O Início da Maior Ação de Deus

Imprimir
Há muitas coisas que são fundamentais e formidáveis para a nossa compreensão dos quatro Evangelhos. O Novo Testamento é o registro da pessoa e obra de Jesus Cristo. Este é o assunto do Novo Testamento. É a história de Jesus. Em particular, os quatro Evangelhos – Mateus, Marcos, Lucas e João – contam a história de Sua vida a partir de quatro perspectivas diferentes.

Mateus e João eram apóstolos. Lucas e Marcos não eram apóstolos, mas eram companheiros de apóstolos. Lucas era companheiro de Paulo e Marcos companheiro de Pedro. São esses quatro relatos que Deus inspirou para nos dar a compreensão mais completa e mais rica da glória da vida de Jesus Cristo. Lucas foi o único não judeu a escrever um livro da Bíblia, e como um historiador inspirado pelo Espírito Santo, fez uma vasta e precisa pesquisa para escrever seu evangelho. Ele esteve com muitas testemunhas, inclusive Maria.  

Uma coisa é clara nos Evangelhos: a presença de milagres. Na verdade, nos quatro Evangelhos há cerca de trinta e cinco milagres detalhados. Alguns deles são milagres que envolvem um único indivíduo. Outros são milagres que envolvem milhares e milhares de pessoas. Lucas descreveu cerca de vinte milagres.

O que é um milagre? Isto deve ser bem entendido. Um milagre, por definição, é um ato ou evento que é inteiramente sobrenatural. É contrário à lei natural. É explicado apenas pela intervenção divina e inexplicável pela lei natural ou razão humana. É muito importante entender isso. Um milagre é quando Deus detém os processos humanos normais e intervém sobrenaturalmente.

Se houver alguma possibilidade de uma explicação humana, se houver alguma explicação racional, ou uma explicação empírica ou científica, não é um milagre. E a razão pela qual eu digo isso é porque os milagres têm um propósito. Os milagres são muito raros na história do mundo, e também na história bíblica. Eles têm um propósito. Os milagres demonstraram que Deus intervem na vida humana para falar e agir. Esse foi o papel dos milagres. Um milagre é um evento ou um ato que não possui outra explicação além do fato de que Deus interveio para falar ou agir. Não há como explicá-lo pela lei natural. Não há como explicá-lo por razões humanas. Os milagres são inteiramente inexplicáveis por lei natural e pelo pensamento humano.

Assim, os milagres fazem exatamente o que eles foram projetados para fazer: revelar que Deus interveio. Nunca Deus interveio de forma tão poderosa, com tantos atos sobrenaturais e milagres, como no momento da chegada de Jesus Cristo. O maior milagre na história humana é o milagre da encarnação, Deus tornando-se homem. Ali Deus plantou sobrenaturalmente uma semente em uma mulher virgem, que deu luz a uma criança que era 100% homem e 100% Deus ao mesmo tempo. Esse é o maior milagre de todos os milagres. Esse é o milagre central cercado por muitos outros. E foram tantos que João finalizou seu Evangelho dizendo: “Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez; e se cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter os livros que se escrevessem. Amém”.

Quando você entra no registro dos Evangelhos, quer esteja lendo Mateus, Marcos, Lucas ou João, você começa a ver um milagre após outro. Deus interveio naquela época na história humana, como em nenhum outro momento.

Muitos pensam que os milagres enchem todas as páginas do relato bíblico. Mas, houve apenas três períodos principais onde Deus usou homens, singularmente dotados, para operar milagres. O primeiro foi o período de Moisés e Josué, com registro nos livros de Êxodo a Josué (entre 1445 a.C. e 1380 a.C.), ou seja, cerca de 65 anos. O segundo foi no período de Elias e Eliseu (860 a.C. a 795 a.C.), também cerca de 65 anos. E o terceiro período foi com Jesus e seus apóstolos, começando com o ministério de Cristo e terminando com o de João (30 d.C. a 100 d.C.), por cerca de 70 anos.

