A Terrível Crise de Identidade

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A humanidade vive uma crise de identidade. A maioria está em busca de se encontrar em meio ao caos do mundo. A ciência, como um sistema do mundo, proclamou que não há Deus. A filosofia racionalista convenceu o homem que ele mesmo tem as respostas às suas perguntas. E o homem acreditou na ciência e na filosofia. E se perdeu. Surgiu então a psicologia para tentar remediar a crise de um ser que não sabe de onde veio e qual seu destino. Ela fracassou. O homem nunca esteve tão perturbado por conhecer a brevidade da vida e não saber o porquê de sua existência. Ele luta para se esquecer dessa realidade que lhe desafia sem trégua.

Desde sua queda, o homem se tornou destituído de sua identidade, ou seja, de quem ele é e do propósito de sua existência. Inquieto e perturbado, ele busca na realização de seus sonhos e desejos as respostas. A autorrealização e a autoestima são os deuses do homem perdido. Esses deuses se apresentam como carreira profissional, ou progresso intelectual, ou prazer em suas diversas formas, ou diversão, ou sentir-se aprovado pelos outros, ou lutar contra algo que discorda etc.

Esses deuses são opressores, pois eles transformam tudo em pesadelo, seja pelo fracasso da busca, ou fragilidade das conquistas ou a própria efemeridade da vida. O topo não é um lugar de descanso, mas de inquietação e insegurança. Tudo que o homem ardorosamente construiu para chegar lá é tão frágil quanto a vida. Como disse Salomão: “E como morre o sábio, assim morre o tolo!” (Eclesiastes 2:16). A.W. Tozer escreveu:

Neste mundo os homens são julgados pela habilidade com que fazem as coisas. São avaliados de acordo com a distância que cobriram na escalada do monte da realização. No sopé jaz o fracasso; no topo o sucesso completo; e entre esses dois extremos a maioria dos homens civilizados sua e labuta, da juventude à velhice.

Se seu sonho é sua identidade, ele se tornará um pesadelo, um opressor. Você não terá capacidade de conviver com a perda dele. Você se tornará um refém dele e ele exercerá um domínio opressor sobre você. Ele pode ser a base de sua identidade e de um temido pesadelo. John MacArthur disse:

As pessoas hoje estão procurando uma sensação de autoestima, um sentido de valor, um senso de autoaceitação. Elas querem ser alguém que tenha alguma importância. Querem ter identidade. E essa é a resposta. O homem perdido procura algum significado, uma sensação de identidade, algum propósito e algum valor. Ele quer que alguém diga: “Você vale algo, você tem valor, você é importante”. 

Se nosso sonho é ser aprovado pelos outros, as críticas nos destruirão. O homem viciado em aprovação não suportará a censura, a injustiça, a ingratidão, a indiferença ou o fracasso. Ele se sente em um palco a espera dos aplausos.

O deus da carreira profissional, o deus dos relacionamentos, o deus da realização ou quaisquer outros não vão lhe perdoar o fracasso. E muitos migram de um deus para outro, mas apenas trocam de atormentadores. Sua identidade não se altera por causa das circunstâncias ou papel. Sua identidade não deve ser quem você é, mas de quem você é, a quem você pertence. Você não pode se autovalidar ou buscar algum outro homem que lhe valide. São bases insustentáveis de identidade.

Os discípulos de Jesus o seguiram inicialmente muito mais pela perspectiva de um reino terreno triunfante do que um reino espiritual. Eles viram em Jesus a realização de seus sonhos nacionalistas. No seu cárcere, João Batista, o precursor de Cristo, mandou seus discípulos perguntarem ao Mestre: “És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro?” (Lucas 7:20). Ou seja, João Batista quis dizer: “Bem, se Tu não fores a pessoa mais adequada às minhas expectativas, eu poderia colocar minha esperança em outra pessoa mais adequada com elas?”.

Jesus disse: “Se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8:36). Se Jesus for a base de nossa identidade, temos a verdadeira liberdade. Escaparemos da cilada da busca de identidade nas realizações pessoais. Mas essa liberdade é assustadora para o homem perdido que se ofende com a mensagem de renúncia, negar-se a si mesmo, perdoar incondicionalmente, não amar os primeiros lugares,  desejar servir no lugar de ser servido, humilhar-se e de fugir das ambições mundanas e buscar as celestiais.

A graça divina deve ser a base de nossa identidade. Ela começa dizendo que “todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades como um vento nos arrebatam” (Isaías 64:6). Diz também que “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Romanos 3:23). E que a única recompensa que merecemos é a morte, o salário do pecado (Romanos 6:23). A condição natural do homem é a morte (Efésios 2:1) e seu destino é a segunda morte, ou seja, o lago de fogo (Apocalipse 20:13-14).

É assim que Deus vê todos os homens. Não há mérito algum na humanidade. Não temos nenhuma posição relevante a ser defendida. Todo o reconhecimento humano que buscamos nesta terra é fruto de estúpidos equívocos de um coração mergulhado nas trevas. Essa busca nos prende em grilhões aterrorizantes, rouba-nos a paz e nos faz caminhar por uma estrada sombria e áspera. Essa pode ser uma realidade até mesmo na vida cristã. Podemos nos cercar de ambições ocultas de reconhecimento, uma obsessão que nos cega e nos faz lutar por nossa própria glória, ao mesmo tempo em que cremos enganosamente que estamos buscando a glória de Deus.

E no mais íntimo de nosso ser, de forma camuflada ou até mesmo inconsciente, podemos tentar conciliar a glória de Deus com a nossa glória. Devemos examinar nossos corações profundamente quanto a isto. Eis aqui um terreno muito perigoso. Acerca disso, Jesus, o Deus Eterno encarnado, disse: “Eu não busco a minha glória; há quem a busque, e julgue. Se eu me glorifico a mim mesmo, a minha glória não é nada; quem me glorifica é meu Pai” (João 8:50,54). E disse mais: “Eu não recebo glória dos homens” (João 5:41). Que tremenda lição nos deu o Senhor! Quanta tristeza é a busca de exaltação no meio cristão! Mas, antes de tudo, devemos olhar para nós mesmos!  Não podemos esquecer que “enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jeremias 17:9).

A graça de Deus requereu o preço da justiça de Deus derramada sobre o Filho de Deus. A graça de Deus não quer dizer nada enquanto a temos como um conceito qualquer. Se tudo que temos dela são conceitos, ela servirá para nos endurecer mais e mais, tal como foi com tantos. A graça diz tudo quando ela se torna a base de nossa vida, a nossa identidade. Ela nos faz enxergar o tamanho estrondoso da nossa miséria e nos leva a orar como o publicano quebrantado, que nem conseguia olhar para o céu e dizia: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” (Lucas 18:13).

Jesus disse: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus” (Mateus 18:3). São muitas as lições que podemos extrair dessa afirmação de Jesus, e uma delas é que como filhos do Altíssimo abrimos mão de tudo que construímos sob uma identidade corrompida e estúpida. Sobre isto Paulo disse: “Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo” (Filipenses 3:7-8).

Estando sob uma base correta, uma identidade sólida, podemos viver de forma sábia e produtiva. Podemos ser canais de benção quando a obra de Deus é consumada em nossas vidas, que se torna nossa identidade, mesmo que isto nos custe tudo. A graça de Deus não consiste em completar o que o homem perdido possui, mas esvaziá-lo de tudo para que a justiça lhe seja imputada de forma imerecida e misericordiosa. São os odres novos para o vinho novo (Lucas 5:37). É o vaso que o Oleiro quebra para construir um novo (Jeremias 18:4). 

Nosso modelo referencial não consiste na experiência de homens pecadores, mas no próprio Deus. Jesus expressou plenamente, como homem, todos os atributos piedosos. O capítulo 2 da Carta aos Filipenses relata de forma panorâmica o que o Filho do Deus Todo Poderoso e Senhor absoluto do Universo viveu neste mundo e quais as consequências de sua vida.

Filipenses 2

5 De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus,
6 Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus,
7 Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens;
8 E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.
9 Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome;
10 Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra.

Essas palavras nos constrangem, desnudam nossos corações perversos e expõem a nossa tolice em buscar autoestima e autorrealização no mundo de homens caídos. Devemos nos certificar sobre o que nos move diariamente. Podemos viver tagarelando sobre um mundo depravado, mas vivendo na mesma corrida em que ele está. Não podemos lutar contra inimigos que não enxergamos. O salmista clama a Deus: “Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios” (Salmos 90:12). Essa dever ser nossa oração também!

 

 

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