A Fé que Moveu Abraão

Imprimir
Eu sempre sou muito grato ao Senhor por ver como Ele honra Sua Palavra. Esta semana eu escutei 24 sermões de Martyn Lloyd-Jones, pregados na década de 1950. Eles foram pregados há mais de 50 anos e é incrível como absolutamente são relevantes para nossos dias. Ele estava pregando para uma Inglaterra pós segunda guerra mundial, uma cultura muito diferente de nossa cultura particular neste momento, mas todas as suas palavras são tão vitais quanto pertinentes, tão atraentes como há 50 anos.

E isso, é claro, é um lembrete maravilhoso de que a Palavra de Deus está acima do tempo, ela não é limitada pelo tempo. E com isso em mente, chegamos ao capítulo 11 de Hebreus, que é outra ilustração disso, pois pegamos uma epístola de quase 2.000 anos de idade e vemos como ele se aplica a nós. A epístola aos Hebreus foi originalmente escrito para alguns judeus em um contexto do Oriente Médio e em uma cultura em Israel muito, muito diferente da nossa, mas suas lições são igualmente ilimitadas.

A intenção do escritor da carta aos Hebreus, neste capítulo 11, é mostrar que a doutrina da salvação pela fé é uma doutrina existente desde o Antigo Testamento. Ele está tentando dizer aos judeus que essa doutrina não é algo novo. Não há duas maneiras de ser salvo. Deus não mudou a Sua mente.

O Antigo Testamento nunca ensinou a salvação pelas obras. Ele sempre ensinou a salvação pela fé. A fé sempre foi a única maneira de agradar a Deus, de se reconciliar com Deus, de apreender e abraçar as transformadoras realidades invisíveis do Deus verdadeiro e vivo. A fé sempre foi a única maneira de entrar em um relacionamento correto com Deus.

A Nova Aliança, o ministério dos Apóstolos, a pregação do Evangelho não estão em concorrência com os ensinamentos que o povo judeu tinha ouvido. Infelizmente, eles haviam recebido uma forma apóstata de judaísmo, que tinha se desenvolvido em um sistema de obras, mas esta nunca foi a intenção de Deus. A salvação sempre foi por fé e fé somente.

Já vimos Abel e a vida de fé. Enoque e a caminhada da fé. Noé e a obra da fé. E vimos em cada caso que sua relação com Deus, sua salvação foi um resultado não de obras, mas de fé. Eles creram na Palavra de Deus. Eles obedeceram a Palavra de Deus, confiando que Deus iria cumprir o que Ele havia prometido em seu favor. Tudo isso foi antes do Dilúvio, chegando a Noé. Agora estamos passando pelo Dilúvio e chegamos ao próximo personagem principal na cena no livro do Gênesis e não é outro senão Abraão.

Abraão viveu do ano de 2165 a 1990 antes de Cristo, cerca de dois mil anos depois da criação. Nos dias de Abraão, começou uma nova era na história humana. Antes disso, Deus manteve uma espécie de relação geral com toda a raça humana saída do Dilúvio, uma espécie de relação geral com todos, até que um acontecimento muito significativo ocorreu e esse evento foi a construção da Torre de Babel.

Quando os homens construíram a Torre de Babel, estavam manifestando o orgulho humano e a idolatria. Com isso, a relação geral que Deus disponibilizou para eles foi quebrada permanentemente. A humanidade estava espalhada sobre a face do planeta e as línguas foram todas mudadas, para que eles não pudessem falar uns com os outros. Esse foi o preço da rebelião. Deus os abandonou, conforme escrito em Romanos 1.

Esta foi a origem do paganismo, a Torre de Babel. Tornou-se um mundo de pessoas que não tinham conexão com Deus, com línguas nas quais não havia revelação de Deus. Não havia revelações escritas e nem aprendidas que fossem passadas para as demais gerações. O homem ficou realmente alienado. Ele foi entregue à sua idolatria. Quando ele conheceu a Deus, não o glorificou como Deus. Daí, foi abandonado à imoralidade, à homossexualidade etc. (Romanos 1:18-32). Uma mente reprovável.

Felizmente, porém, Deus tinha um plano. Ele não iria se revelar em um sentido geral, Ele iria se revelar em um sentido muito específico, através de um homem e daqueles que descenderiam dele. Abraão se torna o pai do povo de Israel e Israel se torna a nação que é o repositório da revelação divina. O plano de Deus foi enviar Sua Palavra, mas não de uma maneira geral, mas sim de um modo específico para este povo chamado Israel, os filhos de Abraão, e eles ouviriam a Sua Palavra, eles teriam Sua Palavra, inscreveriam Sua Palavra em uma forma escrita e proclamariam Sua Palavra às nações do mundo.

Eles proclamariam a salvação e que os pecadores poderiam ser reconciliados com Deus através da fé. Em um sentido muito real, a fonte da salvação então flui através de Abraão. Ele se torna uma figura central na história da salvação. Abraão é um modelo de fé e isso é importante, pois a salvação é pela fé. Abraão traz a revelação do plano redentor divino.

Sua vida se torna o padrão para todos os que vêm a Deus pela fé. Antes de morrer apedrejado por sua fé, Estevão proclamou a fé que fez Abraão sair de sua terra, do meio de sua parentela e ir para um lugar que Deus lhe mandou, mesmo sabendo que toda a herança seria para sua descendência e não para ele próprio. Ele morreu sem ter herdado sequer o espaço de um pé, mas creu na Palavra de Deus e obedeceu (Atos 7:2-5).

Em Romanos, capítulo 4:1-3, o apóstolo Paulo defende a justificação pela fé. Ele demonstra que Abraão não foi justificado por qualquer obra, mas por sua fé.

Que diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne? Porque, se Abraão foi justificado pelas obras, tem de que se gloriar, mas não diante de Deus. Pois, que diz a Escritura? Creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça.

Paulo cita Gênesis 15:6 que diz: “E creu ele no Senhor, e imputou-lhe isto por justiça”. A promessa, então, em Romanos 4:13, da salvação pela fé, chega a Abraão e a todos os que vêm pela justiça da fé. Estevão e Paulo eram judeus e compreenderam o lugar primário que Abraão desempenhou na história da salvação pela fé. Isto é totalmente oposto ao judaísmo corrompido que Jesus encontrou aqui na terra, que apregoava a meritocracia através de obras.

Abraão não foi escolhido porque era o melhor, o mais moral ou o melhor de todos os pagãos. Não. A Bíblia não ensina isto. Ele foi justificado pela fé e somente pela fé. Uma verdade que destoava muito dramaticamente daquilo que os judeus estavam acostumados a ouvir de seus líderes.

Outra ilustração disso vem em Gálatas 3:6-7, que diz: “Assim como Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça. Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão”. É uma nova citação de Gênesis 15:6. Os versos 26 e 29 dizem:

Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa.

Ao longo de sua vida, Abraão creu em Deus. Isso foi o que o separou. Ele viveu pela fé. Ele aceitou a Palavra de Deus e agiu através dela. Esse é o argumento central do escritor de Hebreus, usando Abraão aqui como seu modelo de fé. Agora você notará que este relato de Abraão vai do verso 8 ao versículo 19. Vamos ver rapidamente o que ele diz.

Quando estudamos a Palavra de Deus, queremos ter certeza de que nossa abordagem é legítima. Os escritores do Novo Testamento olharam para algo no Antigo Testamento e o viram como análogo a uma verdade do Novo Testamento e não apenas como um fato histórico. Tomando um pouco de liberdade, eu quero fazer isso hoje à noite e quero mostrar-lhes que os versos de 8 a 19 de Hebreus 11 contêm os elementos da vida de fé que Abraão viveu, e que é um padrão para todos nós. O que vemos em Abraão é análogo à nossa própria experiência de fé.

Então, vamos fazer a pergunta: “O que caracterizou Abraão como um homem de fé? Quais eram os elementos dessa fé?”. Vimos que Abel era um homem de fé, mas apenas em um sentido parcial. Abel ofereceu um sacrifício certo, que é apenas parte de viver uma vida de fé. É a parte importante e inicial, é o começo, quando você reconhece o seu pecado e a necessidade de um sacrifício.

E então, olhamos para Enoque e a fé desse homem não era apenas um sacrifício, mas sim ele era um homem que andava com Deus, e vemos algo além de, digamos, justificação. Vemos a vida de santificação. Depois chegamos a Noé e vemos outras ilustrações da fé. Aqui estava um homem que era obediente e obedeceu na esperança de algo futuro.

Vemos, então, que viver uma vida de fé tem um ponto de partida que é o reconhecimento do pecado e o correto sacrifício. Depois vem o andar na fé, e tem um fator de esperança, você vive esta vida em obediência a Deus por algo que virá, mas que você não pode ver. Esses são todos os elementos da fé. Mas, quando chegamos a Abraão, tudo se junta. Temos a imagem completa.

Falarei de cinco características da fé que nos mostram a integridade da fé de Abraão. Isto é consistente com ele como o exemplo para todos nós que somos filhos da fé. Aqui está o padrão para a nossa vida de fé.

A peregrinação da fé

“Pela fé Abraão, sendo chamado, obedeceu, indo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia” (v.8).

Agora, eu só quero que você agarre essa pequena frase: “Pela fé Abraão, sendo chamado, obedeceu”. Sua obediência é imediata. No próprio processo de esclarecimento do chamado, ele já está em movimento. Uma maneira melhor de traduzi-lo seria: “Abraão, ao ser chamado, estava obedecendo”. Isso é indicativo do imediatismo de sua resposta. E é fé, porque saiu sem saber para onde estava indo. Ele não tinha qualquer informação sobre a herança que receberia, que lhe custaria deixar tudo para trás e se tornar um peregrino.

Mas, esta é a peregrinação da fé. Esta é uma peregrinação de separação. Abraão era um pagão não regenerado. Ele fazia parte dos dispersos da Torre de Babel e vivia com aqueles que falavam a mesma língua. Ele não era um crente secreto do verdadeiro Deus. Não temos nenhuma evidência disso. Ele era apenas um pagão, como muitos outros pagãos. Ele não era melhor que ninguém. As Escrituras não dizem que ele era melhor do que qualquer outra pessoa. Isaías 51:1-2 diz:

Ouvi-me, vós os que seguis a justiça, os que buscais ao Senhor. Olhai para a rocha de onde fostes cortados, e para a caverna do poço de onde fostes cavados. Olhai para Abraão, vosso pai, e para Sara, que vos deu à luz; porque, sendo ele só, o chamei, e o abençoei e o multipliquei.

A declaração que Isaías está fazendo aqui é que se você quiser entender a salvação, deve olhar para trás e perceber que você foi escavado de uma rocha pelo soberano poder de Deus. Você foi escavado de um poço. Você foi extraído da rocha do paganismo. Esta foi a experiência de Abraão. Josué 24:2-3 é muito claro quanto a isto:

Então Josué disse a todo o povo: Assim diz o Senhor Deus de Israel: Além do rio habitaram antigamente vossos pais, Terá, pai de Abraão e pai de Naor; e serviram a outros deuses. Eu, porém, tomei a vosso pai Abraão dalém do rio e o fiz andar por toda a terra de Canaã; também multipliquei a sua descendência e dei-lhe a Isaque.

Abraão não era apenas um pagão, ele era um politeísta, um pecador, pertencia a uma família pagã e a uma cultura pagã. Ele viveu em uma cidade pagã com o nome de Ur na Caldéia, bem perto de onde se ergueria a Babilônia. E ele viveu lá até os 70 anos de idade.

Mas, Deus apareceu a ele. E isto é também muito análogo à poderosa obra da salvação. Estevão declarou isto:

O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão, estando na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã, E disse-lhe: Sai da tua terra e dentre a tua parentela, e dirige-te à terra que eu te mostrar. Então saiu da terra dos caldeus, e habitou em Harã (Atos 7:2-4).

Que graça maravilhosa! Não há outra explicação para Deus escolher Abraão, a não ser Sua intenção soberana, propósito soberano. O Deus da glória condescende a vir a um pagão no meio de milhares, centenas de milhares de pagãos que viviam no que costumava ser o Jardim do Éden antes do Dilúvio. Um homem mergulhado no pecado, no abismo da iniquidade, imerso na idolatria e Deus escolhe Abraão e lhe dá uma ordem. Abraão crê e obedece, e partiu sem saber para onde ia.

Nada é dito sobre sua moralidade, que é irrelevante. Você entende isso? Deus não vem em graça soberana para salvar alguém de boa moral. Ele justifica e santifica a quem ele escolheu e chamou. Abraão creu e obedeceu prontamente. Ele estava no ato de obedecer quando Deus ainda estava no ato de chamá-lo. E essa é a peregrinação da fé. É assim que começa.

Ele deixou sua terra natal, abandonou sua casa, suas propriedades, rompeu os laços familiares, deixou os entes queridos para trás, abandonou o conforto, ou seja, abandonou tudo para abraçar uma incerteza total. Uma coisa impossível para alguém fazer. Mas, a vida de fé sempre está disposta, porque está ancorada no poder divino. Se você quer embarcar na peregrinação da fé, tem que fazer uma ruptura com a idolatria, com o mundo, com padrões familiares e pecaminosos. Jesus diz isso, não é?

“Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lucas 14:26).

Uma vida de fé exige uma ruptura com tudo o que é familiar, tudo o que é velho. É um mundo novo e você vai caminhar pela fé no invisível. Esse era Abraão. E nesse sentido, ele é uma figura para nós. Um homem de fé que se separou do mundo para ir em direção a uma herança que Deus prometeu, mas que ele não herdaria, a promessa era para sua descendência distante. Mas, ele abandonou tudo, inclusive seu amor e amizade ao mundo. E essa é a peregrinação da fé e certamente vimos isso em Abraão. A Bíblia diz:

Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele (I João 2:15).

Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus (Tiago 4:4).

São marcas na vida de Abraão, após seu chamado. Ele saiu sem saber para onde estava indo (v.8). Essa é a obediência da fé (Romanos 1:5). Essa é a peregrinação da fé. Isso é fé. Você não sabe para onde está indo, nunca viu e nunca experimentou seu destino. Esta é a caminhada pela fé e não pela vista (II Coríntios 5:7). E sua jornada foi longa, muito longa. Mas sua fé não vacilou, foi uma peregrinação da fé. Veja nos versos 9 e 10:

Pela fé habitou na terra da promessa, como em terra alheia, morando em cabanas com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa. Porque esperava a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus.

Ele se tornou um nômade, alguém estranho, buscando aquilo que não viu e que não alcançaria em seus dias de vida. Atos 7: 4-5 diz:

Então saiu da terra dos caldeus, e habitou em Harã. E dali, depois que seu pai faleceu, Deus o trouxe para esta terra em que habitais agora. E não lhe deu nela herança, nem ainda o espaço de um pé; mas prometeu que lhe daria a posse dela, e depois dele, à sua descendência, não tendo ele ainda filho.

Ele nunca tomaria posse de nada. Ele foi primeiro para Harã, na direção oposta a terra da promessa. Lá acumulou riquezas e pessoas que o acompanharam. E então, “Pela fé habitou na terra da promessa, como em terra alheia, morando em cabanas com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa” (Hebreus 11:9).

Sua descendência foi levada para o Egito e ficou lá por mais de 400 anos. A promessa era futura, mas Abraão, desde o início, proclamou-se peregrino neste mundo. Isso é semelhante ao modo como vivemos como crentes. Algum dia esse mundo será nosso, quando Senhor Jesus estabelecer Seu Reino milenar na terra, mas agora, somos apenas moradores em cabanas aqui. Não podemos ver a posse de nossa herança. Somos peregrinos vivendo ao lado das pessoas neste mundo sem jamais tomar posse do que nos é prometido.

Este mundo não é nosso lar. Não coloque aqui seu coração. Coloque seu tesouro no céu, gaste sua vida, seus bens e sua força em coisas que têm frutos para a eternidade. Trabalhe pelas recompensas reais, não para as cinzas desta terra. Tudo aqui vai se desintegrar em um holocausto de fogo.

A paciência da fé

Abraão não viu a consumação da promessa de Deus, ele nunca possuiu terra, vagava por Canaã como um morador de tendas, mas nunca abandonou sua fé na promessa futura. Esta é a paciência da fé. Esse é o desafio. Este é o desafio para nós também. É análogo para nós permanecermos fiéis e manter nossa fé forte, alegre e cheia de expectativa no longo período entre o momento glorioso de nossa salvação e o momento final de nossa glorificação.

Ele não desistiu de sua esperança, permaneceu nela e continuou na fé e isso o motivou a prosseguir. O homem de fé não é o homem cuja fé é ardente, como uma estrela cadente, mas cuja fé é como uma luz estável implacável, que permanece crendo e esperando, mesmo com a dor e desapontamentos. Essa é a paciência da fé. Essa é a fé que perdura e esse é o verdadeiro tipo de fé. A fé duradoura é a única fé salvadora real.

De maneira que nós mesmos nos gloriamos de vós nas igrejas de Deus por causa da vossa paciência e fé, e em todas as vossas perseguições e aflições que suportais (II Tessalonicenses 1:4).

Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança (Tiago 1:2-3).

Essa é a verdadeira fé salvadora. Isso foi verdade para Noé. Cento e vinte anos pregando a justiça, construindo um barco. Este tipo de fé é realmente surda para dúvidas fatais, é muda para os desânimos, é cega para as impossibilidades e assim continua a perseverar através de absolutamente tudo. E qual é a motivação para isso?

“Porque esperava a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus” (Hebreus 11:10).

Ele estava procurando a cidade que tem a fundamentos. O artigo definido “a” fala de apenas uma única cidade que tem fundamentos. Abraão olhou para a cidade que foi construída por Deus, a morada celestial, era isso que ele estava procurando. Deus havia revelado não apenas uma terra para herança, mas uma cidade que Ele mesmo iria construir, onde Ele seria o arquiteto e o construtor.

E o nome da cidade desde aquele dia será: O SENHOR ESTÁ ALI (Ezequiel 48:35).

O Senhor está Lá. É o ocupante principal. Abraão fez o que a Palavra diz: “Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra” (Colossenses 3:2). Ele era paciente com tudo, porque sua mente não estava fixada na satisfação que vem nesta vida, ele estava procurando algo muito além desta terra.

Veja o contraste entre Abraão e Ló: “Habitou Abrão na terra de Canaã e Ló habitou nas cidades da campina, e armou as suas tendas até Sodoma. Ora, eram maus os homens de Sodoma, e grandes pecadores contra o Senhor” (Gênesis 13:2). Ló queria a pátria terrena, Abraão queria a pátria celestial.

Se, nesta vida, você está olhando continuamente para as coisas deste mundo; se estiver focado em suas provações e problemas; lutas ou sucesso; dinheiro ou prazer, você se tornará absorvido como Ló. E é uma absorção destrutiva e condenatória. Se você se concentra no céu, nas promessas de Deus, então você pode viver em qualquer circunstância nesta vida. Este foi o exemplo de Abraão.

Foi essa mesma fé que moveu Moisés, conforme diz o verso 27: “Pela fé deixou o Egito, não temendo a ira do rei; porque ficou firme, como vendo o invisível”. É essa perspectiva vertical que faz a diferença, não ficando preso na horizontal. A propósito, é uma esperança purificadora, 1 João 3:3 diz: “Aquele que tem essa esperança purifica-se a si mesmo”.

Então, o que aprendemos sobre a vida de fé? Começa com uma peregrinação de fé, quando Deus chama, você deixa tudo, se separa do mundo e segue não exatamente sabendo aonde Deus vai te levar, mas sabendo que Ele lhe prometeu uma comunhão eterna com Ele no futuro. A peregrinação da fé, então, vai chamar a paciência da fé, pela qual você suporta as questões neste mundo, mantendo seus olhos no mundo vindouro.

O poder da fé

Você olha para a vida de Abraão e vê o poder da fé, versículo 11: “Pela fé também a mesma Sara recebeu a virtude de conceber, e deu à luz já fora da idade; porquanto teve por fiel aquele que lhe tinha prometido”. Pela fé até a própria Sara recebeu a capacidade de conceber, mesmo além do tempo de fertilidade. E da sua concepção Deus formou uma linhagem, conforme diz o verso 12: “Por isso também de um, e esse já amortecido, descenderam tantos, em multidão, como as estrelas do céu, e como a areia inumerável que está na praia do mar”.

Quando Deus chamou Abraão, Ele não prometeu apenas uma terra, mas que dele faria um grande povo, uma grande nação, e que nele seriam abençoadas todas as famílias da terra. Portanto, há esta promessa de que haveria uma bênção, não só uma terra a ser possuída, mas para um povo nascido de seus lombos. Esta é a promessa de Deus.

O problema é que ele e sua esposa (Sara) eram velhos e nunca haviam tido filhos. Mas aqui vemos o maravilhoso poder da fé. A fé vê o invisível, a fé vê o impossível, esse é o poder da fé. Confia em Deus para fazer o que humanamente não pode ser feito. E quando há esse tipo de fé presente, Deus age em favor dessa fé.

Não há nada na Escritura que fala sobre a fé de Sara. Na verdade, se você olhar para a história de Sara, ela demonstra qualquer coisa, menos fé. Ela está cheia de dúvidas. Então, quando você olha para este versículo, você pode se perguntar: Por que pela fé de Sara?

“Recebeu habilidade para conceber”. No grego, está escrito: “katabolen spermatos”. Bem, “katabolen” significa injetar ou depositar o sêmen, a semente masculina. Significa que Sara recebeu o depósito da semente masculina, mesmo já estando além do período apropriado em sua vida. Assim, ela mesma não pode funcionar como sujeito nessa frase, porque ela foi o recipiente, assim, ela é o objeto indireto da sentença. A semente é o objeto e ela foi dada a Sara.

Qual é o papel da inclusão de Sara aqui nesse versículo? A melhor explicação para isso é o que poderia ser chamado de “dativo de acompanhamento”. Se você conhece algo sobre dativo em grego, sabe que pode usá-lo de muitas formas. Assim, Sara, nesse texto de Hebreus, está colocada numa realidade de acompanhamento por razões óbvias. Você tem que ter uma esposa para gerar um filho. Desse modo, esse versículo poderia ser colocado da seguinte forma: “Pela fé ele [Abraão], juntamente com Sara receberam a virtude para depositar a semente, mesmo ela estando além do período apropriado, pois ele [Abraão] teve por fiel Aquele que prometeu.” O pronome ‘ele’ é presumido no texto original.

Em outras palavras, o que o texto está dizendo é que pela fé Deus deu a Abraão o poder de fecundar (engravidar) Sara. A fé não é de Sara, a fé é de Abraão, porque ele creu. Ele era um homem de fé. Veja o que diz Romanos 4:18-19

Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser pai de muitas nações, segundo lhe fora dito: Assim será a tua descendência. E, sem enfraquecer na fé, embora levasse em conta o seu próprio corpo amortecido, sendo já de cem anos, e a idade avançada de Sara, não duvidou, por incredulidade, da promessa de Deus; mas, pela fé, se fortaleceu, dando glória a Deus, estando plenamente convicto de que ele era poderoso para cumprir o que prometera. Pelo que isso lhe foi também imputado para justiça.

Quão forte era sua fé! Ele contemplou seu próprio corpo envelhecido e a incapacidade de Sara, também em idade avançada para gerar um filho, contudo, com respeito à promessa de Deus, não vacilou em incredulidade, mas cresceu forte na fé, dando glória a Deus e sendo plenamente assegurado que o que Deus tinha prometido, Ele também seria capaz de realizar.

Assim, voltando ao versículo 12 de Hebreus 11: “Por isso, também de um, aliás já amortecido, saiu uma posteridade tão numerosa como as estrelas do céu e inumerável como a areia que está na praia do mar”. Esta mesma afirmação é encontrada em Gênesis 15:5, 22:17 e 32:12. As pessoas que viriam de seus lombos seriam inumeráveis. Haveriam milhões de judeus nascidos por causa da fé daquele homem.

E por sinal, aquele vigor que Deus lhe deu para produzir aquela criança, não apenas produziu Isaque, mas também Ismael com Agar, e quando Sara morreu, de acordo com Gênesis 25:2, tomou uma esposa chamada Quetura, com mais de cem anos, na era pós-dilúvio, e teve mais seis filhos. Deus deu um poder duradouro a um corpo amortecido.

O que dizemos, então, sobre o poder da fé? Que é o poder da fé que realiza o impossível. Deus faz promessas que não podem ser cumpridas em nível humano e as cumpre para aqueles que creem Nele. A fé é a chave de ignição para o poder espiritual que nos torna úteis e permite que Deus, através de nós, faça o tipo de colheita de 30, 60 e cem vezes. Deus libera o poder de fazer o que parece ser impossível.

Abraão exibe a peregrinação da fé, a separação do mundo, a obediência ao Senhor. A paciência da fé. Ele espera o tempo de Deus focado no céu e nunca desanimado pelo que ele não receberia nesta terra. Ele demonstra o poder da fé e essa é a capacidade de fazer o que, em nível humano, é impossível.

Perseverança de fé

Veja os versos 13 a 16 de Hebreus 11:

Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra. Porque os que falam desse modo manifestam estar procurando uma pátria. E, se, na verdade, se lembrassem daquela de onde saíram, teriam oportunidade de voltar. Mas, agora, aspiram a uma pátria superior, isto é, celestial.

“Todos estes morreram na fé.” O texto remonta aos três que foram mencionados nesta seção: Abraão, Isaque e Jacó. A promessa da Aliança a Abraão foi repetida a Isaque em Gênesis 26 e a Jacó em Gênesis 28. Eles receberiam uma terra e uma cidade celestial, teriam uma herança terrena e uma celestial. Todos morreram na fé sem receber as promessas, mas as viram com os olhos da fé e se declararam peregrinos e estrangeiros neste mundo. A fé é paciente para suportar toda a falta de realização nesta vida, porque ela tem seu foco na promessa que está por vir. Os versos 39 e 40 dizem:

Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé não obtiveram, contudo, a concretização da promessa, por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados.

Essa é toda a história do capítulo. A fé que os santos do Antigo Testamento professavam aguardava ansiosamente a salvação prometida, enquanto a fé daqueles que vieram depois de Cristo, olha para trás, para o cumprimento da promessa. Ambos os grupos são caracterizados pela fé genuína e são salvos pela obra expiatória de Cristo na cruz. Eles creram e perseveraram nesta fé, olhando para a cidade celestial.

Eles nunca tiveram o pensamento fugaz de retornar (v.15). Eles desejavam uma pátria melhor, a celestial. Eles colocaram seus corações no futuro, no invisível, tornando-se estranhos a este mundo. No grego, a palavra é “parapidemos” que diz que somos pessoas que passam a vida indo para algum lugar.

Eles entenderam isso. Mas tão brilhante era a promessa de Deus, tão confiável era a Palavra de Deus, que eles ancoraram sua resistência e sua perseverança no futuro e isso lhes deu uma fé para suportar qualquer coisa. Foi esta mesma certeza que fez Paulo declarar: “Porque sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus” (II Coríntios 5:1). Essa é a esperança dos santos do Velho Testamento e também do Novo Testamento.

E o verso 16 termina com uma das declarações mais impressionantes no livro de Hebreus. “Por isso também Deus não se envergonha deles, de se chamar seu Deus, porque já lhes preparou uma cidade”.

Isso é impressionante! Tenho certeza de que dou a Deus muita razão para O envergonhar de tê-Lo chamado de “Meu Deus”. Imagino como Satanás tenta fazer, contra mim, acusações diante de Deus, tal como fez em relação a Jó. Ele traz o meu nome e os nomes de todos nós que somos tão indignos e diz a Deus: “Como Tu podes querer estar associado a essas pessoas? Tu não gostarias de te distanciar deles? É ruim para Tua reputação…”.

Mas Deus diz: “Eu não tenho vergonha de ser chamado de seu Deus e eu preparei uma cidade para eles, vou trazê-los aqui, glorificá-los e fazê-los filhos e vou colocá-los no meu trono e abençoá-los para sempre e sempre e sempre”.

A prova da fé

Uma nota final muito importante, talvez a maior credencial da fé de Abraão: a prova de fé, teste supremo, não apenas obediência, mas obediência com sacrifício.

Pela fé ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado; sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigênito. Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou que Deus era poderoso para até dentre os mortos o ressuscitar (Hebreus 11:17-18).

Temos este registro em Gênesis, quando Deus havia dito a Abraão:

Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu te direi (Gênesis 22:2).

Abraão sabia sobre o sacrifício, entendia que ele era pecador, que precisava haver sacrifício, expiação, propiciação pelos seus pecados. Mas sacrificar Isaque, o herdeiro por quem todas as promessas seriam cumpridas? Como ele teria descendentes como a areia e o mar se matasse o herdeiro por quem todos eles viriam? O que fez Abraão?

Então se levantou Abraão pela manhã de madrugada, e albardou o seu jumento, e tomou consigo dois de seus moços e Isaque seu filho; e cortou lenha para o holocausto, e levantou-se, e foi ao lugar que Deus lhe dissera. Ao terceiro dia levantou Abraão os seus olhos, e viu o lugar de longe. E disse Abraão a seus moços: Ficai-vos aqui com o jumento, e eu e o moço iremos até ali; e havendo adorado, tornaremos a vós (Gênesis 22:3-5).

Veja o que disse Abraão: “Eu e o moço iremos” e “tornaremos para vós”. Ele sabia que Isaque voltaria, ele cria na promessa de Deus!

Assim, “E tomou Abraão a lenha do holocausto, e pô-la sobre Isaque seu filho; e ele tomou o fogo e o cutelo na sua mão, e foram ambos juntos” (Gênesis 22:6). Isaque carrega a própria lenha do holocausto, uma espécie de imagem de Cristo carregando Sua cruz.

Isaque questionou: “Eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?” (v.7). Isaque era consciente da necessidade de sacrifício, tal como seu pai, Abel, Enoque, Noé e todos os crentes do mundo antigo sabiam. Abraão responde “Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto, meu filho” (v.8). Eles chegaram ao lugar em que Deus lhes havia dito, Abraão construiu o altar lá, arranjou a madeira, amarrou seu filho Isaque, colocou-o no altar em cima da madeira. Abraão estendeu a mão e tomou o cutelo para matar seu filho (v.8-10).

Você diz: “Por que ele faria isso?”. Uma resposta muito simples: Ele considerou que Deus era poderoso para até dentre os mortos o ressuscitar (Hebreus 11:18). Ele cria no poder e na promessa de Deus. Isaque nasceu da manifestação do poder e da promessa de Deus e o mesmo Deus poderia ressuscitá-lo.

É uma fé monumental! Todas as promessas estavam em Isaque. Ele amava Isaque. Ele esperou tanto tempo por esta longa peregrinação para o primeiro sinal da promessa. Ele sabia que tinha pecado tão terrivelmente com Agar e poderia ter pensado que talvez Deus tivesse mudado de planos.

Ele também sabia que Deus odiava o sacrifício humano e rejeita o derramar do sangue humano (Gênesis 9:6). Por que, então, ele levantou o cutelo? Porque sua confiança era tão grande que ele sabia que, se Deus permitisse aquele sacrifício, Ele ressuscitaria Isaque dos mortos. Essa é a fé de Abraão. Tudo foi uma imagem do sacrifício de Cristo. Somente Cristo realmente morreu e ressuscitou, Isaque não morreu. Isso é fé. Isso é fé em toda sua plenitude. Sua fé passou no teste final.

Vimos a peregrinação da fé, a separação do mundo, a paciência da fé, a capacidade de esperar e suportar sem nunca receber a possessão. Vimos o poder da fé, crer em Deus para o que é humanamente impossível acontecer.

Vimos a perseverança da fé, a positividade da fé, o foco no céu que nos leva a ter certa indiferença às coisas nesta vida, porque estamos olhando para a glória que virá. E a prova da fé, que é manifesta na obediência que exige o sacrifício final. Embora Ele me mate, contudo eu confiarei nEle (Jó 13:15). Embora Ele me peça para tomar meu filho, contudo eu vou confiar Nele. Essa é a vida de fé, como foi modelada por Abraão. Vamos orar.

Pai, nós Te agradecemos por este maravilhoso testemunho. Muito mais poderia ser dito e devemos voltar e ler todos esses maravilhosos versos do capítulo 12, até o final do relato de Abraão e até mesmo nas histórias de Isaque e Jacó.
E, Senhor, somos tão abençoados por ver a riqueza da Tua Palavra e ver essa história como um exemplo para nós, para demonstrar o que estás procurando na nossa fé. Que tenhamos essa fé salvadora verdadeira, que faz uma ruptura total com o mundo, aquela fé que pacientemente aguarda e aguarda.
Essa fé que acredita em Ti para o impossível e assim vê Tua poderosa mão e vê a maravilha dos milagres espirituais acontecendo através de nós. Dá-nos essa perseverança, essa atitude positiva através da vida, nunca perdendo de vista o que é reservado para nós, o que nos espera na glória que virá. E que possamos ser tão confiantes em Ti que possamos enfrentar qualquer sacrifício.
Tu podes pedir qualquer coisa de nós, teremos prazer em dar-Te, porque confiamos completamente em Ti. Este é o tipo de fé que não podemos criar, não podemos desenvolver, não podemos inventar. Este é um dom que vem de Ti.
Agradecemos por isso. Nós Te agradecemos pela alegria de receber esta fé.
O que podemos dizer? Aqueles de nós que a possuímos não podemos recomendar a nós mesmos, pois, como Abraão, fomos cavados de um poço. Nós fomos escavados de uma rocha de maldade. Tudo isso é por Tua graça.
Esperamos o dia em que a fé se tornará visão e entraremos naquela herança cheia e gloriosa. Mas, entretanto, que a nossa fé seja demonstrada de modo a atrair pessoas para Ti e para o evangelho. Oramos em nome de Cristo. Amém.


Esta é uma série de sermões sobre Hebreus 11. Abaixo os links dos que já foram publicados.


Este texto é uma síntese do sermão “Abraham: An Exemplary Faith “, de John MacArthur em 22/11/2009.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/library/sermons-library/90-385/abraham-an-exemplary-faith

Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno


 

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *