O Chamado de Mateus e Tomé

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Este texto é parte de uma série de 12 sermões sobre o chamado dos apóstolos. Veja os links dos demais textos no fim desta página.

Hoje continuaremos nossa série sobre os apóstolos: “Homens comuns com um chamado incomum“. Você pode abrir a sua Bíblia em Lucas, capítulo 6. Isso não é particularmente profundo ou teológico, mas é a verdade da Palavra de Deus sobre esses homens. É prático, é pessoal, encorajador, penso eu, para todos nós olharmos para a vida desses maravilhosos apóstolos. Estamos na metade do caminho e agora começamos a ver o segundo grupo de seis apóstolos.

Começamos com Pedro, Tiago, João, André, e então, fomos para o grupo dois, formado por Filipe, Bartolomeu, também chamado Natanael. Agora, vamos olhar para a história de Mateus e Tomé, os dois últimos no grupo dois e, em seguida, os últimos quatro, finalizando com Judas Iscariotes. Estamos a meio caminho. O resto levará um pouco menos tempo, no entanto, já que há menos relatos sobre os demais, com exceção de Judas.

Sempre chama a nossa atenção o fato de eles serem homens muito comuns. Penso que é importante sermos lembrados de que quando o Messias viesse seria razoável presumir que o estabelecimento religioso de Israel O abraçaria. Afinal de contas, eram os fariseus, os saduceus, os principais sacerdotes, os sacerdotes, os escribas e os governantes locais da sinagoga que constituíam o estabelecimento religioso.

Eles eram estudantes do Antigo Testamento. Eles eram os estudiosos, os escolásticos, os intérpretes das Escrituras. Logo, teria sido uma suposição justa que quando Jesus viesse, Ele teria escolhido para ser seu shaliac  – a palavra que eu usei há algumas semanas para descrever um ‘representante oficial’ ou ‘apóstolo’ – para levar a cabo a obra de Seu reino, para pregar o evangelho, enfim, que Ele teria selecionado alguns dos que eram os alunos preparados do Velho Testamento, aqueles que eram letrados, educados, astutos teólogos.

Mas, o fato é que nenhum dos doze foi escolhido dentre o grupo acima mencionado. Não havia sacerdote, nem escriba, nem chefe de sinagoga, nem fariseu, nem saduceu entre os doze. Na verdade, não havia ninguém do estabelecimento religioso da época. De fato, não podemos sequer estabelecer a identidade religiosa particular de qualquer um dos apóstolos, podendo apenas afirmar que eram crentes em Deus, tinham algum conhecimento do Antigo Testamento e estavam buscando o Messias.

Era um grupo de galileus, pois onze dos doze eram galileus. É provável que Judas não fosse, mas também não veio de Jerusalém. Você poderia ter pensado que os apóstolos teriam sido selecionados dos arredores de Jerusalém, onde foram expostos ao judaísmo mais intenso. Mas, eram todos, com exceção de Judas, da Galiléia, que estava no norte, uma região predominantemente rural, com muitas cidades e aldeias e pouca educação. Eles não eram a elite, eram os mais comuns do comum, eram pescadores, fazendeiros, homens comuns.

E é assim que sempre foi na economia de Deus. Ele desprezou a instituição religiosa, a elite. E se Jesus viesse hoje e selecionasse apóstolos, Ele teria que ignorar a instituição do Cristianismo, que é repleta de apostasia e rejeição à verdade. Embora todas as promessas de Deus por intermédio de Abraão, Isaque, Jacó e José, promessas reiteradas por meio de Davi, promessas repetidas aos profetas, fossem dadas ao povo de Israel e devessem ter sido compreendidas pelos estudantes religiosos da época, pelos líderes religiosos , a religião de Israel era tão corrupta e tinha sido corrompida pelos líderes, eles eram os cegos guiando os cegos, que quando o Messias veio, eles não puderam vê-Lo como o Messias. Eles O viram como um impostor, um intruso, como um inimigo.

Desde o início, os líderes religiosos judeus procuravam uma maneira de assassinarem Jesus. Surpreendente que o estabelecimento religioso O tratou desta maneira. Tudo culmina quando chegamos ao final da história, quando os principais sacerdotes e todos aqueles que estavam na liderança religiosa do judaísmo levaram a multidão a clamar por Seu sangue.

Então, quando chegou a hora de Jesus selecionar Seus apóstolos, Ele teve que desviar o olhar do estabelecimento religioso e Ele fez isso para escolher os mais comuns do comum. Lucas 6:12 relata que foi neste momento que Ele foi para a montanha orar. Ele estava neste momento em Seu ministério galileu. Passou a noite inteira em oração a Deus.

Ele provavelmente estava ministrando, eu suponho, acerca de um ano e meio. Ele sabia que restava cerca de um ano e meio até a Sua morte. Estava na hora de escolher Seus apóstolos. Então, chamou Seus discípulos a Ele. Jesus tinha muitos, muitos discípulos, seguidores, aprendizes e dentre eles Ele escolheu doze. Alguns Ele já havia identificado, mas aqui está o chamado oficial.

Ele os nomeou como apóstolos, isto é, representantes oficiais, aqueles que oficialmente continuariam a pregar o evangelho depois que Ele tivesse voltado para o céu. A eles foi concedido – como sabemos e veremos mais tarde no evangelho de Lucas – o poder de expulsar demônios e  fazer milagres, a fim de atestar a validade de sua mensagem.

Esses homens comuns são identificados como: Simão, chamado Pedro, André, seu irmão, Tiago e João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado Zelote. Judas, filho de Tiago, e Judas Iscariotes, que se tornou o traidor. O mais comum do comum.

Havia uma categoria de homens que o Senhor ignorava e essa era a categoria daqueles cheios de justiça própria, que eram justos a seus próprios olhos. Estivessem estes entre a elite religiosa ou entre as pessoas comuns sentadas nas sinagogas locais, era o único grupo de pessoas com quem Jesus não podia trabalhar, não podia estabelecer uma relação.

Tais pessoas criam que eram justas diante de Deus e que tinham obtido, por seu próprio esforço, um relacionamento com Deus. Eles haviam conquistado a salvação, a justificação, a aceitação por meio de obedecer leis que haviam sido formuladas pelo judaísmo e de praticar certas cerimônias. Eles eram cheios de justiça própria.

E, afinal, foi a multidão auto-justa, liderada pelos líderes auto-justos, que pediu a morte de Jesus. Não que eles não acreditassem em Seus milagres. Não há, nas páginas dos Evangelhos, nenhuma negação dos milagres de Jesus. Eles não podiam negá-los, eram demasiados, muito frequentes e muito visíveis. Não havia negação de que Ele podia expulsar demônios. Também não havia negação real de Seu poder sobre a natureza ou Seu poder sobre o mundo sobrenatural.

O que os irritava não era isso. Eles poderiam ter vivido com isso. Não havia negação de que Ele podia andar sobre a água, que poderia fazer pão para alimentar uma multidão maciça de dezenas de milhares de pessoas. Não havia dúvida sobre essas coisas. E isso teria sido ótimo. Mas, a única coisa que eles não podiam tolerar era serem chamados de pecadores. Eles não se reconheciam como pobres, prisioneiros, cegos e oprimidos. Eles não chegaram a uma verdadeira avaliação de sua condição espiritual. Eles eram, presunçosamente, auto-justos.

E quando Jesus veio, como João veio, pregando o arrependimento e dizendo que eram pecadores, miseráveis, pobres, cegos, prisioneiros, oprimidos, necessitados de perdão e purificação, não podiam admitir e não tolerariam isso. E por causa dessa mensagem O odiaram e O executaram. Vocês se lembram de que quando Jesus entrou em Sua própria sinagoga em Nazaré, Ele pregou um sermão entre Seu próprio povo, em Sua própria cidade, o que significa que Ele estava pregando a Seus vizinhos, amigos e família,  com quem Ele cresceu.

Porém, depois de um sermão que expôs o seu pecado, eles tentaram jogá-Lo de um penhasco e matá-Lo. E, é claro, quem liderava o desfile de hostilidade contra Jesus era sempre o grupo mais auto-justo de todos, formado pelos líderes religiosos, os quais sempre procuravam encontrar uma maneira de destruir Jesus. E eles trabalharam nisso até que finalmente foram capazes de tirá-Lo de cena.

À medida que seguimos pelo livro de Lucas, já estamos expostos a esta crescente hostilidade que culmina na morte de Cristo. Então, quando chega a hora de Ele escolher Seus apóstolos, Ele escolhe o mais comum do comum. Isso é adequado ao Senhor. Isso é pelo Seu desígnio. Deus sempre recebe a glória quando não há nenhuma explicação humana para o trabalho que é feito. Como nos lembramos de 1 Coríntios, Ele não escolhe muitos nobres, nem muitos poderosos, mas a base, o comum, os humildes, a fim de que a excelência não seja nossa, mas Daquele que opera em nós.

E assim, encontramos esses homens muito comuns chamados para o surpreendente chamado incomum, o chamado mais elevado que qualquer ser humano na Terra já teve, para pregar o evangelho como um representante oficial de Cristo. Havia apenas doze homens e um deles, Judas, foi um traidor. Ele foi substituído por Matias, no primeiro capítulo de Atos. Houve outro apóstolo, acrescentado mais tarde, a saber, Paulo.

Esse é um grupo de homens de elite, testemunhas oculares de Cristo e de Sua ressurreição, dado este chamado único. Se Deus chama o mais comum do comum ao mais alto dos chamados, podemos ter certeza de que Ele nos chamará, pois também somos o mais comum do comum. E Ele faz isso o tempo todo.

Lembro-me de uma história inesquecível, indelével, que ouvi meu pai contar quando ele estava pregando certa vez. Havia um evangelista em Chicago, chamado Mel Trotter. Alguns de vocês podem reconhecer o nome. Mel Trotter, no passado, havia sido um bêbado. Ele estava embriagado o tempo todo. Era um homem tão terrível, tão destituído, tão degradado que não alimentava sua família e tinha uma filha pequena.

E de acordo com a história de Trotter, o bebê morreu de desnutrição, porque ele não forneceu comida. Todo seu dinheiro era consumido em álcool. Ele era uma pessoa tão degradada, que antes do funeral, quando o pequeno corpo de seu bebê estava no caixão na casa funerária, ele tomou o corpo, levantou-o, tomou todas as roupas e as levou para um bar, para trocá-las por um drinque. Não se pode imaginar uma degradação pior que essa.

No entanto, Mel Trotter foi pego, limpo e transformado em um evangelista. Esta é a obra de Deus. Isso é o que Deus faz. Ele não precisa dos grandes e poderosos, dos nobres e dos ricos. Ele pode trabalhar com muito menos do que isso. E este tesouro, como nos lembramos de 2 Coríntios, é encontrado em vasos de barro e quando o tesouro é encontrado em vasos de barro, é muito claro onde o poder reside. Não está no pote. Está na glória do tesouro.

O chamado de Mateus

Agora, vamos olhar para o próximo apóstolo na lista, como eu disse, Mateus. Eu não vou falar muito sobre Mateus, porque já passamos por sua conversão quando olhamos o capítulo 5:27 a 32. Quando fizemos isso, discutimos em detalhes sobre Mateus. Eu preciso dizer um pouco sobre Mateus, no entanto, porque se alguém adquirir essa série em fita, vai se perguntar por que nós deixamos Mateus de fora. E não queremos deixá-lo de fora, então vamos incluí-lo.

Mateus é um nome muito familiar. Muitos homens são chamados de Mateus. É até um sobrenome familiar no mundo de língua inglesa, um nome muito, muito comum. E nós poderíamos supor que, como o nome é tão comum, podemos saber muito sobre Mateus. E, então, percebendo, também, que Mateus escreveu este longo Evangelho, poderíamos presumir que nós aprenderíamos muito sobre ele.

O fato é que sabemos muito pouco sobre Mateus, muito pouco. Uma coisa que sabemos, com certeza, é que Mateus era muito humilde, muito, muito humilde, muito discreto, muito no fundo. Em todo o seu Evangelho, ele não diz nada sobre si mesmo, exceto duas frases. Volte-se para Mateus 9, apenas duas frases, nada mais. E isso é uma indicação de sua humildade, escrever este tomo inteiro, este grande Evangelho, e fazer apenas dois comentários a respeito de si mesmo.É um testemunho de humildade.

E os comentários são simples. Versículo 9, de Mateus 9: “E Jesus, passando adiante dali, viu assentado na alfândega um homem, chamado Mateus, e disse-lhe: Segue-me. E ele, levantando-se, o seguiu.”. É isso aí. Isso é tudo o que Mateus diz sobre si mesmo. E a informação, além disso, que nós sabemos sobre Mateus foi registrada por  Lucas, no capítulo 5 de seu Evangelho.

E você se lembra disto, Lucas 5:27-28: “E, depois disto, saiu, e viu um publicano, chamado Levi, assentado na recebedoria, e disse-lhe: Segue-me. E ele, deixando tudo, levantou-se e o seguiu.”  Ele era chamado de Mateus e Levi. Muitos dos apóstolos, naturalmente, tinham dois nomes. Lucas nos dá o mesmo testemunho básico da conversão e chamado de Mateus Levi.

E assim, embora ele tenha escrito o primeiro Evangelho e mesmo que o nome seja bem conhecido, isso é realmente tudo o que sabemos sobre ele. Nós só sabemos apenas duas frases ou mais sobre sua conversão e também o que ocorreu logo após sua conversão. Ele deu uma grande recepção, de acordo com Lucas 5, para Jesus. Ele estava tão emocionado por ter encontrado o Messias, poder colocar sua fé simples no Messias, que ele O convidou para uma grande recepção, um grande banquete em sua casa.

Mateus tinha uma casa grande, porque era um extorquidor de sucesso. E havia uma grande multidão de coletores de impostos e outras pessoas na festa. O próprio Mateus diz que havia coletores de impostos e pecadores, porque esse seria o único tipo de pessoas que se associariam a um coletor de impostos. E assim, todos os criminosos, todos os mesquinhos, todos os ladrões, todos os bandidos, todas as prostitutas e esse tipo de gente estariam reclinados à mesa. Todos foram convidados para a casa de Mateus para encontrar Jesus.

Jesus e os apóstolos, segundo o próprio relato de Mateus, estavam ali comendo com esses pecadores. Os versículo 30 e 31, de Lucas 5, dizem: “E os escribas deles, e os fariseus, murmuravam contra os seus discípulos, dizendo: Por que comeis e bebeis com publicanos e pecadores? E Jesus, respondendo, disse-lhes: Não necessitam de médico os que estão sãos, mas, sim, os que estão enfermos.” Em outras palavras: ‘você acha que está bem, desse modo, não posso ajudá-lo , Eu só posso ajudar aqueles que sabem que são doentes.’

Versículo 32, a famosa declaração de Jesus: “Eu não vim chamar os justos…“, sarcasmo de novo, “…mas os pecadores ao arrependimento”. Ele não pode fazer nada por pessoas auto-justas. Ele não pode fazer nada por pessoas que pensam que estão bem e não sabem que estão doentes e não sabem que são pecadores, não reconhecem isso.

Isso é realmente tudo o que sabemos sobre Mateus. O que é surpreendente sobre isso é que se você voltar para Mateus 9, vai se lembrar que ele está escrevendo esse relato trinta anos depois do ocorrido, trinta anos depois de sua conversão. E quando ele olha para trás, ele se lembra de que Jesus veio e o viu lá, sentado no escritório de impostos. Havia trinta anos desde que ele se sentou pela última vez no escritório de impostos, mas provavelmente, trinta anos depois, ainda era uma realidade impressionante para ele, que Jesus tivesse chamado um coletor de impostos para ser Seu apóstolo.

Por que isso era tão estranho? Porque os coletores de impostos eram o povo mais desprezado em Israel. Eram as pessoas mais odiadas e vilipendiadas da sociedade judaica. Eles eram odiados mais do que os soldados ocupantes. Eles eram odiados mais do que governantes romanos ou herodianos. Por quê? Porque eles compravam franquias fiscais dos romanos e, em seguida, extorquiam impostos do povo para alimentar os cofres de Roma e encher os seus próprios bolsos.

E eles tiravam o dinheiro do povo com o uso de bandidos. Eles eram desprezíveis, absolutamente desprezíveis. Traidores, párias sociais, eram banidos da vida religiosa, eram proibidos de entrar nas sinagogas. Eles não podiam sequer ir ao local de adoração com os outros, de tão desprezíveis que eram.

No evangelho de Lucas, há um relato sobre um publicano e um pecador. E o publicano, você se lembra, estava à distância. Eles tinham que manter distância de qualquer grupo, particularmente de uma reunião de um grupo religioso em uma sinagoga. Na verdade, o Talmud judaico dizia: “É justo mentir e enganar a um cobrador de impostos”, porque, essencialmente, a pessoa estaria se defendendo de um criminoso e extorquidor.

O que os publicanos faziam, essencialmente, é que tinham uma certa quantia para arrecadar para Roma e qualquer outra coisa que pudessem coletar além, ficavam para si mesmos. Havia dois tipos de cobradores de impostos, como eu disse há alguns meses. Um era chamado de grande mokus e o outro era pouco mokus.

O grande mokus era o tipo de coletor que não cobrava pessoalmente os impostos, mas cedia parte do seu direito a outros coletores, os de pouco mokus, os quais se estabeleciam nas vilas e cidades e que, de fato, realizavam a cobrança dos impostos. Mateus era um publicano pouco mokus. Ele era o cobrador de impostos cara-a-cara. Ele era a figura que o povo via, de quem o povo se ressentia, odiava, porque ele tinha se ligado com os gentios e, nesse sentido, tinha blasfemado a Deus e abandonado seu povo.

Eles o odiavam, porque ele era um extorquidor, era parte de uma operação idólatra, já que os romanos eram idólatras. Um publicano era o pior dos piores. Ninguém em seu juízo perfeito jamais escolheria um cobrador de impostos para qualquer posição. Se ele não poderia sequer ir a uma sinagoga, se ele não poderia ir ao templo e adorar, como ele poderia ser um apóstolo do Messias?

E, assim, deve ter sido uma realidade impressionante para Mateus, por toda a sua vida, que Jesus o tenha escolhido. Mateus dá seu próprio testemunho. Quando Jesus disse: “Siga-Me“, ele se levantou e O seguiu. E você pode ter certeza que os concorrentes de  Mateus não demoraram nada para tomar seu lugar na coletoria. Mas, uma vez que ele saiu daquele pequeno posto, nunca mais poderia voltar a ele.

Diante de tudo isso, você poderia pensar que Mateus era um materialista, era o pior do pior do pior. Mas, por que, afinal, ele iria embora e seguiria Jesus sem saber o que o futuro o aguardava? A melhor resposta que posso lhe dar para isso é que Mateus era judeu e apesar de tudo o que sua alma torturada possa ter experimentado por causa da profissão que ele tinha escolhido, lá no fundo, ele era um judeu que conhecia o Velho Testamento.

Sabemos que ele conhecia o Antigo Testamento, porque em seu Evangelho ele cita o Velho Testamento noventa e nove vezes. Isso é mais vezes do que Marcos, Lucas e João juntos. Ele tinha uma tremenda familiaridade com o Velho Testamento. Talvez tenha tido que perscrutar seu entendimento do Velho Testamento por conta própria, já que não podia ir à sinagoga, o que significa que não podia ir e ouvir a exposição da Escritura, então, talvez ele fosse um estudante autodidata.

A propósito, para os judeus, o Antigo Testamento é dividido em três partes: a lei, os profetas e os escritos sagrados. Mateus fez citações tanto da lei, como dos profetas e dos escritos sagrados. Assim, ele conhecia todas as seções do Antigo Testamento, estava muito familiarizado com ele. Portanto, ele sabia e entendia a profecia messiânica. Isso também é demonstrado através de seu Evangelho.

Ele acreditava no Deus verdadeiro. Ele conhecia o registro da revelação de Deus, chamado de Antigo Testamento. Ele compreendeu a vinda do Messias. De modo que quando Jesus veio, ele sabia sobre Jesus, porque, sentado na encruzilhada em uma cabine de cobranças de impostos, ele teria ouvido informações o tempo todo sobre este milagreiro que estava banindo a doença da Palestina, expulsando demônios das pessoas e fazendo milagres. A reputação de Jesus crescia grandemente.

E quando Jesus apareceu e o chamou para segui-Lo, já havia em Mateus suficiente fé para crer em Jesus como o Messias, ou como o profeta de Deus e para abandonar tudo e segui-Lo. Escondido em seu coração ambivalente estava um amor por seu Deus, apesar de sua associação com Roma. E ele certamente foi excluído do sistema judaico, mas tinha um coração voltado para Deus, uma abertura para a verdade e um desejo de seguir este Profeta de Deus, que bem poderia ser seu Messias.

Sua fé e alegria são indicadas no fato de que depois de seguir Jesus, Mateus deu este banquete em sua casa. E Mateus 9:10 diz: “E aconteceu que, estando ele em casa sentado à mesa, chegaram muitos publicanos e pecadores, e sentaram-se juntamente com Jesus e seus discípulos.” Publicanos e pecadores eram os únicos tipos de pessoas com as quais Mateus poderia se relacionar, então ele chamou toda essa ralé junta para apresentá-los a Jesus.

Isto os fariseus não puderam compreender e disseram a Seus discípulos: “Por que o vosso mestre está comendo com coletores de impostos e pecadores?” (v. 11). Eles eram tão ridículos em sua auto-justiça! Eles não se associariam a essas pessoas, supondo que fossem muito santos, melhores do que elas.

Então, Jesus lhes disse: “Não necessitam de médico os sãos, mas, sim, os doentes. Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento.” (vv. 12-13).Em outras palavras, Jesus estava lhes dizendo: ‘sua falta de compaixão por essas pessoas mostra que os sacrifícios que vocês fazem não significam nada para Mim!’

Portanto, sabemos sobre Mateus: ele conhecia o Antigo Testamento, cria em Deus, buscava o Messias. Deixou tudo para trás quando O encontrou, seguindo Jesus imediatamente e, na alegria de seu relacionamento recém-encontrado, abraçou os excluídos de seu mundo e os apresentou a Jesus. Isso é realmente tudo o que sabemos. Mas, vale dizer que o Senhor escolhe essa classe de gente às vezes para os chamados mais elevados, os ‘Mel Trotters’ do mundo.

Agora, isso nos leva ao próximo nome familiar. Mateus, aliás, foi, segundo a tradição, queimado na fogueira por sua fé em Cristo. O próximo nome é Tomé. Agora, quando eu digo Tomé, qual é a primeira palavra que você pensa? Dúvida. Não é interessante? Quero dizer, isso é universal. Nós até chamamos as pessoas de “Tomés duvidosos”. Mas, quero dizer que isso não é justo para com Tomé… Ele realmente tem essa má reputação. Mas ele foi um homem muito melhor do que como a história permitiu que ele fosse avaliado.

O Chamado de Tomé

Ele é o último nome do grupo dois, aquele segundo grupo de Filipe, Bartolomeu, Mateus e Tomé. Estavam perto um do outro. Eu lhe disse que há quatro listas dos apóstolos. Eles sempre aparecem nessas listas, 12 nomes, sendo Pedro sempre em primeiro lugar. Eles nunca saem do seu grupo, por isso estes são uma espécie de grupos de companheiros. E o último deste grupo dois de companheiros foi Tomé.

Penso que o que é justo dizer sobre Tomé – e eu quero embelezá-lo um pouco – é que ele era uma pessoa negativa. Pessoas negativas são uma dor, não são? Como Thomas Hardy disse, “elas podem encontrar o estrume em cada pasto.” Elas passam pela vida com uma abordagem severa e negativa acerca de tudo. São os pessimistas. São os grandes defensores da Lei de Murphy: “o que quer que possa dar errado, vai dar errado”. Eles apenas vivem assim. Antecipam o pior o tempo todo.

Bem, assim era Tomé. Porém, há mais sobre ele do que apenas isso. Seu nome era Tomé e ele é identificado também como Dídimo, que significa “o gêmeo“. Então, ele tinha um irmão gêmeo, ou uma irmã gêmea, que não encontramos nas Escrituras. Tomé aparece nas narrativas de Mateus, Marcos e Lucas, mas sua verdadeira caracterização aparece no Evangelho de João. Seu nome aparece nos outros Evangelhos, mas o caráter de Tomé, que é muito mais revelado para nós do que o de Mateus, é encontrado no Evangelho de João.

Quero ajudar Tomé a se tornar mais para você do que talvez apenas ‘o duvidoso’. Então, vamos voltar para João e olhar para um par de passagens simples muito diretas, começando no capítulo 11. Quero que você conheça e aprecie Tomé. Na verdade, talvez nos próximos meses, se você tiver um bebê, vai querer chamá-lo Tomé e não vai se deparar com qualquer tipo de estigma.

É verdade que Tomé geralmente só olhava para os cantos mais escuros da vida. Antevia o pior de tudo. Mas ele era mais do que isso. Há alguns elementos maravilhosamente redentores de seu caráter. O relato no capítulo 11 de João é muito familiar para nós, sobre Lázaro. Havia uma família, na pequena cidade de Betânia, que fica a apenas alguns quilômetros de Jerusalém, a leste. Eu estive lá algumas vezes.

Em Betânia, havia uma pequena família, Maria, Marta e Lázaro, eles eram irmãos. Jesus os conhecia e amava com um carinho muito especial, que é anotado aqui na história. Jesus se hospedava com eles. Ele estava em Jerusalém. Mas, os versículo 39 e 40, do capítulo 10, dizem: “Procuravam, pois, prendê-lo outra vez, mas ele escapou-se de suas mãos, e retirou-se outra vez para além do Jordão, para o lugar onde João tinha primeiramente batizado; e ali ficou.

Ele foi para fora por Aenon, perto do rio Jordão, porque eles estavam tentando matá-Lo em Jerusalém. Não era o tempo de Ele morrer, não era essa a programação de Deus e assim, Jesus, evitando a morte nas mãos dos líderes religiosos, deixou Jerusalém. E estavam ali, junto ao Jordão, em um lugar seguro. “E um certo homem…“, versos 1 e 2, do capítulo 11, “… Lázaro, de Betânia, aldeia de Maria e de sua irmã Marta. E Maria era aquela que tinha ungido o Senhor com unguento, e lhe tinha enxugado os pés com os seus cabelos, cujo irmão Lázaro estava enfermo.” Isso indica quão íntimo eles eram de Jesus e dos apóstolos. As irmãs de Lázaro sabiam onde eles estavam escondidos.

Mandaram-lhe, pois, suas irmãs dizer: Senhor, eis que está enfermo aquele que tu amas.” (v. 3). Isto indica a afeição especial que Jesus tinha por Lázaro, que estava doente. “E Jesus, ouvindo isto, disse: Esta enfermidade não é para morte, mas para glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela.” O Senhor estava dizendo que aquela doença não iria resultar em morte no sentido permanente, tal como compreendemos a morte. Era uma doença que tinha como objetivo a glória de Deus e a glória do Filho de Deus.

Ora, Jesus amava a Marta, e a sua irmã, e a Lázaro. Ouvindo, pois, que estava enfermo, ficou ainda dois dias no lugar onde estava.” (vv. 5-6).  Alguém poderia pensar que Ele diria: ‘Bem, vamos rápido enquanto ele está doente e vamos curá-lo’. Mas Jesus não o fez. Ele ficou dois de dias extras, porque queria que Lázaro morresse, para que Ele pudesse ir e mostrar Sua glória em uma ressurreição.

E depois de dois dias, Jesus, naturalmente, com conhecimento sobrenatural, conhecia a situação, e disse a Seus discípulos: “Vamos novamente para a Judéia“(v. 7). O verso seguinte diz: “Disseram-lhe os discípulos: Rabi, ainda agora os judeus procuravam apedrejar-te, e tornas para lá?” Em outras palavras: ‘Nós não queremos voltar para lá! Vamos voltar lá e todos nós vamos ser apedrejados. Este não é o momento de voltar. Viemos para cá porque a realidade iminente da morte estava pendurada sobre nossas cabeças. Agora você está nos dizendo que iremos voltar!?’

A resposta de Jesus é interessante. Ele lhes dá uma ilustração: “Não há doze horas no dia? Se alguém andar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo; mas, se andar de noite, tropeça, porque nele não há luz.” (vv. 9-10). Jesus lhes diz em linguagem muito ilustrativa:

Olha, as pessoas fazem o seu trabalho à luz do dia, porque à luz do dia você pode ver as coisas da maneira que elas realmente são. Então, você faz o seu trabalho à luz do dia. Se você estiver tentando fazer seu trabalho no escuro, não sabe o que está fazendo, vai tropeçar, vai cair, porque não tem luz.

E o que Ele quer dizer é:

Estou na luz, este é o dia da Minha obra, este é o dia da obra que Deus me deu para fazer. Volto em plena luz. Não há escuridão , não há nenhum mistério sobre o que vai acontecer. Eu vou voltar plenamente consciente, plenamente na luz e no propósito de Deus.Vocês não têm nada a temer.

Que é outra maneira de dizer que:

Tudo é cristalino para Mim e para Deus quanto ao propósito e nada nos acontecerá que não seja intencionado por Deus. Vocês não precisam temer, como se estivéssemos andando em alguma noite escura e não sabemos o que vai acontecer. Não estamos assim.

Ele disse isso aos discípulos para acalmá-los. Eles não queriam voltar para lá e morrer. Ele, então, lhes disse, no versículo 11: “Nosso amigo Lázaro adormeceu…” – que é uma forma gentil de se referir à sua morte -, “… mas eu irei despertá-lo do sono.” Verso 12: “Disseram, pois, os seus discípulos: Senhor, se dorme, estará salvo.” Ou seja: ‘por que você vai voltar para lá? Se ele está apenas dormindo, vai acordar. Talvez se seu sono for induzido por sua doença, devemos orar para que ele melhore. Mas, não vamos voltar’.

Ora, Jesus tinha lhes  falado da sua morte, mas pensavam que estava falando de sono literal. E então, Jesus lhes disse claramente: “Lázaro está morto“. (v. 14). Ele não quis usar essa palavra, como foi dito anteriormente quando Ele disse que sua doença não seria para a morte, mas Ele finalmente teve que usá-la para deixar claro para eles que este homem estava morto, não em um sentido permanente, mas ele estava morto.

E então, no versículo 15: “E me alegro, por amor de vós, de que eu lá não estivesse, para que acrediteis; mas vamos ter com ele“. Em outras palavras, Jesus estava dizendo: ‘vocês precisam de outra lição acerca de Meu poder, porque estão com medo. Fico feliz que tenha acontecido dessa maneira, estou feliz por poder voltar e ressuscitá-lo dos mortos e mostrar-lhes Meu poder. Vamos!’ Fim do versículo 15.

Bem, os discípulos não querem ir. Mas, olhe para Tomé, versículo 16, aqui nós encontramos Tomé. “Disse, pois, Tomé, chamado Dídimo, aos condiscípulos: Vamos nós também, para morrermos com ele.” Agora, Tomé é um homem forte. Os outros estão se debatendo de medo: ‘Nós não queremos ir. Nós não sabemos o que vai acontecer.’ Porém, Tomé diz: “Vamos também, para que possamos morrer com Ele.

Agora,  Tomé era totalmente pessimista. Mas, você sabe, você tem que admitir, que é um pessimismo heróico, certo? Você entende o quão difícil é ser um pessimista? Essa deve ser uma maneira miserável de viver. Quero dizer, se você é otimista, você diria: “Ei, vamos lá, tudo vai dar certo! Vamos conseguir, o Senhor vai dar  um jeito. Nós ficaremos bem!’

Mas, se você é pessimista, você diz: ‘Nós vamos morrer. Ele vai morrer e nós vamos morrer, mas vamos ter a coragem de ir morrer.’ Quero dizer, se você é uma pessoa negativa, é assim. Ele não via mais nada além de um desastre e ele determinou-se a morrer. Fácil para o otimista ser leal. Por quê? Porque um otimista sempre espera o melhor. Muito mais difícil para um pessimista ser leal, porque ele sempre espera o pior. Este é o pessimismo heróico. Isso é coragem real. Tomé era um homem de coragem.

Vou lhe contar outra coisa sobre ele. Ele era dedicado a Cristo. Sabe, ele pode ter sido igual a João. Quando pensamos em amar Jesus e ter intimidade com Ele, pensamos logo em João, que sempre esteve perto de Jesus. Mas, você sabe, Tomé não queria viver sem Jesus. E para Tomé, se Jesus vai morrer, ele iria morrer também. Tomé não queria viver sem Jesus. O pensamento de Tomé era:  ‘é melhor morrer e estar com Ele, do que ser deixado sem Ele’. Esse era o único grande medo que ele tinha.

Acho que ele era a força do resto dos apóstolos. Penso que todos eles conseguiram agir e disseram: “Ok, vamos morrer!” Tomé tinha uma devoção profunda por Cristo. Ele estava resolvido a ir morrer com seu Senhor, a não abandoná-Lo. Era sem medo. Ele não tinha ilusões. Ele viu as mandíbulas da morte se abrindo prontas para engoli-lo. E estava tudo bem. Isso é coragem. Ele preferia morrer, do que ser deixado para trás e ser separado de seu Senhor. Ele tinha um profundo amor pelo Senhor.

Tomé aparece novamente, em João 14, uma porção muito familiar da Escritura. O discurso da sala da Última Ceia, na noite da Páscoa, a noite de encontro de Jesus com seus discípulos. Judas O traiu naquela noite, como você sabe. Judas foi destituído, como registrado no capítulo 13, e agora, no capítulo 14, os discípulos estão perturbados, os apóstolos estão perturbados.

Muito perturbados, porque Jesus lhes disse que um deles o está traindo. Eles estão se movendo rumo à cruz. Eles sabem que o Senhor vai partir. Ele mesmo havia dito a Pedro que este O negaria. E há um tremendo problema entre os apóstolos. Assim, diz Jesus no versículos 1 a 4:

Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, Eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também. Mesmo vós sabeis para onde vou, e conheceis o caminho.”

Jesus diz: ‘Eu tenho que ir e vou preparar um lugar para vocês e então, eu vou levá-los para o lugar que preparei’. No versículo 5, Tomé fala:  “Senhor, nós não sabemos para onde vais; e como podemos saber o caminho?” Isto aconteceu em alguns dias apenas após o episódio do capítulo 11. Novamente, vemos seu pessimismo: “o Senhor está partindo… Nós nunca vamos chegar lá… Não sabemos como chegar lá… Como é que vamos chegar lá? Teria sido um plano melhor morrer com o Senhor, porque então não haveria separação… Nós iríamos morrer e então ficaríamos juntos. Mas, se se o Senhor for, como é que vamos Te encontrar? Nós não sabemos como chegar lá! ”

Este é um homem com profundo amor. Este é um homem com um relacionamento com Cristo que era tão forte que ele nunca quis ser separado Dele. E seu coração está realmente quebrado enquanto fala. Ele está quebrado. O pensamento de perder Cristo o paralisa. Tornou-se tão associado e apegado a Jesus nestes anos que ele ficaria feliz em morrer com Cristo, mas certamente não queria viver sem Ele.

Eu gosto disso: ‘Apenas me deixe morrer, mas não me deixe, não vá sem mim, porque eu não sei como chegar lá!’ E Jesus lhe disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim“. Em outras palavras, o Senhor estava dizendo: ‘Tomé, seja o que for, em tudo o que Eu fizer sempre serei o caminho para você, sempre serei a vida para você, sempre serei a verdade para você’.

Isso foi simplesmente esmagador para Tomé, que ansiosamente morreria com Cristo, em vez de ficar separado dele. Bem, seus piores temores aconteceram. Jesus morreu e ele não. E aí nós chegamos ao próximo fato, em João 20. Isso é muito familiar. Jesus morreu. O que aconteceu com Tomé? Bem, quando Jesus morreu, os discípulos estavam em profunda tristeza, profunda, profunda e profunda tristeza. Mas todos se uniram para lamber as feridas uns dos outros.

Todos se reuniram. Mas, o versículo 24 de João 20, diz: “Tomé, um dos doze, chamado Dídimo, não estava com eles“. Isso é muito ruim, porque Jesus apareceu lá, você se lembra? Depois de Sua ressurreição, Ele apareceu aos Seus discípulos. Tomé não estava lá. Por que ele não estava lá? Ele era tão negativo, tão pessimista, ele estava absolutamente destruído e deveria estar em algum lugar revolvendo sua miséria. Quero dizer, ele só podia ver o pior de tudo.

E agora, seu pior medo tinha se concretizado. Jesus tinha ido embora e ele estava certo de que nunca mais O veria, nunca encontraria o caminho para chegar onde Jesus estava. Por que Jesus não o deixou morrer com Ele? Mas, Ele não deixou e Tomé se sentiu sozinho, rejeitado, abandonado. Tinha acabado. Aquele a quem ele tanto amava, confiava e por quem desejava morrer o tinha deixado, despedaçou-lhe o coração, arrancou-lhe o coração. E ele realmente não queria estar com outras pessoas.

Você pode se identificar com isso? Um coração partido, quebrado, devastado, esmagado só quer ficar sozinho. Ele simplesmente não queria estar na multidão. Você sabe, em certo sentido, os outros discípulos, eles não acreditavam na ressurreição até que Jesus apareceu, certo? Lembre-se no caminho de Emaús em que estavam andando dois dos discípulos e Jesus apareceu a eles e, finalmente, identificou-se como vivo.

Então, quando Ele apareceu na sala onde os discípulos estavam reunidos, eles creram. Mas, até esse ponto, eles também não acreditavam. Mas, qualquer que tenha sido a tristeza dos outros dez agora, a tristeza de Tomé foi maior. Eu sempre senti que Tomé tinha um amor pelo Senhor que era algo além dos demais, de modo que seu mundo inteiro caiu, com efeito, quando Jesus morreu. Não havia mais nada. A última coisa que ele queria fazer era ficar ao redor de seus velhos amigos.

Ele estava quebrado de tristeza e solidão e, consequentemente, não foi se reunir com os demais. E adivinha quem apareceu? Jesus! E Tomé não estava lá. Os outros discípulos ficaram dizendo a Tomé, versículo 25: “Vimos o Senhor“. E você pode imaginar, quero dizer, eles estavam em êxtase, eles estavam fora de suas mentes, eles eram exuberantes. “Vimos o Senhor, vimos o Senhor!”

E o que Tomé diz? Ele é apenas um pessimista desesperado. Disse: “Se eu não vir o sinal dos cravos em suas mãos, e não puser o meu dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei.“. Ele simplesmente chegou a um ponto em que não acredita que seus amigos dizem a verdade. Ele não pode, ele era esse tipo de sujeito. Tudo que ele podia ver era o lado ruim das coisas. O que estavam lhe contando era bom demais para ser verdade…

Bem, depois de oito dias, seu sofrimento tinha aliviado um pouco, talvez. Assim, os discípulos estavam reunidos e Tomé estava com eles. A próxima vez que ele se encontrou com os discípulos, provavelmente lhe disseram: “É melhor você estar lá, porque Ele pode aparecer de novo”. Certamente. E Jesus veio. A porta estava fechada e lá apareceu Ele no meio deles. O que isso quer dizer é que Ele estava em forma sobrenatural, Ele simplesmente veio através da parede e disse: “A paz esteja com vocês!”.

Eu posso entender por que o Senhor disse isso. Deve haver uma enorme quantidade de agitação quando você está numa sala fechada e alguém chega através da parede… Jesus olhou diretamente para Tomé: “Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente.” Tomé estava errado, porque ele era esse tipo de pessoa.

Mas, é o erro que vem de alguém com um amor profundo. É a tristeza, o coração partido, a incerteza e a dúvida de um coração partido. Ninguém podia sentir da mesma maneira como Tomé sentia, a menos que amasse Jesus da maneira como Tomé O amava. E então, Tomé diz o que é provavelmente a maior declaração que já veio dos lábios dos apóstolos, versículo 28: “Meu Senhor e meu Deus“.

Que as pessoas que negam a divindade de Cristo se encontrem com Tomé. Sua tendência melancólica, sem conforto, negativa e temperamental para sempre foi banida com a aparição de Jesus Cristo. Jesus é terno com Tomé. Ele entendeu suas dúvidas. Ele compreendeu a incerteza. Ele compreendeu seu pessimismo. Mas, novamente, é um tipo de pessimismo heróico, porque está disposto a morrer, porque ama profundamente.

A evidência da profundidade de seu amor é a profundidade de seu desespero quando ele está separado de seu Senhor. Bem, eis o grande testemunho de Tomé: “Meu Senhor e meu Deus”. E naquele momento ele foi transformado em um grande evangelista. Acredita-se que Tomé levou o evangelho até a Índia. Há na Índia a Igreja Bar Toma, que significa filhos de Tomé, à qual atribui-se a origem a Tomé.

A tradição diz, porque ele não negou a fé e não cessou de pregar, que uma lança foi atravessada no seu corpo e, assim ele foi executado. Desse modo, no final, sua dúvida tornou-se certeza e, tão certo de sua reunião com Cristo, deu sua vida para ter a reunião que ele deve ter desejado durante todos aqueles anos entre a ascensão de Cristo e a sua própria morte.

Deus pode fazer coisas incríveis com a matéria-prima, não pode? Um coletor de impostos desprezado e um pessimista temperamental, negativo, melancólico, mas heroico. Vamos orar.

Pai, nós Te agradecemos por Tomé, Mateus, e estamos tão agradecidos novamente ao sermos lembrados que Tu podes usar o humilde e o comum, o falho. Tu podes usar um homem desprezado, degradado. Tu podes usar um negativo, pessimista. Tu podes transformá-los em heróis, evangelistas, transformadores do mundo e nunca alguém iria dar-lhes o crédito. O Senhor ganha toda a glória. Obrigado pelo que Tu podes fazer conosco. Somos como eles. Alguns de nós são Pedros, audaciosos e ousados e autoconfiantes. Alguns de nós são como Tiago e João, filhos do trovão. Alguns de nós são como Filipe, Natanael, pensativos, crédulos. E alguns são como Tomé, duvidando, questionando, imaginando, temendo e ainda amando profundamente. E para todos os diferentes tipos de homens e mulheres que o Senhor usa, o propósito é o mesmo: que o evangelho possa ser estendido até os confins da terra e que a glória pertença a Ti. É por isso que, como Paulo disse: o Senhor mesmo o usou, o principal dos pecadores, e a glória é Tua. Somos encorajados por essas vidas. Encorajados ao ver que Tu podes nos usar, mesmo com nossas próprias falhas, para Tua glória. Nós Te agradecemos em nome de Cristo. Amém.


Esta é uma série de 12 sermões sobre o chamado dos apóstolos

01. O chamado dos doze apóstolos
02. O chamado de Pedro (Parte 1)
03. O chamado de Pedro (Parte 2)
04. O chamado de Pedro (Parte 3)
05. O chamado de André e Tiago (irmão de João)
06. O chamado de João
07. O chamado de Filipe
08. O chamado de Natanael (Bartolomeu)
09. O chamado de Mateus e Tomé 
10. O chamado de Tiago (filho de Alfeu), Simão e Judas – Em breve
11. O chamado de Judas Iscariotes (1) – Em breve
12. O chamado de Judas Iscariores (2) – Em breve


Este texto é uma síntese do sermão “Common Men, Uncommon Calling: Nathanael, de John MacArthur, em 19/08/2001.

Você poderá ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/library/sermons-library/42-79/common-men-uncommon-calling-matthew-and-thomas

Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno


 

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