Chamado de Judas Iscariotes (1)

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Este texto é parte de uma série de 12 sermões sobre o chamado dos apóstolos. Veja os links dos demais textos no fim desta página.

Esta é uma série de 2 sermões sobre o chamado de Judas. Veja o link no fim desta página.


Continuaremos hoje nosso estudo sobre o Evangelho de Lucas, no capítulo 6, onde Jesus identifica seus doze apóstolos. Já estudamos onze deles (veja links no final do texto), restando agora Judas Iscariotes, um homem infame.

12 E aconteceu que naqueles dias subiu ao monte a orar, e passou a noite em oração a Deus.
13 E, quando já era dia, chamou a si os seus discípulos, e escolheu doze deles, a quem também deu o nome de apóstolos:
14 Simão, ao qual também chamou Pedro, e André, seu irmão; Tiago e João; Filipe e Bartolomeu;
15 Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado Zelote;
16 E Judas, irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, que foi o traidor.

Eu já fui muito impressionado com Judas. Para mim era algo muito incompreensível que alguém pudesse ter andado tão perto de Jesus por tanto tempo, ver tudo o que Ele fez, ouvir tudo o que Ele disse e O trair. Não podia compreender a profunda maldade e a dureza de uma pessoa desse tipo. Não conseguia compreender a obstinada e indecente falta de vontade de crer. Parecia incompreensível para mim.

De tão impressionado que eu era sobre Judas, e tão desejoso de entender o que estava trabalhando nele e o que o estava motivando, acabei escrevendo uma tese sobre Judas no seminário. Fiz profundas e extensas pesquisas sobre aquele homem. Há todo tipo de fantasias sobre ele, um monte de literatura apócrifa. Desde os primeiros séculos até a Idade Média, as pessoas escreveram coisas incríveis sobre Judas para tentar fazê-lo parecer ainda pior do que ele era. Há muitas coisas bizarras. Mas não precisamos de coisas assim, a verdade bíblica é suficiente, não precisamos adicionar nada a ela.

Quando pensamos sobre as piores pessoas da história, sempre pensamos nos assassinos de multidões como Adolf Hitler, Joseph Stalin e outros criminosos. Poderíamos elaborar uma lista tenebrosa de pessoas miseráveis e vis. Mas, francamente, no topo de qualquer lista estará Judas Iscariotes, o pior dos piores.

Lembro-me de ler anos atrás, fazendo algumas pesquisas sobre Adolf Hitler, descobri que ele estava muito comprometido com alguns monges negros do Tibete. Eles eram médiuns que contatavam espíritos demoníacos. E Hitler foi tomado pelas forças do inferno. De fato, seus biógrafos dizem que a sua voz se alterava totalmente enquanto ele fazia discursos públicos. Ele foi literalmente possuído por vozes demoníacas. E eu acho que você poderia dizer o mesmo para Joseph Stalin e outros. Foram almas tomadas pela maldade e miséria.

É explicável entender que sob o controle de Satanás um homem manifestará toda a miséria compatível com o príncipe das trevas. É apenas uma questão de grau e manifestação. Mas tudo isso está categoricamente sob a influência de Satanás. Porém, pior do que todo o mal que alguém pratica sob a influência de Satanás, é o mal praticado por alguém que andou tão perto de Cristo, tal como Judas. Isto faz de Judas uma figura muito solitária em sua miséria. Ele estava sob a influência direta de Jesus Cristo. Lucas 22:3 diz: “Satanás entrou em Judas, chamado Iscariotes, que era um dos doze”. Essa é síntese do desastre humano, um fracasso horrível e colossal.

Nós olhamos para os outros onze apóstolos e vimos que eles eram homens comuns, sob alguns pontos de vista, sem qualificação para um chamado tão nobre como os representantes oficiais de Jesus Cristo, os primeiros pregadores do Evangelho depois de Cristo, os responsáveis pela fundação da igreja, supervisionando e até mesmo, em alguns casos, fazendo a redação do Novo Testamento. Eles pareciam desqualificados para serem escolhidos para uma tarefa tão alta, e, portanto, nossa série de sermões sobre eles tem o título “Homens comuns, Chamado incomum”.

Porém, nós vimos como esses homens comuns e desqualificados foram transformados e capacitados. O próprio Senhor capacitou-os a pregar, ensinar, curar e expulsar demônios e tornarem-se poderosos e oficiais representantes de Seu reino. E nós olhamos para cada um deles e aprendemos um pouco sobre suas vidas, ministério e martírio. Temos informações suficientes para saber que foram bem-sucedidos e nós somos uma prova viva de seu sucesso. Nós somos resultados da obra que Deus fez através deles.

Mas, no meio disso, havia um colossal e monumental fracasso: Judas Iscariotes. Em todas as quatro listas dos apóstolos em Mateus, Marcos, Lucas e Atos, ele é o último. E sempre há uma declaração com seu nome sobre o fato de ele ser o traidor de Cristo, de modo que ninguém jamais esqueceria isso. E o que torna a história de Judas tão tenebrosa, é que ele se cercou de trevas andando com a Luz do Mundo, com aquele que brilhava a luz da Glória de Deus. E por causa do brilho de Cristo, a escuridão de Judas é mais claramente vista.

Seu nome é o argumento lendário da traição e ninguém na face da terra daria a um filho o nome de Judas.quarenta versos no Novo Testamento em que há uma referência à traição de nosso Senhor e cada um deles tem alguma implicação do incrível pecado de Judas. Ele é sempre retratado como um pecador voluntário, que escolheu seu caminho de iniquidade. Apesar de seu ato ter sido cumprimento profético, a Bíblia não o coloca numa espécie de vítima do destino ou sem controle de seus atos. Ele está carregado de culpa na Escritura. Em Atos 1:25 Pedro diz que Judas “foi para o seu próprio lugar”, ou seja, o inferno.

E os Evangelhos nos contam tudo o que sabemos sobre Judas e, após os Evangelhos, a sua morte em Atos 1, depois seu nome desaparece da Escritura. Mas, aqui ele está em Lucas 6 e, neste momento, nada do que acontecerá é conhecido. E então, ele está apenas na lista. Porém, no momento em que Lucas escreveu seu Evangelho, ele já era conhecido e foi identificado como “Judas Iscariotes, que se tornou um traidor”.
Este é, talvez, o mais doloroso registro de uma vida humana nas páginas da Escritura.

Olhemos, antes de tudo, para seu nome, Judas Iscariotes. Judas é um bom nome, inclusive era o nome de outro discípulo de Jesus, filho de Tiago. Judas era um nome comum. É a forma grega de Judá, que significa “Jeová conduz”. Bem, imagine os desejos de um pai e de uma mãe ao dar a seu filho este nome. Isso pode indicar que seus pais eram judeus devotos. É um nome maravilhoso. Você não se importaria de nomear seu filho com algo que significasse “Deus conduz”.

E então, vem a segunda parte do nome que o identificava: “Iscariotes”. Esse não era o nome de seu pai, que se chamava Simão, de acordo com João 6:71. No grego, o nome é “Apa keriotu”, que significa “da cidade de Queriote” (ao sul de Jerusalém), cerca de quarenta quilômetros após Belém, mencionada em Josué 15:25. Uma série de aldeias agrícolas que se uniram para formar uma cidade. Não confunda com a cidade de Queriote que havia em Moabe (Jeremias 48:24,41 e Amós 2:2), muito ao leste do Jordão.

Judas era o único apóstolo da Judeia, os demais eram da Galileia. Ele não foi identificado nos Evangelhos através do nome de seu pai, ou seja, “Judas, filho de Simão”, mas através do nome de sua cidade, Queriote. Isso serve para evidenciar para nós o fato de que ele destoava do grupo dos onze, pois era o único que não veio da Galileia. Ele começou como um intruso e permaneceu como um intruso, e está para sempre no inferno. Ele havia nascido próximo a Hebrom, numa pequena e pacífica cidade rural, recebeu um nome que dizia algo tão promissor e se tornou o homem mais desprezível de todos os tempos.

Você pode estar se questionando: Como ele entrou nesse grupo de “homens do Mestre”, no grupo dos apóstolos? Como ele chegou a essa posição? Como esse homem tão vil se tornou um apóstolo de Jesus Cristo? Será que Jesus não percebeu quem ele era?

Quando Jesus subiu a Jerusalém, por ocasião da Páscoa, muitos diziam estar crendo Nele por causa dos sinais que Ele operava. Mas João 2:24-25 diz:

Mas, o mesmo Jesus não confiava neles, porque a todos conhecia; E não necessitava de que alguém testificasse do homem, porque ele bem sabia o que havia no homem.

Seria ridículo alguém imaginar que Jesus não sabia o que movia o coração de Judas. Mas, aí você diz: “Se Jesus sabia exatamente que tipo de homem era Judas, por que ele o fez apóstolo? Por quê?”. Bem, porque ele tinha um propósito divino a cumprir no plano de Deus. Deus sabia disso, Jesus sabia disso. Penso que Judas não sabia disso e nem os outros onze. Eles o abraçaram como um colega apóstolo. Eles nunca fizeram uma pergunta sobre sua legitimidade.

E, aparentemente, no início, ele se sentiu atraído por Jesus. Seu coração era entregue às coisas materiais. Ele foi conduzido pela avareza. Essa é a melhor palavra, a avareza, que é uma ganância dominante e convincente. Mas, ele sabia que a nação esperava um Messias, e, certamente, ele procurava o Messias.

Sua visão do Messias era materialista. Era uma visão terrena, política, militar e econômica, algo comum ao resto dos judeus. Eles pensaram que quando o Messias chegasse haveria um estado de bem-estar, cumprimento imediato de todas as profecias do Antigo Testamento, o deserto iria florescer como uma rosa, todos teriam comida gratuita, todos estariam bem, todas as coisas seriam boas, todos seus inimigos se curvariam a eles, Ele governaria todo o mundo e os romanos seriam destruídos. E isso é o que eles procuravam. Eles não estavam procurando um Messias espiritual para vir e lidar com o pecado de seus corações. No final, eles executaram Jesus, porque Ele não era o que eles queriam.

Mas, no começo, todos estavam olhando dessa maneira. Até mesmo Tiago e João estavam almejando sentar-se a direita e a esquerda de Jesus como rei de um grande reino na terra naquele tempo (Mateus 20:21). Eles queriam prestígio e posições elevadas.

Judas seguiu a Jesus porque quis fazer isso. Ele admirava Jesus e provavelmente cria que Ele era o Messias. Ele ouviu suas palavras, viu suas obras poderosas, viu-O levantar pessoas dentre os mortos, viu-O curar as pessoas, viu muitos sinais, o profundo ensinamento de Jesus, alimentando multidões de pessoas, criando comida. Judas sabia que nunca havia existido alguém como Jesus. Ele era o bastante inteligente para saber que Jesus parecia ser o Messias. Ele pensou que Jesus iria conduzi-lo a uma posição que seu coração almejava.

Ele nunca teve um interesse espiritual, apenas material. Os outros tinham uma mistura do espiritual e do material. Mas você precisa entender que, desde o início, quando Jesus começou a pregar, Judas O seguiu por sua própria vontade e escolha. Ele viu Jesus e concluiu: “Nunca vi ninguém assim, estou me juntando com esse homem, Ele vai me levar para o lugar em que eu quero estar!”.

E então, nunca pense por um momento que Judas não estava agindo por sua própria vontade. Ele estava precisamente agindo por sua própria vontade, impulsionado pela ambição de poder, posição e ganância. Mas, do outro lado da história, enquanto tudo isso está funcionando em seu coração perverso, do lado divino, Cristo o escolheu. Deus estava no controle.

Em João 6, quando uma multidão de falsos discípulos se apartou de Cristo, não suportando Suas palavras, Judas, que também não as suportava, não foi embora. Ele queria dinheiro. Ele foi conduzido pela ambição, ganância e avareza. Mas, ao mesmo tempo, da maneira inexplicável e maravilhosa em que a vontade humana, o propósito divino e a soberania trabalham juntos, Deus o colocou na posição de fazer o que as profecias diziam.

Suponho que, ao lado da patologia espiritual, poderíamos dizer que Judas era um homem perverso, miserável, egoísta e orgulhoso. Ele provavelmente era uma pessoa cheia de justiça própria e que sonhava em ter parte no reino do Messias e tornar-se rico. E isso estava movendo seu coração naquela direção. Mas, o que ele não sabia era que Deus estava orquestrando toda sua miséria interior para se encaixar perfeitamente em Seu plano eterno. Desde o início, nosso Senhor sabia que Judas era o traidor e o escolheu porque sabia disso.

Ainda em João 6, quando a multidão se apartou, Jesus perguntou aos doze se eles também não queriam ir embora. Pedro respondeu: “Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna” (v.68). Mas Jesus disse: “Não vos escolhi a vós os doze? e um de vós é um diabo” (v.70). Os apóstolos não entenderam naquele momento, mas Jesus sabia disso desde o início, porque esse era o plano.

Deixe-me mostrar-lhe o quão claro está descrito. No Salmo 41:9 temos uma profecia sobre Judas: “Até o meu próprio amigo íntimo, em quem eu tanto confiava, que comia do meu pão, levantou contra mim o seu calcanhar”. No antigo Oriente Médio, quando alguém comia de seu prato, era um sinal de amizade íntima. E se essa pessoa se levantasse contra você, isso representava a traição de todas as traições, uma traição impensável. E, no entanto, essa é precisamente uma descrição de Judas.

Em Mateus 26, quando os discípulos questionam a Jesus quem entre eles O haveria de trair, Jesus diz: “O que põe comigo a mão no prato, esse me há de trair” (v.23). E nós sabemos que, naquela última ceia, Judas estava sentado ao lado de Jesus e Jesus compartilhou a refeição com ele. No verso 24, Jesus diz: “Em verdade o Filho do homem vai, como acerca dele está escrito, mas ai daquele homem por quem o Filho do homem é traído! Bom seria para esse homem se não houvera nascido”. Uma vez que nasceu, Judas possuía uma alma eterna que seria condenada ao inferno.

Em Lucas 22:21, Jesus diz: “Mas eis que a mão do que me trai está comigo à mesa”, novamente aqui é retratado o amigo íntimo “que comia do meu pão” (Salmo 41:9). Jesus, então, diz: “o Filho do Homem, na verdade, vai segundo o que está determinado, mas ai daquele por intermédio de quem ele está sendo traído!”. E volto a dizer: o fato de que Deus usou essa traição no Seu plano e controlou Judas para que ele fosse útil a Seus propósitos de uma maneira horrível, não é determinismo e não tirou a culpa de Judas. Então João 13:18 está a chave. Aqui Jesus faz uma referência explicita e direta ao Salmo 41:9. Ele diz:

Não falo de todos vós; eu bem sei os que tenho escolhido; mas para que se cumpra a Escritura: O que come o pão comigo, levantou contra mim o seu calcanhar.

“Sei quem escolhi”, não para ser apóstolo, mas para ser salvo. Esta é a escolha da salvação. Eu sei quem escolhi. Interessante que o conceito de eleição é apresentado de novo.”Mas é para que se cumpra a Escritura”. E então, Ele cita o Salmo 41:9: “O que come o pão comigo, levantou contra mim o seu calcanhar”. Judas fez o que fez da maneira que foi projetada no Antigo Testamento para que houvesse um cumprimento das profecias que demonstram que Deus sabia exatamente o que estava acontecendo, que Deus orquestrava tudo. Jesus não foi surpreendido por Judas, Ele sabia de tudo desde o início. O Salmo 55:12-14 diz:

12 Pois não era um inimigo que me afrontava; então eu o teria suportado; nem era o que me odiava que se engrandecia contra mim, porque dele me teria escondido.
13 Mas eras tu, homem meu igual, meu guia e meu íntimo amigo.
14 Consultávamos juntos suavemente, e andávamos em companhia na casa de Deus.

Uma coisa é ser traído por um inimigo declarado. É mais fácil suportar algo assim. A dor da traição de alguém que você considera um amigo íntimo é aguda. Então, o Antigo Testamento nos diz que haveria um traidor, e ele estaria no círculo íntimo de Jesus.

Zacarias 11:12 diz: “Pesaram, pois, por meu salário trinta moedas de prata”. O verso 13 diz: “E o Senhor me disse: Lance isto ao oleiro, o ótimo preço pelo qual me avaliaram! Por isso tomei as trinta moedas de prata e as atirei no templo do Senhor, para o oleiro”.

Zacarias retrata Jesus perguntando àqueles aos quais Ele veio pastorear o quanto consideravam que Ele valia. Os líderes responderam com escárnio, oferecendo 30 moedas de prata, mesma quantia paga como indenização por um escravo chifrado por um boi (Êxodo 21:32). Judas recebeu exatamente esse valor para trair o Supremo Pastor (Mateus 26:14-16). Os líderes religiosos mostraram que para eles Jesus não valia mais que um escravo comum.

Veja o que Mateus 27:3-5 diz:

3 Então Judas, o que o traíra, vendo que fora condenado, trouxe, arrependido, as trinta moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos,
4 Dizendo: Pequei, traindo o sangue inocente. Eles, porém, disseram: Que nos importa? Isso é contigo.
5 E ele, atirando para o templo as moedas de prata, retirou-se e foi-se enforcar.

O cumprimento da profecia em Zacarias 11. Judas volta cheio de remorso e atira as moedas de prata no templo, diante dos líderes religiosos. E eles haviam comprado o campo do oleiro para fazer dele um cemitério. Não havia como o profeta Zacarias saber de tudo isso. O Messias foi vendido por trinta moedas de prata, que foram atiradas no Templo e foram para  o oleiro. E foi exatamente isso que aconteceu, conforme descrito por Zacarias. Os versos 6 e 7 de Mateus 27 diz:

E os príncipes dos sacerdotes, tomando as moedas de prata, disseram: Não é lícito colocá-las no cofre das ofertas, porque são preço de sangue. E, tendo deliberado em conselho, compraram com elas o campo de um oleiro, para sepultura dos estrangeiros.

Então, Judas veio por sua própria vontade, escolha, e de sua própria decisão para realizar coisas que estavam em sua própria ambição miserável, orgulhosa e gananciosa. Mas, ao mesmo tempo em que ele se movia no desejo de sua própria mente, Deus estava no trabalho efetuando o cumprimento da profecia através dele. Esta é uma ótima ilustração das verdades da soberania de Deus e da responsabilidade do homem. Essas verdades caminham paralelamente, não podemos entender a forma sobrenatural em que elas trabalham, mas sabemos que tudo funciona no âmbito de Deus e Seu propósito. E, no final, o homem é culpado por suas próprias escolhas, ele é culpado por seus próprios pecados, e ele é condenado por sua própria rejeição. No entanto, os propósitos de Deus acontecem da forma determinada previamente. Penso que em João 17:11-12 temos a melhor definição de tudo isso.

E eu já não estou mais no mundo, mas eles estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste, para que sejam um, assim como nós. Estando eu com eles no mundo, guardava-os em teu nome. Tenho guardado aqueles que tu me deste, e nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdição, para que a Escritura se cumprisse.

Jesus está orando por seus apóstolos, expressando que Ele mesmo já não mais estava no mundo, uma referência a tudo que aconteceu antes e depois da cruz. Aqueles a quem o Pai lhe deu, Jesus os guardou. Mas Judas serviu apenas para o cumprimento profético, ele não era um escolhido de Deus. Ou seja, o chamado de Judas foi apenas para cumprimento das Escrituras. Judas veio por sua própria vontade, mas estava cumprindo um desígnio divino, previamente estabelecido por Deus. É um perfeito exemplo da soberania de Deus e da responsabilidade do homem.

Mas, observe aqui, Judas é chamado de “filho da perdição”, o mesmo nome que o Anticristo recebe em II Tessalonicenses 2:3. Filho de perdição significa que sua natureza é perdida, seu caráter essencial é a destruição, uma natureza perdida para Deus. Se você diz que alguém é um filho da justiça, significa que, por natureza, é um justo. Se você diz que alguém é um filho de amor, você quer dizer que ele é amoroso. Se você diz que alguém é um filho da escuridão, ou um filho de Belial, você quer dizer que sua própria natureza manifesta o pecado e Satanás.

Se você diz que alguém é um filho da perdição, você está dizendo que o que é mais verdadeiro sobre ele é a sua total perdição. E esta é a razão pela qual Judas e o Anticristo são chamados de filhos da perdição. E, a partir disso, muitos dizem que o Anticristo será Judas ressuscitado. Isso é mera especulação, não há fundamento bíblico para respaldar esta afirmação. Apenas porque eles têm o mesmo rótulo não significa que eles sejam a mesma pessoa.

Então, este homem por sua própria vontade, orgulho, incredulidade, ambição e sua própria ganância segue Jesus, escolhe entrar no círculo íntimo do Mestre. Certamente ficou surpreso quando Jesus o escolheu. E nada mais natural que ele ambicionasse ser o tesoureiro (João 12:6; 13:29), ele queria colocar as mãos no dinheiro. E ele teve sucesso nisso. Nenhum dos onze jamais soube que ele era o hipócrita. Quando Jesus disse que um deles O trairia, os apóstolos perguntaram: “Senhor, quem é que te há de trair?” (João 21:20). Eles não desconfiavam de Judas. Judas foi o pior dos homens e o melhor dos hipócritas. Em Atos 2:22-23, Pedro diz:

Homens israelitas, escutai estas palavras: A Jesus Nazareno, homem aprovado por Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós, como vós mesmos bem sabeis; A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos;

Tudo aconteceu como Deus estabeleceu na eternidade, mas os homens ímpios são culpados. É assim que toda a história se passa, o pecador escolhe e Deus soberanamente orquestra e controla. Assim foi com Judas. E Judas não tinha qualquer distintivo que denunciasse sua miséria. Nenhum dos apóstolos desconfiou dele. Humanamente, aos olhos dos judeus, Judas era melhor que Mateus, que era um coletor de impostos, uma classe odiada por todos. Ou mesmo melhor que Simão, o Zelote, que era um terrorista. Inicialmente, todos os apóstolos tinham motivos nacionalistas, expectativas de recompensas neste mundo etc. A única diferença foi que os demais apóstolos também tiveram uma dimensão espiritual. Eles criam em Jesus Cristo como seu Messias, Salvador. Porém, Judas buscava apenas algo para satisfazer suas ambições.

Jesus escolheu Judas por causa do plano eterno e para o cumprimento da Escritura. E, no entanto, Judas escolheu Jesus por sua própria ambição miserável. Ele pensou em usar Jesus para chegar onde seu coração ganancioso almejava. E Deus sabia que ele iria se juntar a Jesus, e também sabia que ele iria estar ali até o momento em que Deus quisesse que ele estivesse.

E, como eu disse, sendo um judeu do sul, ele era um estranho. Isso funcionou a seu favor. Os outros apóstolos não tinham nenhum histórico de Judas. Eles confiaram nele o suficiente para torná-lo o tesoureiro do grupo. Eles lhe deram todo o dinheiro, ao qual ele roubava sistematicamente (João 12:6). Ele era perverso o suficiente para trair o Filho de Deus, mas isto não o impediu de receber a confiança dos onze apóstolos. Eles acabaram confiando todo o dinheiro a um ladrão ganancioso.

Ele enganou a todos os demais apóstolos e eles simplesmente não tinham ideia do coração perverso que Judas tinha. Dia após dia, através do ministério de Jesus, o coração de Judas ficava cada vez muito mais duro. Muito mais difícil. O mesmo sol que derrete a cera endurece a argila. E enquanto os corações dos discípulos estavam derretendo sob o Sol da justiça, o de Judas estava endurecendo cada vez mais e mais e mais e mais.

Você deve ser avisado, meu amigo: não fique perto de Jesus Cristo, se esta posição estiver endurecendo você. Afaste-se, para que não se torne como Judas. A visão de Judas era crescentemente terrena e a dos demais discípulos era cada vez mais celestial. Em João 15:5-6 Jesus disse:

Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não estiver em mim, será lançado fora, como a vara, e secará; e os colhem e lançam no fogo, e ardem.

Judas foi um perfeito exemplo daquele galho infrutífero, aos olhos humanos aparentava estar ligado a Cristo, mas sem a essência, e assim seria cortado e jogado no fogo. Mas Jesus nunca o expôs e ao longo de seu ministério Ele nunca disse aos demais quem era Judas Iscariotes. Jesus lhe ofereceu amor e carinho. Mesmo na última ceia, Ele estava dividindo sua refeição com Judas, uma forma de fazer da pessoa um convidado de honra.

E durante a sua caminhada com Jesus, Judas ouviu muito o Mestre condenar o amor ao dinheiro, às riquezas, à ambição. Ouviu Jesus dizer que ninguém pode amar a Deus e ao dinheiro ao mesmo tempo. Que você não pode servir a dois mestres. Judas estava em frente a Jesus, que dizia: “não se ocupe com as riquezas terrestres, não coloque seu tesouro aqui, coloque no céu, você não pode servir a Deus e ao dinheiro, não se preocupe com a provisão do amanhã”. Eram palavras intragáveis para Judas.

Em Lucas 16, Jesus falou da parábola do mordomo injusto e advertiu sobre ter uma tremenda oportunidade, um enorme privilégio e desperdiçá-lo e chegar à escuridão externa. E então, Ele contou uma parábola em Mateus 22 sobre a grande festa de casamento, para a qual todos foram convidados. Todos os convidados vieram e alguém veio à festa de casamento e não tinha vestes nupciais. E eles o pegaram e o jogaram na escuridão exterior, onde só há lágrimas, lamentos e ranger de dentes. Este era um perfeito quadro de Judas. Mas seu coração era tão maligno, perverso, ambicioso, orgulhoso e tão faminto por dinheiro, que cada vez mais se tornava mais duro.

Quando em Mateus 6:34 Jesus disse “Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal”, e em Mateus 23 Jesus fala fortemente contra a hipocrisia, você pode imaginar quanto aquelas palavras eram intragáveis para um avarento e hipócrita como Judas. O maior hipócrita da multidão era Judas. Ele era um hipócrita muito maior do que os principais sacerdotes, os escribas, os saduceus, os fariseus. Ele era o hipócrita dos hipócritas. Penso em quantas vezes Jesus deve ter dito coisas olhando nos olhos de Judas. Não é de admirar que Jesus tenha dito que ele era um filho da perdição.

E eu o advertiria, se você costuma escutar continuamente a verdade e a rejeitar continuamente em seu coração, que você está no caminho de Judas. E se seu coração não se derreter quando exposto continuamente ao Sol da Justiça, ele se endurecerá mais. Melhor seria você sair daqui e não voltar do que endurecer progressivamente seu coração exposto à Luz da Verdade. Mesmo para os cristãos isso também é uma verdade. Não endureça seu coração quando exposto à verdade.

Judas é tão trágico! E eu quero que você entenda sua culpa. E eu também quero que você entenda que Jesus estendeu a mão e falou com ele, pregou a ele, dirigiu Suas palavras para ele, assim como Seu amor e Seu carinho. E isso para mim é como a oferta do evangelho universal que aumenta sua culpa e define sua incredulidade como obstinada. E ele é culpado, porém, Deus, em Sua incrível providência e poder, encaixa a obstinada incredulidade do homem em Seu plano para cumprir as Escrituras. Jesus não foi uma vítima de Judas. Jesus não foi pego de surpresa pela maldade de Judas. Tudo foi planejado desde o início.

Na próxima vez continuaremos a falar sobre essa triste história. Junte-se a mim em oração.

Pai, agradecemos-Te nesta manhã pela Palavra, como sempre fazemos. O que saberíamos de qualquer coisa sem a Escritura? Mesmo esse assunto, tão sombrio e tão trágico, é tão importante. As lições da vida deste homem são profundas e é inimaginável que um homem poderia passar três anos caminhando, conversando, comendo, dormindo, compartilhando a vida com o Deus eterno, Criador do universo na forma humana e não só não seja afetado positivamente, mas seja afetado negativamente, de modo que a admiração se transformou em indiferença, e a indiferença em ódio, e o ódio se transformou em traição, e a traição resultou em suicídio, que resultou em uma condenação. Que história horrível! Mas é instrutiva. Ajude-nos a examinarmos nossos próprios corações. Queremos ficar com os onze, com toda a sua confiança e toda a simplicidade deles. Queremos ficar de pé com aqueles que Te amam, que Te abraçam, que creem e que Te servem. Este é o nosso privilégio. Amém.


Esta é uma série de 12 sermões sobre o chamado dos apóstolos

01. O chamado dos doze apóstolos
02. O chamado de Pedro (Parte 1)
03. O chamado de Pedro (Parte 2)
04. O chamado de Pedro (Parte 3)
05. O chamado de André e Tiago (irmão de João)
06. O chamado de João
07. O chamado de Filipe
08. O chamado de Natanael (Bartolomeu)
09. O chamado de Mateus e Tomé 
10. O Chamado de Tiago (filho de Alfeu), Simão (o zelote) e Judas Tadeu 
11. O chamado de Judas Iscariotes – Parte 1
12. O chamado de Judas Iscariotes – Parte 2


Este texto é uma síntese do sermão “Common Men, Uncommon Calling: Judas Iscariot, Part 1″, de John MacArthur, em 02/09/2001.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/library/sermons-library/42-81/common-men-uncommon-calling-judas-iscariot-part-1

Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno


 

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