa fé nos impacta profundamente.

Quando cheguei à esta igreja, eu era uma daquelas pessoas que não tinham muita fé. Eu imaginei que se o Senhor fosse bom nós poderíamos construir o prédio desta igreja para 7 ou 8 centenas de pessoas e talvez mil, na graça de Deus. Mas, havia algumas pessoas que estavam muito além de mim em sua fé e eu apenas subo nesse trem com elas. Sua fé é o motor. Eu estou apenas em um dos vagões e agradeço a Deus pelo que Ele fez em todas as nossas vidas, porque algumas pessoas ativaram o Seu poder, porque eles tinham fé além dos obstáculos.

Nós conversamos sobre a construção desse prédio. Nós dissemos: “Bem, precisamos obter um milhão e meio de dólares em dinheiro”, e na época tínhamos cerca de sessenta mil e alguém dizia: “Isso é muito, como vamos conseguir tudo isso?”. Mas, houve alguns que disseram: “Mas isso não é problema. Deus vai fazer isto. Nós cremos que Ele fará isto”, e aqui estamos nós hoje e, por causa da fé daqueles, Deus se moveu em resposta e todos nós fomos edificados e abençoados. E eu posso crer e descansar em Deus hoje mais do que eu já fiz no passado, porque testemunhei a resposta do Senhor à fé de outros que creram.

Se você tem o dom da fé, use-o. Passe  tempo de joelhos. Gaste tempo crendo em Deus e fale sobre o que você crê a outras pessoas, para incentivá-las a ver o que Deus faz em resposta.

■ DOM DE DISCERNIMENTO OU DISCERNIMENTO DE ESPÍRITOS – O verso 10 de I Coríntios 12 acrescenta à lista dos dons de serviço –  liderança, serviço, doação, misericórdia, fé – o dom de discernir espíritos. Agora, este é um dom muito controverso e eu nem vou tentar me envolver em toda a controvérsia sobre isso, mas apenas vou apresentar a você o que pode ser uma visão válida no entendimento do que é este dom.

A raiz da palavra traduzida como “discernir” –  “diacrenomeans” – significa “julgar através de”, ou “ver, através de algo, a verdade que está lá” ou “avaliar verdadeiramente alguma coisa”. Assim, discernir espíritos é simplesmente avaliar o espírito, se é Deus agindo ou se é um espírito diferente do Espírito Santo.

Agora, na igreja primitiva, fica muito claro como esse dom se manifestava. Este dom era o “cão de guarda” da igreja. Ele era a patrulha. Era o guarda, o sentinela da igreja. Nos primeiros anos da igreja, quando a Bíblia não havia sido escrita, o Novo Testamento não tinha sido escrito, as pessoas poderiam dizer “Deus diz isto e eu sou um profeta de Deus e falo pelo Espírito Santo”. Só que era difícil saber se isso realmente procedia de Deus ou não, pois eles não tinham a Bíblia como nós temos e, assim, não tinham como conferir se tais pessoas de fato falavam da parte de Deus.

Assim, houve algumas pessoas a quem o Espírito de Deus deu uma habilidade sobrenatural para que eles pudessem afirmar quem era verdadeiro e quem era um falso profeta.  Esse é o dom de discernir os espíritos. Através desse dom, aqueles irmãos poderiam atestar se quem falava era da parte do Espírito de Deus ou de um espírito demoníaco enviado por Satanás.

Agora, é triste dizer que na igreja de Corinto as pessoas que tinham esse dom ou não o usavam ou quando o usavam eram ignoradas pelo resto, de modo que, como vimos em I Coríntios 12:3, alguém realmente se levantou na assembléia e amaldiçoou Jesus e os demais concordaram que isso vinha do Espírito Santo. Bem, alguém com o dom de discernimento deveria ter se levantado e dito: “Isso não é o Espírito de Deus falando!”. Era o que eles deveriam ter escutado. Foi principalmente para esse fim que o dom deveria ser usado.

Em 1 Coríntios 14:29, Paulo chama os coríntios para usar o dom de discernimento de espíritos, quando diz: “E falem dois ou três profetas, e os outros julguem.” Em outras palavras, deixe-os discernir, verificar o que está sendo dito. Isso é muito importante para a proteção da igreja. Há uma boa ilustração disso em Atos 16. Havia uma moça caminhando e Paulo está caminhando com Silas e esta moça jovem aparece e diz: “Estes homens, que nos anunciam o caminho da salvação, são servos do Deus Altíssimo” (v. 17).

Qualquer um diria: “Ótimo! Que declaração!”. Porém, de repente Paulo se vira, verso 18, e diz: “Em nome de Jesus Cristo, te mando que saias dela. E na mesma hora saiu.” Você sabe o que Paulo sabia? Ele sabia que não era o Espírito Santo agindo naquela moça. Paulo sabia que era um espírito demoníaco e ele o expulsou. Como ele sabia? Não pelo que o espírito disse, mas porque Deus lhe dera o discernimento para discerni-lo. O dom de discernimento naqueles dias era reconhecer a falsificação satânica e denunciá-la.

Agora, alguns argumentam que isso não precisa mais ser feito, porque você pode sempre reconhecer uma falsificação comparando a pessoa com a Escritura, certo? E assim, não há mais necessidade do dom de discernimento. Mas, eu prefiro pensar que é difícil concluir dessa forma, uma vez que você não pode encontrar em nenhum lugar na Escritura a afirmação de que o dom do discernimento cessou. Não existe certamente nenhuma afirmação como essa.

Creio que é mais coerente com as Escrituras nós concluirmos que o exercício desse dom muda  conforme a história da igreja flui. De modo que ele vai se manifestar de modo adequado a cada período. Eu creio que hoje é tão importante proteger a igreja da doutrina impura quanto sempre o foi e, talvez apenas o estilo de operação deste dom seja diferente.

Ao estudar um pouco a história da igreja, para ver se o dom de discernimento de espíritos sempre operou no passado, eu voltei ao período do início da igreja, dos pais da igreja, depois que o Novo Testamento foi feito. Nessa época surgiu um movimento conhecido como Montanismo. E esse foi um movimento desastroso, francamente, pois  afirmava ser a única voz do Espírito Santo e isso era muito anti-bíblico. Um dos historiadores disse o seguinte:.

Todo o movimento Montanista foi rejeitado por causa do exercício do dom de discernimento por parte de algumas pessoas. Eles reconheceram que sua principal porta-voz, Maxmilla, estava falando com um espírito diferente do Espírito Santo e por esse reconhecimento negou-se a credibilidade de todo o movimento Montanista, que foi tratado como uma heresia, graças a Deus.”

Assim, Deus protegeu a igreja dessa heresia naqueles primeiros anos através de alguns que tinham o dom do discernimento. Eu me lembro de estar em uma reunião de oração, bem aqui, e numa certa ocasião aconteceu que uma garota entrou e começou a falar e orar. E um dos irmãos a interrompeu, afirmando que o espírito que agia nela não era o Espírito Santo. Esse é o dom de discernimento em ação.

O dom de discernimento é aquele que supervisiona a autenticidade dos outros dons. A. Robertson diz: “Esse dom é concedido para dizer se os dons são realmente do Espírito Santo e sobrenaturais ou meramente naturais ou mesmo diabólicos“. Pedro o exercitou em Atos 5, quando Ananias e Safira vieram e supostamente estavam adorando a Deus e Pedro disse: “por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo?“. Como Pedro sabia disso? Ele tinha o dom de discernimento.

O cristão que possui esse dom pode intuitivamente identificar a verdade a partir do erro, identificar a hipocrisia, a genuinidade e os falsos profetas, que estão em toda parte hoje.  Creio que há algumas pessoas que são dotadas por Deus para desmascarar falsos profetas.  Alguns deles o fazem escrevendo livros. Penso que algumas dessas pessoas que fizeram um bom trabalho escrevendo sobre as seitas e ocultismo no meio cristão podem estar exercendo o dom do discernimento, a capacidade de ver através de algo até o âmago de sua hipocrisia.

Este dom pode ser exercido de várias maneiras. Deixe-me apenas compartilhar o que possivelmente poderia ser o uso dele hoje. Poderia ser usado para revelar a ação demoníaca em qualquer forma. Pode ser usado para revelar falsos profetas e falsas experiências espirituais. Vocês sabem que eu tenho um amigo muito querido que tem esse dom – e essa é uma das coisas mais convincentes para mim de que o dom de discernimento de espíritos ainda existe, pois eu o vejo operar através da vida dessa pessoa.

Essa pessoa, da qual estou falando, pode identificar uma falsificação de uma experiência espiritual sem cometer qualquer engano. Ela percebe que algo está errado na vida de certa pessoa. Eu não sei o que é, mas algo está errado. E isso é para a proteção do Corpo. Às vezes alguém me diz: “É melhor você não colocar essa pessoa em tal posição. É melhor você não ter essa pessoa agindo ou influenciando a igreja, porque algo não está certo com ela”. Isto é proteção para a igreja.

O dom pode discernir alguém em quem o Espírito Santo está genuinamente trabalhando. A mesma pessoa costuma dizer para mim: “Você sabe, tal pessoa realmente é energizada pelo Espírito de Deus. Eu posso ver isso”. Mas, talvez o dom de discernimento possa ser usado também quando você tem dois cristãos discutindo e, em vez de irem a um tribunal pagão, eles são trazidos diante de algumas pessoas para exercerem um julgamento, como está dito em I Coríntios 6:5.

E, se aqueles irmãos argumentam cada um a seu próprio favor, alguém com o dom de discernimento poderá definir quem está certo e quem não está na questão. Aqueles que possuem esse dom são os vigias da igreja. E eu não tenho nenhum motivo para acreditar que esse dom se extinguiu.

Eu tenho razão sim para acreditar que talvez o ministério dele esteja alterado em relação ao que era no primeiro século da igreja. Agora, quero alertá-lo sobre algo: este dom pode facilmente se corromper em condenação crítica e orgulhosa. Pode facilmente ser deteriorado em um espírito de julgamento, quando operado na carne.

3. CONCLUSÃO

Assim, vimos seis categorias de dons: liderança, na supervisão dos santos; serviço, no apoio aos líderes; dar, no suprimento de necessidades; misericórdia, na empatia prática para com os doentes, os pobres e os destituídos; , para assegurar o poder de Deus; discernimento, na proteção dos santos contra a falsificação. Todas essas dimensões se somam aos dons de falar para fazerem a igreja amadurecer em Cristo.

Assim, vemos as cores primárias, onze delas na paleta do Espírito, enquanto Ele pinta o retrato na tela da igreja. E é uma bela combinação projetada para revelar a Cristo, que só funciona quando você é fiel em ministrar os dons que recebeu. Vamos orar.

Pai, obrigado por nos ajudar novamente esta manhã para entendermos Tua revelação. Nós bendizemos o Teu nome por nos dar uma parte neste ministério, deixando-nos compartilhar dessa dádiva. Ajude-nos a sermos fiéis, Senhor. Há tantas pessoas às quais o Senhor deu o dom e elas simplesmente não o usam, seja por carnalidade, preguiça, ignorância, ou por causa das falsificações. Senhor, tire tudo isso do caminho e nos leve a ministrarmos os dons. Que se diga de nós que o Espírito Santo opera nesta igreja porque há unidade, comunhão, adoração e evangelismo, porque há obediência, porque há submissão ao senhorio de Cristo, porque há amor e porque essas pessoas ministram a cada umas às outras com seus dons. Que esse testemunho seja nosso testemunho. Isso só pode ser uma realidade coletivamente quando cada um de nós é fiel. Em nome de Jesus, para fazer o que Ele nos deu para fazermos. Essa é nossa oração. Amém.


Esta é uma série de sermões sobre os dons do Espírito Santo e homens especialmente dotados, conforme links abaixo:


Este texto é uma síntese do sermão “The Permanent Edifying Gifts, Part 3”, de John MacArthur em 11/07/1976.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/library/sermons-library/1855

Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno


 

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