A total incapacidade do pecador

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Esta é uma série sobre a doutrina da graça. Para melhor entendimento, sugerimos ler a sequência das mensagens, conforme links no fim deste texto.


Nota do tradutor: Esta doutrina foi intitulada pelos puritanos como “depravação total”. John MacArthur prefere chamá-la de “incapacidade absoluta”, por motivo do significado moderno da palavra “depravação”, como ele explica no texto.


Nós embarcamos em um estudo maravilhoso sobre algumas doutrinas muito importantes. Não estamos buscando um entendimento filosófico e algo que não resista ao teste da Escritura. E nem algo que seja fruto da razão humana.
Quero lhes encorajar a serem como os crentes bereanos, que examinavam tudo nas Escrituras, para que cressem nas palavras de Paulo e Silas (Atos 17:10-11).

Quando terminamos nosso estudo sobre a carta de Judas, examinamos a doutrina da perseverança dos santos. Esta verdade bíblica fala da segurança eterna de nossa salvação.
Se você realmente nasceu de novo, tornando-se um filho de Deus, você não cairá desta posição para se tornar novamente um filho do diabo. Judas escreveu (versos 24-25):

Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos irrepreensíveis, com alegria, perante a sua glória, ao único Deus sábio, Salvador nosso, seja glória e majestade, domínio e poder, agora, e para todo o sempre. Amém.

Seremos preservados até o fim porque fomos escolhidos desde o início para esse fim. E isso nos levou à doutrina da eleição divina, a doutrina da predestinação, pela qual Deus determinou antes da fundação do mundo quem Ele salvaria e traria para a glória.
Todos os homens estão marchando para o inferno, mas Deus, a quem quer que seja que Ele chame, justifica e glorifica. E assim, a grande doutrina da preservação está ligada à doutrina da eleição ou da predestinação.

Esta verdade está em toda a Bíblia, não há como fugir dela. Não temos, por nós mesmos, qualquer capacidade de buscar a Deus, nos arrepender, nos submeter ao senhorio de Cristo e sermos fiéis a Ele até o fim. Não temos.
Ele é quem nos escolheu, regenerou e justificou. É Ele quem nos sustentará até aquele dia, quando seremos glorificados na eternidade.
Isto nos leva ao que vou chamar de “doutrina da incapacidade absoluta”. Originalmente ela é chamada de “doutrina da depravação total”.

Agora, para começar este assunto, abra sua Bíblia em João 11, um capítulo notável que registra a ressurreição de Lázaro, um dos mais íntimos amigos de Jesus. Este homem tinha duas irmãs, Maria e Marta, em cuja casa Jesus gastou certo tempo. Eram crentes Nele e amigos.
Lázaro vivia em Betânia, bem próximo a Jerusalém, atrás do Monte das Oliveiras. Ele ficou doente e suas irmãs enviaram uma mensagem ao Senhor dizendo: “Senhor, eis que está enfermo aquele que tu amas” (v.3).

Jesus, ouvindo isto, disse: “Esta enfermidade não é para morte, mas para glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela” (v.4).
Deus tinha um propósito naquela doença. Jesus, guiado pelo Espírito Santo, permaneceu dois dias no lugar onde estava (v.4). Jesus sabia que Lázaro havia morrido (v.14). Marta e Maria estavam sendo consoladas pelas pessoas (v. 19).

Quando Jesus chegou, Marta correu a Ele e lhe disse: “Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido” (v.21).
Ela tinha grande confiança em Seu poder de cura e, aparentemente, nenhuma em Seu poder de ressurreição pois, quando Jesus disse que Lázaro iria ressuscitar (v. 23), ela respondeu: “Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia” (v.24). Jesus lhe respondeu:

Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. Crês tu isto? (v. 25-26).

Marta responde: “Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo” (v.27). Ela ainda estava retida apenas na ressurreição vindoura. E Maria, sua irmã, chegou e disse o mesmo a Jesus: “Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido” (v.32).

Jesus perturbou-se ao ver o local onde Lázaro foi enterrado e todos chorando. Ele chorou (v.35). Alguns questionavam: “Não podia ele, que abriu os olhos ao cego, fazer também com que este não morresse?” (v. 37). E, então, nos versos 38 a 42 é dito:

Jesus, pois, movendo-se outra vez muito em si mesmo, veio ao sepulcro; e era uma caverna, e tinha uma pedra posta sobre ela. Disse Jesus: Tirai a pedra. Marta, irmã do defunto, disse-lhe: Senhor, já cheira mal, porque é já de quatro dias. Disse-lhe Jesus: Não te hei dito que, se creres, verás a glória de Deus? Tiraram, pois, a pedra de onde o defunto jazia. E Jesus, levantando os olhos para cima, disse: Pai, graças te dou, por me haveres ouvido. Eu bem sei que sempre me ouves, mas eu disse isto por causa da multidão que está em redor, para que creiam que tu me enviaste.

E no verso 43, o mais interessante: “E, havendo dito isto, clamou com grande voz: Lázaro, vem para fora”. Isto é muito interessante, Jesus deu uma ordem a um morto.
Ora, um morto não pode ouvir ordens, não há mais nada em um corpo sem vida. Mas, o verso 44 diz: “Saiu aquele que estivera morto, tendo os pés e as mãos ligados com ataduras e o rosto envolto num lenço. Então, lhes ordenou Jesus: Desatai-o e deixai-o ir”.

Como? Como é possível para um morto fazer o que Jesus lhe disse para fazer? Porque Cristo lhe deu a capacidade de fazê-lo. Se Cristo não lhe tivesse dado a vida, ele não poderia ter obedecido. É a isso que se relacionam as palavras de Jesus nos versículos 25 e 26: “Eu sou a ressurreição e a vida”.
O evangelho ordena que mortos se levantem, creiam, entendam e se arrependam. O evangelho ordena que os mortos façam o que, francamente, eles não podem fazer.

Agora, de lá eu quero que você vá para Efésios, capítulo 2, e aqui nós vemos a profundidade desta questão.

E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados, em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência. Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também (v.1-3).

Estávamos todos mortos. Mortos para quê? Mortos para Deus, mortos para a realidade espiritual, mortos para a verdade.
O problema básico do homem não é a falta de autoestima, não é a desarmonia com seu ambiente, não é que ele esteja fora de sincronia com seu Criador, não é que ele precise fazer alguns ajustes para se aproximar de Deus. Não é isto.
O problema do homem é que ele está absolutamente morto, e ele é totalmente incapaz de se relacionar com Deus, com a pessoa de Deus, a verdade de Deus ou os mandamentos de Deus.

O pecado mata. “O salário do pecado é a morte” (Romanos 6:23). Não somos apenas cegos, ignorantes, fracos e impotentes. Simplesmente estamos mortos.
Quando um aspirante procurou Jesus e disse que o seguiria depois de enterrar seu pai (um forma antiga de se dizer “receber minha herança”), Jesus disse: “Segue-me, e deixa os mortos sepultar os seus mortos” (Mateus 8:22).
Que os espiritualmente mortos enterrem os fisicamente mortos. Assim, Jesus chama os que estão fora de Seu Reino de “mortos”.

Paulo, em 1 Timóteo 5: 6, diz: “Entretanto, a que se entrega aos prazeres, mesmo viva, está morta”. O que está morto não tem capacidade para responder a Deus. Ele é um servo de Satanás, impulsionado pela concupiscência da sua carne, vivendo entregue ao pecado.
Pecadores podem até fazer algum bem por si mesmos, podem ser filantrópicos, caridosos, gentis, ter misericórdia e ajudar pessoas.
Mas eles não podem fazer nenhum bem espiritual. Eles não podem fazer nada que agrade a Deus, porque ninguém pode fazer qualquer coisa que agrada a Deus, a menos que seja feito para Sua glória.
E nada pode ser feito para Sua glória, a menos que seja feito em nome de Seu Filho. Então, o bem produzido por qualquer ser humano é um bem morto. Não tem absolutamente nada a ver com Deus.

