O Plano de Deus e Israel (4)

Imprimir

Este é o quarto de uma série de 4 sermões sobre Romanos 9 (veja links abaixo). John MacArthur mostra como as Escrituras Sagradas deixa muito clara a total compatibilidade do Plano Eterno de Deus com a incredulidade de Israel.

1. INTRODUÇÃO

Voltamos hoje para Romanos 9. Vamos examinar os versículos 25 a 33, a parte final este grande capítulo. Nas últimas 3 vezes estivemos olhando para os versículos de 1 a 32 do capítulo 9. Estamos respondendo a uma questão importante, o tema deste capítulo: A incredulidade de Israel é inconsistente com o plano de Deus? Aqui nos é apresentada a soberania de Deus, mesmo na incredulidade de Israel.

Agora, para começar, deixe-me fazer uma pergunta. Qual é o maior obstáculo para a salvação? Qual a mais dura servidão que mantém o homem rejeitando a verdade? Alguns podem dizer que é a religião, ou a imoralidade, ou a maldade, ou o pecado etc. Mas eu quero que você pense sobre isso. Qual é o maior obstáculo para a salvação? Vamos ver em nosso texto um pouco mais adiante a resposta para esta pergunta.

Lembro-lhes que, em Romanos 9 a 11, o Espírito Santo está nos dando uma visão do lugar de Israel no plano de Deus. A nação de Israel tem um lugar único no plano de Deus. O Antigo Testamento nos diz que Deus separou a nação de Israel como Seu povo único, deu-lhes alianças e promessas, derramou bênçãos sobre eles. E agora, na apresentação do evangelho de Jesus Cristo, Israel o rejeitou. Eles rejeitaram o Messias e a proclamação do evangelho pelos apóstolos.

Uma questão vem à mente de muitos: Como o Evangelho pode ser verdadeiro, se o povo escolhido de Deus, os judeus, não creem nele e o rejeitam? Esta é a razão pela qual Paulo escreve os capítulos 9 a 11. E está essencialmente ligado à doutrina da justificação pela graça através da fé na pessoa e na obra de Jesus Cristo. Ele quer que as pessoas creiam que a salvação vem através de Jesus Cristo. Os judeus dizem que não. Como o evangelho pode ser verdade, se o povo de Deus o rejeita? Essa é a questão.

E assim, ouça com muito cuidado o que eu digo agora, isso é muito importante. Romanos 9 a 11 torna-se, em certo sentido, uma apologética do evangelho, ou seja, uma defesa do evangelho.E assim, a incredulidade de Israel deve ser analisada. E é no capítulo 9. Nos versículos 6 ao 33 de Romanos 9, Paulo está dizendo que, porque Israel não crê, não significa que Deus tenha violado Sua promessa (versículos 6 a 13), não significa que Deus tenha violado Sua integridade pessoal (versículos 14 a 24), não significa que Deus violou a palavra de Seus profetas (versículos 25 a 29), e certamente não significa que Deus violou Seu pré-requisito (versos 30 a 33).

1.1 REVISÃO DOS SERMÕES ANTERIORES

Vamos revisar brevemente os sermões anteriores. Primeiro de tudo vimos na primeira parte do capítulo 9, os primeiros versos, que Israel está na incredulidade. Não há dúvidas sobre isso. Nos três primeiros versos, Paulo demonstra sua tristeza pela situação espiritual de seu povo, que rejeitou o Messias. Nos versos 2-3, ele diz: “tenho grande tristeza e contínua dor no meu coração… poderia desejar ser anátema de Cristo, por amor de meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne”. Então, antes de tudo, ele afirma que a perdição de Israel é um fato, uma realidade.

E, em segundo lugar, Paulo afirma que eles realmente são o povo de Deus. No verso 4, ele diz que dos Israelitas são a “adoção de filhos, e a glória, e as alianças, e a lei, e o culto, e as promessas”. Então, ele afirma duas coisas: eles são o povo de Deus e eles estão mergulhados na incredulidade.

E é exatamente isso que um questionador vai perguntar. Como o evangelho pode ser verdade, quando o povo de Deus, que recebeu todas estas coisas de Deus, não acredita nele? Paulo afirma que eles são, de fato, povo de Deus e que não creem. Mas, a incredulidade de Israel não viola a promessa de Deus, a pessoa de Deus, o plano de Deus ou o pré-requisito de Deus. E esse é o fluxo deste capítulo. E eu penso francamente que por anos e anos isso tem sido difícil de entender. E eu penso que essa perspectiva nos ajuda a perceber que os capítulos 9 a 11 de Romanos não são um parêntese acidental deixado no meio de uma discussão sobre a salvação, mas trata-se de uma defesa do evangelho.