Em outras ocasiões Deus interviu com milagres diretos, mas somente nesses períodos Deus deu poder a homens, singularmente dotados, para operação de milagres. Essas são raras ocasiões. Os milagres não aconteceram normalmente. Deus assim procedeu em momentos especiais, quando estava revelando a Sua verdade.

Os últimos milagres ocorridos antes de Cristo, em que Deus dotou especificamente homens, foram com Elias e Eliseu, 800 anos antes de Cristo. Isso é um longo tempo e, além do que aconteceu na vida de Daniel e seus companheiros, não houve mais milagres. Não apareciam anjos há 500 anos, desde a cena com Hananias, Misael e Azarias na fornalha ardente, e com Zacarias. E Deus não falava há 400 anos, desde Malaquias.

De repente, chegamos a esse tempo na História, identificado no versículo 5 como os dias de Herodes, o rei, que teria sido de 37 a.C. até 4 d.C, até um ano depois que Jesus nasceu. De repente, acontece algo dramático, os anjos começam a aparecer, Deus começa a falar e revelar a Sua Palavra e os milagres começam a acontecer em uma quantidade nunca antes imaginada na história do mundo. E ocorre o maior milagre de todos: uma virgem, fertilizada pelo Espírito Santo, dá a luz a Jesus, o Deus Eterno encarnado.

Não existe uma explicação razoável ou científica para a encarnação de Deus em Jesus. Não há uma explicação razoável para o fato de que Ele viveu uma vida perfeita e morreu uma morte substitutiva na cruz. Não há como explicar razoavelmente Sua ressurreição física, corporal e literal dos mortos. E não há nenhuma maneira de explicar Sua ascensão e glorificação. Milagres após milagres atestando o fato de Deus atuando na História.

Lucas, então, está escrevendo o Evangelho de Jesus Cristo, mas é realmente o relato da intervenção divina na história humana. Deus age de forma sobrenatural, de uma maneira que o mundo nunca viu. Ele registra que, depois de 400 anos, Deus quebra Seu silêncio. Depois de 500 anos, um anjo aparece. Depois de 800 anos, uma série de milagres acontecem. Lucas foi um historiador muito cuidadoso, ele quis demonstrar que a história de Jesus não é uma história humana. Não é um mito, lenda ou uma fantasia inventada pelos homens. Lucas quer que entendamos que a história de Jesus é a revelação do Deus do Universo. Ele mostra que não havia explicação humana.

Em Lucas 1:5-17, nos é dito sobre o sacerdote Zacarias, da ordem de Abdias, e sua mulher Isabel, descendente de Arão. Eram crentes fiéis da Antiga Aliança. Era um casal idoso e Ela era estéril, nunca havia gerado um filho. Certo dia, Zacarias foi escolhido para oferecer o incenso no templo e, após 500 anos, um anjo apareceu e lhe diz:

Zacarias, não temas, porque a tua oração foi ouvida, e Isabel, tua mulher, dará à luz um filho, e lhe porás o nome de João. E terás prazer e alegria, e muitos se alegrarão no seu nascimento, Porque será grande diante do Senhor, e não beberá vinho, nem bebida forte, e será cheio do Espírito Santo, já desde o ventre de sua mãe. E converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu Deus, E irá adiante dele no espírito e virtude de Elias, para converter os corações dos pais aos filhos, e os rebeldes à prudência dos justos, com o fim de preparar ao Senhor um povo bem disposto (Lucas 1:13-17).

Herodes, o Grande, governou as terras de Israel entre 37 a.C. e 4 d.C. Com os ajustes de nosso calendário, Jesus nasceu por volta do ano 3 a.C.. Então Herodes, o Grande, morreu um ano após o nascimento de Cristo. Perto do fim do reinado de Herodes, Deus fala após se manifestar o último profeta do Velho Testamento, Malaquias, após 400 anos.