Lucas 6:33 diz: “Se fizerdes o bem aos que vos fazem o bem, qual é a vossa recompensa? Até os pecadores fazem isso”. Jesus admite que as pessoas podem fazer o bem, mas é um bem humano, não há nenhum motivo puro e não tem relação com o relacionamento de alguém com Deus. Nada disso agrada a Ele.

Eu creio que essa ideia é exposta em Lucas 11:13, em que Jesus diz: “Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o Pai celestial dará o Espírito Santo àqueles que lhe pedirem?”.
Ou seja, embora você seja mau, você faz coisas boas para seus filhos. Isso é instintivo na relação dos pais com seus filhos. Mas, não é um bem que, em qualquer sentido, satisfaça Deus.
Até mesmo os nativos da ilha de Malta, em Atos 28, mostraram bondade para com Paulo. Há uma espécie de bondade pagã, mas não tem relação com Deus. Não conta para absolutamente nada.

Agora, de volta a Efésios 2, o pecador está tão morto que tudo o que ele está envolvido pode ser resumido como sendo do mundo, do diabo e da carne. Ele não pode fazer absolutamente nada fora disso. Então, nos versos 4 a 6 temos:

Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e, juntamente com Ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus.

Ele nos ressuscitou. Não haveria outra forma de crer e obedecer ao Evangelho. Você pode dizer: “Sim, mas nós tivemos que crer”. Claro, Paulo, nos versículos 8 e 9 tratou de mostrar de onde veio esta fé que passamos a ter:

Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.

Você consegue entender? Veja 2 Pedro 1: 1, que diz: “Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, aos que conosco obtiveram fé igualmente preciosa na justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo”. Você notou que todos temos fé porque a recebemos. É um dom divino.

Veja Filipenses 1:29, que deixa isto bem claro: “Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele”. Assim, nos foi concedido, por Deus, crer em Cristo e sofrer por Ele.
Se Deus não lhe concedesse o poder de crer, você não poderia crer. Você estaria morto. Tem que ser concedido por Deus. Pessoas mortas não podem responder e reagir a nada. É por isso que a analogia da morte é usada.

Veja Atos 3:16. Aqui você tem Pedro e João curando um homem coxo. E o versículo 16 diz: “Pela fé em o nome de Jesus, é que esse mesmo nome fortaleceu a este homem que agora vedes e reconheceis; sim, a fé que vem por meio de Jesus deu a este saúde perfeita na presença de todos vós”.

O homem tinha a fé para crer em Cristo ou a ele foi concedida esta fé? Pense nisso nestas palavras. Em Filipenses 1:6 diz: “Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus”.

Isso é muito importante. Quem começou o bom trabalho? Deus. E Ele é quem vai sustentar e aperfeiçoar. É Ele quem começa e sustenta. Não podemos fazer nem uma coisa e nem outra. I Coríntios 1:27-31 diz:

Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus. Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção, para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.

Nenhum homem poderá se vangloriar diante de Deus, como se tivesse algum mérito em sua fé. Os mortos não obedecem, não creem, não se levantam. Os homens mortos não fazem nada. E todos nós também estávamos mortos no pecado, éramos espiritualmente mortos. Colossenses 2:13 descreve isto com estas palavras:

E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos.

Você vivia na esfera da morte, no reino da morte, vazio de todo o sentido espiritual, dominado pela sua carne, incircunciso e impuro. E nessa condição, Ele te deu vida. Isso é exatamente o que Efésios 2 diz. A vida foi nos dada por uma ação soberana e unilateral de Deus.

Deus não criou o homem morto espiritualmente. Adão e Eva estavam espiritualmente vivos. Tinham comunhão com Deus, caminhavam e conversaram com Deus. Eles amavam naturalmente a Deus e naturalmente faziam a vontade de Deus.
Mas, o que foi que Deus disse ao homem? “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 2:17).

Eles caíram, foram separados de Deus por causa do pecado, ficaram perdidos no jardim, correram para se cobrir, esconderam-se de Deus, enfim, tornaram-se espiritualmente mortos.
E, é claro, isso fez com que toda a raça humana nascesse morta: “Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” (Romanos 5:12).

Mas, Romanos 5:18-19 diz:

Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida. Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos.

Deus fez o homem reto e vivo, mas toda a humanidade tornou-se morta em delitos e pecados. Deus vem e Ele ordena que os pecadores se arrependam. Ele os manda crer em Seu Filho, amar Seu Filho, confessar Seu Filho, submeter-se a Seu Filho. E você pode se perguntar se toda uma raça de “Lázaros” poderia responder a este chamado.

Esta é a pergunta convincente que está por trás da doutrina da eleição. Se os pecadores são deixados a si mesmos para crer, por qual poder o fazem?
Se você vai dizer: “Eu não creio na eleição divina. Eu acredito que todos estão por conta própria e cada qual faz sua própria escolha. Deus apenas olha para o caminho e vê o que você vai fazer, mas cabe a você fazer isso”. Então, a questão é por qual poder o homem morto se levanta? Por qual poder?

Se eles podem crer por si mesmos e não é Deus que os torna dispostos e capazes para isto, de onde vem o poder e de onde vem esta vontade?
Aqueles que negam a doutrina da eleição divina e negam a doutrina da salvação divina como um ato Deus, têm que acreditar que há algo no homem, deixado para si mesmo, que o capacita a tornar-se disposto e a vir à vida.
É isso que a Bíblia ensina? A Bíblia não descreve nossa condição como uma deficiência. Ela a descreve como morte. E todo mundo sabe que a morte significa incapacidade de responder a qualquer coisa. Um morto é um absoluto incapaz.

Volte para João 1, apenas para esclarecer que isso está em toda parte nas Escrituras, consistentemente.

Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus (v.12-13).

Você não pode nascer dos mortos por seu próprio poder, qualquer um que creu e se tornou filho de Deus, foi capacitado por Deus. Não foi a própria vontade, a vontade da carne, a vontade do homem. Foi Deus.

Veja o capítulo 3 do Evangelho de João. No verso 5, Jesus está falando com Nicodemos sobre sua necessidade de nascer de novo, o que significa que ele está morto. Ele precisa da vida. Ele precisa vir à vida.
Jesus disse: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus”.
Jesus está se referindo à água da purificação e à obra do Espírito Santo, que foi descrita Em Ezequiel, na grande profecia que fala sobre a Nova Aliança. Jesus diz: “Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo” (v.7) e faz uma grande afirmação: “O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito” (v.8).

As pessoas nascem de novo porque nascem do Espírito e o Espírito vai para onde quer que o Espírito o queira. É algo tão sobrenatural que Nicodemos diz: “Como pode ser isso?” (v.9).

Em João 5:21, Jesus faz outra grande afirmação: “Pois, assim como o Pai ressuscita os mortos, e os vivifica, assim também o Filho vivifica aqueles que quer”.
Esse é um verso doloroso de suportar se você nega a soberania de Deus na salvação. O Filho dá vida a quem Ele deseja. Quando alguém crê, não é da vontade da carne ou a vontade do homem, é a vontade de Deus. É Deus quem quer. É o Espírito quem quer. É o Filho quem quer. Toda a Trindade envolvida.

Em João 6:44, Jesus diz: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia”. E João registrou nos versos 64 e 65:

Mas há alguns de vós que não creem. Porque bem sabia Jesus, desde o princípio, quem eram os que não criam, e quem era o que o havia de entregar. E dizia: Por isso eu vos disse que ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lhe for concedido.

E o ponto de tudo isso é que o pecador não pode vir por conta própria. Ele não está disposto ou capacitado a isto. Ele está morto. Em João 8:36, Jesus disse: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres”.
Você não viverá, a menos que Ele te faça viver. Você não será livre, a menos que Ele te faça livre. De volta em Mateus, capítulo 11, temos nos versos 25 a 27:

Por aquele tempo, exclamou Jesus: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.

O que Ele está dizendo é que Deus decidiu a quem Ele revelará a verdade. E Ele determinou escondê-la dos sábios e instruídos, e revelá-la aos pequeninos. Por que Deus fez isso? Por que foi do agrado Dele que fosse assim.
É muito claro. Você não vai ter vida por si mesmo. Você não vai entender a verdade e não crerá, a não ser que o Pai o queira. E ainda não é incrível? Veja o versículo 28. E aqui está um aparente paradoxo: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei”. Que coisa maravilhosa!
As pessoas sempre me perguntam: “Como você resolve isso?” Eu não resolvo isso. A oferta para vir é feita universalmente. O poder de vir é limitado àqueles a quem o Pai traz.

Ouça. Você não vai encontrar um texto sequer em que Jesus defenda a habilidade dos pecadores. Você não vai encontrar textos onde Ele defenda a liberdade de suas vontades. A Escritura sempre coloca toda a obra da salvação como vinda a partir de Deus.

Para responder mais à pergunta: os pecadores querem e são capazes de buscar a Deus? O que a Bíblia diz sobre o coração humano? Vamos ver o que a Bíblia diz sobre o coração humano.

Gênesis 6:5 diz que o diagnóstico bíblico do coração humano é que ele é mau e nada além de mau: “Viu o Senhor que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração”.
Jeremias 17:9, Jeremias diz: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?”.
Salmos 143: 2 diz: “Quem pode dizer: Purifiquei o meu coração, limpo estou do meu pecado?” Ou seja, quem pode dizer que fez algo por si mesmo?
Jeremias 13:23 faz esta pergunta: “Pode, acaso, o etíope mudar a sua pele ou o leopardo, as suas manchas? Então, poderíeis fazer o bem, estando acostumados a fazer o mal.”

Quando você olha para o diagnóstico bíblico do coração humano, não há nada lá que possa fazer o homem responder positivamente ao chamado do evangelho para a salvação . Seu coração é desesperadamente perverso. E o que sai desse coração são pecados e iniquidades. E se você quiser olhar biblicamente o coração, você poderia encontrar um monte de outros textos como esses que eu citei.

Mas, vamos falar sobre a mente. E a mente? Se o coração é algo profundo, a mente é, talvez, o pensamento superficial, se fizermos qualquer tipo de distinção. Podemos com as nossas mentes responder ao chamado do evangelho, por conta própria? Bem, Romanos 1:28 e II Coríntios 4:4 dizem:

E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes.
Nos quais o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus.

Veja Romanos 8:5, que diz: “Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito”. As mentes carnais, que inclui a mente de todos os homens, pensam apenas nas coisas da carne. Por que isto? “Porque a inclinação da carne dá para a morte…” (v.7).
Isso é característico da morte espiritual. Sua mente está posta na carne. O verso 7 diz: “a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar”.

Efésios 4:17-18 diz que “os gentios andam na vaidade de seus próprios pensamentos, obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração”.
Cada descrição da mente humana é a mesma: ignorante, obscura, fútil, vazia e morta. E não há meio-termo. A Escritura sempre trata dessa forma. “Porque tanto a mente como a consciência deles estão corrompidas” (Tito 1:15). A imagem da mente do não regenerado é muito sombria.

I Coríntios 2:14 diz: “Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente”. Por que isto acontece? Ele está espiritualmente morto. Martinho Lutero disse:

Um homem é como um pilar de sal. Ele é como a esposa de Ló. Ele é como uma pedra. Ele é como uma estátua sem vida, que não tem olhos, nem ouvidos, nem boca, nem sentidos, nem coração, a menos que ele seja iluminado, convertido e regenerado pelo Espírito Santo.

Portanto, não há esperança para o coração, nem esperança para a mente, se não houver uma intervenção sobrenatural para tirá-los do estado de morte. E alguém poderia dizer: “Bem, talvez haja alguma faísca de vida na vontade do homem, que o possa conduzir à verdade”. Sério? Dá para pensarmos assim?
O estado de todos os homens é retratado em Efésios 2 como mortos em delitos e pecados, andando sob a condução do curso mundo, segundo o príncipe das trevas, segundo os desejos da carne, dando vazão à vontade da carne e dos pensamentos. Em João 8:44-45, Jesus disse:

Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira. Mas, porque eu digo a verdade, vocês não creem em mim.

Isto é muito claro. Romanos 6:20 diz: “Porque, quando éreis escravos do pecado, estáveis livres da justiça”. Ou seja, ‘você tinha uma grande liberdade na vida, estava completamente livre de qualquer coisa justa’. Bem, isto está em concordância com Marcos 7:21-23, onde Jesus retrata o coração do homem:

Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos estes males vêm de dentro e contaminam o homem.

É uma situação séria. Romanos 3:10-18 resume tudo. Não pode restar mais qualquer dúvida, pois este é o diagnóstico que a Escritura dá para todos os homens, sem exceção:

Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; são os seus pés velozes para derramar sangue, nos seus caminhos, há destruição e miséria; desconheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos.

Você não pode buscar ao Senhor, até que Ele já tenha encontrado você. Nós o amamos porque Ele nos amou primeiro. Não há quem, por si mesmo, que procure por Deus.
É uma descrição básica dos mortos-vivos. Eles são apenas uma raça inteira de Lázaros, que amam sua escuridão e seus pecados. Vivem satisfeitos em agradar seu pai, que é o diabo.
Este diagnóstico do homem tem sido a convicção dos cristãos através dos séculos. O pensamento histórico cristão sempre considerou que o homem está perdido nas trevas e nunca sairia disto se Deus não o tirasse de lá.

Esta doutrina tem sido chamada de “depravação total”, mas considero ser este um termo inadequado. Ser depravado, de acordo com o dicionário, é ser degradado, imoral a um grau perigoso como estupradores e assassinos em série, o que não seria algo aplicável a todos os homens.
Há pessoas que não possuem qualquer vestígio de afeição natural, bondade ou contenção. São pervertidos completamente.

O que estamos falando aqui é o que eu escolhi chamar de “incapacidade absoluta”. O que é verdade para todos é que não temos capacidade de responder ao Evangelho. Somos completamente incapazes de nos levantar de um estado de morte, de dar a visão aos nossos corações cegos, de nos libertar da escravidão do pecado, de passar da ignorância para a verdade, de parar de nos rebelarmos contra Deus e sermos hostis à Sua Palavra.

Nós não somos apenas incapazes, como também não estamos dispostos a fazer isso. Não estamos dispostos a nos arrepender e crer. E se devemos nos arrepender e crer, então deve ser como foi para Lázaro, em que Deus ordena um defunto a se levantar, dando-lhe vida. Foi sobre isto que Paulo tratou em II Timóteo 2:25, que diz:

Instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade. E tornarem a despertar, desprendendo-se dos laços do diabo, em que à vontade dele estão presos.

A única maneira de você poder escapar da armadilha do diabo é ter seus sentidos vivificados para ter o conhecimento da verdade. A única maneira de você poder ter o conhecimento da verdade é se Deus lhe conceder arrependimento.

Efésios 2:8 diz: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus”. Deus tem que lhe conceder o arrependimento e a fé. E o cerne desta grande verdade é que Deus mesmo deve dar vida aos mortos. A regeneração é o que os teólogos chamariam de monergismo, ou seja, a salvação emana toda ela de Deus.

Na regeneração, somos basicamente passivos. É quando somos despertados e nos é concedido arrependimento e fé, que tudo se junta simultaneamente para trazer a salvação.
Isto é o que a Bíblia ensina. Se você não acredita nisso, então, de que forma o homem teria alguma chance de se salvar? Deus estaria simplesmente ordenando aos pecadores que façam o que absolutamente eles não podem fazer?

Negar esta doutrina e, em seguida, evangelizar, é como estar em pé em uma ponte sobre as corredeiras, assistindo alguém se afogando, e dizer-lhe: “Tenho boas notícias para você. Se você sair daí eu vou lhe secar. Venha logo, saia”.
Mas, ele não pode sair de lá. Você não está oferecendo a ele nada que ele seja capaz de fazer. O chamado do evangelho sem poder, não faz sentido.

Você quer me dizer que Deus não faz mais pelo crente do que Ele fez pelas multidões que estão agora no inferno? Encontramos algo em nós mesmos para ter vida e sair da morte?
Você quer me dizer que Deus fez a mesma coisa para todos os que já viveram, quer estejam no céu ou no inferno, e isso realmente depende de nós? Então, todo mundo que está no inferno não teve vontade de “nadar” e decidiu “afogar-se”?

Uma passagem final. Tito 3:3-6 diz.

Pois nós também, outrora, éramos néscios, desobedientes, desgarrados, escravos de toda sorte de paixões e prazeres, vivendo em malícia e inveja, odiosos e odiando-nos uns aos outros. Quando, porém, se manifestou a benignidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com todos, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador.

Ele nos salvou. Não por nada que fizemos, mas por misericórdia e poder. Por Sua escolha soberana.

Agora, apenas um comentário de encerramento sobre isso. Algumas pessoas têm tentado fazer da regeneração uma espécie de trabalho preliminar para a conversão.
A ideia é que a regeneração acontece e, em seguida, em algum lugar no caminho depois de ter sido regenerado, você é salvo. Isto é falso.
A palavra “regeneração” é usada somente em Tito 3:5 e Mateus 19:28 (em um sentido escatológico) é “palingenesias” . Mas, Tito é o único lugar na Bíblia onde você tem a palavra “regeneração” conectada à salvação. E, observe isso, é “a lavagem da regeneração e a renovação do Espírito Santo”, ou pelo Espírito Santo.

Regeneração e lavagem são a mesma coisa, a mesma realidade gloriosa. Você não pode ser regenerado, a menos que você tenha sido lavado. E, portanto, regeneração e conversão ocorrem simultaneamente.
Você sabe, há algumas pessoas que até acreditam que você pode ser regenerado e ainda não ter sido salvo. Não. É a lavagem da regeneração. A regeneração é essa limpeza. É essa salvação. É essa conversão. É essa redenção. É essa justificação. É essa santificação.

Tudo ocorre em um grande milagre de uma só vez. E ocorre ao crer nas Escrituras para que nasçamos de novo (ou sejamos regenerados) através da Palavra viva e permanente de Deus. Vocês ouvem o evangelho, vocês creem no evangelho, porque naquele exato momento vocês estão sendo regenerados, lavados, convertidos, redimidos, resgatados, justificados e santificados. Tudo acontece de uma vez, exatamente como aconteceu com Lázaro.

E no final, toda a glória vai para Deus. Passaremos o resto de nossas vidas aqui e na eternidade dando-Lhe louvor. Como escreveu Paulo em Romanos 11:33-36, expressando a glória desta obra:

Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Porque, quem compreendeu a mente do Senhor? ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.

E isso é o suficiente. Vamos orar.

Pai, cobrimos tanto assunto em tão pouco tempo… Que todos nos deleitemos na glória que pertence a Ti e na alegria da nossa salvação. Nós oramos por aqueles que não vieram a Cristo e nós imploramos por eles, para que creiam, sabendo que quem vier, Tu receberás. Não é para o pecador esperar e esperar e pedir . É para o pecador vir e pedir. E Tu trabalhas perfeitamente com Teu plano glorioso e soberano. Faça-o mesmo nas almas esta noite, nós oramos, em nome de Cristo. Amém.


Esta é uma série de 10 sermões sobre a doutrina da graça, conforme links abaixo.

01. A Perseverança dos Santos – Parte 1
02. A Perseverança dos Santos – Parte 2
03. A Perseverança dos Santos – Parte 3
04. A doutrina da eleição – Parte 1
05. A doutrina da eleição – Parte 2
06. A doutrina da eleição – Parte 3
07. A doutrina da incapacidade absoluta
08. A doutrina da Expiação Eficaz, Parte 1
09. A doutrina da Expiação Eficaz, Parte 2
10. O chamado eficaz de Deus


Este texto é uma síntese do sermão “The Doctrine of Absolute Inability”, de John MacArthur em 24/10/2004.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/library/sermons-library/90-276/the-doctrine-of-absolute-inability

Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno


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