Agora, em segundo lugar, nos versos 6 a 13, Paulo apontou que a incredulidade de Israel não viola a promessa de Deus. E a maneira como ele faz isso é mostrando que a promessa de Deus era apenas parcial. E ele usa Isaque e Jacó como ilustrações. A propósito, ele usa duas partes das Escrituras para enfatizar seu argumento. E isso é muito importante, porque toda verdade teológica nos leva de volta à Palavra de Deus, não é? E ele prova seu argumento pelas Escrituras.

A terceiro lugar, versículos 14 a 24, que concluímos da última vez, demonstra que a incredulidade de Israel não viola a pessoa de Deus, Seu caráter santo. Paulo trata do assunto nos versos 14 a 24, mostrando que Deus não é injusto em ser seletivo, ao escolher as pessoas para a salvação, porque é assim que Ele se revelou ser. Ele é um Deus de seleção. E aí Paulo usa duas passagens das Escrituras novamente, a saber, Êxodo 33:19 – sobre Moisés – e Êxodo 9:16 – sobre Faraó. E seu ponto novamente é retirado da Escritura.

Ele é Deus. Ele escolheu alguns para a salvação. Sua glória se manifesta na salvação e se manifesta no juízo. Se não houvesse ninguém para julgar, então não haveria maneira de Deus revelar a glória de Seu julgamento ou a glória de Sua ira ou a glória de Seu santo ódio ao pecado. Portanto, ele tem o direito de demonstrar tanto a misericórdia quanto a justiça santa. Ele tem o direito de mostrar Sua graça, Ele tem o direito de mostrar Sua ira. E, novamente, você se lembra, Paulo usou as Escrituras para provar isso: Isaías 45:9 e Jeremias 18.

Mesmo quando Deus deu Sua promessa a Israel, Ele nunca pretendeu que todo Israel, todos descendentes dos lombos de Abraão fossem salvos. Ele foi seletivo. E isso não viola a Sua pessoa. Ele é revelado como um Deus seletivo. No caso de Moisés, Deus disse: “terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (Romanos 9:15) e no caso de Faraó, Paulo diz que Deus “endurece a quem quer” (Romanos 9:18). E assim, Deus não está de forma alguma violando Sua promessa ou Sua pessoa. Deus não pode ser acusado de ser injusto, porque a justiça mandaria todos nós para o inferno. É só a misericórdia que nos salva. Não temos o direito de pedir a salvação, não merecemos isso. É tudo a graça de Deus.

Esta doutrina da soberania seletiva e eletiva de Deus é difícil para o ser humano. Uma senhora judia disse: “Se eu crer que Jesus foi é o Messias, estarei afirmando que todo restante de manha família está condenada. Eu não posso lidar com isso”. E assim muitos indagam: “Como um Deus amoroso pode condenar meus pais? Como um Deus amoroso pode condenar meus parentes e meus amigos?”. E através de muitas perguntas como estas a justiça de Deus é questionada.

Samuel amava Saul. Quando Saul pecou, Samuel “se contristou, e toda a noite clamou ao Senhor” (I Samuel 15:11). E tanta foi a sua tristeza, que Deus o repreendeu: “Até quando terás pena de Saul, havendo-o eu rejeitado” (I Samuel 16:1). E tendo Samuel morrido, Saul tentou consultá-lo dos mortos. Por Sua soberania e poder, Deus o fez voltar para falar com Saul. Mas, Samuel estava munido de um amor perfeito, e não emocional, por estar na presença de Deus. E diz a Saul os juízos de Deus contra ele e Israel (I Samuel 28:15-19). E então, a Palavra diz que “de súbito, caiu Saul estendido por terra e foi tomado de grande medo por causa das palavras de Samuel” (I Samuel 28:20).

Você entende isso? Quanto mais nos aproximamos de Deus, quanto mais intimamente nos relacionamos com Ele, mais perfeito Deus Se mostra ser e menos apegados ficamos com os apegos e conceitos emocionais deste mundo. Isso não significa que somos totalmente insensíveis, que não amamos homens, mas significa que amamos a Deus tão supremamente que a afronta que o pecado representa à Sua santidade é uma preocupação muito maior para nós do que a perda de uma pessoa. Quanto mais nos aproximamos de Deus, quanto mais O amamos e adoramos, menos poderemos tolerar aqueles que não O adoram.

2. A INCREDULIDADE DE ISRAEL NÃO VIOLA O PLANO DE DEUS (ROMANOS 9:25-29)

2.1 Paulo cita o profeta Oseias (Romanos 9:25-26)

Vamos para o terceiro ponto. Isso também é uma visão maravilhosa. A incredulidade dos judeus não viola o plano de Deus. Alguns vão dizer:

Bem, Deus tinha um plano eterno para Israel. Deus prometeu que Israel seria como a areia do mar e que entraria em bênção e prosperidade. Deus prometeu a Israel um reino. Deus lhes prometeu vida. Mas, se agora Israel está em incredulidade, isso não viola o plano de Deus? O judeu vai dizer que não posso pregar o evangelho porque ele viola o plano de Deus e desmente todos os profetas do Antigo Testamento que previram um reino de bênçãos.

É assim mesmo? Bem, vamos dar uma olhada nos versículos 25 a 29 de Romanos 9 e descobrir. Aqui Paulo usa dois profetas do Antigo Testamento, Oseias e Isaías, para desmentir essa afirmação e mostrar que a incredulidade de Israel não viola o plano de Deus. Vamos começar com os versos 25-26, quando ele cita Oseias.

25 Assim como também diz em Oseias: Chamarei povo meu ao que não era meu povo; e amada, à que não era amada;
26 e no lugar em que se lhes disse: Vós não sois meu povo, ali mesmo serão chamados filhos do Deus vivo.

Veja agora o que diz Oseias 2:23, a quem Paulo fez referência aqui:

E semeá-la-ei para mim na terra, e compadecer-me-ei dela que não obteve misericórdia; e eu direi àquele que não era meu povo: Tu és meu povo; e ele dirá: Tu és meu Deus!

Paulo não fez uma citação direta, mas substituiu palavras mantendo a ideia central das palavras do profeta. Oseias era um homem muito misericordioso e gracioso. O Senhor havia dito a ele: “Vai, toma uma mulher de prostituições, e filhos de prostituição; porque a terra certamente se prostitui, desviando-se do Senhor” (Oseias 1:2). Oseias viveu uma parábola, do mesmo modo que sua esposa era uma prostituta, Israel era uma prostituta contra seu marido, Deus. E sua vida é uma parábola viva da relação entre Deus e Israel.

Seu primeiro filho com a prostituta foi chamado de Jizreel (Oséias 1:4), nome que significa “dispersos”. Na sequência, ele teve uma filha, cujo nome era Lo-Ruama (1:6), nome que significa: “não tenho piedade desta criança”. Depois ele teve outro filho, cujo nome era Lo-ami (1:9), nome que significa “não sois meu povo, e eu não serei o seu Deus”.

Então, aqui está Oseias, ele se casa com uma mulher, ela se torna uma prostituta. Ela dá a ele três filhos, um chamado “disperso”, a outra chamada “sem piedade” e o outro chamado “não sois meu povo”. Agora, a que esses nomes fazem referência? À atitude de Deus para com Israel adúltero. Os filhos de Israel adúlteros são dispersos, Deus não usa de piedade e não os considera Seu povo. Então, Israel não era mais o povo de Deus. O relacionamento foi cortado. E Oseias 2:23 simplesmente aponta isso.

Mas, ouça-me. Em Oseias 2, está registrado que Deus os trará de volta. Há uma bela gravura que começa no verso 14: “Portanto, eis que eu a atrairei, e a levarei para o deserto, e lhe falarei ao coração”. No versículo 19: “desposar-te-ei comigo para sempre; desposar-te-ei comigo em justiça, e em juízo, e em benignidade, e em misericórdias”. E assim por diante.

Oseias diz isso, que Israel vai deixar de ser o povo de Deus, mas algum dia será trazido de volta a ser o povo de Deus. É o que está dizendo. Agora ouça com muito cuidado. O profeta estava se referindo à rejeição de Israel e à restauração. E ele realmente viveu para ver isso. Ele viveu para ver o reino do norte devastado pelos assírios. O povo de Israel tornou-se, em um sentido muito real, um povo que não era de Deus.

E apesar de toda devastação que Israel sofreu, Deus os trouxe de volta à sua terra, devolveu seu templo, sua nação e sua identidade. Então, em Romanos 9:25 Paulo diz: “Chamarei povo meu ao que não era meu povo; e amada, à que não era amada”. Paulo está falando sobre Israel. É de quem Oseias está falando.

Você diz: “Por que isso é importante?” Ouça com atenção. É importante porque isso significa que os profetas de antigamente viram que Israel entraria em descrença. Quando Oseias escreveu, sua profecia teve um cumprimento histórico imediato. Israel foi separado de Deus e levado em cativeiro. Deus trouxe de volta o reino do sul e um remanescente do reino do norte. Assim, a profecia foi historicamente cumprida na restauração após o cativeiro babilônico. Mas, esse foi apenas o primeiro cumprimento histórico.

Havia ainda uma perspectiva profética futura. E Paulo aqui a identifica com a incredulidade dos judeus durante o tempo de Cristo. Paulo está querendo dizer que o fato da descrença de Israel não é uma surpresa, porque Oseias disse que Israel agiria assim. Oseias viu isso no sentido imediato, mas, através do Espírito de Deus, Paulo também viu um sentido futuro nas palavras de Oseias.

Assim, o Espírito Santo aplica, através de Paulo, o que Oseias viu historicamente no tempo de Cristo. E o Israel do tempo de Cristo é também uma prostituta que abandonou a Deus. E Jesus profetizou a destruição que viria sobre a nação, como se Deus não tivesse piedade de Israel, tal como foi em Oseias. E tal fato aconteceu no ano 70 da era cristã.

Porque dias virão sobre ti, em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras, e te sitiarão, e te estreitarão de todos os lados; E te derrubarão, a ti e aos teus filhos que dentro de ti estiverem, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, pois que não conheceste o tempo da tua visitação (Lucas 19:43-44).

E a verdade foi que em 70 d.C. o que aconteceu com eles? Foram massacrados e espalhados. Toda a cena histórica ocorreu novamente na devastação de Jerusalém, quando os judeus foram dispersos. E eles sofreram? É como se Deus não tivesse pena deles, não é? Eles não são seu povo, por este período de tempo.

Então, a incredulidade de Israel não viola o plano de Deus. Pelo contrário, se encaixa. É uma coisa tremenda. Isso se encaixa no plano de Deus. Israel não é agora o povo de Deus, é um povo disperso, sem piedade.

Você diz: “Isso é permanente?” Não, não é permanente. Olhe novamente para o versículo 25 de Romanos 9: “Chamarei povo meu ao que não era meu povo; e amada, à que não era amada”. É uma referência ao momento em que eles serão chamados de volta. Israel não é agora o povo de Deus, mas eles serão. Veja algumas porções de Romanos 11:

1 Pergunto, pois: terá Deus, porventura, rejeitado o seu povo? De modo nenhum!
2 Deus não rejeitou o seu povo, a quem de antemão conheceu…
26 E, assim, todo o Israel será salvo, como está escrito: Virá de Sião o Libertador e ele apartará de Jacó as impiedades.
27 Esta é a minha aliança com eles, quando eu tirar os seus pecados.

Em outras palavras, aqueles que não são agora um povo se tornarão um povo. Aqueles que não são agora amados se tornarão amados. Mas o ponto do texto é apenas para mostrar-lhe que durante o tempo presente não devemos estar surpresos com a incredulidade de Israel. Nós vimos isso historicamente. E essa incredulidade histórica tornou-se profética, da incredulidade que existe desde o tempo de Cristo até que Israel venha a crer durante o tempo da grande tribulação, anterior à Segunda Vinda de Jesus Cristo. Então, estamos neste tempo em que Israel cumpre a profecia de Oseias. Eles são um povo disperso, sem piedade, não é o povo de Deus.

Pedro se refere à mesma ideia em 1 Pedro 2:10, que diz: “vós, que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia”. Nós também éramos pessoas dispersas e não dispostas, não éramos povo de Deus quando fomos salvos. Assim, Pedro aplica o mesmo princípio a nós. Oseias aplica diretamente a profecia historicamente em seu tempo. Paulo aplica diretamente a profecia em seu tempo. E Pedro, indiretamente, associa o conceito à identificação da igreja como um povo que se torna povo de Deus.

Você diz: “Ei, como pode Pedro tomar algo claramente referindo-se a Israel e aplicá-lo à igreja?”. Quando Israel se torna disperso, impassível e não tem relação com Deus, ele se torna como os gentios, não há diferença. Judeus e gentios na incredulidade estão na mesma posição de não se constituírem povo de Deus. E assim, Pedro vê a verdade geral sobre Israel como a verdade geral também sobre os gentios. Observe no versículo 25 que há um belo conjunto de terminologias: “povo meu e amada”. E no versículo 26, “filhos do Deus vivo”. Termos muitos bonitos. O Senhor vai trazer essas pessoas de volta.

Agora, Paulo, enquanto ele está em Oseias, chega a outro verso e o cita no verso 26: “e no lugar em que se lhes disse: Vós não sois meu povo, ali mesmo serão chamados filhos do Deus vivo”. Ele tirou isso de Oseias 1:10, onde diz:

Todavia o número dos filhos de Israel será como a areia do mar, que não pode medir-se nem contar-se; e acontecerá que no lugar onde se lhes dizia: Vós não sois meu povo, se lhes dirá: Vós sois filhos do Deus vivo.

É interessante porque ele simplesmente parafraseia Oseias 2:23, mas faz uma citação direta de Oseias 1:9. É quase uma citação literal. E, novamente, este texto afirma a mesma coisa. Veja o versículo 26 de Romanos 9: “e no lugar em que se lhes disse: Vós não sois meu povo”. Onde foi esse lugar? Onde foi dito a eles: “Você não é meu povo?” Todo lugar, eles estavam espalhados, “ali mesmo serão chamados filhos do Deus vivo”.

Em outras palavras, vocês que foram dispersos serão reunidos, E isso aconteceu historicamente. Depois dos cativeiros, Deus reuniu Seu povo de volta das terras dos gentios. Ele foi reunido para ser chamado novamente de os ‘filhos do Deus vivo’. A propósito, esse é um título que se opõe a ‘filhos de ídolos’, ‘filhos de deuses mortos, deuses mudos que não podem falar, deuses surdos que não podem ouvir, e deuses cegos que não podem ver’.

O ponto central de Paulo é usar as profecias de Oseias para mostrar que uma futura restauração de Israel exige uma queda de Israel. Você não precisa restaurar o que não foi perdido. Então, Paulo conclui que a incredulidade de Israel não é algo surpreendente e que poria em descrédito o plano de Deus. Pelo contrário, a descrença dos judeus em relação ao evangelho foi algo que estava contido no plano de Deus tal como será sua restauração na grande tribulação.

2.2 Paulo cita o profeta Isaías (Romanos 9:27-29)

Então, Paulo escolhe outro profeta, Isaías. E em Romanos 9:27-29 ele diz:

27 Mas, relativamente a Israel, dele clama Isaías: Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo.
28 Porque o Senhor cumprirá a sua palavra sobre a terra, cabalmente e em breve;
29 como Isaías já disse: Se o Senhor dos Exércitos não nos tivesse deixado

É uma citação de Isaías 10:22-23, que diz:

22 Porque ainda que o teu povo, ó Israel, seja como a areia do mar, só um remanescente dele se converterá; uma destruição está determinada, transbordando em justiça.
23 Porque determinada já a destruição, o Senhor Deus dos Exércitos a executará no meio de toda esta terra.

Um remanescente será salvo. O que é um remanescente? Uma pequena parte. Isaías profetizou em Judá sob o reinado de Uzias. Começou por volta do ano 760 antes de Cristo e profetizou por cerca de 48 anos. E disse que embora o povo fosse numeroso como a areia do mar, apenas um remanescente seria salvo.

Isaías também viu a incredulidade de Israel. Ele viu que nem todos os judeus seriam salvos. Isaías, assim como Oseias, historicamente estava olhando para um cumprimento muito próximo. Isaías estava olhando para a próxima conquista, olhando para o cativeiro, olhando para o inimigo que viria historicamente e afastaria o povo. Ele estava olhando para algo que era iminente no calendário histórico.

Mas o que o Espírito Santo tinha em mente não era apenas isso, mas algo futuro também. Pois de todos os judeus no tempo de Cristo, apenas alguns creram. E de todos os judeus desde o tempo de Cristo até hoje, apenas alguns creram, assim como foi no tempo de Isaías.

Assim, os eventos da história judaica monitorados por Oseias e Isaías também são imagens, quadros proféticos dos eventos sobre a época de Jesus Cristo, a apresentação do evangelho e a época em que vivemos, quando os judeus também rejeitam a Deus e foram cortados Dele e dispersos. Houve apenas alguns, a propósito, que foram salvos da conquista assíria, apenas alguns. E eles tipificam os poucos que são salvos nesta época.

Agora, o versículo 28 vai de Isaías 10:22 a 23, a mesma passagem, e é um versículo muito estranho de se interpretar.

22 Porque ainda que o teu povo, ó Israel, seja como a areia do mar, o restante se converterá; destruição será determinada, transbordante de justiça.
23 Porque uma destruição, e essa já determinada, o Senhor, o Senhor dos Exércitos, a executará no meio de toda esta terra.

As melhores traduções trazem a ideia de um julgamento completo e rápido. Isaías prometeu que um rápido julgamento estava chegando a Israel, um julgamento completo estava vindo sobre Israel e muito poucos escapariam desse julgamento, muito poucos. Veja o que diz Amós 3:11-12, fornecendo uma imagem disto:

11 Portanto, o Senhor Deus diz assim: O inimigo virá, e cercará a terra, derrubará a tua fortaleza, e os teus palácios serão saqueados.
12 Assim diz o Senhor: Como o pastor livra da boca do leão as duas pernas, ou um pedaço da orelha, assim serão livrados os filhos de Israel que habitam em Samaria, no canto da cama, e em Damasco, num leito.

Quando um pastor estava fora com suas ovelhas e um leão viesse e pegasse uma ovelha, o pastor correria e tentaria fazer com que o leão a soltasse, mesmo que fosse um pedaço dela. Ele tinha que prestar contas ao proprietário e provar como perdeu uma ovelha.

E a demonstração do que Amós está dizendo é que Israel está na boca de um leão e quando Deus chega, Ele vai pegar um pouco do que sobrou, arrancando-o das garras da destruição. Um pequeno número de judeus deveria escapar da grande conquista assíria. E foi exatamente isso que aconteceu. Os demais entraram no julgamento por sua incredulidade e rejeição a Deus. E assim seria profeticamente no tempo de Cristo, em que apenas um pequeno grupo seria resgatado, enquanto um vasto número de judeus entrou no julgamento de Deus.

Agora você vê o que Paulo quer nos dizer? Seu argumento é que a rejeição de Israel ao evangelho não é uma violação do plano de Deus. Foi previsto. Foi previsto por Oseias e Isaías. Então o plano é interrompido? Não. O plano é cumprido a seu tempo.

E veja como Paulo diz no verso 29 de Romanos 9: “como Isaías já disse: Se o Senhor dos Exércitos não nos tivesse deixado uma semente, ter-nos-íamos tornado como Sodoma e semelhantes a Gomorra”. Ele muda o remanescente para semente, significando a mesma coisa, ou seja, um remanescente, um pequeno grupo, o suficiente para começar de novo, só um pouquinho.

O objetivo dessa referência, como a antiga referência de Isaías, é demonstrar que Deus planejou tudo. E Ele planejou que nem todo Israel seria salvo. Os judeus da antiguidade enfrentaram um tremendo julgamento, assim como na época de Cristo. Os paralelos são óbvios. E a única razão pela qual qualquer um de nós é salvo, é porque o Senhor deixou uma pequena semente.

Paulo o chama de o “Senhor dos Sabaoth” ou “Senhor das hostes celestiais”, traduzido como “Senhor dos Exércitos”. Quem são as hostes celestiais? São os anjos, estrelas, corpos celestes, planetas, etc. Então, o Senhor das hostes celestiais escolheu uma semente. E se não fosse isso, todos nós teríamos acabado como Sodoma e Gomorra. Como eles acabaram? No julgamento tão devastador que até hoje não conseguimos descobrir onde essas cidades estavam. Elas se tornaram um sinônimo de destruição completa. Todos nós seríamos destruídos, se o Deus de tudo não tivesse escolhido uma pequena semente.

Então, Paulo recorreu a Oseias e Isaías para mostrar que, no plano de Deus, nem todo Israel seria salvo. Os judeus entrariam em um tempo de grande incredulidade, seriam dispersos, sem piedade, e não sendo o povo de Deus. E haveria um pequeno remanescente. E assim, você entende porque a maioria dos judeus rejeitou a Cristo e o evangelho. O Senhor das hostes celestiais escolheu deixar uma semente.

3. A SOBERANIA DE DEUS E A RESPONSABILIDADE HUMANA

Agora, o último ponto. E se isso não emocionar seu coração, nada mais pode. Isso tem sido uma coisa pesada, pessoal. A soberania de Deus é uma doutrina pesada, esta não é uma passagem fácil. Espero ter conseguido ser claro. É muito difícil. Mas quero que você veja algo que deveria refrigerar seu espírito e produzir descanso. A incredulidade de Israel não viola o pré-requisito de Deus.

E qual é o pré-requisito de Deus para um relacionamento com Ele? O que Deus exige de nós para estarmos relacionados a Ele? Qual a palavra? Fé. Esta seção é um equilíbrio entre a tremenda e densa verdade da soberania divina e a responsabilidade humana. É um aparente paradoxo que produz um equilíbrio.

Agora, essas são verdades mutuamente exclusivas: a absoluta soberania de Deus caminha em paralelo com a nossa responsabilidade. Elas são mutuamente exclusivas. Elas nos parecem contraditórias e opostas. Mas, na verdade não são. É que nossas mentes são muito limitadas, não podemos harmonizar algo que só a mente infinita de Deus consegue perfeitamente.

Agora, Paulo tem dito que os judeus não têm direito à salvação. A única razão pela qual os judeus são salvos é porque Deus em Sua soberania os escolheu. E também porque eles creram. E se você não consegue entender como essas duas verdades caminham juntas e se conciliam na mente de Deus, fique em paz, o mesmo acontece com qualquer outra pessoa que contempla essas doutrinas bíblicas. Nós apenas temos que crer no que a Palavra diz. Nos versos 30 a 33 de Romanos 9 Paulo diz:

30 Que diremos, pois? Que os gentios, que não buscavam a justificação, vieram a alcançá-la, todavia, a que decorre da fé;
31 e Israel, que buscava a lei de justiça, não chegou a atingir essa lei.
32 Por quê? Porque não decorreu da fé, e sim como que das obras. Tropeçaram na pedra de tropeço,
33 como está escrito: Eis que ponho em Sião uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, e aquele que nela crê não será confundido.

Paulo conclui o ensino sobre a escolha divina dizendo que embora Deus tenha escolhido alguns para receber Sua misericórdia, aqueles que receberam o juízo, receberam-no por sua incredulidade. Ou seja, os pecadores são condenados por seus pecados e rejeição a Deus.

Devido à sua própria incredulidade e à sua própria rejeição, eles eram culpados e foram julgados com base em sua própria culpa. Mas, os gentios que não buscavam a justiça a alcançaram. É chocante. Quero dizer, nós teríamos imaginado que os judeus alcançariam a justiça; foram eles que a buscavam. Mas, foram aqueles que nunca buscaram a justiça que a alcançaram. E se você quer uma imagem de como viviam os gentios, leia Romanos 1. Que terrível situação espiritual.

Você diz: “Ora, os judeus buscavam a justiça e não a acharam. Os gentios não buscavam e a acharam. O que isto quer dizer?”. A resposta é simples. O maior obstáculo para a salvação é a justiça própria. Você entende isso? Você não pode ser salvo se você não se considera um perdido. E esse foi o problema da maioria em Israel. Eles pensavam que já eram justos. Eles passaram a vida inteira buscando um relacionamento correto com Deus através de seus próprios esforços. Então, quando o evangelho veio e condenou seu pecado, os judeus o rejeitaram, exceto um pequeno remanescente.

Você diz: Bem, tem mais um problema. Como os gentios foram salvos? Como eles vieram para a justiça?”. Também a resposta é simples. Eleição soberana. Deus os escolheu antes da fundação do mundo. Eles estavam mortos em seus delitos e pecados. Não podiam vir por suas forças. O que Deus fez com aqueles a quem chamou?

Efésios 2:5-6 responde:

Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos). E nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus;

Os gentios alcançaram a justiça que decorre da fé, é o que Paulo diz em Romanos 9:30. Eles conseguiram por obras? Não. Ele fala sobre eleição soberana? Paulo agora está falando sobre responsabilidade humana, que caminha em paralelo com a soberania de Deus. Os gentios alcançaram aquilo que não buscavam. Esse é o coração do evangelho, amados. Eu gostaria de ter tempo de fazer um passeio pela carta aos Romanos e outras porções das Escrituras para falar mais sobre isso. Somos justificados pela fé. Há a resposta humana. A soberania de Deus e a responsabilidade humana são conciliadas apenas na mente de Deus.

Romanos 9:31 diz que “Israel, que buscava a lei de justiça, não chegou a atingir essa lei”. A palavra “lei” significa princípio ou padrão. Eles perseguiram o princípio da justiça, ou seja, um modo de vida para que possamos ser justos. E eles fizeram tudo através de obras legalistas e orgulhosas. Através de uma busca de justiça pela lei, eles buscavam se relacionar com Deus. Mas não alcançaram. Eles não entenderam.

E por que não alcançaram? O verso 32 diz: “Porque não decorreu da fé, e sim como que das obras. Tropeçaram na pedra de tropeço”. Ninguém é salvo porque está melhorando, ou agindo melhor, ou pensando melhor, ou tentando fazer algo melhor, ou se comportando melhor. Não é esta a obra de Deus. É somente através da fé, entregando-se à misericórdia de Deus. Você entende isso? A única coisa que você pode fazer para ser salvo é crer que você não pode fazer nada para ser salvo e se lançar na misericórdia de Deus. Qualquer outra coisa é apenas engano. Uma salvação misericordiosa é uma ofensa a um hipócrita confiado em sua própria justiça. É algo intolerável para ele.

É por isso que Jesus foi rejeitado com tanta amargura e ódio. Os religiosos ficaram terrivelmente ofendidos, porque eles estavam confiados em sua própria autojustiça. Eles olhavam da cruz e blasfemavam por ouvir que Jesus morreu por seus pecados. Aquilo era uma loucura para ele. A cruz é uma ofensa, um escândalo para o hipócrita cheio de sua própria e imunda justiça. E no final do verso 32 e no verso 33 de Romanos 9 Paulo diz:

Tropeçaram na pedra de tropeço. Como está escrito: Eis que ponho em Sião uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, e aquele que nela crê não será confundido.

Ele cita dois textos proféticos de Isaías. Isaías 8:13-15 diz:

Ao Senhor dos Exércitos, a ele santificai; e seja ele o vosso temor e seja ele o vosso assombro. Então ele vos será por santuário; mas servirá de pedra de tropeço, e rocha de escândalo, às duas casas de Israel; por armadilha e laço aos moradores de Jerusalém. E muitos entre eles tropeçarão, e cairão, e serão quebrantados, e enlaçados, e presos.

Isaías previu isso. Então não estamos chocados. Não estamos surpresos com a rejeição de Israel ao Messias. Isaías disse que eles tropeçariam na pedra. E foi o que eles fizeram. Jesus é a “pedra principal da esquina, eleita e preciosa” (I Pedro 2:6) para os que creem, mas para Israel foi “pedra de tropeço e rocha de escândalo” (I Pedro 2:8). E quando Pedro está relacionado Jesus como a Pedra citada em Isaías 8:13-15, ele está mais uma vez reafirmando a divindade de Cristo.

Paulo, em Romanos 9:33, fez também referência a Isaías 28:16 , combinando com Isaías 8:13-14, que diz:

Portanto assim diz o Senhor Deus: Eis que eu assentei em Sião uma pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que está bem firme e fundada; aquele que crer não se apresse.

Nesta combinação dos versículos 32-33 de Romanos 9, Paulo diz que para muitos Jesus Cristo é uma pedra de tropeço e uma rocha ofensiva. Ele ofende. Ele faz com que as pessoas tropecem Nele e caiam. Outro significado é que Ele fica no caminho, tornou-se fonte de incômodo e irritação. A rocha da ofensa, Ele os ofende. Ele confundiu aqueles que estão confiados em sua própria justiça. Mas todo aquele que Nele crê não será confundido. Não será confundido? O que isso significa? Bem, uma maneira melhor de traduzir isso, comparando com Isaías 28:16, seria “não será temeroso”. Eu gosto disso. Não tenha medo.

Paulo cria na capacidade do homem em buscar a Deus? Não. Ele estava tratando do equilíbrio entre a soberania de Deus e a responsabilidade do homem. Quem crê não tem motivos para temer. Jesus fará algumas pessoas tropeçarem. Ele fará com que algumas pessoas se ofendam. E ele será uma pedra de juízo. Mas, aqueles que creem não serão confundidos. Grande verdade.

4. CONCLUSÃO

Então, a justificação pela graça através da fé é verdadeira. E a incredulidade de Israel não viola a promessa de Deus, Sua pessoa, Seu plano e Seu pré-requisito. Seu pré-requisito sempre foi o mesmo. Nós somos salvos pela Fé. Há um remanescente, porque Deus escolheu um remanescente. Há um remanescente, porque são apenas alguns que creem. E é assim que Deus sabia que seria e é assim que planejou que fosse e é assim que funciona. Então, não tente mudar a verdade do evangelho.

É tão emocionante, você não pode saber que emoção é ensinar a Palavra neste lugar. Mensagens como esta em algumas igrejas, metade das pessoas teria ido embora antes de eu chegar ao fim. Essa é a verdade. Estas são verdades profundas. Estas são as coisas difíceis de entender, das quais Pedro disse que Paulo era bom em escrever a respeito. E vocês as ouve. Eu oro a Deus para que elas encontrem raiz em seu coração. O evangelho de Jesus Cristo é verdadeiro. E o que aconteceu na incredulidade de Israel é uma confirmação de que a Bíblia é de fato verdade, porque tudo se encaixa no plano eterno.

A mensagem para você no fechamento desta noite é: Você crê? Cristo te impede de continuar a sua corrida em sua busca pela salvação centrada em autojustiça, pensando que você pode alcançar a Deus por conta própria. Jesus simplesmente diz que você não pode fazer isso, você é pecador, você precisa de um Salvador, um que ofenda você. Você chama isso de tolice ou você crê? Eu oro para que você creia.

Vamos orar.

Pai, oramos para que tu possas salvar alguns nesta noite.Esses incríveis mistérios nos são revelados com tamanha admiração e delicadeza nas páginas da Escritura. Obrigado por nos deixar ver, o quanto é humanamente possível ver, e por deixar mistério o suficiente para nos lembrar que Tu és maior do que nós e nisso nos regozijamos. Salve aqueles, Senhor, que não Te conhecem. Nós Te agradeceremos, em nome de Cristo. Amém.


Esta é o quarto de  uma série de 4 sermões de John MacArthur sobre Romanos 9, conforme links abaixo:


Este texto é uma síntese do sermão “Is Israel’s Unbelief Inconsistent with God’s Plan? Part 4”, de John MacArthur em 15/01/1984.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/library/sermons-library/45-74/is-israels-unbelief-inconsistent-with-gods-plan-part-4

Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno


 

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *