“Olho por Olho” (1)

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Este é o primeiro sermão de John MacArthur sobre o tema “olho por olho e dente por dente” (veja links abaixo). Esta expressão aparece 3 vezes no Pentateuco e foi citada por Jesus no Sermão do Monte. Ela tem sido objeto de muitas controvérsias e ataques contra a Bíblia.

Há um grande debate filosófico sobre o que é justiça ou o que é justo. A ideia que prevalece atualmente é de um total relativismo, sendo a justiça determinada pelos valores de cada época. Este pensamento diz que não há um conceito absoluto do que é justo, tudo é determinado pelo próprio homem em sua época.

Um dos maiores pensadores do Direito, Hans Kelsen (1881-1973), disse que o Direito não existe para fazer justiça, mas para que a lei se cumpra. Ele alegou que o homem nunca chegou a um consenso sobre o que é justiça, e o Direito não poderia resolver esta questão. Ele foi mais adiante e disse que nem a Bíblia tem um conceito coerente de justiça, pois, em outras palavras, o conceito de justiça no Pentateuco não é o mesmo do Sermão do Monte, segundo o seu entendimento.

Será que não há um conceito absoluto de justiça? A Lei, dada por Deus, diz “Olho por olho e dente por dente”, um princípio também encontrado na Lei de Talião (Código de Hamurabi, no século XVIII antes de Cristo). Mas Jesus nos ensinou a não resistir ao perverso e a oferecer a outra face se formos esbofeteados. 

A Bíblia diz que Deus é imutável (Tiago 1:17). Mudança é algo que ocorre tanto para melhor ou para pior.  Ambas opções são inconcebíveis com Deus. Ele não poderia ficar melhor do que é e nem pior. Não há nada para mudar Nele. 

Deus mudou seu conceito de justiça, como supôs Hans Kelsen? O Deus do Antigo Testamento não é o mesmo Deus do Novo Testamento? Deus teve que melhorar seus conceitos ao longo dos séculos? John MacArthur responde a esta questão de forma lúcida, bíblica e inspirada por Deus.   


1. INTRODUÇÃO

Nós chegamos esta manhã a uma potente passagem da Escritura, perspicaz e incompreendida: Mateus 5: 38-42.

38 Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente.
39 Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra;
40 E, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa;
41 E, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas.
42 Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes.

O homem sempre está reivindicando seus direitos. É muito comum vermos pessoas iradas por querer fazer prevalecer seus direitos. O coração humano traz em suas entranhas um espírito retaliatório, vingativo e malévolo. E isto é parte da maldição do pecado, está aí em todos nós.

Fabricamos heróis fictícios, fortes, durões e corajosos para que expressem o tipo que não deixa de retaliar com perfeição a ofensa. E a sociedade os admira. Mas, quando vemos um homem manso, perdoador, misericordioso e que não exige nada de ninguém, o vemos como um fracote e covarde.

Basicamente as pessoas admiram aquele que “não leva desaforo para casa”. Isso é parte da natureza humana, para que as pessoas saibam que não podem fazer algo com você. Basicamente, esse era o mal-entendido judaico sobre “olho por olho, dente por dente”. Era assim que estava sendo aplicado no tempo de Jesus. Tornou-se uma licença de vingança, uma espécie de permissão bíblica para revidar. Porém, Jesus desconserta a todos dizendo: “Se qualquer te bater na face direita, ofereça-lhe também a outra”.

Isso é um assombro para o mundo dos homens, ainda mais nesta época onde todos estão esbravejando por aí por seus direitos. E quando as pessoas começam a viver com base em seus direitos, então um egoísmo dominante ocupa a cena principal. Quando você tem um monte de pessoas egoístas, elas irão invariavelmente pisar umas nas outras. É assim que vive a sociedade caída.

C.S. Lewis descobriu que a ideia da necessidade de ter direitos, ou da luta para obtê-los, é tão verdadeira no coração humano que ele usou essa ideia como base de seu argumento para a lei moral no Universo em seu livro Mero Cristianismo. Cada um de nós tem essa necessidade e temos também um senso de justiça, que acredito que seja por termos sidos feitos à imagem de Deus. Mas com a Queda, esse senso de justiça se tornou pervertido, transformando-se num espírito vingativo. Não é tanto a ideia de que, se alguém fizer algo errado, querermos que seja estabelecido o direito, para defesa da lei e manutenção de um padrão justo para com Deus, que define o padrão justo, a fim de que Ele possa ser glorificado. Mas, vai além disso: queremos ficar quites com o agressor, mais num sentido vingativo do que de simples estabelecimento da justiça. Essa é a perversão de uma justiça moral dada a nós por Deus na Criação.

Em vez disso, nós temos um espírito de retaliação. E é disso que Tiago trata, dizendo: “De onde vêm as guerras e pelejas entre vós? Porventura não vêm disto, a saber, dos vossos desejos…”. Porque o desejo normal pela justiça está contaminado pela vingança, apreensão, retaliação. E é por isso que temos guerras. Então, em nossa sociedade, todos lutam por seus direitos, esta é a bandeira do homem moderno. Eu ouvi pais dizerem: “É mais fácil dar ao meu filho o que ele quer do que tentar discipliná-lo”. Basicamente, é o que a sociedade diz. Contrastando com a luta pelos direitos, em I Coríntios 9, Paulo diz, em outras palavras:

Eu sou ministro do Evangelho, não tenho direito de ter meu sustento fazendo apenas isso? Eu tenho que trabalhar fora do ministério para me sustentar? Não tenho direito de ter uma esposa, uma família? Não tenho direito a essas coisas?.

E então ele diz:

Ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho. Mas eu de nenhuma destas coisas usei, e não escrevi isto para que assim se faça comigo; porque melhor me fora morrer, do que alguém fazer vã esta minha glória (I Coríntios 9:14).

Em outras palavras, Paulo está dizendo: “Minha vida se resume a renunciar meus direitos”. Olhe para Romanos 14-15, Paulo dá uma série de recomendações que se opõe a tudo que naturalmente o homem natural faz, veja algumas:

Sigamos, pois, as coisas que servem para a paz e para a edificação de uns para com os outros. Bom é não comer carne, nem beber vinho, nem fazer outras coisas em que teu irmão tropece, ou se escandalize, ou se enfraqueça. Portanto cada um de nós agrade ao seu próximo no que é bom para edificação. Porque também Cristo não agradou a si mesmo (Romanos 14:19,21 e 15:2-3).

Temos direitos, mas nossos direitos podem ser ofensivos para outra pessoa. Se pusermos nosso direito acima de tudo, destruiremos tudo ao nosso redor. E isto aniquilaria a lei. Esta é precisamente a questão sobre a qual nosso Senhor trata em Mateus 5:38-42. Ele contrasta a ética de Seu Reino – que é a ética do homem perdoador, que não busca nada, não vive se defendendo, nem buscando autoproteção e não vive fundamentado em seus próprios direitos – com um espírito de desforra, retaliação, ira, vingança e ódio, tal como vive a sociedade.

Sempre que estive no monte das “bem aventuranças” imaginei Jesus ensinando a uma vasta multidão, seus discípulos bem próximos e, na frente Dele, os fariseus e os escribas, que se achavam os melhores homens.

Jesus estava falando diretamente contra o entendimento desenvolvido pelos escribas e fariseus. Eles acreditavam que tinham alcançado a autojustiça por seu próprio mérito. Eles acreditavam que podiam entrar no Reino de Deus com base em sua própria justiça, que tinham alcançado um padrão de excelência pela lei, por legalismo e por ritualismo. Eles mascararam a realidade de sua pecaminosidade. Então Jesus está ocupado, no Sermão do Monte, a arrancar suas máscaras, expondo suas hipocrisias, para que eles se vejam como pecadores infelizes.

Você diz: “Isso não é muito cruel?”. Não, a coisa mais amável que você pode fazer por alguém é mostrar-lhe seu pecado, para que ele saiba que precisa de um Salvador. Ninguém virá a um Salvador, a menos que saiba que precisa de um.

Então, Jesus rasga suas máscaras para que possam ver o pecado. Como já vimos nos sermões anteriores, Jesus já havia lhes mostrado, ao contrário do que eles pensavam, que eles eram assassinos, adúlteros e mentirosos. E agora, Ele vai lhes mostrar que, apesar do que eles pensavam, a vingança e rancor enchia o coração deles. Jesus está reiterando o padrão de Deus para eles e dizendo: “Vocês estão aquém desse padrão!”.

Esta passagem levou a alguma confusão nas mentes de muitas pessoas. As pessoas usaram esta passagem para provocar uma descrença na justiça e no Direito positivado, as leis escritas. Tolstoi, o grande romancista russo, usou o Sermão do Monte e essa passagem que estamos vendo, para dizer que não deveria haver polícia, nem exércitos, nem soldados e nem autoridades na sociedade. E muitos acham que ele foi um grande escritor. Isso parece ridículo e, de fato, é ridículo.

Esta passagem confundiu muitas pessoas. Não seremos capazes de analisá-la por completo apenas neste sermão. Continuaremos na próxima vez. Mas vou estabelecer as bases, e espero que isso o ajude nesse início. Vejamos os mesmos três pontos que vimos em todas essas ilustrações em Mateus 5, quando Jesus expõe o pecado dos fariseus. Primeiro, temos que observar o princípio da lei mosaica, depois a perversão do ensino judeu e, finalmente, a perspectiva de Jesus.

2. O PRINCÍPIO DA LEI MOSAICA

Olhe para o versículo 38. Ele diz aqui: “Ouvistes que foi dito”. Geralmente ao dizer esta expressão, Jesus costumava se referir à tradição rabínica e não ao Velho Testamento. Mas, neste caso, Ele está se referindo a uma porção exata do Antigo Testamento: “Olho por olho e dente por dente”. Jesus escolhe mais uma ilustração para desmascarar a falsa santidade deles. Eles mudaram a ênfase dessa parte das Escrituras e corromperam sua interpretação, como costumavam fazer com todo o Antigo Testamento.

Deixe-me adicionar esta nota de rodapé. A mensagem que vou lhe dar é muito importante porque coloca em equilíbrio e perspectiva onde a lei se encaixa na vida de um crente. A Bíblia respalda a lei e a ordem. Enquanto somos chamados a falar sobre o perdão e dar a outra face, isso não significa que seja em detrimento do que é justo e em desacordo com a lei. Veremos que existe um equilíbrio nisso.

Em toda a Bíblia, Deus exalta a lei. Deus fez a sociedade para que esta viva debaixo de leis e regras. Na verdade, se você ler os profetas menores, você ouvirá Deus, uma e outra vez, acusando Israel de ter juízes injustos, atos ilícitos e desigualdades em sua nação. A lei é algo essencial. Romanos 13:2,4 diz:

Aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. A autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal.

O governo e as autoridades são ordenados por Deus. Isso é muito claro. Se você quer saber porque Deus deu a lei, veja I Timóteo 1: 9-10, que diz:

Tendo em vista que não se promulga lei para quem é justo, mas para transgressores e rebeldes, irreverentes e pecadores, ímpios e profanos, parricidas e matricidas, homicidas, impuros, sodomitas, raptores de homens, mentirosos, perjuros e para tudo quanto se opõe à sã doutrina.

Muitas das lutas por direitos são simplesmente uma afronta à lei que Deus ordenou para preservar um padrão santo e justo. Naturalmente o homem deseja o que é contrário a natureza divina, porque o homem é mau. Não é à toa que vemos a expansão dos movimentos em prol do aborto, homossexualismo, drogas e tantos outros.

A lei foi dada para frear tudo isso. Deus deu a lei para proteger homens justos contra homens ímpios; para guardar a perfeita justiça em detrimento da perversidade. Em nenhum momento devemos evitar a lei. Há quem diga que Jesus nos ensinou que devemos nos livrar de toda a lei. Este é um pensamento errado. Deve haver lei! [Clique aqui e leia 4 sermões de John MacArthur sobre Jesus e a Lei].

Você deve está pensando isto:

Se quisermos perdoar, temos que dar a outra face para ser esbofeteada, nunca nos defendermos. Se alguém nos processar, não devemos lutar contra ele, mas lhe dar razão e entregar tudo que temos. Se alguém quiser algo emprestado, devemos apenas emprestar e pronto, e não cobrar de volta. E se alguém comete um crime contra mim? Eu apenas digo: ‘Tudo bem amigo, você gostaria de mais alguma coisa?’. É isso que Jesus está ensinando?

Espero que você queira descobrir. Veja novamente o versículo 38. A afirmação é esta: “Olho por olho e dente por dente”. Eu ouvi as pessoas dizerem: “Rapaz, esse tipo de coisa é implacável, esse é um assunto sanguinário do Antigo Testamento”. Alguns dos antigos críticos da Bíblia diziam que havia um Deus diferente do Novo Testamento daquele que escreveu o Antigo Testamento. Eles diziam que o Deus do Antigo Testamento não é o Deus do Novo Testamento. 

Eles pensaram que o Deus do Antigo Testamento queria uma vingança, ou seja, se alguém danificar seu olho, você poderia danificar o dele também. Se alguém quebrar seu dente, você teria o direito de quebrar o dele também. Mas, é isso o que está sendo dito no Velho Testamento? Você sabe por que as pessoas interpretam dessa maneira? Porque é assim que é o coração humano. Mas, essa não é a forma como o coração de Deus é, e isso não é o que se quer dizer no Antigo Testamento quando trata de “olho por olho e dente por dente”. Deixe-me ajudá-lo.

Começando em Êxodo 20, você tem a lei de Deus basicamente codificada, sistematizada. Nesse capítulo, você tem a lei moral (os dez mandamentos), que é entre o homem e Deus. Mas, em Êxodo 21-23, você tem a lei civil. A lei moral cuidava do homem em relação a Deus; a lei civil era para cuidar das relações entre o homem e outro homem, ela ficava no âmbito de magistrados, juízes, tribunais e autoridades devidamente constituídas. Deus instituiu juízes, magistrados e autoridades para cuidar dos assuntos civis.

Agora, três vezes no Antigo Testamento é mencionada a frase “olho por olho e dente por dente” e em todas elas o contexto se refere a uma situação civil; elas se relacionam com algo que ocorre no âmbito de ação das autoridades devidamente constituídas: um juiz, um magistrado, etc. Não é uma declaração que esteja de alguma forma relacionada com relacionamentos pessoais. No entanto, é precisamente isso que os fariseus fizeram com essa frase.

2.1. AS TRÊS VEZES EM QUE O ANTIGO TESTAMENTO MENCIONA “OLHO POR OLHO E DENTE POR DENTE”:

2.1.1 PRIMEIRA MENÇÃO:  ÊXODO 21. Note o verso 21:

21 Se alguns homens pelejarem, e um ferir uma mulher grávida, e for causa de que aborte, porém não havendo outro dano, certamente será multado, conforme o que lhe impuser o marido da mulher, e julgarem os juízes.

Em outras palavras, se você fizer um mal a uma mulher grávida, (e não entraremos em todas as possibilidades, tais como poder haver dano sem que ela aborte, poder haver dano e ela venha a abortar…), o marido tinha o direito de exigir a reparação de danos, e o juiz a determinará.

Então, esta é uma situação civil. Não é vingança pessoal. Havia juízes para lidar com esses assuntos. Veja agora os versos 23 a 25 de Êxodo 21:

23 Mas se houver morte, então darás vida por vida,
24 Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé,
25 Queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe.

Observe que isto era determinado por juízes. Era um assunto civil, não era uma questão de vingança pessoal. A lei é uma restrição ao mal, e quando a justiça é promulgada de forma rápida e equitativa ela tem um grande efeito na sociedade, freando a multiplicação de crimes na sociedade. Veja os versos 26-27:

26 Se alguém ferir o olho do seu escravo ou o olho da sua escrava e o inutilizar, deixá-lo-á ir forro (livre) pelo seu olho.
27 E, se com violência fizer cair um dente do seu escravo ou da sua escrava, deixá-lo-á ir forro (livre) pelo seu dente.

Em outras palavras, no âmbito da lei civil, Deus protegeu os fracos dos fortes, os bons dos maus, dizendo: “Haverá um devido processo legal”. Não se trata de vingança pessoal, mas de uma decisão judicial. Tudo isto seguia a regra das testemunhas, não era simplesmente uma acusação sem provas.

Uma só testemunha não se levantará contra alguém por qualquer iniquidade ou por qualquer pecado, seja qual for que cometer; pelo depoimento de duas ou três testemunhas, se estabelecerá o fato (Deuteronômio 19:15).

Você vê mais uma vez o poder restritivo da lei para impedir o avanço de crimes na sociedade.

2.1.2 SEGUNDA MENÇÃO:  LEVÍTICO 24

19 Se alguém causar defeito em seu próximo, como ele fez, assim lhe será feito:
20 fratura por fratura, olho por olho, dente por dente; como ele tiver desfigurado a algum homem, assim se lhe fará.

Em outras palavras: deve haver equidade. O castigo deve ser proporcional ao crime, nunca maior que ele. Mais uma vez, o texto em destaque está em um contexto civil e não numa vingança particular.