Deus é o Deus de pequenos começos. Deus faz coisas discretas. Ele não organizou um show de trombetas, uma fanfarra ou qualquer outro espetáculo para anunciar a vinda do Messias. O anjo que apareceu somente a Zacarias, e posteriormente a Maria, não veio precedido de terremotos, sinais espantosos nos céus ou coisa semelhante. Não. Foi tudo muito discreto. Os milagres são apenas uma questão de fato.

E Lucas não usa de apelações para contar a história, ele apenas diz que simplesmente aconteceu daquela forma. E ele estava relatando a maior intervenção de Deus na História e o maior de todos os milagres. Ele fala da aparição de um anjo, da Palavra de Deus trazida por aquele anjo e da promessa de um milagre, quando é dito a um casal de idosos, sendo a mulher estéril, que eles gerariam um filho que seria o precursor do Messias. O silêncio de Deus foi quebrado, aparece um anjo anunciando coisas tremendas.

O palco central na primeira parte do Evangelho de Lucas é tomado por um homem comum chamado Zacarias, descendente de Arão, um sacerdote. Ele era um devoto, casou-se com uma crente fiel chamada Isabel, filha de um sacerdote. Temos aqui um casal devotado ao Senhor. Lucas 1:6 diz que “eram ambos justos perante Deus, andando sem repreensão em todos os mandamentos e preceitos do Senhor”. Eles eram justos. A justiça é um conceito que pode ser compreendido por três palavras: lei, graça e obediência. A justiça é definida pela lei. Você quer saber qual é a justiça? O que é ser correto com Deus? É definido pela lei. Leia a lei de Deus, que define a justiça. A justiça é habilitada pela graça.

O que acontece é que você vê a lei, que define justiça, perceberá que está longe da justiça. Romanos 3:10 diz: “Não há um justo, nem um sequer”. Então, como você vai ser justo? Bem, a justiça é potencializada pela graça. A justiça é imputada a nós pela graça e depois é transmitida pela graça. Portanto, a justiça é definida pela lei e, como não podemos guardar a lei, nos lançamos sob a misericórdia de Deus e, pela Sua graça, nós somos capacitados para guardar a lei, tanto em nossa justificação como em nossa santificação. A justiça é demonstrada pela obediência. Portanto, a justiça é definida pela lei, habilitada pela graça e demonstrada pela obediência. Aquele casal entendeu isto.

O legalismo é a lei sem graça. O antinomianismo (heresia que nega a importância dos mandamentos divinos) é graça sem lei. A autojustiça é obediência aparente da lei sem o poder interno da graça. Zacarias e Isabel não eram legalistas, antinomianos e nem cheios de autojustiça. Eles reverenciaram a lei como um padrão de justiça, mas sabiam de suas misérias, receberam graça e eram obedientes no poder da graça concedida. Lucas faz um grande destaque, porque ele quer que saibamos que o Novo Testamento não está em contraste com o Velho Testamento. É o cumprimento do Velho. É a história do sacrifício final que proporcionou a justiça que mesmo os santos do Antigo Testamento procuraram e receberam de Deus.

Zacarias e Isabel eram pessoas piedosas. Mas Lucas 1:7 diz que “não tinham filhos, porque Isabel era estéril, e ambos eram avançados em idade”. Uma mulher incapacitada de gerar filhos sofria muito. Muitos judeus acreditavam que era resultado de uma maldição enviada por Deus. E com a idade deles, não havia mais qualquer esperança, exceto por algum milagre, algo totalmente inexplicável.

E então, vimos a justiça pessoal de Zacarias. Olhe para o segundo ponto, sua responsabilidade sacerdotal. Havia dezoito mil sacerdotes. Vinte e quatro turmas de sacerdotes para cada uma delas servir duas semanas por ano no templo. O dever sacerdotal era principalmente fazer sacrifícios. Eles eram açougueiros. Isso é o que eles faziam o dia todo.

Então, era o seu turno, diz no versículo 8: “E aconteceu que, exercendo ele o sacerdócio diante de Deus, na ordem da sua turma”. Ele era da divisão de Abias (Lucas 1:5). Abias foi um dos netos de Arão. Havia vinte e quatro divisões dos sacerdotes, cada uma chamada pelo nome de um dos netos de Arão (I Crônicas 24). E, mesmo sob essas ordens, eles eram divididos em outras ordens e famílias. A divisão à qual pertencia Zacarias estava servindo no templo naquela semana. Ele estava apenas cumprindo o seu dever.

Lucas 1:9-10 relata uma rotina normal e comum: “Segundo o costume sacerdotal, coube-lhe em sorte entrar no templo do Senhor para oferecer o incenso. E toda a multidão do povo estava fora, orando, à hora do incenso”. O costume do ofício sacerdotal era esse. Todos os dias no templo, pela manhã e ao cair da tarde, havia uma oferta de incenso queimada dada a Deus. Na parte da manhã, havia o sacrifício do animal no altar de bronze. Esse era o sacrifício do cordeiro imaculado que era sacrificado pela manhã e ao cair da tarde. No momento do sacrifício pela manhã e ao cair da tarde havia também a oferta de incenso a Deus.

O sacerdote era escolhido para fazer isso por sorteio. Era um privilégio apenas para alguns sacerdotes. Só poderia acontecer uma vez em sua vida. Se você já tivesse feito isso, oferecido o incenso queimado, você não poderia fazê-lo novamente. Aquele foi um momento sem igual para Zacarias. Muitos sacerdotes nunca tiveram esse privilégio.

Este teria sido o ponto alto de toda a sua vida. Isso o levaria do pátio externo dos israelitas para o lugar sagrado. Lembre-se de que havia um pátio dos gentios e das mulheres, o pátio interno dos israelitas e, então, havia o que se chamava o santuário ou o templo, que estava dividido em duas partes, sendo a primeira parte chamada de lugar sagrado, então lá havia uma cortina e atrás dela estava o “Santo dos Santos”, onde estava a Arca da Aliança, que simbolizava a presença de Deus. E ninguém poderia entrar lá, exceto o sumo sacerdote, uma vez por ano, no Dia da Expiação, para borrifar sangue no Propiciatório, em expiação pelos pecados da nação.

Zacarias ficou fora do véu, entre o lugar sagrado e o Santo dos Santos. Simplificando, era o mais próximo da presença de Deus, exceto para o sumo sacerdote, que uma vez por ano entrava no Santo dos Santos. Este altar de incenso de ouro, embora estivesse fora do Santo dos Santos, estava associado ao Santo dos Santos. Por exemplo, Hebreus 9:3-4 associa o altar do incenso ao Santo dos Santos.

O motivo disso é que, no Dia da Expiação, quando o sumo sacerdote entrava no santuário, ele não só pegava o sangue do sacrifício no altar, o altar de bronze, mas pegava incenso do altar e o aspergia no Propiciatório. Então, porque o incenso deste altar era espargido no Propiciatório uma vez por ano, era associado ao Santo dos Santos. Novamente, eu digo, este é o lugar mais sagrado que qualquer um poderia estar, exceto o sumo sacerdote, uma vez por ano.

Isso foi o que Zacarias teria feito naquele dia, provavelmente ao cair da tarde, quando havia uma multidão maior do que haveria pela manhã, porque nos diz que toda a multidão do povo estava orando na hora da oferta de incenso. Era costume que o sacerdote, fazendo isso, não ficasse muito tempo. Havia um tremendo medo quando o sacerdote se aproximava do véu, perto do Santo dos Santos, um temor de fazer algo que desonrasse a Deus. Eles colocavam sinos nas roupas do sumo sacerdote, pois quando eles estrassem no Santo dos Santos, se os sinos parassem de tocar, é porque Deus o havia matado lá por alguma blasfêmia, assim eles arrastavam o corpo para fora.

A nuvem ascendente e aromática do incenso simbolizava as orações do povo pela salvação, arrependimento, confissão, ação de graças, pela paz de Jerusalém, pela vinda do Messias, pela bênção, família etc. Todas essas coisas seriam parte da oração do povo, e por isso Lucas 1:10 diz que “toda a multidão do povo estava fora, orando, à hora do incenso”. O incenso simbolizava sua dependência de Deus, sua submissão a Deus, a soberania de Deus sobre eles.

Mas eis que algo inesperado acontece: “um anjo do Senhor lhe apareceu, posto em pé, à direita do altar do incenso” (v.11). Deus invadiu a História. Oitocentos anos sem uma série de milagres, 500 anos desde a fornalha ardente em Daniel, 500 anos sem aparição de um anjo, 400 anos desde que Deus falou e, de repente, um anjo.

Zacarias viu aquele anjo. Ele havia lido relatos do Antigo Testamento sobre anjos. Eles apareceram aos patriarcas no livro de Gênesis, aos profetas e ajudaram Israel. Ele sabia que a última aparição de um anjo foi em uma visão para Zacarias, quase 500 anos antes. Mas, ali não era simplesmente uma visão, era um anjo real. Ele viu um anjo parado à direita do altar do incenso. Deus invadiu a História e enviou Seu mensageiro para anunciar coisas tremendas.

E qual foi a reação de Zacarias a esse evento incrível e inédito? Lucas 1:12 diz: “Vendo-o, Zacarias turbou-se, e apoderou-se dele o temor”. Ele entrou em pânico. Um anjo é um ser perfeitamente santo e glorioso. E ali estava um anjo do Senhor que veio diretamente da presença de Deus. O pânico era a resposta correta de um homem pecador face a face com um visitante sagrado do céu. No idioma original, o sentido é que ele ficou aterrorizado. Foi a mesma reação de Gideão em juízes 6: 22-23,que diz:

Então viu Gideão que era o anjo do Senhor e disse: Ah, Senhor Deus, pois vi o anjo do Senhor face a face. Porém o Senhor lhe disse: Paz seja contigo; não temas; não morrerás.

Veja a reação de Manoá, o pai de Sansão, após entender que esteve diante de um anjo do Senhor:

E sucedeu que, subindo a chama do altar para o céu, o anjo do SENHOR subiu na chama do altar; o que vendo Manoá e sua mulher, caíram em terra sobre seus rostos. E disse Manoá à sua mulher: Certamente morreremos, porquanto temos visto a Deus (Juízes 13:20-22).

Os pecadores sentem um tremendo peso de sua culpa na presença de um visitante sagrado. Foi exatamente a mesma reação de Isaías:

No ano em que morreu o rei Uzias, eu vi também ao Senhor assentado sobre um alto e sublime trono; e o seu séquito enchia o templo. Serafins estavam por cima dele; cada um tinha seis asas; com duas cobriam os seus rostos, e com duas cobriam os seus pés, e com duas voavam. E clamavam uns aos outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória. E os umbrais das portas se moveram à voz do que clamava, e a casa se encheu de fumaça. Então disse eu: Ai de mim! Pois estou perdido; porque sou um homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios; os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos (Isaías 6:1-5).

Foi a mesma reação de Ezequiel, o profeta, no primeiro capítulo de Ezequiel, quando viu essa presença quase indescritível da glória do trono de Deus, ele diz no final do capítulo: “vendo isto, caí sobre o meu rosto”. Foi a mesma reação de Daniel em Daniel 8 e 10, quando ele foi confrontado com um visitante celestial. Era traumático, era terrível. A mesma coisa aconteceu com Maria:

E, entrando o anjo onde ela estava, disse: Alegra-te, agraciada! O Senhor é contigo. Ela, porém, ao ouvir esta palavra, perturbou-se muito e pôs-se a pensar no que significaria esta saudação. Mas o anjo lhe disse: Maria, não temas; porque achaste graça diante de Deus (Lucas 1:28-30).

Sempre que um visitante glorioso do céu foi visto, o terror é a resposta apropriada. Pedro, Tiago e João quando viram uma amostra da glória de Jesus “caíram sobre os seus rostos, e tiveram grande medo” (Mateus 17:6). Jesus teve que lhes dizer: “Levantai-vos, e não tenhais medo” (Mateus 17:7). João relatou isto quando viu Jesus glorificado: “E eu, quando vi, caí a seus pés como morto”. Jesus colocou Sua destra sobre ele e disse: “Não temas” (Apocalipse 1:17).

Com tantos relatos como esses, hoje ouvimos pessoas banalizando visões celestiais, falando coisas insensatas e inúteis. Dizem conversar com anjos como se fosse algo tão simples e natural. Enquanto isso, a Bíblia relata que a presença de visitantes do céu é e sempre foi uma coisa absolutamente aterrorizante. É uma coisa assustadora encontrar a santidade do céu.

Quando o anjo apareceu aos pastores, anunciando o nascimento de Jesus, eles “tiveram grande temor”. E o anjo lhes disse: “Não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria, que será para todo o povo: Pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor” (Lucas 2:9-11). Diante da pesca milagrosa, “Pedro, prostrou-se aos pés de Jesus, dizendo: Senhor, ausenta-te de mim, que sou um homem pecador” (Lucas 2:8).

Quando Jesus estava próximo à casa do centurião, este mandou uns amigos para dizer: “Senhor, não te incomodes, porque não sou digno de que entres debaixo do meu telhado” (Lucas 7:6). Quando Jesus repreendeu a tempestade, “seus discípulos possuídos de temor e admiração, diziam uns aos outros: Quem é este que até aos ventos e às ondas repreende, e lhe obedecem?” (Lucas 8:25).

Em Lucas 1:13, o anjo diz a Zacarias: “Não temas, porque a tua oração foi ouvida…”. Foi uma voz audível e real. Deus permitiu que os anjos assumissem a forma e a voz humana na História. Isso ocorreu nos tempos do Antigo Testamento. E notaremos que ocorre também nos tempos do Novo Testamento, apenas, no entanto, naqueles momentos especiais de intervenção divina e milagrosa. Os anjos devem ter aprendido a dizer isso, porque esta é uma saudação padrão, “Não temais”, já que sempre que eles aparecem, há pânico.

E por que o medo? A presença de um visitante celestial deixa a realidade do pecado muito perceptível para o homem. Deus é santo e puro, o pecado é manifesto diante de tanta pureza e santidade. E Deus é juiz sobre o pecado e os anjos são instrumentos do juízo divino. Mas aquela não era uma visita de julgamento. Pelo contrário, era para benção. O anjo diz: “tua oração foi ouvida”. Alguns sugerem que ele estava orando pela salvação de Israel, pela vinda do Messias. Mas o texto não diz isso.

Qual é a petição? O anjo diz: “Isabel, tua mulher, dará à luz um filho” (Lucas 1:13). O original grego implica que esta é uma petição de longa data. Não significa necessariamente que ele estava orando por isto naquele dia. Ele pode ter perdido a esperança por causa da idade. Mas deve ter sido um motivo de longos anos de oração. O anjo não faz espetáculo ou uma fanfarra com seu anúncio, ele apenas diz: “Isabel, tua mulher, dará à luz um filho”.

Uma declaração discreta, mas tremenda. Sem efeitos especiais. Não é incrível que Deus seja o Deus de pequenos começos? É incrível o que Deus fez e faz através de um pequeno começo. E tudo começa quando Ele responde a oração de um casal, algo insignificante para o que estava começando ali, uma oração por uma criança. E, respondendo à sua oração, Ele atende aos maiores anseios do mundo. Nunca subestime o que Deus criou através de pequenos começos.

O anúncio do anjo foi de uma completude tremenda:

Isabel, tua mulher, dará à luz um filho, e lhe porás o nome de João. E terás prazer e alegria, e muitos se alegrarão no seu nascimento, Porque será grande diante do Senhor, e não beberá vinho, nem bebida forte, e será cheio do Espírito Santo, já desde o ventre de sua mãe. E converterá muitos dos filhos de Israel ao SENHOR seu Deus, E irá adiante dele no espírito e virtude de Elias, para converter os corações dos pais aos filhos, e os rebeldes à prudência dos justos, com o fim de preparar ao Senhor um povo bem disposto (Lucas 1:13-17).

Bem, naquele momento o medo de Zacarias se transformou em choque, não o choque do terror, mas o choque da descrença. Ele diz ao anjo: “Como saberei isto? pois eu já sou velho, e minha mulher avançada em idade” (Lucas 1:18). Mas o anjo foi muito específico e diz que o nome de seu filho seria João, que significa “Deus é gracioso” ou “a graça e misericórdia de Deus”. E o anjo, dando-lhe o nome, diz que a graça de Deus está prestes a se manifestar sobre o mundo.

Por sua incredulidade, Zacarias ficou mudo e surdo (v.20). E quando a criança nasceu, seus parentes queriam outro nome, pois não havia nenhum João na Família. Mas, Zacarias “pedindo uma tabuinha de escrever, escreveu, dizendo: O seu nome é João. E todos se maravilharam. E logo a boca se lhe abriu, e a língua se lhe soltou; e falava, louvando a Deus” (Lucas 1:63-64).

O anjo havia lhe dito que “terás prazer e alegria, e muitos se alegrarão no seu nascimento” (Lucas 1:14). Haveria alegria não só de sua parte, mas por parte de muitas pessoas. Essa é a alegria suprema. Por quê? Porque João Batista seria grande diante do Senhor, converteria muitos dos filhos de Israel ao Senhor e prepararia ao Senhor um povo bem disposto.

Então, quando Isabel teve a criança, no versículo 58, os vizinhos e amigos, todos se alegraram. Mas quando João cresceu e pregou, uma nação se alegrou. E quando o Messias que ele anunciou veio, o mundo se alegrou. Deus é Deus de pequenos começos. ‘Não tenha medo. Essa criança lhe dará alegria e muitos se alegrarão com seu nascimento’.

Então, a história começa. Deus envia um anjo. Deus fala através desse anjo sua mensagem e Deus promete um nascimento milagroso a esse casal. E com isso começa a intervenção divina na saga da salvação. Continuaremos na próxima vez. Vamos orar.

Pai, Tua Palavra é tão cheia de riqueza e praticidade! É simplesmente incrível estudar a história da redenção como revelada nas Escrituras e ver a maneira notável em que Tu usas pessoas comuns. Tu és o Deus de pequenos começos. Tu não precisas do poderoso e do grande. Podes fazer Teu trabalho com o ignóbil e o fraco, o pobre e o comum. Agradecemos a Ti pelo que desejas fazer através de nossas vidas, enquanto operas Tua obra poderosa, não em milagres físicos, mas certamente no milagre da salvação e da santificação espiritual. Usa-nos, Senhor, para trazer alegria e alegria a muitos. Usa-nos para trazer alegria para muitos por causa do trabalho que Tu fazes em nós. Agradecemos a Ti pela clareza das Escrituras. Agradecemos pela verdade inequívoca de que esta é a história da Tua intervenção. Este é o evangelho, a boa notícia de que veio o Salvador. Agradecemos pelo desdobramento dessa história e oramos para que possamos nos enriquecer de forma transformadora, entendendo-a nestes dias, como Tu nos levas através desta verdade. Usa-nos, Senhor, naqueles simples caminhos discretos com pequenos começos para Tu fazeres abundantemente acima de tudo que podemos pedir ou pensar, de acordo com o poder que opera em nós. Para a glória de Jesus Cristo, oramos. Amém.


Esta é uma série de diversos sermões sobre a encarnação de Cristo. Segue links dos que já foram publicados.


Este texto é uma síntese do sermão “God Breaks His Silence: The Revelation to Zacharias”, de John MacArthur em 29/11/1998.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo

https://www.gty.org/library/sermons-library/42-4/god-breaks-his-silence-the-revelation-to-zacharias

Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno


 

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *