Cristo e a Lei (1)

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Este é o  primeiro de uma série de 4 sermões de John MacArthur sobre Mateus 5:17-20, com o tema “Cristo e a Lei”. Veja os links no final deste texto.


Hoje iniciaremos um estudo sobre Mateus 5:17-20, uma das mais maravilhosas passagens da Escritura.

17 Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir.
18 Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra.
19 Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no reino dos céus.
20 Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus.

1. A SOCIEDADE SEM ABSOLUTOS

Em um livro recente intitulado “The Interaction of Law and Religion” (A interação da Lei e da Religião), de Harold J. Berman, um dos professores mais destacados de direito da Universidade de Harvard, há uma tese muito significativa. Sua tese no livro é que a cultura ocidental teve uma enorme perda de confiança na lei e na religião. Ele vê que uma das causas é a separação radical entre ambas e sua conclusão é que você não pode ter lei, nem regras de comportamento, sem religião, porque é a religião que fornece a base absoluta para a moral e para a lei.

Ele não é cristão, mas, certamente, temos que concordar com sua tese. Ele teme que a cultura ocidental esteja condenada ao relativismo por causa da perda de um absoluto. Nós nos separamos da religião, do conceito de Deus, da verdade absoluta e, portanto, estamos presos ao relativismo existencial, quando se trata de fazer leis. Ele diz que a lei e a religião permanecerão unidas ou a lei e a religião cairão juntas. A lei sem religião não está revestida de autoridade, do poder de comando. Deve haver um valor transcendente, um absoluto super-racional.

Em seu livro, ele cita o professor Thomas Frank, da NYU: “A lei tornou-se um processo humano pragmático e indisfarçado. É feito por homens, e não reivindica a origem divina ou a validade eterna”. Isso leva o professor Frank à visão de que “um juiz em um tribunal, que profere uma decisão, não propõe uma verdade, mas sim sugere a solução de um problema. Se sua decisão for revertida por um tribunal superior, ou se for subsequentemente anulada, isso não significa que foi errada, só que foi ou se tornou, com o passar do tempo, insatisfatória”. Frank afirma:

Tendo fugido da religião, a lei agora é caracterizada pelo relativismo existencial. De fato, agora é geralmente reconhecido que nenhuma decisão judicial é definitiva, que a lei segue o evento, não é eterna ou certa, é feita pelo homem e não é divina ou verdadeira. Se a lei é meramente um experimento, e se as decisões judiciais são apenas intuições, por que indivíduos ou grupos de pessoas deveriam observar essas regras ou comandos legais se estas não estiverem em conformidade com seus próprios interesses?.

Ele tem razão. Por que estou citando tudo isso? Para dizer-lhe isso: estamos nos esforçando, em nossa sociedade, por ter regras sem um absoluto. Tribunal após tribunal derrubam decisões. Quando você abandona Deus e a teologia, você abandona a verdade. Tentar fazer leis sem verdade ou sem um valor final é impossível. Você não pode construir um sistema jurídico consistente sobre o humanismo filosófico, um princípio flutuante e mutável do que é certo e do que é errado.

Na última edição da Revista Esquire, há um artigo de Peter Steinfels, sob o título “The Rasonable Right” (O Direito Razoável) . Ele diz: “Como os princípios morais podem ser fundamentados e as instituições sociais, em última instância, legitimadas, na ausência de uma cultura religiosa?”. A resposta é que não podem. Assim, algumas pessoas seculares estão levantando esta questão: se não há verdade absoluta, nem palavra absoluta, nem um Deus que define o padrão, então não pode haver lei real. Você nunca conseguirá que as pessoas mantenham leis que são apenas suposições judiciais.

2. O ABSOLUTO DE DEUS 

Então nos perguntamos: Qual é a fonte absoluta da verdade? Qual é o padrão absoluto da moral? Qual é a regra absoluta da justiça? Onde essa sociedade doentia, flutuando em um mar de relativismo, encontra sua âncora? Essa é a questão. Existe um padrão para viver? Existe uma autoridade absoluta? Existe uma autoridade imutável e uma lei inviolável?

Em Mateus 5: 17-20, vemos que, de fato, existe. Essa lei não é outra senão a lei de Deus. Jesus disse que nem um jota ou til passará dessa lei até que tudo seja cumprido. Ele não veio revogar qualquer partícula da lei ou por de lado qualquer mandamento, mas veio cumpri-la. Em outras palavras, Deus estabeleceu uma lei absoluta, eterna e permanente. Em João 17:17, Jesus disse ao Pai: “A tua palavra é a verdade”.

Uma senhora, editora de uma revista, me disse: “Parece-me que você não percebe que os tempos mudaram. A Bíblia não se encaixa mais hoje”. Eu respondi: “Você falou de forma errada. O problema é que o ‘hoje’ é que não se encaixa na Bíblia, e quem está errado é o ‘hoje’ e não a Bíblia”.

Alguém me disse, em um programa de rádio: “Essa é a sua interpretação. Todos têm sua própria interpretação e é assim que você interpreta isso”. O ponto é este: se a Bíblia confronta uma pessoa onde ela não quer ser confrontada, então nascem os argumentos: “A Bíblia está desatualizada” ou “A Bíblia precisa ser reinterpretada”.

As pessoas hoje querem reinterpretar a Bíblia, negar sua autoridade. Os capítulos que uma vez acreditamos ser escritos por Deus agora são ditos escritos por algum rabino que os adicionaram. Porções da Escritura com as quais não concordamos ou não respeitamos, simplesmente as reinvetamos. Reinterpretamos os versos para que estes digam o que queremos que eles digam. Muitos dizem: “Isso é cultural e não se relaciona com o hoje”. Jesus está dizendo que nem um jota e nem um til passarão da lei sem que cada um deles seja cumprido. Ele não aboliu ou anulou nem uma vírgula da lei. Nada mudou na Bíblia, nada!

Veremos em nosso estudo que esta é a visão de Jesus acerca da lei de Deus. Por sinal, o que Jesus pensa da Bíblia é o que eu quero pensar dela. Francamente, fico cansado do fato de que as pessoas estão constantemente revirando as interpretações históricas, as coisas que a igreja acreditou há séculos, jogando-as fora se elas entraram em conflito com o mal de hoje. Eles querem negar que a Bíblia é inerrante. Estão querendo reescrever a Bíblia para respaldar pecados.

Isso é o que está acontecendo em nossa sociedade hoje. E mais triste é que não somente a sociedade secular rejeita os absolutos bíblicos, mas, também, o chamado “cristianismo” está ocupado em negar a Bíblia. Sem uma base absoluta, não haverá um padrão de comportamento, e assim a sociedade está à deriva neste mundo, sem âncora.

Este texto que lemos é muito importante, porque nosso Senhor nos diz que temos um absoluto, temos uma autoridade inviolável. Ele disse: “A Bíblia é um absoluto”. Essa foi a sua visão, e tem que ser nossa também. Qualquer atitude diferente desta nos coloca à deriva neste mundo, sem qualquer padrão de justiça.

3. O QUE JESUS PENSAVA DA LEI DE DEUS?

Nesta passagem, Jesus apresenta o que Ele pensa acerca da Palavra de Deus. Claro, para Ele, naquele momento, a Palavra de Deus realmente era composta apenas pelo Antigo Testamento. Então, esta é a perspectiva de Jesus sobre o Antigo Testamento. Queremos fazer algumas perguntas interessantes. Jesus disse que nada passaria sem que fosse cumprido.

Imediatamente, dizemos: “O Velho Testamento é obrigatório para o cristão? O que dele é vinculativo para o cristão? O Antigo Testamento exerce comando totalmente sobre nós? Devemos cumprir todas essas coisas? Quão importantes são todas esses preceitos? ” Estas são questões vitais, e estudantes da Bíblia e estudiosos lutaram com elas durante anos e anos, e penso que aqui Jesus nos dá uma resposta maravilhosa. Você pode entender, e você verá isso enquanto nos movemos no texto.

Deixe-me definir o cenário para você. Cristo apareceu em Israel. Ele apareceu de forma repentina, surpreendentemente, de forma dramática. Durante 30 anos, Ele esteve lá, mas ninguém sabia disso. Ele estava na obscuridade em Nazaré, mas, de repente, em Seu batismo, Ele entrou em cena. Antes Ele havia feito pequenas viagens e atraiu muita atenção. Mas, assim que ele apareceu em público e foi batizado, os olhos de todos se voltaram para Ele. Mesmo os líderes de Israel tiveram que se concentrar nEle, olhar para Ele, ouvi-Lo e observá-Lo.

É claro que a Sua mansidão e a bela humildade O tornaram facilmente distinguível do resto dos líderes em Israel, que eram orgulhosos, hipócritas e buscadores de glória dos homens. Seu chamado ao arrependimento, proclamação do evangelho e anúncio de um Reino fizeram com que as pessoas O ouvissem. Essas pessoas se questionavam: “Que tipo de governante é esse? Que tipo de profeta é esse?” Jesus era muito diferente…

Você vê, a questão é que Jesus não Se parecia com os escribas e fariseus. As pessoas se questionavam se Ele era realmente um profeta do Antigo Testamento ou não. Jesus não ecoou a teologia existente em Israel. Ele Se recusou a Se identificar com algumas das seitas judaicas daquela época. Sua pregação era muito diferente da religião organizada. As pessoas estavam inclinadas a pensar que Ele pretendia subverter a autoridade da Palavra de Deus e substitui-la pela Sua própria. Ele lançou fora todas as tradições dos homens, todas as regras estranhas e legalistas. Ele pôs ênfase no homem interior, na moral interna. Ele era um amigo de pessoas desprezadas e estigmatizadas.

Ele proclamou graça e dispensou misericórdia, e as pessoas pensaram: “Isso é uma novidade revolucionária? Quer dizer, Ele não se parece com os escribas e os fariseus…”. Então, eles estavam se perguntando: “Ele está revogando o Antigo Testamento? Ele está destruindo todos os absolutos da Lei Mosaica? Ele está lançando as bases para algo novo?”. Afinal, é o caminho da maioria dos líderes revolucionários cortar todos os laços com o passado e fazer tudo o que puder para rejeitar completamente as tradições anteriores.

Por sinal, durante muito tempo em Israel, havia certas pessoas que acreditavam que o Messias faria exatamente isso. Havia alguns que acreditavam que o Messias mudaria radicalmente o Antigo Testamento. Era uma espécie de anti-fariseus. Eles estavam pensando: “Talvez seja esse. Talvez Ele traga mudanças radicais e derrubará a antiga ordem da religião legalista”. Então, eles estavam se perguntando: “Este mestre crê nos escritos sagrados? Ele acredita em Moisés? Ele acredita nos profetas e na lei em toda a sua plenitude?”.

Todos os escribas e fariseus estavam sempre expondo a lei, mas Jesus não fazia isso. Ele estava ocupado falando sobre graça e piedade. Os fariseus e os escribas estavam ocupados em vincular a lei sobre as pessoas, falar do exterior, enquanto Jesus Se ocupava com o perdão e o homem interior. Jesus estava implodindo tradições legalistas. Claro, as pessoas se questionavam: “O que quer dizer tudo isto?”.

Aqui mesmo, Jesus coloca tudo em perspectiva. O que Ele diz, de fato, é isso: “Isso não é nada novo. Eu vou reiterar a você e eu vou cumprir toda a lei do Antigo Testamento. Não vou deixar de lado um jota ou um til da lei até que tudo seja cumprido”. Assim, o manifesto surpreendente do rei está em confronto direto com o pensamento dos escribas e fariseus. Jesus não reduziu o padrão da lei, ao contrário, ele o elevou..

O que aconteceu foi o seguinte: o pensamento deles era que o padrão da lei era muito alto, que alguém teria que diminuí-lo. Eles transformaram uma lei interna em algo externo. Mas Jesus iria levá-la de volta para o interior do homem. Na verdade, Jesus teve um compromisso maior com a lei de Deus do que o escriba ou fariseu mais escrupuloso. Então, Ele prossegue nesta passagem para apoiar a autoridade de todo o Antigo Testamento.

Perturba-me quando as pessoas não leem, estudam ou conhecem o Antigo Testamento. É o fundamento do Novo Testamento. É muito importante, e Jesus está apoiando o Antigo Testamento. Na verdade, Ele diz: “Eu não sou o que nega o Antigo Testamento, mas os líderes judeus o negam”. Esse é o cenário histórico.

Em certo sentido, Mateus 5: 17-20 flui do que foi dito antes. Nos versículos 3-12, temos as bem-aventuranças. Você lembra que é uma lista das características de um filho de Deus, de quem vive no Reino, de um crente, dos que são filhos do Reino. Nos versículos 13-16, somos informados sobre como devemos viver.

Então, Jesus entra em cena e em Seu primeiro sermão, Ele diz: “Se você está no Meu Reino, você é assim e age assim”. Imediatamente, a questão surge: “Não é fácil enquadrar-se nas bem-aventuranças e ser sal e luz. Como podemos ser assim? Como podemos viver desse jeito?”. A resposta vem imediatamente no versículo 17: “Você deve manter-se na Palavra de Deus”.

A Palavra de Deus, então, torna-se o padrão da justiça. A Palavra de Deus dá as orientações, os princípios, os requisitos. Como podemos realmente viver uma vida justa, como podemos viver as bem-aventuranças, como podemos ser sal e luz? Certamente, não reduzindo o padrão,  não deixando a lei de Deus e nem dizendo que ela não é mais o padrão divino. Como podemos viver como sal e luz? Como podemos ser tudo o que temos que ser? Mantendo os princípios de Deus de obediência absoluta a autoridade absoluta da Palavra de Deus.

Então, o Senhor apresenta esse pensamento aqui: a chave para uma vida justa é manter-se na Palavra de Deus. Por isso que em Mateus 5:20 Ele diz: “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus”. Por quê? A justiça deles era externa e baseada nas tradições dos homens. A de Jesus era interna e baseada na lei eterna de Deus. Essa é a diferença.

4. JESUS REAFIRMOU A LEI E ENSINOU SEU VERDADEIRO SENTIDO

Então, se quisermos ser sal e luz, devemos ser verdadeiramente justos. A única maneira de ter uma verdadeira justiça é ir além da falsa aparência dos escribas e fariseus para uma justiça interior que só é construída em nós pelo poder e autoridade da Palavra de Deus. Assim, a Palavra de Deus é a base para um padrão justo, e Deus nunca mudou. Quando Jesus veio, Ele não revogou o Antigo Testamento, Ele apenas reafirmou seu caráter absoluto e vinculativo.

As pessoas dizem: “Por que Jesus disse ‘Ouvistes que foi dito aos antigos e Eu, porém, vos digo’ no sermão do monte?”. Ele não está alterando nada, apenas reafirmando a intenção original de Deus, porque os rabinos tinham pervertido o Antigo Testamento. Jesus eleva o padrão de volta para onde Deus havia colocado inicialmente. Jesus está dizendo: “Aqui está o absoluto, este é o padrão para a justiça”. Há quatro pontos, colocados por Jesus, acerca da lei: a preeminência da lei, a permanência da lei, a pertinência da lei e o propósito da lei.

Esses versos são carregados de verdade, cheios de verdade. Esta é a visão de Jesus acerca da Escritura. Tudo o que Jesus pensou da Bíblia é o que eu penso. Veremos hoje a preeminência da lei. Em Mateus 5:17, Jesus diz: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir”. Para Jesus, a lei de Deus, a Escritura de Deus, a Palavra de Deus era absolutamente preeminente, primeiro lugar, inigualável.

Ele começa com um alerta: “Não pense”, e é exatamente isso que eles estavam pensando. Eles estavam pensando: “Oh, bem, Ele está aqui e vai colocar de lado a lei e os profetas”. Mas Jesus diz exatamente o oposto do que eles pensavam. Alguns escritos judeus diziam que muitos dos judeus esperavam que o Messias anulasse a lei. Eles interpretaram mal Jeremias 31:31, onde diz: “Eis que eu farei uma nova aliança“, e eles pensaram que a nova aliança anularia tudo o que Deus estabeleceu na antiga, mas eles estavam errados.

Eles viram Jesus romper com tradições rabínicas, violar o sábado – o sábado segundo a interpretação da religião organizada – e interpretar a lei escrita diferente dos mestres religiosos. Assim, eles viram incorretamente que Jesus estava se voltando contra o Antigo Testamento. Em nenhuma hipótese o evangelho de Cristo foi um rebaixamento do padrão da Antiga Aliança. Jesus elevou tanto a lei e o Antigo Testamento que acabou expondo todos os fariseus e os escribas como hipócritas.

Em Mateus 5:20, Jesus diz: “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus”. Em Mateus 6:1, Jesus diz: “Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte, não tereis galardão junto de vosso Pai celeste”. Em Mateus 6:5, Ele diz: “E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens”. No verso 16, Ele diz: “Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam”. Em outras palavras: “Seja qual for a sua justiça, deve estar no interior e no exterior. Não busque a hipocrisia de uma religião externa. Ela é falsa”.

Em Mateus 15, Ele diz essencialmente a mesma coisa. Na verdade, Mateus repete muito isto: “Então vieram a Jesus os escribas e fariseus”. No versículo 7-9, Jesus diz: “Hipócritas! Bem profetizou Isaías a vosso respeito, dizendo: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens”.

Mateus 16:1 diz: “Aproximando-se os fariseus e os saduceus, tentando-o, pediram-lhe que lhes mostrasse um sinal vindo do céu”. No verso 3, Jesus responde: “Hipócritas, sabeis discernir a face do céu, e não conheceis os sinais dos tempos?”. Em Mateus 22:17, os fariseus perguntam a Jesus: “É lícito pagar tributo a César ou não?”. Jesus, sabendo das intenções deles, responde: “Por que me experimentais, hipócritas?”. Em Mateus 23, Jesus chama os escribas e fariseus de hipócritas nos versos 13, 14, 15, 25, 27 e 29.

Se o padrão de Deus é exposto em sua grandeza, tudo que é falso é desnudado. Foi o que Jesus fez. Ele expôs o padrão divino de justiça e escancarou a hipocrisia e a falsidade.

Voltemos a Mateus 5:17, onde Ele diz: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir”. Ele diz: “Eu não vim revogar”. A palavra grega pode ser traduzida como “destruir, anular”. É usada, em um sentido físico, de quebra ou destruição de um edifício ou de um corpo. Aqui, no sentido espiritual, Ele diz que não veio destruir a lei, o Antigo Testamento.

Figurativamente, a mesma palavra grega é usada em Romanos 14:20 e Atos 5:38 para significar “tornar inútil, anular, revogar, desautorizar”. Jesus disse: “Não vim fazer isso, mas vim cumprir a lei”. Se você puder captar um pouco do que vou dizer agora, acho que abrirá toda a compreensão do Antigo Testamento, de uma maneira que você nunca experimentou em sua vida: para o nosso Senhor Jesus Cristo, a Nova Aliança não descartou a Antiga Aliança, não a anulou, mas a Velha aliança foi cumprida. Ele não veio derrubá-la, mas cumpri-la. Isso é muito diferente, e o que nosso Senhor diz é que a lei é preeminente; nada supera ou toma seu lugar. E Ele dá três razões neste verso.

OS 3 MOTIVOS DA PREEMINÊNCIA (SUPREMACIA) DA LEI

1. A LEI É DE AUTORIA DE DEUS

“Não pense que eu vim destruir a lei”, e ele usa o artigo definido “a”. Eles sabiam sobre qual lei Ele se referia: a lei que foi escrita por Deus. Em Êxodo 20, onde Deus primeiro estabeleceu o Decálogo, Os 10 Mandamentos, Ele começa dizendo: “Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim” (v. 2-3). É assim que Ele começa: “Eu sou o autor da lei”, “Eu sou o Senhor teu Deus”, “Eu Sou Único Deus, por isso essa lei será a única”.

Em Malaquias 3:6, Deus disse: “Porque eu, o Senhor, não mudo”. Portanto, a lei de Deus não é algo sujeito a mudança por causa da opinião humana e nem foi projetada para atender aos caprichos de uma sociedade caída. A lei de Deus não é algo que você molda de acordo com seu pecado. A lei de Deus nunca muda. Ela é o padrão de Deus.

Por isso Ele começa dizendo: “Eu Sou o Senhor teu Deus, não tenha outros deuses diante de mim”. Este é um padrão intransigente baseado no fato de que Ele é o soberano absoluto. Ele não é um ídolo obscuro ou a divindade remota, mas este é o Deus santo, único do Universo. Sua lei ainda é a mesma. A natureza de Deus é inalterável, Suas leis permanecem. Deus não evoluiu e melhorou Sua lei, Ele é eternamente perfeito, assim como é a Sua lei.

1.1 QUANDO JESUS FALAVA “LEI”, A QUE ELE SE REFERIA?

Vamos ser específicos sobre a lei. A respeito de que Jesus se refere? Muitas pessoas discutiram isso. Jesus usa o termo “lei” de uma maneira bastante abrangente. Quando os judeus usavam isso no tempo de Jesus, eles tinham quatro ideias, quatro possibilidades.

Em primeiro lugar, às vezes eles usavam o termo “lei” para se referir aos Dez Mandamentos. Em segundo lugar, às vezes eles usavam a palavra para se referir ao Pentateuco, ou os cinco livros de Moisés. Em terceiro lugar, às vezes eles usavam a palavra para falar de todo o Antigo Testamento. Mas, em quarto lugar, geralmente, quando usavam a palavra “lei”, eles não estavam falando dos Dez Mandamentos, do Pentateuco e nem de todo o Antigo Testamento, mas sobre as tradições orais e escritas que eles receberam de vários rabinos. Sobre isto Jesus disse: “E assim invalidastes, pela vossa tradição, o mandamento (a lei) de Deus”.

Você diz: “Como eles podiam fazer isso?”. O uso mais comum do termo “lei” entre os judeus no tempo de Jesus se referia às inúmeras regras rabínicas. Enquanto a lei de Deus dizia respeito ao homem interior, as inúmeras regras rabínicas tentavam montar uma aparência exterior, procurando convencer o homem de que estava tudo bem. Os escribas escavaram o Antigo Testamento para deduzir o que seria possível e daí fizeram um monte de regras, muitas delas até engraçadas.

Deixe-me dar uma ilustração. Por exemplo, a lei do Antigo Testamento havia dito que você não poderia trabalhar no sábado. Mas eles disseram: “Tudo bem, se não podemos trabalhar no sábado, o que é trabalho?” Eles tiveram que determinar o que é o trabalho, então eles decidiram ter um estudo sobre o que é o trabalho.

Eles decidiram, em primeiro lugar, que o trabalho era carregar um fardo. Então, você não poderia carregar um fardo no dia do sábado. Então, eles disseram: “O que é um fardo? Vamos decidir o que é um fardo”. A lei dos escribas dizia que um fardo seria o equivalente ao peso de um figo seco ou vinho suficiente para misturar em uma taça ou leite suficiente para uma andorinha ou mel o suficiente para colocar sobre uma ferida ou óleo suficiente para ungir um membro pequeno e etc. etc. Para eles, tudo que passasse desses limites seria um fardo.

Você pode imaginar tentar lidar com todas essas coisas? Eles passavam inúmeras horas argumentando se um homem poderia ou não levantar uma lâmpada de um lugar para outro no sábado. Eles faziam grandes discussões sobre se uma mulher poderia ou não usar um broche, pois, se fosse muito pesado, seria um fardo. Eles também tinham grandes discussões sobre se um homem poderia sair no sábado com dentes artificiais, pois a depender do peso, seria um fardo. Eles também discutiram se um homem poderia levantar seu filho no dia do sábado. Essas coisas eram a essência da religião para eles.

Eles decidiram também que escrever era trabalho no sábado, mas a escrita tinha que ser definida. Então, eles decidiram que aquele que escrevesse duas letras do alfabeto com a mão direita ou esquerda, seja de um tipo ou de dois tipos, se escritas com diferentes tintas ou em diferentes idiomas, isso seria violar o sábado. Eles também disseram que a cura era um trabalho, então, obviamente, isso tinha que ser definido. A cura era permitida quando havia perigo para a vida, e especialmente na área da orelha, do nariz e da garganta. Mas, mesmo assim, você só poderia tomar medidas para evitar que o paciente piorasse; não poderiam ser tomadas medidas para fazê-lo melhorar. Era um equilíbrio bastante difícil conseguir fazer isso na prática… Então, você poderia colocar uma bandagem simples em uma ferida, mas sem pomada e assim por diante.

Os escribas, você vê, eram as pessoas que escreveram todas essas coisas, e os fariseus foram aqueles que tentaram mantê-las. Para o judeu ortodoxo estrito do tempo de Jesus, a lei era uma questão de milhares de regras e regulamentos legalistas. Então, quando Jesus veio e disse: “Eu não vim destruir a lei”, essa não é a lei a qual Ele estava Se referindo. Jesus não estava falando sobre as tradições dos homens, Ele estava falando sobre a lei de Deus. Ele veio cumprir a lei de Deus, a lei absolutamente inviolável, uma lei que nunca mudou.

Deixe-me ajudá-lo a ver o que Jesus quis dizer com “lei” em Mateus 5:17. Pode ser que Jesus quis dizer os Dez Mandamentos, ou o Pentateuco ou todo o Antigo Testamento. Como nós sabemos?. “Não pense que eu venha destruir a lei ou os profetas”. Isso resolve. “A lei e os profetas” é uma expressão referente a todo o Antigo Testamento. Por doze vezes o Novo Testamento se refere ao Antigo Testamento como “a lei e os profetas”.

Deixe-me dar-lhe alguns sinônimos. Sempre que, no Novo Testamento, você vir os termos “lei”, “lei de Deus”, “lei e profetas”, “Escrituras” ou “Palavra de Deus”, são sinônimos do Antigo Testamento, na maioria dos casos. A menos que o contexto lhe dê uma definição mais restrita.

O que Jesus está dizendo, então, é: “Eu não vim destruir o Antigo Testamento, eu vim cumpri-lo”. Se aqueles judeus tivessem olhos para enxergar, eles teriam visto que estavam olhando cara a cara para o tema de todo o Antigo Testamento, para Aquele que era a consumação de todo o Antigo Testamento. Sobre o que se falou na lei e nos profetas estava de pé na frente deles. Ele foi o único que veio cumprir tudo.

Em Lucas 16:16, Jesus diz: “A Lei e os Profetas vigoraram até João; desde esse tempo, vem sendo anunciado o evangelho do reino de Deus, e todo homem se esforça por entrar nele”. Em outras palavras, Ele diz: “A lei e os profetas continuaram até João, mas quando João chegou, ele pregava o Reino”.

Lucas 24:27 diz: “E, [Jesus] começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras”. Ou seja, Ele expôs para eles todas as Escrituras, ou seja, a lei de Moisés e os profetas. Qual era o tema da lei de Moisés e dos profetas? Jesus.

Em Lucas 24:44, Jesus diz: “A seguir, Jesus lhes disse: São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. Ele é o cumprimento de tudo. Isso é o que Ele está dizendo em Mateus 5:17.

É um conceito tremendo, se você puder entender isso. Tudo no Antigo Testamento aponta para Cristo. Então, em suma, Jesus está dizendo aos judeus: “Eu sei o que você está pensando. Eu sei que você está pensando que vou deixar essa lei de lado, mas não é isto que vim fazer. Eu vou mostrar a grandeza dela para revelar os hipócritas. O padrão de Deus não mudou. Nenhuma parte da Sagrada Escritura jamais será destruída ou anulada. Será cumprida e Eu mesmo a cumprirei”.

É uma declaração tremenda. Que reivindicação quebrantadora, que Ele sozinho cumpriria todo o Antigo Testamento! É chocante. Aqui estava Aquele sobre quem foi escrito, aqui está o objeto de todo o Antigo Testamento. Tudo aponta para Jesus Cristo. Em sua origem ordenada por Deus, a lei não pode ser anulada. Deve ser cumprida.

1.2 AS TRÊS PARTES DA LEI

Podemos dividir a lei do Antigo Testamento em três partes. Deixe-me dar uma visão sobre isso. Deuteronômio 4:13 diz: “Então vos anunciou ele a sua aliança que vos ordenou cumprir, os dez mandamentos, e os escreveu em duas tábuas de pedra”. Este é Moisés falando com o povo. Em primeiro lugar: Deus deu os Dez Mandamentos.

Em segundo lugar, veja no versículo 14: “Também o SENHOR me ordenou ao mesmo tempo que vos ensinasse estatutos e juízos, para que os cumprísseis na terra a qual passais a possuir”. O que isso significa? Moisés, a partir dos Dez Mandamentos, sob a inspiração de Deus, desenvolveu os sistemas cerimoniais, judiciais e a totalidade do trabalho da lei na vida do povo.

Quando os profetas vieram, seu trabalho era lembrar às pessoas que a lei ainda era incumbente e obrigatória. Tudo se remonta aos Dez Mandamentos. Eles eram, então, basicamente a lei de Deus e expandiram-se nas ordenanças e estatutos que Moisés deu no Pentateuco e o resto do Antigo Testamento, os escritos dos profetas, era um pedido ao povo de que fosse obediente a esses padrões.

Podemos então dividir a lei de Deus em três partes: a lei moral, a lei judicial e a lei cerimonial. A lei moral era para todos os homens, a lei judicial era apenas para Israel, e a lei cerimonial era para o culto de Israel a Deus. A lei moral é baseada nos Dez Mandamentos, os grandes princípios morais estabelecidos uma vez e para sempre. O resto da lei moral baseia-se nisso.

A lei judicial era a lei legislativa dada para o funcionamento de Israel como uma nação, e isso é muito importante. Em outras palavras, Deus disse a Israel: “Eu quero separá-lo do resto do mundo para ser uma nação diferente e única, então você terá leis judiciais. Isso significa que vocês serão diferentes das nações ao seu redor”. Em terceiro lugar, a lei cerimonial tratava do ritual do templo e da adoração a Deus.

Você diz: “De qual lei Jesus falou?”. Ele estava falando sobre as três. Alguns dizem que Ele estava apenas falando sobre a lei moral. Mas não era isso. Ele cumpriu o todo. Tudo foi escrito por Deus, tudo é preeminente. Todos os princípios, padrões, profecias, tipos, símbolos e imagens. Tudo no Antigo Testamento foi escrito por Deus e cumprido em Jesus Cristo.

2. A LEI FOI AFIRMADA PELOS PROFETAS

Então, vemos, em primeiro lugar, que a lei é preeminente porque Seu autor é Deus. Em segundo lugar, a lei é preeminente porque é afirmada pelos profetas. Veja o versículo 17, de Mateus 5: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir”. Os profetas simplesmente reiteraram e reforçaram a lei. Às vezes, eles falavam sobre o fracasso de Israel em manter a lei moral, às vezes sobre em manter a lei judicial e a cerimonial. Muitas vezes eles falavam de juízes injustos e sacrifícios inaceitáveis.

Então, a lei é antes de tudo preeminente porque seu autor é Deus. Em segundo lugar, em todo o Antigo Testamento, ela é reafirmada pelos profetas. Na verdade, a melhor definição de um profeta que eu conheço está em Êxodo 4:15-16, o que Deus diz a Moisés sobre Arão:

E tu lhe falarás, e porás as palavras na sua boca; e eu serei com a tua boca, e com a dele, ensinando-vos o que haveis de fazer. E ele falará por ti ao povo; e acontecerá que ele te será por boca, e tu lhe serás por Deus.

Isso é o que é um profeta: uma boca para Deus. Em Jeremias 1:7, Deus diz a Jeremias: “a todos a quem eu te enviar, irás; e tudo quanto te mandar, falarás”. Assim, os profetas apenas reiteraram a lei de Deus e falaram a lei de Deus.

3. A LEI FOI CUMPRIDA POR JESUS CRISTO

Agora chegamos ao terceiro ponto. Isso é literalmente esmagador. Nós vamos desenvolver isso nas próximas semanas, à medida que atravessarmos o Sermão do Monte, então tome o máximo possível para você agora. Em primeiro lugar, a lei de Deus é vinculativa porque é de autoria de Deus. Em segundo lugar, é afirmada pelos profetas, e em terceiro lugar, foi cumprida por Cristo.

Se eu pudesse simplesmente compartilhar uma pequena parte do que está no meu coração sobre essa verdade particular, ficaria satisfeito. Quando Jesus disse: “Mas para cumprir”, no final do versículo 17, Ele estava dizendo: “Toda a lei eu cumprirei”. Ou em Sua primeira vinda, Seu retorno no Espírito, ou em Sua Segunda Vinda, Jesus cumprirá todo o Antigo Testamento de forma cerimonial, judicial e moralmente. É uma tremenda verdade! A Escritura encontra o seu pleno significado nEle.

Algumas pessoas dizem que o Antigo Testamento não está completo. Mas ele está completo. Ele é tudo o que Deus queria que fosse, uma imagem absolutamente maravilhosa, perfeita e completa do Rei e de Seu Reino. O Rei veio cumprir tudo.

Cinco vezes no Novo Testamento, Jesus afirmou ser o tema de todo o Antigo Testamento. Hebreus 10:7, João 5:39, Mateus 5:17, Lucas 24:27 e Lucas 24:44. Cinco vezes, Ele disse: “Eu sou o tema de tudo”. Em II Coríntios 1:20, o apóstolo Paulo disse: “Porque todas quantas promessas há de Deus, são nele sim, e por ele o Amém, para glória de Deus por nós”. Ele é aquele que cumpre tudo.

Escute isso. Em Gênesis 3:15, Jesus é a semente da mulher. Em Êxodo, Ele é o cordeiro da Páscoa. Em Levítico, Ele é o sumo sacerdote. Em Números, Ele é o pilar da nuvem de dia e fogo à noite. Em Deuteronômio 18:15, Ele é o profeta, como Moisés. Em Josué, Ele é o capitão da nossa salvação. Em juízes, é juiz e legislador. Em Rute, Ele é o parente redentor. Em I & II Samuel, Ele é o profeta confiável. Em Reis e Crônicas, Ele é o rei que reina. Em Esdras, é o escriba fiel. Em Neemias, é o restaurador do muro quebrado. Em Ester, Ele é o Mordecai. Em Jó, Ele é o eterno redentor. Nos Salmos, é o Senhor nosso pastor. Em Provérbios e Eclesiastes, Ele é a verdadeira sabedoria.

Em Isaías, é o Príncipe da Paz. Em Jeremias e Lamentações, Ele é o profeta que chora, lamenta. Em Ezequiel, Ele é o maravilhoso homem de quatro faces. Em Daniel, é o quarto homem na fornalha de fogo. Em Oseias, Ele é o marido eterno, eternamente casado com aquela que reincide no erro. Em Joel, Ele é o batizador com o Espírito Santo. Em Amós, é o carregador de fardos. Em Obadias, Ele é o Salvador. Em Jonas, é o grande missionário estrangeiro. Em Miqueias, é o mensageiro com pés formosos. Em Naum, Ele é o vingador.

Em Habacuque, Ele é o evangelista de Deus que suplica o avivamento. Em Sofonias, Ele é o Senhor poderoso para salvar. Em Ageu, é o restaurador da herança perdida. Em Zacarias, Ele é a fonte aberta na casa de Davi, pelo pecado e para a purificação. Em Malaquias, Ele é o sol da justiça surgindo com cura nas Suas asas. Ele é o tema do Antigo Testamento.

3.1 EM QUE SENTIDO JESUS CUMPRIU A LEI?

A questão é esta: em que sentido Jesus cumpriu a lei? Alguns dizem que Ele a cumpriu com Seus ensinamentos, que Ele a cumpriu ensinando. A lei seria um esboço e Ele completou tudo. Ele disse: “A lei diz isso, mas eu quero acrescentar isso”. Alguns dizem que Ele preencheu os espaços em branco com Seu ensinamento, que havia um código basicamente incompleto no Antigo Testamento e que precisava de novas dimensões, então Ele acrescentou. Em certo sentido, Ele expandiu e esclareceu a lei de Deus. Quando Ele enviou o Espírito, este, através dos escritores das epístolas, esclareceu ainda mais a lei de Deus. Mas essa não pode ser a verdadeira razão ou o verdadeiro significado de “cumprir”.

Jesus realmente não adicionou nada de novo à lei. Ele apenas esclareceu o significado original da lei de Deus. Deixe-me dizer-lhe isso: Jesus não veio para dar uma palestra moral. A lei não é cumprida dando palestras sobre isso ou adicionando algo a ela. É cumprida de outra forma. Então, algumas pessoas dizem que Ele a cumpriu, porque Ele conhecia as exigências da lei. É verdade que Ele cumpriu a lei moral, judicial e cerimonial. Ele adorou do jeito certo, Ele era perfeitamente justo e nunca violou a lei que Deus criou.

Em Mateus 3:15, Ele respondeu a João Batista, que não queria batizá-lo: “Deixa por agora, porque assim nos convém cumprir toda a justiça”. Em outras palavras, “Se o Antigo Testamento diz que você deve ser lavado em arrependimento, então vou ser lavado, se é o que é dito lá”. Então, Ele cumpriu todos os detalhes minuciosos da lei de Deus. Isso é verdade.  Ele fez isso, mas isso ainda não é o coração do que Ele está dizendo aqui. Há verdade em tudo isso. Ele acrescentou nova percepção à lei do Antigo Testamento. Em Mateus 5:37-40, Ele resumiu a lei maravilhosamente:

E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.

Nas epístolas, através do Espírito Santo, Ele a esclareceu e enriqueceu ainda mais. É verdade, em segundo lugar, que Ele viveu a lei em Sua própria vida, Ele manteve a lei, não há dúvida. Ele foi sem pecado, sem falhas em Sua obediência. Ele forneceu o modelo perfeito de justiça absoluta no cumprimento da Palavra santa de Deus. Mas isso ainda não chega ao ponto principal. Ainda há outro motivo.

Jesus cumpriu toda a lei do Antigo Testamento sendo seu cumprimento. Não pelo que Ele disse ou fez, tanto, mas pelo que Ele é. Você diz: “O que isso significa?”. O que quero dizer é que Ele não veio apenas para resgatar a lei da perversão rabínica ou apenas para ser um modelo de justiça. Ele veio trazer a justiça eterna, sendo Ele o Messias que a lei previu. Em outras palavras, o que Ele era tanto quanto o que Ele fez e disse.

Olhe isto deste modo, isso é emocionante. Olhe a lei judicial e todas as várias regras que governaram o comportamento de Israel, todos os seus códigos legais, todas as coisas que deveriam fazer. Em Levítico 26:46, Moisés diz: “Estes são os estatutos, e os juízos, e as leis que deu o SENHOR entre si e os filhos de Israel, no monte Sinai, pela mão de Moisés”. Deus criou leis especiais para Israel. No Salmo 147:19, é dito: “Mostra a sua palavra a Jacó, os seus estatutos e os seus juízos a Israel”. Em outras palavras, Deus tinha leis peculiares para Israel que o distinguia das nações em redor. Israel tinha certas leis dietéticas, de vestimenta, de agricultura, de suas relações com certas coisas que tinham que fazer. Isso distinguia Israel no mundo.

Você diz: “Como Jesus cumpriu isso?” Quando Jesus morreu na cruz, essa foi a rejeição final e total de Israel por seu Messias. E esse foi o fim de Deus lidando com Israel como uma nação. A lei judicial que Deus deu a Israel acabou quando Deus já não mais lidava com Israel como uma nação e Jesus construiu Sua igreja. Louve a Deus, pois algum dia Ele voltará a redimir essa nação novamente e lidar com eles de novo como uma nação. Mas, por essa altura, quando Jesus morreu na cruz, a lei judicial parou. Não havia mais povo nacional de Deus. Haveria um homem novo, formado por judeus e gentios, que seria chamado de igreja. A lei judicial chegou ao fim. É por isso que em Mateus 21:43, Jesus diz: “Portanto, eu digo que o Reino de Deus será tirado de vocês”.

Tenha em mente que os fundamentos da lei judicial estão na lei moral, de modo que os princípios divinos por trás dela ainda existem. Eles ainda estão lá e ainda são vinculativos. Mas a lei judicial relativa a Israel foi posta de lado quando Jesus morreu, porque essa foi a rejeição total e final de seu Messias.

E quanto à lei moral, Ele cumpriu isso? Claro que sim. De que maneira? Da maneira que mencionamos anteriormente. Todo mandamento dado por Deus, Ele obedecia. Todo preceito estabelecido por Deus, Ele cumpriu plenamente. Antes disso, Ele elevou o entendimento da Lei para o ponto em que estava no coração de Deus. Pelo viver de uma vida perfeita, Jesus cumpriu a lei moral.

Resta, então, a lei cerimonial. Como ele a cumpriu? Isto é fantástico! Ele fez isso morrendo em uma cruz, pois ali todo o sistema cerimonial chegou ao fim. Na verdade, quando Ele morreu, o véu do templo foi partido em dois, de cima para baixo e o Santo dos Santos foi revelado. Deus estava dizendo: “Todo o sistema judicial levítico, sacerdotal e judicial acabou”. Assim, Ele cumpriu totalmente a lei judicial, por ser a vítima da rejeição final dela por Israel. Ele cumpriu a lei moral pela maneira como Ele viveu. Ele cumpriu a lei cerimonial pela maneira como Ele morreu.

Podemos passar muito tempo em Hebreus neste último ponto. Em Hebreus 10:19-20, é dito: “Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne”. Em outras palavras, Jesus Cristo abriu um novo dia. Ele terminou o sistema cerimonial, e já não adoramos a Deus com o sangue de touros e cabras. Poucos anos depois de morrer, Ele permitiu que os romanos entrassem e destruíssem completamente o templo. Todo o sistema de sacrifícios havia se desmoronado quando Ele morreu na cruz. A Nova Aliança trouxe um novo amanhecer, um novo dia. O sistema cerimonial foi cumprido.

Todo o sistema judicial só era bom enquanto Israel fosse o povo de Deus. Quando isso acabou, o sistema acabou. O sistema cerimonial foi bom até o sacrifício final, e quando chegou, o sistema foi eliminado. Isso só deixa um elemento da lei de Deus em vigor, e qual é? A lei moral. Hebreus 7:18, diz:

Portanto, por um lado, se revoga a anterior ordenança, por causa de sua fraqueza e inutilidade (pois a lei nunca aperfeiçoou coisa alguma), e, por outro lado, se introduz esperança superior, pela qual nos chegamos a Deus.

Em outras palavras, o que a lei não podia fazer, Cristo fez. Ele acabou com a sombra, porque Ele era a realidade.

Hebreus 8:8-9, diz: “Eis aí vêm dias, diz o Senhor, e firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá, não segundo a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão…” Em outras palavras, será diferente em Cristo, algo novo, mudado, uma Nova Aliança. Hebreus 9:10 diz que a Nova Aliança não será com comida, bebidas, lavagens e ordenanças carnais. Ele está falando das leis cerimoniais e não das leis morais. Todas as cerimônias foram imagens de Cristo, e quando a realidade veio, não precisamos mais de uma imagem. Pense nisso desta maneira: em todos os sentidos, Jesus cumpriu o sistema cerimonial.

Arão entrou no tabernáculo terrenal; Cristo entrou no templo celestial. Arão entrava uma vez por ano; Cristo entrou de uma vez por todas. Arão entrou além do véu; Cristo é o véu. Arão ofereceu muitos sacrifícios; Cristo ofereceu um. Arão ofereceu por seu próprio pecado; Cristo ofereceu apenas por nossos pecados. Arão ofereceu o sangue de touros; Cristo ofereceu Seu próprio sangue. Arão era um sacerdote provisório; Cristo é eterno. Arão era falível; Cristo é infalível. Arão era mutável; Cristo é imutável. O sacerdócio de Arão era transmitido a seus descendentes; o sacerdócio de Cristo é intransmissível, é final. O sacrifício de Arão era imperfeito; Cristo foi perfeito. O sacerdócio de Arão era insuficiente; Cristo é todo-suficiente. O sacerdócio de Arão não prevaleceu; o de Cristo prevaleceu em toda sua grandeza.

Olhe para o tabernáculo. Ele tinha uma porta; Cristo disse: “Eu sou a porta”. Tinha um altar de bronze para holocaustos; Cristo disse que Ele mesmo era o altar, o resgate para muitos. Tinha uma bacia de bronze; Cristo disse que Ele nos lavaria e nos limparia. Tinha o candelabro; Cristo disse que Ele é a luz do mundo. Tinha os pães da proposição; Cristo disse que Ele é o pão da vida. Tinha incenso; Cristo disse: “Minhas orações sobem por vocês”. Tinha um véu; Cristo disse: “O véu é meu corpo”. Tinha um propiciatório, Ele disse: “Eu sou o propiciatório“. Tudo O representava.

Olhe para as ofertas levíticas. Havia uma oferta queimada para falar da perfeição da vida. Jesus é a perfeição da vida. Uma oferta de refeição falava de dedicação; Jesus é aquele dedicado inteiramente a Deus. Há uma oferta de paz; Ele é a paz. Havia uma oferta pelo pecado; Ele, que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós. Havia uma oferta de transgressão e Ele proveu tudo por nossas transgressões.

Pense nas festas, nas cerimônias de Israel. Ele é a nossa Páscoa. O pão ázimo fala de uma caminhada sagrada; Ele é aquele que andou em santidade. A festa das primícias: Ele é aquele que ressuscitou dos mortos, os primeiros frutos daqueles que dormiram. A festa de Pentecostes: Ele é aquele que derramou o Seu Espírito. A festa das trombetas: Ele é aquele em que um dia Seu anjo tocará a trombeta e reunirá os eleitos dos quatro cantos da terra. A festa da expiação: Ele é quem pagou o preço da expiação. A festa dos tabernáculos, que fala de reunião: Ele é aquele que reunirá Seu povo em Sua casa para sempre.

Você percebe o ponto? Jesus cumpre todas as partes da lei. Ali na montanha, em Mateus 5:17, Ele disse: “Eu vim cumprir a lei”. Ele disse algo que deveria ter levado aquelas pessoas a se prostrarem diante Dele, reconhecendo-O como Rei dos reis e Senhor dos senhores.

Todo o Antigo Testamento é Jesus Cristo, do início ao fim. A própria lei não podia fazer qualquer um justo, “pela lei ninguém será justificado diante de Deus” (Gálatas 3:11). Jesus teve que vir e fazer o que a lei não podia fazer, para conceder a Sua justiça. Em Gálatas 3:24, Paulo diz que “a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados”. Paulo está se referindo à lei cerimonial, que apontava para Cristo, mas uma vez que Cristo veio, ele está dizendo aos judaizantes em Gálatas: “Nós não precisamos mais dos rituais ou circuncisão, porque a realidade está aqui. Ele cumpriu tudo”. Ele cumpriu tudo.

Há mais um pensamento. Porque Ele cumpriu toda a lei, então você e eu também. Essa é a parte mais incrível de todas. Porque Ele é perfeitamente justo, porque Ele cumpriu toda justiça, você e eu também. Romanos 8:4 diz: “Para que a justiça da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito”. Você também pode cumprir a lei moral de Deus. Essa é a única parte que resta.

A lei judicial foi anulada com Israel, e a lei cerimonial se deteve quando Cristo veio e morreu na cruz. Mas a lei moral é deixada. Você diz: “Eu poderia cumprir a lei moral?”. A Bíblia diz que, se andarmos em Espírito, cumpriremos a justiça da lei, porque Cristo em nós a cumpre. Ele cumpriu a lei, e Ele a cumpre em nós. É tremendo pensar em como Ele cumpriu tudo sobre o que a lei e os profetas falaram. Esta noite, nem sequer falamos sobre as profecias que Ele cumpriu. Ele completou centenas delas.

Não, eles estavam olhando para Jesus e diziam: “Esse é um revolucionário que vai derrubar todas as coisas antigas?”. Mas Jesus veio para elevar o entendimento da lei e a cumprir cabalmente. Ele é o tema da Bíblia, o centro e o coração da Escritura.


Esta é uma série de sermões sobre Cristo e a Lei, conforme links abaixo:


Este texto é uma síntese do sermão “Christ and the Law, Part 1”, de John MacArthur em 18/02/1979.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/library/sermons-library/2209/christ-and-the-law-part-1

Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno


 

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