Jesus: O Senhor do Sábado – 1

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Continuamos hoje nossa caminhada pelo Evangelho de Marcos. Cada um dos evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João) pretende nos apresentar não apenas os acontecimentos da vida de Jesus, mas a realidade de Sua identidade. Não é apenas uma história de um homem e de suas atividades. É a história do Deus-Homem, Seu ministério e Seu propósito. Cada um dos escritores dos Evangelhos está preocupado que entendamos quem é Jesus Cristo e as mensagens repetidas e repetidas de que Ele é Deus em carne humana.

Não há dúvida sobre isso no Evangelho de Marcos. No capítulo 1 e no versículo 1, Ele é apresentado a nós como Jesus Cristo, o Filho de Deus. No versículo 3, Ele é identificado como o Senhor. Nos versículos 7 e 8, Ele é descrito como Aquele que virá e que é mais poderoso do que João Batista. E João Batista diz: “do qual não sou digno de, abaixando-me, desatar a correia das suas sandálias”.

Nesse mesmo texto, Ele é identificado como aquele que batizará com o Espírito Santo. No versículo 11, Deus, o Pai, o chama: “Meu Filho amado em quem me alegro”. No versículo 14, Ele é o pregador do evangelho de Deus. Ele é Aquele que prega o Evangelho do reino de Deus. No verso 15, Jesus diz: “Arrependei-vos, e crede no evangelho”, para entrar no reino. No versículo 24, até um demônio declara: “Bem sei quem és: o Santo de Deus”.

Já está claro nos dois primeiros capítulos que o Santo de Deus, o Filho de Deus, o Senhor é Aquele que tem poder e autoridade sobre demônios, sobre a tentação, Satanás, as doenças e até poder e autoridade para perdoar o pecado. Quão importante é que Jesus pode de fato dominar todos os efeitos da queda do homem, dominando Satanás, demônios, doenças avassaladoras, a morte e o pecado. Ele é o Salvador. E assim, Marcos O identificou inequivocamente como Deus em carne humana, o verdadeiro Salvador e Redentor.

No nosso texto, versos 23 a 28, que conclui o capítulo 2, Ele é identificado por outro título, que vem no versículo 28: “o Filho do Homem é senhor também do sábado”. “Filho do Homem” certamente se refere à Sua humanidade, mas também é um título messiânico tirado de Daniel 7:13-14, onde Daniel diz:

Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha nas nuvens do céu um como o filho do homem; e dirigiu-se ao ancião de dias, e o fizeram chegar até ele. E foi-lhe dado o domínio, e a honra, e o reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e o seu reino tal, que não será destruído.

Mas, aqui eu quero que você observe o título: “Senhor do sábado”. Isso pode não parecer ser um título significativo, quando comparado aos outros mencionados, mas em termos de Sua relação com os fariseus e os escribas, os arquitetos do judaísmo apóstata que dominavam a nação, era o máximo de incômodo de todas as Suas credenciais messiânicas.

Jesus Se chamar a Si mesmo “o Senhor do sábado” era para eles uma indignação além da compreensão. Eles estavam muito conscientes do fato de que Deus havia ordenado o sábado. Gênesis 2:2-3 diz que:

E havendo Deus acabado no dia sétimo a obra que fizera, descansou no sétimo dia de toda a sua obra, que tinha feito. E abençoou Deus o dia sétimo, e o santificou; porque nele descansou de toda a sua obra que Deus criara e fizera.

Claramente o sábado foi ordenado por Deus [mas, extinguiu-se na Nova Aliança]. É o próprio Deus que é o Senhor do sábado. Senhor significa soberano. É o próprio Deus que é o soberano durante o sábado, que governa o sábado, que define o sábado. Além disso, em êxodo 20:8-11, foi Deus que escreveu, com Seu próprio dedo ardente, nas tábuas de pedra:

Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas.

Além disso, foi o próprio Deus quem reiterou o sábado em Êxodo 31: 12-17, quem repetiu os Dez Mandamentos em Deuteronômio e sempre estabeleceu a lei do sábado.

Reivindicar, então, ser o Senhor do Sábado era essencialmente reivindicar ser Deus. E qualquer um que faz isso é Deus ou um blasfemador do tipo mais elevado. E realmente não há um meio termo. Jesus é além de um mestre, Ele é Deus, como Ele mesmo afirmou ser. Se você não crê nisto, você O tem como um supremo blasfemador. Você não tem nenhuma meia opção.

Agora, quando Jesus Se chamou “Senhor do sábado”, Ele desferiu o golpe mais severo no sistema farisaico, porque o sistema farisaico, o sistema de obras, do mérito, da autojustiça, da realização, do relacionamento espiritual com Deus através da cerimônia e do ritual e da lei externa, mantinha seu ponto focal no sábado, que era o dia principal para a religião farisaica. Quando Jesus, então, ignorou, desprezou o sábado, Ele se colocou em conflito direto com os líderes judeus no ponto mais sensível.

Nós vamos ver isso nesta seção no final do capítulo 2 e também nos primeiros seis versículos do capítulo 3. Ambos os incidentes são ilustrações repetidas do desprezo total de Jesus pelo tratamento do judaísmo ao sábado. Mateus, Marcos e Lucas apresentam os dois incidentes consecutivamente. Provavelmente aconteceram em sábados sequenciais.

Mas, antes de ver o versículo 23, no capítulo 2 de Marcos, eu quero que você volte no tempo, em João 5, para um acontecimento anterior a este conflito na Galileia, que é registrado em Mateus, Marcos e Lucas.

Jesus havia estabelecido Sua atitude em relação ao sábado em Jerusalém. João 5 começa dizendo: “depois disto havia uma festa entre os judeus, e Jesus subiu a Jerusalém”. Em algum momento, no meio do ministério galileu, Jesus foi a Jerusalém, provavelmente na Festa dos Tabernáculos.

Tendo chegado a Jerusalém, Ele se dirigiu para um confronto com os fariseus e os escribas, com os líderes judeus, incluindo os saduceus e todo o Sinédrio, o conselho governante. A partir deste momento, a hostilidade atinge um ponto alto, porque Jesus passa a atacar o sábado deles.

João 5:2 diz que “em Jerusalém há, próximo à porta das ovelhas, um tanque, chamado em hebreu Betesda, o qual tem cinco pórticos”. E pessoas doentes, cegas, coxas e atrofiadas estavam deitadas lá. O versículo 4 é um texto inexistente nos escritos originais mais antigos, relatando uma superstição que havia: “Porquanto um anjo descia em certo tempo ao tanque, e agitava a água; e o primeiro que ali descia, depois do movimento da água, sarava de qualquer enfermidade que tivesse”. Não há indícios de que isso era uma realidade, mas era o que as pessoas acreditavam.

No versículo 5, há um homem que estava lá por 38 anos. Doente e com corpo atrofiado, que não conseguia se mover para entrar primeiro na água (v.7). Então, em pleno dia de sábado, Jesus diz: “Levanta-te, toma o teu leito, e anda”. O verso 8 diz: “Logo aquele homem ficou são; e tomou o seu leito, e andava. E aquele dia era sábado”.

Agora, aqui está o problema: era um dia de sábado, que ocorria a partir do pôr-do-sol de sexta-feira ao pôr-do-sol do sábado. O verso 10 diz: “disseram os judeus ao que fora curado: Hoje é sábado, e não te é lícito o leito”. Você já ouviu falar de insensibilidade? Trinta e oito anos doente e finalmente conseguiu se levantar, mas aquelas pessoas estavam apenas olhando para as regras religiosas…

Mas, ele respondeu: “O mesmo que me curou me disse: Toma o teu leito e anda” (v.11). Ele quis dizer: ”bem, se esse homem tem poder sobre a doença, então Ele tem uma autoridade além da sua. E quando Ele disse para caminhar, eu caminhei”. O homem curado nem sabia quem Jesus era, pois Jesus se retirou do local (v. 13).

No versículo 16, temos o problema: “E os judeus perseguiam Jesus, porque fazia estas coisas no sábado”. Uau! Quão horrível curar alguém no sábado! A tradição sabática era domínio deles. Eles eram fanáticos sobre o sábado! A doutrina deles era estranha às Escrituras, a qual não dava restrições para o sábado, além de você não trabalhar. O que Jesus fez foi um ato de misericórdia. Mas, eles inventaram regras infinitas, impossíveis, restrições para a conduta no sábado e tornaram cada uma dessas regras o mais restritiva possível. E a ideia era que, quanto mais privações você tivesse no sábado, mais você se tornava santo.

E então, eles guardaram suas regras ferozmente, exigindo que cada pessoa em toda a nação as observasse. Mesmo os saduceus, que eram inimigos e adversários teológicos dos fariseus, se renderam à questão do sábado. Eles fizeram isso porque, simplesmente, estavam salvaguardando suas reputações como homens espirituais.

Mas Jesus rejeitou tudo. Ele nunca se conformaria às condições dos homens, com as regras feitas pelo homem, que tinham substituído a Lei de Deus. Jesus disse aos fariseus que eles invalidavam a Lei de Deus pelas tradições deles (Mateus 15:6) e que adoravam a Deus em vão, ensinado doutrina de homens (Mateus 15:9). Havia uma tal sobrecarga de regras, que Jesus disse: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mateus 11:28). Jesus estava falando sobre pessoas que estavam sob o ônus de um legalismo opressivo, restritivo e sabático, do qual a pessoa não poderia obter alívio, do qual nunca se libertaria de uma consciência culpada. Jesus continuou dizendo (Mateus 11:29-30):

Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.

Eis a diferença maciça entre graça e o sistema legalista. Em Mateus 23:4, Jesus diz que os escribas e fariseus “atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com o dedo querem movê-los”. Eles viviam sob uma necessidade fanática de aderir a regras infinitas, em detalhes que eles mesmos nunca poderiam cumprir. Eles faziam todos viverem em um constante fardo de culpa por não alcançarem o cumprimento de tantas regras.

Então, Jesus desafiou suas regras feitas para o sábado e em João 5:16 é dito que “por esta causa os judeus perseguiram a Jesus, e procuravam matá-lo, porque fazia estas coisas no sábado”. Mas, Jesus não procurou uma zona de acordo com eles, porém respondeu: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (v.17). Bem, no versículo seguinte de João 5, diante desta resposta de Jesus, a indignação dos judeus se elevou ao máximo: “Por isso, pois, os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque não só quebrantava o sábado, mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus” (v.18).

Quando Ele retornou à Galileia, depois da semana em Jerusalém, Ele então diz que é Deus novamente: “Eu sou o Senhor do sábado” (Marcos 2:28). Esse foi um confronto absoluto de todo o sistema religioso que encontrou seu ponto focal na observância do sábado.

João 5 foi o primeiro confronto sabático, e o Senhor não recua. De fato, o versículo 18 diz que eles estavam buscando ainda mais matá-Lo, porque Jesus estava se fazendo igual a Deus. Você sabe o que Ele faz do versículo 19 até o final do capítulo? Ele afirma que é Deus. Ele não faz nenhuma conciliação com o sistema religioso. Ele não busca um terreno comum com a falsa religião. De fato, no versículo 34 diz: “Eu, porém, não recebo testemunho de homem; mas digo isto, para que vos salveis”. Ele reconhece que eles são religiosos, mas não salvos, como as pessoas em falsas religiões.

Bem, voltando a Marcos 2, vemos que depois da breve visita ao festival em Jerusalém (João 5), Jesus retorna à Galileia. E Ele vai enfrentar essa mesma questão na Galileia. Os versículos 23 a 28 dizem:

23 Ora, aconteceu atravessar Jesus, em dia de sábado, as searas, e os discípulos, ao passarem, colhiam espigas.
24 Advertiram-no os fariseus: Vê! Por que fazem o que não é lícito aos sábados? 25 Mas ele lhes respondeu: Nunca lestes o que fez Davi, quando se viu em necessidade e teve fome, ele e os seus companheiros?
26 Como entrou na Casa de Deus, no tempo do sumo sacerdote Abiatar, e comeu os pães da proposição, os quais não é lícito comer, senão aos sacerdotes, e deu também aos que estavam com ele?
27 E acrescentou: O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado;
28 de sorte que o Filho do Homem é senhor também do sábado

Você vê, Jesus sempre estava forçando as pessoas a escolherem entre o Seu evangelho de humildade, arrependimento, graça e fé e a religião condenatória do judaísmo cheia de orgulho, autojustiça, mérito e obras. Escolha o judaísmo ou escolha o evangelho, não há um terreno comum. Jesus disse:

Ninguém põe remendo de pano novo em veste velha; porque o remendo tira parte da veste, e fica maior a rotura. Nem se põe vinho novo em odres velhos; do contrário, rompem-se os odres, derrama-se o vinho, e os odres se perdem. Mas põe-se vinho novo em odres novos, e ambos se conservam (Mateus 9:16-17).

Nesses versos, Jesus diz que Seu Evangelho nada tinha a ver com o judaísmo apóstata e seus rituais humanos. A escolha ainda é a mesma.

Agora, você precisa saber um pouco sobre o quão fanático eles eram sobre o sábado para que você possa entender isso. A palavra “sábado” vem de “sabbaton”, sua raiz é o verbo “cessar”. O duplo “B” no “sabbaton” é uma forma intensificada, por isso é uma cessação completa. Foi Deus quem definiu o Sábado em Gênesis 2:3. Ele cessou completamente a obra da criação. E então, o Sábado veio a se referir a esse dia em que as pessoas cessam de trabalhar. É o que diz o Antigo Testamento. Simplesmente diz que você não trabalha nele, e sim descansa. Era para ser um dia de alegria, foi feito para o homem, um dia de descanso, recuperação, restauração, adoração.

Mas, os hipócritas fariseus e escribas desenvolveram todo tipo de coisas para tornar o sábado pior do que qualquer outro dia, por causa de suas restrições inacreditáveis. O “Talmud” [coletânea de livros sagrados dos judeus] veio algum tempo depois de Cristo, mas retoma e codifica todas as leis que há muito existiam no judaísmo, nas discussões rabínicas.

Por exemplo, você não poderia viajar mais de 900 metros no sábado. Alguns diziam que, no sábado, você não poderia dar mais de 999 passos, o passo milésimo seria violação do sábado. Isso seria do pôr do sol de sexta-feira ao pôr do sol no sábado. A única maneira de ir mais longe do que isso é se você colocasse algum alimento a novecentos e noventa e nove passos na sexta-feira antes do sábado e, uma vez que você chegasse à comida, você teria mais novecentos e noventa e nove passos. Você iria mais longe para voltar.

Agora, onde quer que houvesse ruas estreitas, de acordo com o Talmud, você poderia colocar um pedaço de madeira ou um pedaço de corda na entrada da rua, entre as habitações de cada lado, e então, você poderia fazer a rua como a entrada de uma casa, para que você pudesse passar de 900 metros ou 999 passos.

Nenhum fardo poderia ser carregado que pesasse mais do que um figo seco, ou metade de um figo carregado duas vezes. Se você colocasse uma azeitona na sua boca e a rejeitasse porque era ruim, você não poderia colocar uma azeitona inteira na próxima vez, porque o paladar tinha saboreado o sabor de uma azeitona inteira. Se você jogasse um objeto para cima, teria que pegá-lo com a mesma mão, se usasse a outra seria pecado.

O escriba não podia carregar sua caneta. Um aluno não podia levar seus livros. Nenhuma roupa poderia ser examinada, para não correr o risco de encontrar um piolho e ter que matá-lo. Nada poderia ser vendido ou comprado. Nada poderia ser lavado. Uma carta não poderia ser enviada, mesmo que fosse enviada através de um pagão. Nenhum fogo poderia estar aceso. Um ovo não poderia ser cozido ou frito, mesmo que você o jogasse no chão quente. Você não poderia tomar banho, por temer que a água também lavasse o chão. As mulheres não podiam usar joias, porque a joia pesa mais do que um figo seco e etc. etc. etc.

O Talmud continha 24 capítulos de leis sobre o sábado. O sistema era opressivo e tudo era antibíblico. O sábado tornou-se um tormento. Agora, com isso em mente, vejamos a história: “Ora, aconteceu atravessar Jesus, em dia de sábado, as searas, e os discípulos, ao passarem, colhiam espigas” (Marcos 2:23). Os fariseus estão O seguindo. Certamente eles deram mais de 999 passos naquele dia, pois seguiam Jesus por todos os lugares.

Haviam trilhas que atravessavam campos prontos para a colheita. Segundo suas doutrinas, os fariseus viram na colheita das espigas pelos discípulos uma violação grave do sábado.

Interessante que em Deuteronômio 23:25, Deus oferece uma disposição maravilhosa para os viajantes: “Quando entrares na seara do teu próximo, com a tua mão arrancarás as espigas; porém não porás a foice na seara do teu próximo”. Aqui está uma permissão para o viajante colher espigas em campos alheios, durante sua viagem, para suprir sua fome. O Antigo Testamento não restringe a seis dias por semana, simplesmente diz que você pode fazê-lo. O Antigo Testamento nunca restringiu o quão longe uma pessoa pode andar. Ele simplesmente os chama a parar de trabalhar e descansar e passar o dia adorando a Deus.

Portanto, seus discípulos estão fazendo exatamente o que o Antigo Testamento lhes permitia fazer. Lucas acrescenta que eles estavam esfregando-os em suas mãos para obter o fruto (Lucas 6:1). Mateus acrescenta que eles fizeram isso porque estavam com fome (Mateus 12:1). Tudo estava perfeitamente dentro dos propósitos de Deus e da revelação de Deus no Antigo Testamento, mas em violação direta das regras religiosas que dominavam aquela cultura legalista.

Então, você tem o incidente do sábado. O verso 24 diz: “Advertiram-no os fariseus: Vê! Por que fazem o que não é lícito aos sábados?”. Essa é a acusação dos fariseus. Em Lucas 6:2 há uma pergunta dos fariseus diretamente a Jesus: “Por que fazeis o que não é lícito aos sábados?”. Lá eles estavam prontos para proteger sua hipócrita religião sem pensar na provisão do Antigo Testamento, sem pensar na fome dos seguidores de Jesus. Eles estão examinando Jesus. Eles estão querendo acusá-Lo por causa da violação de suas ridículas regras artificiais.

Agora, isso é o que o Talmud diz: se você rolar o trigo em suas mãos para remover as cascas, está peneirando e isso é proibido. Se você esfregar as cabeças de trigo, está debulhando e é algo proibido. Se você descascar, está peneirando e isso é proibido. Se você joga a palha no ar, isso é cirandar, é proibido no sábado.

Então, a pergunta real dos fariseus foi: “por que Você e Seus discípulos vivem desafiando abertamente nossa religião? Por que Você desafia nossa religião? Por que Você desafia nossa autoridade?”. É uma ameaça implícita. Não é uma questão legítima, pois eles não querem uma resposta. É uma acusação desdenhosa, implicando uma ameaça.

Jesus responde com uma ilustração bíblica, no versículo 25. Ele começa dizendo: “vocês nunca leram?” ou “vocês não conhecem as Escrituras?” Isso os deve ter levado a uma profunda ira. Eles se consideravam mestres absolutos das Escrituras, e ouvir isto foi algo terrivelmente irritantes para eles. Eles de fato já haviam lido, mas sem qualquer entendimento. Suas interpretações eram esotéricas, místicas, enroladas, alegóricas, como as interpretações rabínicas do Antigo Testamento ao longo da história, e ainda são assim hoje.

Se você quiser obter uma interpretação complicada do Antigo Testamento, ouça um rabino. Você nunca consegue, não é? É uma acusação mordaz sugerir-lhes que eles não sabem o que a Bíblia quer dizer. Jesus disse-lhes: “Nunca lestes o que fez Davi, quando se viu em necessidade e teve fome, ele e os seus companheiros?”. Esse fato está em I Samuel 21. Davi estava fugindo do sul de Gibeá, porque Saul estava atrás dele para matá-lo.

Ele veio, de acordo com I Samuel 21: 1, para Nobe, a cerca de uma milha ao norte de Jerusalém. O tabernáculo estava localizado ali. E ele não tinha comida e estava com fome. Lá, ele conheceu o sacerdote chamado Aimeleque e pede comida para si e para aqueles que estavam com ele. Ele pediu pelo menos cinco pães, mas o sacerdote disse que nenhum pão estava disponível.

O versículo 4 de I Samuel 21 diz: “Não tenho pão comum à mão; há, porém, pão sagrado, se ao menos os moços se abstiveram das mulheres”. Em outras palavras, ‘estou disposto a deixar você comer o pão sagrado se seus homens tiverem sido purificados’. Eles confirmam, no versículo 5, que estavam limpos nesse sentido. Versículo 6: “Então o sacerdote lhe deu o pão sagrado, porquanto não havia ali outro pão senão os pães da proposição, que se tiraram de diante do Senhor, para se pôr ali pão quente no dia em que aquele se tirasse”.

Deixe-me dizer-lhe como isso funcionou. Todo sábado, pão quente era trazido para dentro do tabernáculo para uma mesa de ouro. Doze pães de pão quente eram colocados em uma mesa de ouro dentro do tabernáculo, na presença de Deus, simbolizando a necessidade de as doze tribos terem comunhão com Deus.

No sábado seguinte, o pão que ficara ali por uma semana seria removido e um pão mais quente seria trazido para manter esse símbolo fresco. De acordo com Levítico 24: 5 a 9, isso é chamado de pão da presença. Havia duas fileiras, duas pilhas desses doze pães. O pão velho no sábado, quando removido, era comido apenas pelos sacerdotes.

Agora, essa era a provisão que Deus havia feito. Marcos 2:26 diz que Davi “entrou na Casa de Deus, no tempo do sumo sacerdote Abiatar, e comeu os pães da proposição, os quais não é lícito comer, senão aos sacerdotes”. Claro, os companheiros de Davi também comeram.

O sacerdote era muito, muito sábio. Ele entendeu que nenhuma cerimônia deveria sobreviver a custa da morte de alguém. A cerimônia é cerimônia, o ritual é simbólico. Você não guarda uma cerimônia a custa da morte de uma pessoa. Tem seu lugar, mas a piedade triunfa sobre o ritual e a cerimônia. Este sacerdote entendeu o que alguém entenderia, é o senso comum. Nada é tão valioso quanto uma vida. Talvez fosse realmente um sábado quando o pão velho estava saindo, e é por isso que ele poderia dizer: “Eu poderia te dar isso”.

Por sinal, Davi era um rei no exílio. Ele era o verdadeiro rei, a nação o havia rejeitado. Se ele estivesse em seu lugar legítimo, como rei, ele e seus homens não precisariam comer esse pão. E Jesus, o grande Filho de Davi, tinha sido rejeitado por Sua nação. Se eles O tivessem reconhecido como Rei, Ele também não comeria cereais em um campo como um pobre viajante.

A cerimônia, o ritual e a tradição vazia nunca estão no caminho da misericórdia, da bondade, do bem, da necessidade. Mas os fariseus não se importavam com isso. Eles encontraram pessoas com fardos e não fizeram nada para aliviá-las. Eles ficaram furiosos por Jesus curar um homem que estava doente há 38 anos. Eles violaram o amor, a misericórdia e a compaixão. Eles não tinham conceito da graça. E quando Jesus disse: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia”, Ele estava se colocando diretamente contra os líderes do judaísmo apóstata.

Aqui está o ponto: se Davi recebeu a permissão de um sacerdote para violar um símbolo divino, talvez em um sábado, então os discípulos poderiam receber a permissão do Filho de Deus para violar uma regra não bíblica sobre o sábado. Todo o sistema religioso dos fariseus não era bíblico.

E então, no versículo 27, você tem o intérprete soberano do sábado. O sábado foi feito para homem e não o homem para o sábado. O sábado foi feito para descanso e benção, alegria, misericórdia, compaixão e o encontro das necessidades. E, assim, não haveria um dia melhor na semana para curar alguém. Não haveria um dia melhor na semana para fornecer comida, do que o sábado.

E então, Jesus deixou cair a bomba de todas as bombas em suas mentes cheias de autojustiça. No versículo 28, Jesus diz: “o Filho do Homem é senhor também do sábado”. “Eu sou”, Ele diz, “o soberano governante sobre o sábado”. O Filho do Homem, novamente o título messiânico, o Senhor do sábado, tudo soava como uma ultrajante blasfêmia para os fariseus.

Mas, Ele é o Senhor do sábado, porque Ele é Deus. Em outras palavras, Jesus havia dito: “Sou o soberano deste dia. Eu projetei este dia. Eu sou o Criador”. João 1:3 diz que “todas as coisas foram feitas por intermédio Dele” e Colossenses 1:16 diz que “tudo foi criado por meio Dele e para Ele”. Foi Ele quem descansou no sábado e o abençoou. Ele é o soberano sobre o sábado e é Ele quem interpreta toda a vontade de Deus para este dia.

Sim, Jesus é o intérprete da vontade de Deus. Ele é o intérprete da Palavra de Deus. Ele é o intérprete da Lei de Deus. Não os homens. É por isso que, queridos amigos, seguimos implacavelmente o ensinamento revelado nas Escrituras e não ultrapassamos isso. Jesus é preciso, muito inflexível quanto às Escrituras.

Muitas vezes eu sou acusado disso e eu estou muito grato por essa acusação. Estou tão agradecido que as pessoas me vejam como alguém preciso. Eu apenas espero que eles vejam Jesus do mesmo jeito, pois eu O estou seguindo.

Acabei de ler, durante o fim de semana, um novo livro que escrevi chamado “The Jesus You Can not Ignore” (O Jesus que você não pode ignorar). O Jesus que você não pode ignorar é este confrontador preciso, que ataca falsos líderes religiosos e não procura construir zonas de convivência com o que é falso.

Ele ataca os sistemas religiosos corruptos. O Evangelho da graça, o Evangelho de Jesus Cristo, o Evangelho de Deus é algo completamente distinto e separado de todas as ofertas da falsa religião. Este embate com os fariseus fez de Jesus um alvo de assassinato. Jesus dispensou graça, mas os líderes religiosos dispensaram uma lei brutal e implacável. Hebreus 4:16 diz: “Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna”.

Na próxima vez continuaremos o assunto através de Marcos 3: 1 a 6. Vamos orar.

Nosso Senhor, nós chegamos esta manhã a Ti, tão agradecidos por essa graça, tão agradecidos por essa misericórdia, agradecidos pela gentileza e mansidão, ternura e amor que o Senhor mostra em nossa direção, mesmo sendo pecadores indignos. A graça pela qual Tu nos perdoa de nosso pecado e nos faz Teus filhos. Agradecemos a Ti porque não estamos ligados, apanhados em algum sistema legalmente, obsessivamente, implacavelmente brutal, tentando ganhar o caminho para o céu, mas nós fomos liberados disso e encontramos um jugo que é fácil e um fardo leve em nosso Salvador.

Agradecemos a Ti que a salvação vem pela fé, graça. Esta é a mensagem constante, repetida e constante do Novo Testamento, inconfundivelmente. Esta é a boa notícia para os pecadores cansados, sobrecarregados, culpados, para todos os esforços: venha à cruz, abrace a graça, o dom da salvação vem se você se arrepender e acreditar em Cristo. Que possamos proclamar isto tudo em toda parte, assim como nosso Senhor fez. Que tenhamos a força e a coragem para enfrentar o erro, que nunca construamos uma ponte para o erro, nunca procuremos um terreno comum com aqueles que pregam uma mensagem condenatória e mortal. Que possamos ser tão precisos quanto Jesus e tão amorosos.

Ajude-nos a encontrar aquele belo equilíbrio de mansidão, gentileza e compaixão, misericórdia e ternura que flui diretamente de Teu coração, ó Deus, através do Teu Filho, através do Teu Espírito fluindo através de nós e, ao mesmo tempo, mantenha-nos tenazes, até mesmo para lutar pela veracidade Do evangelho que pode salvar. Agradecemos novamente por outro vislumbre da glória de Cristo, oramos em Seu nome. Amém.


Esta é uma série de 2 sermões ,  conforme links abaixo.

01. Jesus, Também o Senhor do Sábado – Parte 1
02. Jesus, Também o Senhor do Sábado – Parte 2


Este texto é uma síntese do sermão “Jesus Is Lord of the Sabbath, Part 1″, de John MacArthur em 07/06/2009.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/library/sermons-library/41-11/jesus-is-lord-of-the-sabbath-part-1

Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno


 

 

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