2.1.1 TERCEIRA MENÇÃO:  DEUTERONÔMIO 19.

Em Deuteronômio 19:15-16, como já vimos, duas ou três testemunhas são requisitos necessários para se estabelecer a verdade dos fatos e sua punição. Uma testemunha apenas não valida qualquer acusação ou juízo. Mais uma vez, o contexto aqui é de um tribunal, de uma jurisdição, nada tem a ver com vingança pessoal. Veja os versos 16 a 21, a lei severa contra o falso testemunho:

16 Quando se levantar testemunha falsa contra alguém, para o acusar de algum transvio,
17 então, os dois homens que tiverem a demanda se apresentarão perante o Senhor, diante dos sacerdotes e dos juízes que houver naqueles dias.
18 Os juízes indagarão bem; se a testemunha for falsa e tiver testemunhado falsamente contra seu irmão,
19 far-lhe-eis como cuidou fazer a seu irmão; e, assim, exterminarás o mal do meio de ti;

Você sabe como se livrar do mal em uma sociedade? Dê apenas uma punição rápida para as pessoas que cometem crimes, incluindo o perjúrio (falso testemunho). Veja os versos 20-21:

20 para que os que ficarem o ouçam, e temam, e nunca mais tornem a fazer semelhante mal no meio de ti.
21 Não o olharás com piedade: vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé.

A lei exige justiça. Para a sociedade ser preservada, deve haver justiça. O tribunal não é o lugar da piedade, mas um lugar para manter alto o padrão da lei justa. Por quê? Para preservação da sociedade e para trazer temor aos corações dos homens.

Pegue um homem inatamente pecador, com uma natureza depravada, dê-lhe os seus direitos. Ele correrá imediatamente para criar o caos na sociedade. Daí surge a necessidade de que sejam estabelecidas consequências para seu mau comportamento. Eu direi a vocês, pais, comecem com seus filhos. Se não houver consequências para o mau comportamento de seus filhos, eles nunca aprenderão o que significa viver uma vida justa.

2.2. O ÂMBITO DE APLICAÇÃO DA PENA DE TALIÃO

Em todas essas passagens, você vê que a lei era para os tribunais civis. Mencionam até vários juízes e magistrados. A questão é esta: a lei nunca está sob o poder de um indivíduo. Deus sabia que isto seria um caos total, uma anarquia que destruiria a sociedade. Portanto, a intenção da lei Mosaica era controlar o pecado, neste caso, o pecado do ódio, violência e vingança.

Em nosso individualismo robusto, queremos castigar com as nossas próprias mãos. Deus tinha outro caminho a percorrer. Você diz: “Espere um minuto, John, você acabou de dizer que esta é a lei mosaica: olho por olho, dente por dente, para se manter o padrão da justiça”. Sim, está certo. Mas a aplicação dessas leis cabia totalmente aos tribunais. Mas isso não é todo o ensinamento do Antigo Testamento, e veremos isso em alguns momentos.

Esta é a intenção da lei do Antigo Testamento. Foi uma restrição à vingança inata que está em um coração maligno. “Olho por olho” não significava que a pessoa deveria perder um olho porque causou a perda do seu. Significava que a punição nunca deveria exceder à consequência do crime. No caso de um dente, seria no máximo um dente também. E geralmente o conflito era resolvido com indenização compensatória. Em outras palavras, Deus estava limitando o coração humano inato e maligno, que sempre busca ir além da ofensa.

Esta é a lei mais antiga do mundo, você sabia disso? É conhecido como “Lei de Talião”, encontrada no “Código de Hamurabi” editado no século XVIII antes de Cristo pelo rei Hamurabi, da primeira dinastia babilônica. E significava apenas uma punição proporcional ao crime. Seria um senso de justiça, mas tornou-se pervertido pelo coração vingativo do ser humano.

2.3. CARÁTER DA PENA DE TALIÃO

Não perca o ponto. Essa é uma boa lei. É uma lei que coloca o temor no coração das pessoas. Essa lei não faz nada além do bem para pessoas justas. Apenas as protege. As pessoas dizem: “Não podemos ter todas essas leis, isso nos entrava”. Não. Quanto mais rigorosa a lei, mais proteção para os justos. Elas só afetam negativamente as pessoas que devem ser afetadas negativamente por elas e, se assim não for, o mal ficará fora de controle.Deixe-me dar-lhe vários pensamentos.

  • TRATA-SE DE UMA LEI JUSTA – Em primeiro lugar, esta é uma lei justa. É uma lei justa, porque a punição deve ser proporcional ao crime. Isso não é nada mais que justiça igual para todos. Não é mais do que justiça, é igual. Deixe-me dar uma ilustração. Veja Juízes 1: 6-7, que diz:

6 Porém Adoni-Bezeque fugiu, mas o seguiram, e prenderam-no e cortaram-lhe os dedos polegares das mãos e dos pés.
7 Então disse Adoni-Bezeque: Setenta reis, com os dedos polegares das mãos e dos pés cortados, apanhavam as migalhas debaixo da minha mesa; assim como eu fiz, assim Deus me pagou. E levaram-no a Jerusalém, e morreu ali.

Essa história parece estranha. Você diz: “Por que eles fizeram isso? Ele era um inimigo, então eles cortaram os polegares e os dedos dos pés?”. Sim. Anteriormente, Adoni-Bezeque se ocupou em cortar os polegares e os dedos dos outros, então ele agora estava enfrentando a mesma coisa. Isso é uma ilustração do que era feito numa configuração do Antigo Testamento.

Se não há regras e se o temor não for semeado nos corações dos homens, eles buscarão um caminho maligno. Em nenhum momento é dito que o Senhor endossou essa tática, mas tratava-se de um ato de justiça retributiva pelo que Adoni-Bezeque fez com os outros. E a julgar pela sua confissão, parece que ele reconheceu que havia merecido isso. “Tudo o que um homem semeia”, disse Paulo, “isso também ele colherá”. Jesus disse: “Não julgue, para que não seja julgado. Como você mediu os outros, assim eles medirão você”.

  • É UMA LEI MISERICORDIOSA –  Um olho por um olho é misericordioso, porque limita a vingança. Somente a pessoa que cometeu o crime deveria ser punida e a punição deve ser proporcional ao crime. Esta lei freia a vingança humana. 
  • É UMA LEI BENÉFICAEla foi projetada para proteger os fracos dos fortes, os pacíficos dos violentos. Parece que hoje os criminosos têm mais direitos do que pessoas honestas. Nossa sociedade sofredora, tomada por crimes e violências, faria bem em reexaminar a lei do Antigo Testamento. Mas você vê, uma vez que você nega a Deus e abandona Sua Palavra, o mal se alastra na sociedade.

Os pastores precisam colocar tudo dentro da perspectiva divina. Temos que pregar sobre o caráter justo de Deus e temos que promulgar uma disciplina justa e lícita na igreja. Temos que pregar sobre o castigo eterno no inferno. Por quê? Para que o mundo saiba que há certo e errado, recompensa e consequência. Mas o liberalismo teológico parou de pregar o caráter de Deus, o inferno e o castigo eterno, e quando a igreja parou de disciplinar o pecado, a sociedade afundou de vez.

Se temos uma geração efeminada que quer abolir a pena de morte, transformar prisões em clubes de campo e flexibilizar a justiça em aberta violação à lei de Deus, talvez seja porque a igreja não proclame mais a lei de Deus, a verdade divina de forma fiel. Esse é o legado do liberalismo teológico. Limitar o mal é misericordioso e benéfico. Se não há restrição ao mal e não há punição, o mal crescerá desenfreadamente e toda a sociedade pagará o preço. Arthur Pink diz:

Os magistrados e os juízes não foram ordenados por Deus com o propósito de reformar réprobos ou degustar mimos, mas para ser seus instrumentos para preservar a lei e a ordem, e que sendo um terror para o mal (Romanos 13), eles existem para serem um vingador, para executar a ira contra aquele que faz o mal .

Ele está certo; deve haver terror contra o mal. A lei foi ignorada porque o caráter de Deus foi ignorado, porque uma sensação de castigo eterno foi ignorada, porque a igreja nem se preocupa em disciplinar mais. Pink acrescenta:

A consciência está em estado de coma. Os requisitos da justiça são sufocados. Os conceitos sentimentalistas agora prevalecem, à medida que o castigo eterno é repudiado, tácita ou, em muitos casos, abertamente. Os castigos eclesiásticos são arquivados, as igrejas se recusam a impor sanções e fecham seus olhos para ofensas flagrantes. O resultado inevitável foi a quebra da disciplina no lar e a criação de uma opinião pública que é sentimentalista e desprovida de propósitos. Os professores das escolas são intimidados por pais e filhos tolos, de modo que a crescente geração é cada vez mais permitida ter seu próprio caminho sem medo de consequências. E se algum juiz tem a coragem de manter suas convicções corretas, há um massacre contra ele.

Este é o legado que temos em nosso país. Então, Jesus, o que quer que Ele diga, irá defender a lei do Antigo Testamento. Ele não irá evitá-la ou mudá-la. Se Deus disse: “A lei é justa, misericordiosa, benéfica e tem um motivo para ser”, Jesus não mudará isso. Por quê? Porquanto Jesus disse: “Nem um jota ou til da lei passará até que tudo seja cumprido. Qualquer um que quebre o menor desses mandamentos, ou ensina alguém a fazê-lo, é o menos no Reino dos Céus”. Ele disse: “Não vim destruir a lei, mas cumpri-la”. Então, o que Ele está fazendo aqui quando diz: “Mas eu, porém, vos digo”, não é evitar a lei, mas esclarecer o que Deus quis dizer. Jesus falava por Deus.

2.4. NOSSA ATITUDE DIANTE DO ERRO

Como eu disse anteriormente, essa não é toda a lei do Antigo Testamento; Há muito mais. A lei deve ser mantida, a justiça deve governar, deve haver um senso correto de justiça. Mas, por outro lado, qual deve ser a nossa atitude? Na operação da justiça, odiamos o criminoso? Sentimos vingança, amargura e despeito? Ouça o que o Antigo Testamento, em Levítico 19:18, dentro da lei de Moisés:

Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor.

Você nunca deve sustentar o rancor, nunca se vingar. Se houver um crime cometido, então você deve procurar a Justiça para que ela faça seu trabalho, porque isso preserva a sociedade e exalta Deus, que escreveu a lei. Mas seu coração deve estar cheio de perdão e amor, como Jesus disse: “Amai os teus inimigos e fazei bem àqueles que te fazem mal e te perseguem”. É por isso que Provérbios 25:21-22 diz:

21 Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe pão para comer; e se tiver sede, dá-lhe água para beber;
22 Porque assim lhe amontoarás brasas sobre a cabeça; e o Senhor to retribuirá.

Aqui está se falando de um inimigo real, e não apenas de um sujeito que está causando algum incômodo. Esta se falando de alguém que vem matar sua família, um inimigo sério. E essa, decididamente, não é a reação natural do homem caído.

O Antigo Testamento diz: Se o teu inimigo estiver com fome, dê-lhe pão para comer, e se tiver sede, dê-lhe água para beber. Mas também diz: Se ele cometeu um crime, leve-o a juízo, aos juízes, para dar-lhe a devida punição por seu crime.

Provérbios 24:29 diz: “Não diga: Como ele me fez a mim, assim o farei eu a ele”. Não diga isso. Isso é vingança. Na cruz, diante de seus assassinos, Jesus clamou: “Pai, perdoa-os, perdoa-os”. Jesus sabia que a justiça seguiria seu curso, que aqueles homens iriam para o fogo eterno se não experimentassem um verdadeiro arrependimento. E, no entanto, seu coração era um coração de perdão.

Então, quando pego um assassino de um filho, devo perdoá-lo no amor de Cristo, devo falar sobre Cristo, devo alimentá-lo. Por outro lado, devo deixar que a Justiça siga o seu curso, para defender o padrão divino. Mas não posso dizer: “Eu vou fazer com ele como ele fez comigo”.

3. A PERVERSÃO DO ENSINO JUDEU E A PERSPECTIVA DE JESUS

Este é precisamente o ponto, amado. Passamos ao segundo pensamento, e só vou mencionar isso, e então vamos fechar, continuaremos na próxima vez. Os fariseus haviam pervertido essa grande verdade e a transformaram em um princípio de vingança pessoal. A ênfase deles estava totalmente errada. Eles retiraram esta lei dos tribunais e a tornaram como uma legitimação à vingança pessoal. E usaram isso para justificar os corações cheios de ódio. Jesus está dizendo a eles: “Você não é justo. Se você fosse justo, não seria vingativo”. Eles apreciavam um espírito de retaliação.

Você diz: “John, como você encontra este tipo de equilíbrio, como você pode defender a lei de Deus e ainda ser livre em seu coração para perdoar?”. Eu lhe direi de uma forma simples: A única pessoa que não é defensiva, não protetora, não venenosa, sem rancor, sem desejo de vingança em seu coração, é a pessoa que morreu para si mesma. O que há para defender? Se eu morri para mim mesmo, de que vou me defender? Mas se eu lutar pelos meus direitos, então provarei o ponto em que o meu “eu” está no trono governando.

Jesus morreu para si mesmo no sentido de que Ele se abandonou à vontade do Pai. Paulo se abandonou à vontade do Pai e morreu para si mesmo, de modo que ele disse: “se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. De sorte que, ou vivamos ou morramos, somos do Senhor” (Romanos 14:8). Ele sabia o que era dizer “eu morro diariamente”. Se Paulo tivesse vivido para si mesmo, ele teria passado por sua vida defendendo-se contra seus críticos; ele nunca o fez. Você vê, o egoísmo é defensivo, protetor, vingativo, rancoroso e reacionário. Então, se quisermos ter a atitude que Jesus pede que tenhamos, temos que morrer para nós mesmos.

Se você ocupa alguma posição de liderança e é criticado por todos, mas nunca tem uma resposta vingativa ou uma palavra maligna em resposta, você está manifestando o espírito que Cristo. Se alguém matar meu filho, se eu já morri para mim mesmo, defenderei a lei para a glória de Deus, mas não vou atacar o assassino com base na minha ira e vingança pessoal. Não vou ser dominado por uma vontade de fazer com ele o que ele fez como meu filho.

O coração do assunto, então, é entender o que significa morrer para si mesmo. Quando você é desprezado, ridicularizado e desconsiderado, mas se recusa a deixar que qualquer rancor ou desejo de se defender tome conta de você, e leva tudo em um espírito paciente e amoroso, você está tendo uma atitude de quem morreu para si mesmo. O mesmo acontece se há um contentamento dentro de seu coração em meio a qualquer circunstância.

Quando você nunca se preocupa em se referir a si mesmo em conversas, nunca busca registrar suas próprias boas obras, nunca busca elogio dos outros, nunca busca propaganda de sua pessoa, está morrendo para si mesmo.

Quando você pode ver seu irmão prosperar e pode se alegrar honestamente com ele em espírito e não sentir inveja, nem questionar Deus, enquanto suas próprias necessidades são grandes e suas circunstâncias desesperadoras, isso é morrer para si mesmo.

Quando você pode receber a correção e repreensão de alguém abaixo de sua posição ou conhecimento, e pode receber isto com muita humildade, sem qualquer sentimento negativo no coração, está morrendo para si mesmo.

Faça uma pergunta a si mesmo: “Eu permaneço morto para mim mesmo?”. Se buscarmos conhecer o equilíbrio entre manter a lei de Deus em uma sociedade maligna e derramar um coração cheio de perdão e amor, vazio de qualquer vingança, qualquer egocentrismo, será quando aprenderemos o que Jesus quis dizer quando disse: “Se alguém for meu discípulo, negue-se, tome a sua cruz diariamente e siga-me”. Vamos orar juntos.

Penso, pai, nas palavras do apóstolo Paulo, cuja grande oração foi: “Para que eu possa conhecê-Lo, tornando-me conforme a Sua morte”. Aprendemos com os sofrimentos de Jesus Cristo como Ele reagiu em Seu coração, perdoando os próprios algozes. Sendo injuriado, Ele não revidou, apenas derramou o Seu amor.

Pai, que esse espírito esteja em nós, que morramos para nós mesmos, como Cristo fez, no sentido de que Ele obedeceu à Tua vontade, mesmo na morte. Que possamos nos crucificar; possamos não sermos defensivos ou autoprotetores. Como Paulo, em I Coríntios 4, que não nos justifiquemos. Deus, ajude-nos a conhecer o equilíbrio entre abraçar a Tua lei para a Tua glória e a preservação da justiça na sociedade, e ter corações de perdão, mesmo para com as pessoas que quebram essa lei, mesmo que elas ajam contra nós e nos firam. Ensina-nos a morrer para nós mesmos e a viver para Ti. Oramos pela glória de Cristo, Amém.


Esta é uma série de 5 sermões sobre Mateus 5: 38-48, conforme links abaixo:


Este texto é uma síntese do sermão “An Eye for an Eye, Part 1”, de John MacArthur em 12/08/1979.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/library/sermons-library/2223/an-eye-for-an-eye-part-1

Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno


 

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1 Resultado

  1. Anônimo disse:

    Que palavra do céu!!

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