Orações Evangelísticas – 1

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Este é o primeiro de uma série de 3 sermões de John MacArthur sobre orações evangelísticas, com base em I Timóteo 2:1-8.


1 – INTRODUÇÃO

Seguindo nossa trilha na primeira carta a Timóteo, hoje iniciaremos o capítulo 2. E vamos nos concentrar por algum tempo nos versículos de 1 a 8. Hoje vamos nos concentrar nos três primeiros versículos. Paulo começa dizendo:

Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens.

Tive uma sensação terrível de falhar em cumprir a Palavra de Deus ao estudar esses versículos. O texto basicamente nos chama a orar pelos perdidos. Paulo fala de características profundas dessa oração. E isto me levou a mergulhar profundamente naquilo que a Palavra está nos dizendo. Fiquei muito encorajado em meu espírito a compartilhar com vocês agora e nas próximas vezes o que eu creio que o Espírito de Deus está nos dizendo a esse respeito em relação à oração evangelística.

Já li livros de autores respeitáveis que tratam a oração pelos perdidos como sendo exclusivamente para que o Senhor mande ceifeiros para a seara, como Jesus disse em Mateus 9:38. Obviamente, nós oramos pelos perdidos a nossa volta, mas confesso que negligenciei em procurar entender a profundidade do que a Palavra nos ensina a respeito dessa oração evangelística. Tenho estudado e orado a respeito disso, tentando colocar em prática imediata aquilo que a Palavra nos ensina em I Timóteo 2:1-8.

A oração pelos perdidos é uma parte de nossas vidas. É muito natural orarmos pela conversão das pessoas que nos cercam. Mas não é sobre isso que o texto bíblico está falando, é algo muito além. Precisamos compreender a profundidade da oração evangelística tratada aqui.

Sabemos que a salvação é uma obra soberana de Deus e devemos ir a Deus e pedir a Ele para salvar, pois essa é Sua prerrogativa. Temos nos envolvido profundamente na obra evangelística local e em campos missionários em várias partes do mundo. Por isso, é essencial que compreendamos o que a Bíblia ensina sobre a oração evangelística. Ela é legítima? É necessária? Podemos realmente orar pela salvação de uma pessoa, de uma cidade, de um estado, uma nação? De uma tribo? Essas orações que não são em favor de pessoas específicas, mas de um grupo de pessoas têm algum valor para Deus? Ela, de alguma forma, desempenha um papel na obra de salvação de Deus?

Se de fato Deus responde a oração que fazemos em favor da salvação de alguém, então devemos nos comprometer a orar nesse sentido. Mas, o que a Bíblia diz? Vemos que Moisés orou pelos incrédulos, a exemplo do que está registrado em Números 11:1-2 e 14:3. E sua oração era basicamente para que Deus não os consumisse no julgamento de fogo. No versículo 14:9, ele ora ao Senhor dizendo: “Perdoa, pois, a iniquidade deste povo, segundo a grandeza da tua misericórdia”. Moisés, como profeta e líder se volta a clamar a Deus pela salvação da nação.

Em 1 Samuel 12:23, Samuel diz: “E quanto a mim, longe de mim que eu peque contra o Senhor, deixando de orar por vós, antes vos ensinarei o caminho bom e direito”. Aqui Samuel vai um passo além, tratando a oração pelos perdidos não somente como importante, mas essencial, de modo que não fazê-la se constitui em pecado. E, nos versos 24-25, ele diz que orava para que o povo temesse ao Senhor e não perecesse no juízo divino.

Jeremias foi um profeta que chorou lágrimas amargas pela salvação de Israel. Ele almejava que o povo se afastasse da maldade e da desobediência. Mas a situação do povo era terrível, ao ponto de Deus lhe dizer: “Tu, pois, não intercedas por este povo, nem levantes por ele clamor ou oração, nem me importunes, porque eu não te ouvirei” (Jeremias 7:16). Os versos 10-12 do capítulo 14 dizem:

10 Assim diz o Senhor sobre este povo: Gostam de andar errantes e não detêm os pés; por isso, o Senhor não se agrada deles, mas se lembrará da maldade deles e lhes punirá o pecado.
11 Disse-me ainda o Senhor: Não rogues por este povo para o bem dele.
12 Quando jejuarem, não ouvirei o seu clamor e, quando trouxerem holocaustos e ofertas de manjares, não me agradarei deles; antes, eu os consumirei pela espada, pela fome e pela peste.

Jeremias era um homem dado a orar por seu povo e só Deus poderia detê-lo. Em I Samuel 7:5-6, encontramos Samuel clamando a misericórdia do Senhor por um povo cheio de pecado e sob juízo. Em II Crônicas 30, vemos o rei Ezequias convocando o povo para o arrependimento. Os versos 18-20 dizem:

18 Ezequias orou por eles, dizendo: O Senhor, que é bom, perdoa todo aquele
19 Que tem preparado o seu coração para buscar ao Senhor Deus, o Deus de seus pais, ainda que não esteja purificado segundo a purificação do santuário.
20 E ouviu o Senhor a Ezequias, e sarou o povo.

Lembro-me também da oração de Daniel, nos versos 17 a 19, do capítulo 9 do livro de Daniel:

17 Agora, pois, ó Deus nosso, ouve a oração do teu servo, e as suas súplicas, e sobre o teu santuário assolado faze resplandecer o teu rosto, por amor do Senhor.
18 Inclina, ó Deus meu, os teus ouvidos, e ouve; abre os teus olhos, e olha para a nossa desolação, e para a cidade que é chamada pelo teu nome, porque não lançamos as nossas súplicas perante a tua face fiados em nossas justiças, mas em tuas muitas misericórdias.
19 Ó Senhor, ouve; ó Senhor, perdoa; ó Senhor, atende-nos e age sem tardar; por amor de ti mesmo, ó Deus meu; porque a tua cidade e o teu povo são chamados pelo teu nome.

E ele clama a Deus para perdoar os pecados do povo e restaurá-los, bem como intercede por sua cidade e sua adoração. E então, no Novo Testamento encontramos o testemunho de Estevão. Durante seu apedrejamento, à beira da morte, ele clama por seus algozes: “Senhor, não lhes imputes este pecado” (Atos 7:60). O que quer dizer: “Ó Deus, seja misericordioso para com esses pecadores!”. Que oração evangelística tremenda!

Em Romanos 9:3, Paulo está movido de tanto fervor pelos perdidos de Israel, que ele diz: “Porque eu mesmo poderia desejar ser anátema de Cristo, por amor de meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne”. Em 10:1; ele diz: “Irmãos, o bom desejo do meu coração e a oração a Deus por Israel é para sua salvação”. E essas são apenas amostras de orações evangelísticas. Fica claro o ensino bíblico sobre orar pelos perdidos.

2 – ENTENDENDO O CONTEXTO

Vamos então para o texto de I Timóteo 2:1-8, que diz:

1 Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens,
2 em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito.
3 Isto é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador,
4 o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade.
5 Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem,
6 o qual a si mesmo se deu em resgate por todos: testemunho que se deve prestar em tempos oportunos.
7 Para isto fui designado pregador e apóstolo (afirmo a verdade, não minto), mestre dos gentios na fé e na verdade.
8 Quero, portanto, que os varões orem em todo lugar, levantando mãos santas, sem ira e sem animosidade.

Paulo está instruindo Timóteo sobre a questão de orar pelos perdidos. Essa é claramente a intenção da passagem. Mas esta é apenas uma parte de toda a carta e devemos defini-la no contexto. Lembre-se disso, Paulo completou sua terceira viagem missionária até o final do livro de Atos. Ele é colocado na prisão em Roma. Depois de um período de prisão em Roma, ele é libertado. Após a sua libertação, ele vai para Éfeso. Lá ele conhece Timóteo. Lá, creio eu, Paulo lidou com Himeneu e Alexandre, colocando-os fora da igreja porque eram líderes hereges e apóstatas. Paulo então deixou Éfeso depois de fazer isso, mas deixou Timóteo lá para por todas as coisas em ordem.

Então, Timóteo permaneceu em Éfeso. Paulo foi para o oeste. Tendo passado um breve tempo, Paulo escreve uma carta de volta a Timóteo. Essa carta é a primeira carta a Timóteo e nela ele instrui Timóteo quanto aos assuntos específicos aos quais ele deve se dedicar na igreja. Muitas coisas estavam erradas na igreja em Éfeso. E havia muito trabalho a ser feito.

No capítulo 3 do versículo 15, Timóteo é lembrado talvez de sua responsabilidade central, de ensinar as pessoas como devem se comportar na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a coluna e a base da verdade. Timóteo foi deixado em Éfeso. Ele serviu bem ao apóstolo Paulo, talvez por até 15 anos. Paulo conhecia o coração de Timóteo e o está animando a prosseguir em seu ministério. Mas, através da carta, Paulo também se comunica com a igreja, ensinando e mostrando que Timóteo não agia por conta própria, mas sob sua autoridade.

Havia muitas coisas erradas na igreja de Éfeso, tais como:

  • Falsas filosofias.
  • Visões religiosas que contradiziam o verdadeiro evangelho da salvação, de modo que a base da fé cristã, a graça salvadora de Deus em Cristo estava sendo enlameada e as pessoas não estavam ensinando a verdadeira salvação.
  • Mau uso da lei por pessoas que se consideravam mestres da lei, mas não tinham ideia de qual era a intenção da lei.
  • Tolerância ao pecado. Falta de santidade. Hipocrisia.
  • Envolvimento com erros demoníacos e espíritos sedutores.
  • Negação da verdade sobre quem o próprio Cristo realmente era.
  • Apostasia e a rejeição da Palavra de Deus. Houve o abuso do papel das mulheres.
  • Pecado e corrupção entre os anciãos e pastores.
  • Falsos ensinos e heresias. Adoração pervertida. Materialismo.
  • Mundanismo, orgulho, intelectualismo e um descontentamento geral com a vontade de Deus.

E Timóteo é deixado lá para colocar a igreja na linha da vontade de Deus e do propósito de Deus. No capítulo 1:18, Paulo diz: “Este é o dever de que te encarrego, ó filho Timóteo, segundo as profecias de que antecipadamente foste objeto: combate, firmado nelas, o bom combate”. Ele tinha a responsabilidade de fazer o que Paulo o havia colocado lá para fazer.

E agora, ao entrar no capítulo 2, ele começa a descrever em detalhes as coisas às quais Timóteo deveria se entregar. E a primeira instrução tem a ver com a oração pelo mundo perdido. É aí que Paulo começa. É por isso que no versículo 1 ele diz: “Antes de tudo”. Estamos começando agora o que é um manual para a ordem da igreja e começa com este assunto de oração evangelística. Ele se move nisso até o verso 8. Podemos destacar três aspectos nesses versículos:

  • O primeiro pensamento vem no versículo 1: devemos orar por todos os homens.
  • O segundo pensamento vem no versículo 4: Deus quer que todos os homens sejam salvos.
  • O terceiro pensamento vem no verso 8: quando você ora, há algumas condições para tornar sua oração aceitável: “mãos santas, sem ira e sem animosidade”.

A igreja, então, é chamada para a tarefa de orar pelos perdidos em larga escala. E essa é a ideia principal. Eles não queriam que todos os homens fossem salvos e quando oravam, faziam-no com mãos sujas, corações irados e dissidentes.

2.1 O EXCLUSIVISMO IMPEDIA A IGREJA DE ORAR POR TODOS OS PERDIDOS

Havia a presença de judeus na igreja, os quais defendiam a manutenção da lei para a salvação. Esse pensamento exclusivista dizia que a salvação não era para todos, mas apenas para aqueles guardavam a lei, fossem judeus ou prosélitos. Paulo fala contra este pensamento.

Além disso, havia na igreja o exclusivismo gentio, que surgiu daquela velha filosofia que mais tarde ficou conhecida como gnosticismo. Os gnósticos acreditavam que possuíam um conhecimento elevado, uma “verdade superior”, conhecida apenas por poucos. O gnosticismo se origina da palavra grega “gnosis”, a qual significa “saber”. Eles acreditavam que possuíam um conhecimento mais elevado, não da Bíblia, mas um conhecimento adquirido por algum plano místico superior de existência. Os gnósticos se enxergavam como uma classe privilegiada e mais elevada sobre todas as outras devido ao seu conhecimento superior e mais profundo de Deus.

Então, muitos judeus da igreja estavam dizendo que a salvação era apenas para aqueles que guardavam a lei judaica. E muitos gentios diziam que a salvação era apenas para aqueles que estão no alto conhecimento, que são os gnósticos, ou seja, aqueles que sabem, uma elite que ascendeu a outro nível em alguma experiência mística com espíritos que eles acreditavam ser bons espíritos, mas que Paulo apontou como demônios.

Então, havia um exclusivismo na igreja em Éfeso. Por causa disso, houve um grave erro na doutrina da salvação. Dois grupos reivindicaram exclusivismo na salvação. Eles mergulharam em heresias e diziam que os demais homens estavam excluídos de qualquer esperança de salvação. E Paulo diz a Timóteo que ele ensinasse a igreja a orar por todos os homens, pois a salvação é um ato soberano de Deus e não fruto de algum merecimento humano, seja qual for a natureza desse merecimento. O evangelho foi dirigido a todos os povos, línguas e nações; a pessoas cultas e incultas; não há distinção humana na salvação.

Note isso, Paulo era judeu e conhecia muito bem a história de seu povo. E os judeus criam que eram salvos simplesmente por serem descendentes de Abraão. Eles guardavam a ideia de que eles eram um povo exclusivo. E uma das dificuldades dos judeus com o evangelho era o caráter universal do evangelho. Eles não aceitavam a ideia de que suas bênçãos fossem estendidas a todos os povos. Eles defendiam sua exclusividade.

Uma grande ilustração disso é o profeta Jonas. Nínive, a capital da Assíria, fundada por Ninrode (neto de Noé) era infame por sua crueldade e uma inimiga histórica de Israel e Judá. Jonas foi enviado para lá para envergonhar Israel, que não se arrependeu diante das exortações dos profetas. E diante da pregação de Jonas, Nínive se arrependeu, Deus exerceu misericórdia poupando-a da destruição naquele momento. Bem, Jonas não tolerou que Deus estendesse sua misericórdia e salvação àquela cidade pagã. E Jonas ficou irado e pediu para morrer (Jonas 4:1-3).

Mas isso é reflexo do pensamento exclusivista de grande parte de Israel. E a triste verdade da história redentora é que Israel falhou em ser o canal pelo qual Deus poderia alcançar o mundo. E, assim, Deus levantou uma comunidade redimida de todos os povos, línguas e nações, a igreja, para ser sua testemunha na Terra. E o objetivo da igreja não é diferente do objetivo de Israel: alcançar o mundo. E é isso que Paulo enfatiza, dizendo “antes de tudo”, ou seja, “antes que qualquer assunto”, a igreja precisa cumprir sua missão diante de todos os homens, e não pensando que há exclusividade humana na salvação.

E assim, a instrução de Paulo é sobre a necessidade de longo alcance para a oração evangelística, um alcance mundial. Paulo diz: “exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens”. É uma exortação, um mandamento. E o ele coloca sob uma forma de alto comprometimento, ressaltando a profunda importância do que está falando.

Qual é o objetivo principal da igreja? Por que estamos no mundo? Ouça, se o principal objetivo da igreja fosse a comunhão, onde estaríamos? No céu. Porque lá teremos comunhão perfeita. Se o objetivo primordial da igreja fosse o conhecimento da Palavra de Deus, nós poderíamos ir para o céu, teríamos conhecimento perfeito lá. Mas, o propósito da igreja no mundo é alcançar os perdidos. E assim a prioridade começa nesse ponto.

Aquela igreja jamais poderia alcançar isto se continuasse a conviver com falsas doutrinas exclusivistas, como se o evangelho não fosse dirigido a todos os homens, sem distinções humanas. E é com isto que Paulo está preocupado nos oito primeiros versos do capítulo 2 da primeira carta a Timóteo. Depois ele prossegue com outros assuntos. Ele diz no verso 1: “antes de tudo…”, ou seja, “antes de qualquer assunto, quero falar a vocês sobre orar pela salvação de todos os homens”. E não é uma oração qualquer, mas sob intensidade e santidade.

3 – ELEMENTOS DA ORAÇÃO EVANGELÍSTICA

Hoje vamos apenas olhar para dois dos cinco elementos da oração evangelística que fluem desse texto maravilhoso.

A – A NATUREZA DA ORAÇÃO EVANGELÍSTICA

O primeiro é a natureza da oração evangelística, ou seja, o caráter da oração evangelística, sua riqueza. Como podemos defini-la e entendê-la? Veja o que Paulo diz:

Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens (I Timóteo 2:1).

Ele fala de súplicas, orações, intercessões e ações de graças. Essas quatro palavras, de certo modo, são sinônimas. Pelo menos as três primeiras são muito sinônimas. Mas, ao mesmo tempo, elas têm matizes de significado e coloração de intenção que eu acho que devem ser examinados e, quando examinados, produzem uma rica compreensão da questão da oração. Não à toa o Espírito Santo inspirou Paulo a escrever dessa forma.

SÚPLICAS – Primeiro de tudo, vem a palavra “súplicas”. Uma palavra que achamos familiar nas Escrituras. A palavra grega deriva de uma raiz que significa “carecer”, “estar desprovido”, “estar sem algo”. Por causa desse tipo de orientação da palavra, ela meio que comunica a ideia de que essa questão de oração se origina de um senso geral de necessidade. Em outras palavras, ao perceber uma falta, em estar sem algo que é desesperadamente necessário, você vai buscar o suprimento que lhe falta. E acredito que essa é uma forma adequada de perceber a oração evangelística. A oração evangelística nasce de uma sensação de necessidade.

Nós entendemos que aqueles que estão sem Cristo precisam de Cristo. Você entende isso? O mundo não precisa de novas filosofias e ideias, mas de Cristo. O homem precisa de perdão de seus pecados, de interromper sua marcha em direção ao inferno. Entendemos isto? Não falo de um mero entendimento, mas de algo que nos move a orar ardentemente por todos os homens. É uma súplica, uma oração que se move diante de uma necessidade. Temos que olhar para o mundo e ver a trágica situação espiritual em que ele se encontra. E nos mover em oração.

Há também inerente a esta palavra a implicação de ir a alguém que tem os recursos para suprir essa necessidade. De fato, nos primeiros usos dessa palavra, ela estava ligada a levar uma espécie de ramo ou folha de palmeira para um monarca. Isso era um símbolo de humildade, respeito e uma oferta de paz para quando alguém viesse pedir algo ao rei que ele poderia fornecer para atender sua necessidade. Por isso carrega a ideia não apenas do sentido da necessidade, mas de ir a alguém que tem o recurso para suprir essa necessidade. Um termo muito rico e bonito.

A ideia, então, é que, amados, se quisermos entender a natureza da oração evangelística, comecemos a perceber a grande necessidade dos perdidos no mundo, pelo que vamos clamar ao Senhor, que pode suprir a necessidade de salvação. O puritano Richard Baxter (Sec. XVII), escreveu:

Os ímpios estão apenas a um passo da morte e do inferno. Se você não crê na Palavra de Deus sobre esse perigo para com o futuro dos pecadores, será que realmente você é um cristão? Porém se você acredita nisso, por que não se movimenta em ajudar outras pessoas?

ORAÇÕES – Em segundo lugar, ele usa a palavra “orações”. No idioma original, Paulo usa uma palavra geral para oração. Curiosamente, ao contrário da palavra súplica, esta palavra é usada na Escritura apenas em referência a Deus. Essa oração é direcionada apenas a Deus. E, portanto, parece levar à noção do sagrado. Você não está apenas indo a alguém que pode satisfazer uma necessidade, você está indo a Deus. A palavra oração no texto carrega o elemento de adoração e acrescenta outra dimensão, pois você está orando para que uma alma venha para a salvação, não apenas por causa de sua grande necessidade, mas também para a glória de Deus.

Você está orando para que uma pessoa seja redimida, a fim de que Deus seja honrado, exaltado, glorificado e engrandecido. Para que o Pai seja glorificado no Filho. A salvação de almas glorifica ao Senhor, manifesta seu poder e seus atributos maravilhosos. E isso deve nos fazer intensos na oração por todos os homens.

INTERCESSÃO – Há uma terceira e muito rica palavra, “intercessões”. Ela vem de uma raiz que significa “concordar com” ou “aproximar-se para falar de um modo íntimo”. O verbo do qual deriva essa palavra é usado em relação à intercessão de Cristo e do Espírito Santo pelos cristãos (Romanos 8:26; Hebreus 7:25). Não se trata de algo feito de forma fria, mas de uma posição intensa de alguém clamando por outra pessoa, compreendendo empatia, compaixão, amor, envolvimento e intensidade. Veja os textos em que a mesma palavra é usada:

Portanto, [Jesus] pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles (Hebreus 7:26).

E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis (Romanos 8:26).

Entendemos que a intercessão de Jesus Cristo e do Espírito Santo não é uma defesa legal fria, mas é uma comunhão íntima com o Deus vivo movida por um sentimento para com a nossa necessidade. E assim devemos nos mover ao orarmos pela salvação de homens, não de uma maneira indiferente e de pouca compaixão.

Então, o que estamos dizendo até agora? A natureza da oração evangelística é caracterizada por súplicas, porque há a necessidade de salvação para os homens que estão nas trevas. A oração deve ter em vista a glória de Deus, para que Ele seja glorificado com a salvação de almas. E por fim, vem a intercessão, através da qual nos envolvemos com empatia, compaixão, intensidade, amor pelo homem em trevas.

Estou realmente convencido, amados, de que há elementos que faltam em nossas orações. A razão pela qual não oramos da maneira que devemos orar é porque não temos essas verdades em nossos corações. Nós não vivemos com uma grande e tremenda compreensão chocante da necessidade do homem perdido. Não enxergamos o quanto Deus é glorificado quando uma alma é salva. E não estamos nos envolvendo de forma intensa, de todo nosso coração, em favor das almas.

AÇÕES DE GRAÇAS – Uma quarta palavra que ele usa é “dar graças” ou “ações de graças”. Isso é parte de todas as orações. E em nossa oração evangelística temos que estar dispostos a fazer isso, seja qual for a resposta. Parte de nossa oração evangelística é agradecer a Deus pelo privilégio de alcançar essas pessoas. Não podemos ter qualquer tipo de barreira para levar o evangelho a quem quer que seja. Devemos agradecer a Deus pelo fato de o evangelho poder ser estendido a todos, sem distinções humanas. I Tessalonicenses 5:18 diz: “Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco”. A ação de graças é o único elemento de oração que continuará para sempre.

Então, na oração evangelística, eu oro porque os homens precisam. Eu oro porque Deus merece glória. Eu oro porque, no fundo do meu coração, sinto compaixão pelas almas perdidas. E eu oro com um coração agradecido. O que quer que Deus faça, eu lhe dou graças. Essa é a natureza da oração evangelística.

B – O ALCANCE DA ORAÇÃO EVANGELÍSTICA

Agora quero acrescentar outro ponto para esta manhã e esse é o escopo da oração evangelística: o alcance dela. E este é realmente o ponto focal do texto.  Vou inciar este assunto hoje, mas entraremos em grande profundidade na próxima vez.

Vemos que, no final do versículo 1, essas súplicas, orações, intercessões e ações de graças devem ser feitas para todos os homens. É ilimitado. Não há exclusividade humana, não há grupo especial de homens. Somos chamados a nos mover de nossos próprios interesses para orar por todos os homens. Deus não salva homens por causa de sua genealogia ou por algum distintivo humano, mas por sua soberania e graça Ele chamou homens indignos de todos os lugares para a salvação. Por isso devemos orar por todos os homens.

Por quê? Por que todos os homens? Todos os homens na face da Terra são ordenados a se arrependerem. Não há distinção aqui. Deus não nos revelou aqueles que seriam salvos. Temos que proclamar o evangelho e orar por todos os perdidos de forma indistinta. O Senhor nos ordenou a pregar o evangelho a toda criatura. Todos os homens são intimados a se arrependerem.

Tito 2:11 diz: “Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens”. Não se trata de salvação universal. Humanidade aqui é traduzida como “todos os homens”. Não se refere a cada indivíduo, mas a humanidade em geral (de todos os lugares da Terra). Porém, a fé é alcançada apenas pelos eleitos de Deus, como Paulo diz na introdução da carta a Tito (Tito 1:1). Paulo identifica um grupo especial de pessoas, dentro desta categoria maior de todos os homens, em favor de quem a igreja deve orar, no versículo 2.

Em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito.

Por que ele destacou esse grupo? Certamente porque a tendência por parte da igreja não era orar por eles. A igreja sofria abusos por parte destes homens. Esses abusos poderiam gerar ódio, animosidade e amargura. E, além de qualquer outro motivo, Paulo diz: “para que vivamos vida tranquila e mansa”. E assim, ele diz que por causa da autoridade que eles têm, devemos orar por eles.

O imperador naquela época era nada menos que um homem perverso, maligno, vil e cruel chamado Nero. E poderíamos bem entender que a igreja não estava muito animada em orar por ele. Então, seja lá quem for, ore por ele. É o que Paulo está ensinando. Deus salva pessoas pacíficas, guerreiras, perversas, más, boas (humanamente falando) etc. Seu poder é soberano e eficaz. É por isso que você não pode colocar limites na oração.

E quando estamos orando por governantes perversos, a Palavra não nos ensina a orar pela queda deles, mas para que Deus os salve. E, enquanto isto, o ensino apostólico é que devemos respeitá-los e honrá-los. Como seria salutar ver todos os cristãos com essa atitude, sem gastar tempo e energia em manobras políticas, mas de joelhos clamando pela salvação de seus governantes! Que testemunho seria! Não apenas um testemunho, mas uma maneira de ativar o poder de Deus. As armas da nossa guerra não são carnais. Nós não lutamos com armas carnais. As nossas armas são espirituais, como a oração, que é poderosa para derrubar as fortalezas de Satanás.

Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas sim poderosas em Deus para destruição das fortalezas (II Coríntios 10:4).

Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais… Orando em todo o tempo com toda a oração e súplica no Espírito, e vigiando nisto com toda a perseverança e súplica por todos os santos. (Efésios 6:12,18).

Assim escreveu Tertuliano, teólogo cartaginense que viveu por volta de 160 a 230 nos primeiros séculos da igreja:

O cristão não é inimigo de nenhum homem, muito menos do imperador, pois sabemos que, desde que ele foi designado por Deus, é necessário que o amemos, o reverenciemos, honremos e desejemos sua segurança, por isso nos sacrificamos pela segurança do imperador.

E Teófilo, de Antioquia, escreveu:

A honra que darei ao imperador é ainda maior, porque não o adorarei, mas orarei por ele. Não adorarei a ninguém além do verdadeiro Deus, pois sei que o imperador foi nomeado por Ele. Aqueles que dão verdadeira honra ao imperador obedecem-lhe e oram por ele.

Tal prática pode ser vista nos escritos da igreja do segundo e terceiro séculos. Quando eles se reuniam, oraram pela salvação de seus líderes. Que mover de Deus haveria neste país se gastássemos nossa energia e nosso esforço orando pela salvação dos governantes! Mas, em vez disso, encontramo-nos falando mal de líderes dos os quais discordamos e tentamos criar grupos de poder cristãos para substituí-los. E nos tornamos o inimigo. De muitas maneiras, penso eu, nós poluímos a água da vida para eles. A igreja deve sempre funcionar em dever espiritual e disciplina espiritual, nunca por meios mundanos.

Então, oramos pela salvação das pessoas. Você diz: “Deus responde a isso?”. Temos muitos exemplos na Palavra que nos encorajam a dizer que orar pelos perdidos é uma prioridade da igreja. Não há limite. E sua natureza é muito simples. Vem de um coração que suplica pelas necessidades do perdido; que ora pela glória de Deus; de um coração que intercede com fervor, demonstrando empatia, compaixão, amor e compromisso; e de um coração grato a Deus por tudo. E a abrangência dessa oração é que seja feita por todos os homens, inclusive os governantes.

Havia uma menina surda e muda na escola dominical. Ela nunca ouvira uma palavra e nunca dissera uma palavra. Mas o professor escreveu em um pedaço de papel: o que é oração? E ela pegou seu lápis e escreveu: “A oração é o desejo do coração”. Isso é oração, quer encontre ou não os lábios, a oração é o desejo do coração. O desejo do seu coração é que todos os homens sejam salvos? Se for, então esse desejo se elevará a Deus. Vamos orar.

Gracioso Pai, estamos aqui com corações agradecidos, porque amamos a adoração e nos encontramos com o Senhor e somos abençoados. Mas, nós também confessamos que chegamos com convicção a este momento, porque fracassamos e não conseguimos orar por um mundo perdido como deveríamos orar. E eu peço, ó Deus, que Tu enchas o meu próprio coração com grande senso da necessidade do perdido, com um desejo ardente para a Tua glória, com um coração de compaixão e simpatia, para que eu possa encontrar o desejo do meu coração expressado continuamente em que todos os homens podem ser salvos, deixando os resultados com a Tua soberania.

Não cabe a nós determinar quem será salvo. A nós cabe orar. Ajude-nos, ó Senhor, em nossa comunhão aqui e na igreja ao redor do mundo para entendermos que as armas de nossa guerra são espirituais e, assim, orarmos por cidades, estados, nações, por líderes, para que todos sejam salvos. Produza em nossos corações esse clamor. Que nós, como igreja, possamos entender o que Paulo queria que Timóteo transmitisse à igreja em Éfeso que, antes de tudo, devemos ter paixão pela salvação de todo o mundo. Se essa paixão é limitada, seja por alguma teologia aberrante ou por fria indiferença, a igreja não pode ser o reflexo seja da vontade de Deus ou da obra de Cristo no mundo, pois é a vontade de Deus que todos sejam salvos e Cristo se deu a si mesmo em resgate por todos. Que sejamos uma igreja que deseja alcançar todos os homens.

Enquanto suas cabeças estão curvadas por apenas um momento, acredito que precisamos orar pelos perdidos ao redor do mundo em nossos cultos. Eu acredito que você precisa fazer isso em seus grupos de comunhão no dia do Senhor a cada semana. Creio que precisamos orar pelos perdidos em nossos rebanhos, nossos estudos bíblicos, nossos cultos domésticos, nossas devoções diárias. Acredito que se Deus vai trabalhar através de nós em um grande evangelismo ao redor do mundo, precisamos começar a orar e precisamos orar habitualmente e continuamente por aqueles que estão sem Cristo. Aqueles que conhecemos, aqueles que não conhecemos, indivíduos e povos inteiros, pois esta é a vontade de Deus e isso reflete a resposta adequada à obra de resgate de Cristo.

Você pode se comprometer em seu coração pedindo a Deus que o fortaleça para assumir este ministério de oração. Faça esse compromisso com Deus.


Esta é o primeiro de uma série de 3 sermões de John MacArthur sobre “Orações Evangelísticas”, com base em I Timóteo 2:1-8, conforme links abaixo:


Este texto é uma síntese do sermão “Evangelistic Praying, Part 1”, de John MacArthur em 12/01/1986.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/library/sermons-library/54-11/evangelistic-praying-part-1

Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno


 

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