O homem que Deus pode usar

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Os dias da nossa vida chegam a setenta anos, e se alguns, pela sua robustez, chegam a oitenta anos, o orgulho deles é canseira e enfado, pois cedo se corta e vamos voando. 
Salmo 90:10

Sim, Moisés é o autor, divinamente inspirado, desse verso. Uma dúvida poderá surgir: não há incoerência entre esta conclusão quanto à brevidade e fragilidade da vida e a própria história do autor inspirado, que aos 80 anos foi chamado por Deus para libertar Israel e guia-lo à terra prometida? Não é incompatível o verso destacado do Salmo 90 com o fato de Moisés ter liderado uma multidão numa longa e árdua caminhada pelo deserto dos seus 80 a 120 anos de idade?

Realmente Moisés foi chamado por Deus aos 80 anos que, segundo sua própria palavra, é tempo de canseira e enfado. Após 40 anos no deserto como pastor de cabras, a vida do antigo príncipe do Egito tinha se tornado monótona e cansativa sob o calor do dia e a frieza da noite no deserto, em cuidado do seu rebanho. Moisés já se considerava no final da vida, sem o vigor e disposição que tinha 40 anos antes quando, com a força do seu braço, matou um egípcio que contendia com um hebreu. Naquela época, poderia pensar ele, teria capacidade e condições de ser o libertador do seu povo, mas não agora.

O príncipe eloqüente e “instruído em toda a ciência do Egito” (At. 7:22) não passava agora de um velho pastor cansado da vida e gago. Poderíamos até questionar se Deus não esperou demais para usá-lo e sua juventude, vigor e eloqüência foram desperdiçados criando cabras… Ora, mas sabemos que o Senhor é a própria sabedoria e nunca se atrasa para cumprir os seus propósitos.

Deus só irá nos usar quando o nosso homem natural, com sua força, vigor, eloqüência, capacidade, sabedoria desaparece, sai de cena. Ele não está interessado em nada que seja produzido pela árvore do conhecimento (que não produz só o mal, mas o bem!!). Deus precisa anular as nossas forças naturais, os nossos conceitos humanos, os nossos sentimentos almáticos para, então, fazer uso de nós. Por certo, a educação aprimorada que Moisés recebeu no Egito foi utilizada pelo Senhor. Não podemos esquecer que este ancião foi o autor do Pentateuco e o líder de mais de 2 milhões de pessoas por 40 anos num deserto, Nas, o ponto central é que ele mesmo, Moisés, não se fortaleceu ou se apoiou no seu conhecimento.

Muitos, principalmente nesses dias de cristianismo sem Cristo, pensam que sua inteligência, eloqüência, experiência, bondade, boa vontade e disposição é tudo que Deus sonhava para usar na sua obra. Temos que entender que Ele rejeita todo o mal e todo o bem que é produzido pela nossa própria força e capacidade natural (Isaías 64:6). Deus rejeita nosso ego e nós também temos que rejeitá-lo. O que Deus espera é ver Cristo em nós, sua única esperança (Col. 1:27). Seja lá que vaso você for, talvez com muito valor na cotação dos homens e do mundo, será quebrado, amassado e moldado nas mãos do soberano Oleiro (Jer. 18: 1-6). Uma vez quebrados, reconhecidos de nossa inutilidade, inseguros por não sabermos onde foi parar a nossa eloqüência que cedeu lugar ao “peso de língua”, no momento em que nos incomodarmos com todo sentimento oriundo da alma e nos sentirmos fracos, incapazes, aí, por certo, a obra do Senhor poderá ser feita por nosso intermédio, pois já provamos dessa obra em nós mesmos.

A excelência do poder não está no vaso, mas no seu conteúdo. Vasos imponentes podem impressionar os homens, assim como o levantar de mãos, o orar compenetrado em público (mas sem seu correspondente às portas fechadas no quarto), o falar santo (que não é santo na vida secular), o sentimentalismo da alma (que não tem origem no Senhor), o ativismo (que ocupa a alma com a obra de Deus, mas deixa o espírito faminto por Deus), enfim, todo o homem natural com seu ego colossal e sua alma no comando. Mas, a eternidade revelará que a história da Igreja foi construída de fato por homens e mulheres que passaram pelo deserto, perderam a confiança em si mesmos e se renderam à vontade, poder e direção do Dono da Obra, o Senhor Deus. 

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