Deus e o tempo

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“Mas, amados, não ignoreis uma coisa, que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia. O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para conosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se” (II Pedro 3:8-9).

Nesse mundo, somos confrontados por duas posições possíveis: Aceitar as ideias e filosofias dos homens, com a forma materialista de explicar a história e falar sobre o futuro, ou crer que a Bíblia é a Palavra de Deus, que os profetas e apóstolos foram homens especialmente escolhidos por Deus, recebendo uma mensagem e um entendimento que vão além da razão humana. Temos que estar em uma dessas posições. Crer na Palavra ou sermos um dos “escarnecedores, andando segundo as suas próprias concupiscências, e dizendo: Onde está a promessa da sua vinda?” (II Pedro 3:3-4).

Aqui, Pedro está tratando com as dúvidas e incertezas no meio do próprio povo de Deus, que parece olhar para o mundo e não ver consonância com o que o Evangelho diz. É uma palavra para fortalecer os crentes, que, embora, não façam perguntas da mesma maneira que os escarnecedores fazem, porém, frequentemente fazem as mesmas perguntas. Muitas vezes, a diferença entre o escarnecedor e o crente está apenas na forma de fazer as perguntas, não na natureza das perguntas. 

Muitas vezes, no próprio Novo Testamento, o povo de Deus se desanimou. Muitos criam numa volta imediata do Senhor. Havia muitas perguntas sobre este assunto. A situação continua no mundo moderno, totalmente afastado de Deus. Peguntamos às vezes: “Por que Deus permite isso”; “Por que Ele não intervém em certos fatos?”; “Por que Ele não esmaga Seus inimigos?”; “Ele prometeu fazer isso, por que não o faz?”. É sobre isto que o apóstolo trata em II Pedro 3:8-9.

Nunca devemos ser curiosos quanto aos tempos e estações

Repetidamente, a Bíblia nos traz advertências acerca do exagero na preocupação com tempos e estações. Em geral, a Bíblia nos diz que devemos ter grande preocupação acerca do fim. Devemos estar sempre contemplando e esperando anelantemente este grande evento que vai finalizar a história, mas não devemos nos preocupar demais quanto ao tempo em que isso vai acontecer. Se nos envolvermos além da medida, cairemos em dificuldades e problemas. Muitos homens santos caíram nesta armadilha.

A resposta bíblica é que devemos estar sempre esperando com desejo e alegria a volta do Senhor, mas nunca devemos tentar presumir o tempo de Sua vinda, pois a Palavra de Deus diz que será repentina, inesperada e ignorada por todos.

Devemos lembra-nos de que com a nossa natureza e constituição, não podemos entender plenamente a mente de Deus

Estamos na terra, somos finitos. Nossas mentes foram torcidas e pervertidas em consequência do pecado. Temos que entender nossas limitações quando nos pomos a meditar em Deus, Seus caminhos e Suas obras em relação aos homens. Veja Isaías 55:8-9, onde o Senhor diz:

Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor. Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos.

Esse é o grande princípio que encontramos em toda a Bíblia, e podemos expressá-lo de forma e maneira práticas. Sempre que eu me preocupar com os caminhos de Deus — se não puder entender bem o que está acontecendo, se achar que deveria estar acontecendo algo completamente diferente, se os caminhos de Deus em relação a mim, ou relação ao mundo, parecem esquisitos e estranhos — a primeira coisa que devo fazer é dizer a mim mesmo que a dificuldade está em minha mente, pois Deus está infinitamente acima de mim, e Sua mente eterna é tão diferente, que eu não devo esperar ser capaz de entender.

Se tentarmos entender as coisas com a presunção de que podemos entender a mente de Deus como entendemos a nossa própria mente, estabelecemos logo uma falácia inicial. Não há comparação entre a mente de Deus e a mente do homem. Ele está nos céus e nós na terra. Ele vê de cima e nós da terra. Não podemos ver as coisas como Ele vê.

Deus está totalmente acima do tempo, mas age no tempo

Mas, amados, não ignoreis uma coisa, que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia. (II Pedro 3:8).

Esse é o princípio: Deus é Eterno, Ele está acima do tempo. Jamais devemos pensar que Deus está envolvido no processo do tempo ou no fluxo e movimento do tempo. Nós somos criatura do tempo, necessariamente pensamos em termos de tempo. Deus está completamente acima, além e fora do tempo, de modo que quando pensamos nos propósitos de Deus, sempre corremos o risco de exagerar o fator tempo.

Foi Deus que deu início ao processo do tempo. Quando Ele criou o mundo, Deus iniciou o movimento da História. Ele próprio está fora e acima desse movimento, mas Ele o pôs em andamento. Deus existe sem o tempo, e o tempo não faz parte de Deus. De acordo com a Bíblia, Deus pôs o processo em movimento e o mantém em movimento. Ele controla o tempo e os atos de Deus se desenvolvem com base num plano definido e de acordo com um esquema definido.

Ele criou o mundo e a História começou. Mas o homem pecou e caiu, então, Ele interveio. De novo, parecia que o processo prosseguia independentemente de Deus, mas novamente Ele interveio. Ele fez tudo no seu devido tempo, mostrando Seu controle sobre o processo do tempo e Sua interferência nele, segundo a Sua vontade eterna, segundo o Seu conselho eterno.

O que é que determina a ocasião da interferência de Deus? Esta é a questão que preocupa as pessoas. O nosso problema, quando começamos a pensar em tempo, em cronologia, pensamos em relógios e calendários, em semanas, meses e anos. Mas esta não é a cronologia divina.

Em Gênesis 6:3, Deus diz: “Não contenderá o meu Espírito para sempre com o homem”. O que é que estava acontecendo ali? Bem, o povo pecara e as condições morais iam de mal a pior. Deus estava  falando, censurando, condenando e chamando o povo ao arrependimento, mas os homens não lhe deram atenção. Então, Ele diz: “Vai chegar o ponto onde deixarei de contender com você e agirei”. Não foi uma questão de calendário, a questão foi das condições morais que levaram Deus a agir. Podemos ver isto em Gênesis 15:16, quando Deus diz: “Porque a medida da injustiça dos amorreus não está ainda cheia”.

Olhando para um exemplo no Novo Testamento, veja Lucas 11:49-50, que diz:

Por isso diz também a sabedoria de Deus: Profetas e apóstolos lhes mandarei; e eles matarão uns, e perseguirão outros; Para que desta geração seja requerido o sangue de todos os profetas que, desde a fundação do mundo, foi derramado.

Os profetas haviam sido mortos séculos antes, mas a punição vem quando a iniquidade chega a um certo nível. Do mesmo modo, a Palavra trata acerca dos tempos do fim. Estes não acontecerão enquanto não tiver completado a plenitude dos gentios, enquanto Deus não tiver reunido o Seu povo dentre as nações gentílicas. Este é o tempo, de acordo com o olhar divino.

Biblicamente, o que determina a intervenção de Deus é a questão das condições morais. Em nossos dias, mais importante que qualquer data,  é o estado e condição do mundo, da terrível apostasia predita nas Escrituras. Mas tome cuidado, pois muitas vezes foi dito que “esta é a última e grande apostasia”. Não podemos cair na armadilha de marcar datas novamente, embora devemos refletir profundamente diante da arrogância, ateísmo e irreverência da humanidade.

O princípio da justiça de Deus

O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para conosco… (II Pedro 3:9).

Se não podemos entender a mente de Deus, que a questão do tempo não é para Ele o que é para nós, devemos nos apegar tenazmente e sem vacilar ao atributo de justiça do caráter de Deus. Ele é justo. Seja qual for a explicação das coisas que nos inquietam, cremos nos caráter perfeito de nosso Deus. 

Podemos ser tentados a questionar: Por que os ímpios prosperam?. Bem, só há um meio de responder isto: “O Senhor não retarda a sua promessa”. “Não retarda” aqui é “não é negligente” ou “não é frouxo”.  O que Ele diz que fará, em total certeza se cumprirá. Suas promessas são absolutas, seguras e certas. Sua justiça não pode variar. O caráter justo de Deus nunca pode entrar em questionamento em nossas mentes. Veja a experiência do salmista:

Pois eu tinha inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios. São corrompidos e tratam maliciosamente de opressão; falam arrogantemente. Põem as suas bocas contra os céus, e as suas línguas andam pela terra. Eis que estes são ímpios, e prosperam no mundo; aumentam em riquezas. Quando pensava em entender isto, foi para mim muito doloroso; Até que entrei no santuário de Deus; então entendi eu o fim deles. Certamente tu os puseste em lugares escorregadios; tu os lanças em destruição. Todavia estou de contínuo contigo; tu me sustentaste pela minha mão direita. Guiar-me-ás com o teu conselho, e depois me receberás na glória. Quem tenho eu no céu senão a ti? e na terra não há quem eu deseje além de ti. A minha carne e o meu coração desfalecem; mas Deus é a fortaleza do meu coração, e a minha porção para sempre. Pois eis que os que se alongam de ti, perecerão; tu tens destruído todos aqueles que se desviam de ti. Mas para mim, bom é aproximar-me de Deus; pus a minha confiança no Senhor Deus, para anunciar todas as tuas obras. (Salmo 79:3,8-9,12,16-18, 23-28)

A longanimidade de Deus

…[Deus] é longânimo para conosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se. (II Pedro 3:9)

Esta é uma passagem frenquentemente utilizada contra a doutrina bíblica da eleição. Examiná-la desta maneira é perder de vista o que Pedro quer dizer aqui. O que Pedro quer dizer é que a aparente demora faz parte da longanimidade de Deus.

Deus não deseja que ninguém pereça. A tradução correta da palavra traduzida como “querendo” (do verbo querer) é “desejando” (do verbo desejar). O verbo querer expressa a vontade de Deus, e esta vontade sempre se cumpre. Sua vontade é soberana e não pode ser frustrada. O que quer que Deus “queira”, acontece. E aqui está a diferença entre Deus querer e desejar uma coisa. E o que Pedro diz é que Deus não deseja que alguém pereça, mas que todos venham a arrepender-se.

Nota do site: Embora muitos façam confusão com os verbos “querer” e “desejar”, eles não significam exatamente a mesma coisa. “Querer” algo significa tomar as decisões necessárias para se obter o que quer. “Desejar” algo, é como se você dissesse: “Não seria bom se eu tivesse isto?”. Deus quis salvar a todos aqueles a quem chamou em Seu decreto eterno, e assim o fez cabalmente em Cristo. Sua vontade é soberana.

Deus não tem prazer na morte do ímpio, por isso Ele protela Sua ação. Vemos isto na construção da arca. Durantes 120 anos, Deus usou Noé para pregar o arrependimento àquele povo. E ninguém deu atenção. Por que Ele não abreviou tudo? Ele não sabia que ninguém se arrependeria? Esta é a longanimidade de Deus, por não desejar que os ímpios pereçam. Se olharmos para as Escrituras Sagradas, veremos tremendos exemplos da longanimidade de Deus para com todos. Não pergunte o porquê de sua aparente “demora”. É esta a admirável longanimidade de Deus.

Por que a aparente longa demora? Penso que só há uma resposta: Deus mostrando ao homem que ele não pode se salvar independentemente de Sua ação. O homem sempre alega que pode tomar as decisões corretas. Deus deu à nação uma lei, o povo ficou confiante, dizendo que a cumpriria. Deus lhes deu muitos séculos para mostrar que eles não podiam. Israel fracassou. A longanimidade de Deus deixa o homem indesculpável.

Assim será na volta de Cristo. Dezenas de séculos de pregação do Evangelho, os homens sendo finalmente postos em juízo, não haverá escusas. A justiça de Deus será revelada. [A soberania de Deus está em paralelo com a responsabilidade do homem. Todos estão marchando para o inferno, Deus chamou alguns à salvação, pois, se não fosse assim, ninguém se salvaria. Ninguém será desculpável diante do juízo, como ninguém alegará qualquer mérito em sua salvação]. Por isso, Pedro diz: “E tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor” (II Pedro 3:15). Quem te levou ao arrependimento? “A bondade de Deus te conduz ao arrependimento” (Romanos 2:4).

Sujeitemo-nos, então, a Deus e à Sua soberania absoluta, especialmente a Seu amor e misericórdia, à Sua longanimidade e compaixão. os caminhos de Deus são certos e são seguros. Não podemos entendê-los agora, mas, a seu bom tempo, entenderemos todas as coisas. 

Sintetizado de um sermão pregado em 1947 por Martyn Lloyd Jones (1889-1981). 

Leia também do mesmo autor: A visão bíblica da história

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