A parábola dos solos – 2

Imprimir

Nota do site: Esta é uma série de três mensagens sobre a parábola dos solos, mais conhecida como a parábola do semeador. Veja os links dos outros sermões no fim deste texto.


Convido-os a abrir suas bíblias no capítulo 8 de Lucas. Estamos estudando uma parte das Escrituras em Lucas 8, versículos 4 a 15, que contém um dos mais notáveis, inesquecíveis e importantes ensinos do nosso Senhor.

Eu tenho intitulado essa parábola como “A Condição do Coração”ou  a “Parábola dos Solos”. Através dos anos temos considerado esta parábola. Certamente, quando eu estava pregando sobre o Evangelho de Mateus e em várias outras ocasiões, abordamos as verdades desta parábola. Estes textos foram referidos muitas vezes em minhas pregações aqui. E, no entanto, essa é uma parábola tão importante, cuja explicação é tão vital, que precisa ser repetida uma e outra vez. É uma daquelas parábolas muito definitivas.

Obviamente, todas as parábolas que Jesus ensinou são críticas e importantes e carregam em si mesmas a verdade divina. Esta que estamos vendo é especialmente importante, por causa de como nos prepara para entendermos a recepção ao evangelho que iremos encontrar em nossas vidas e em nosso ministério.

A boa nova da salvação é tão maravilhosa, inexplicavelmente maravilhosa, tão vastamente generosa que nem sequer temos palavras para explicar todas as suas maravilhas e glórias. Aqueles de nós que receberam a salvação, aqueles de nós que receberam a vida eterna e estão indo para o céu, aqueles de nós em quem o Espírito de Deus habita,  que foram colocados na família de Deus e estão desfrutando de todos os ricos benefícios disso, compreendemos a maravilha do dom da salvação.

Nós entendemos o que é ter os pecados perdoados, ter o ônus da culpa removido, ter uma consciência limpa, lavada de culpa e vergonha. Nós entendemos o que é ter a esperança do céu. Entendemos o que é ter o poder do Espírito de Deus. Compreendemos o que é conhecer a mente de Cristo e ter a verdade. Nós entendemos tudo isso. E quanto mais compreendemos isso, mais difícil é para nós entender como é que alguém poderia rejeitar tal dom.

Eu acho que uma das maiores lutas que os jovens cristãos têm é lidar com a indiferença de muitos quanto ao evangelho. Esses jovens conhecem a Cristo e há uma transformação tão imensa em suas vidas, é tão dramática, eles chegaram a uma compreensão da verdade, à compreensão da graça de Deus em suas vidas, que é tão absolutamente esmagadora, que eles se sentem compelidos a pregar o evangelho para as pessoas ao seu redor. Mas, muitas vezes, esbarram-se em todos os tipos de indiferença e hostilidade.

  • Para nós é aparentemente impossível entender como alguém poderia rejeitar tal dom. Quem recusaria o perdão? Quem recusaria alegria? Quem recusaria a paz? Quem recusaria a vida eterna? Quem recusaria o céu e, em troca, receberia o inferno? Por que as pessoas rejeitam o evangelho? Por que a maioria das pessoas rejeitam o evangelho? Bem, a parábola que está diante de nós responde a essa pergunta.

E não é uma questão de qualidade da mensagem, nem é uma questão de habilidade do mensageiro, mas é tudo sobre a condição do coração do ouvinte. Esse é o problema. Portanto, vamos simplificar todo este assunto da Grande Comissão, o evangelismo mundial. Vamos entender direito. Não é sobre o evangelho. Não é sobre o crente que prega o evangelho. Não se trata de ser mais habilidoso ou de  ajustar a mensagem para torná-la mais palatável ou aceitável. A questão se resume à condição do coração. É sobre o ouvinte. E esta verdade é posta de modo inesquecível nesta estória contada por Jesus.

Ao longo de toda a história redentora, os pecadores têm rejeitado o perdão de Deus. Eles têm rejeitado a graça de Deus. Eles têm rejeitado a misericórdia de Deus. Eles têm rejeitado a salvação de Deus. Sempre são apenas alguns que são salvos. Jesus disse aos discípulos que haveria alguns que entrariam pela porta estreita e pelo caminho estreito. Qual é o problema? O problema novamente tem a ver com o coração.

Agora, antes de voltarmos à parábola, deixem-me mostrar algo de umalição espiritual em cardiologia. Provérbios 4:23 diz que você tem que cuidar do seu coração, porque a partir dele saem as questões da vida. Dentro do coração está tudo aquilo que importa. Tudo na vida é sobre o coração. É sobre a atitude no interior.

As Escrituras descrevem todos os homens, todos os pecadores em sua condição natural, todos, como sendo caracterizados por ‘problemas cardíacos’ severos e terminais. Deixem-me dar-lhes uma pequena lista deles.

As Escrituras falam do homem em sua condição natural como tendo um coração perverso, um coração maligno, um coração de loucura, um coração sujo, um coração enganador, desleal, desgarrado, impenitente, cego , incrédulo, enganado, duro, um coração orgulhoso, cobiçoso, tolo, idólatra, rebelde, um coração teimoso e um coração opaco. Eu diria que ele está em parada cardíaca severa.

Se um médico tiver que usar muitos adjetivos para descrever o que está errado com seu coração, você certamente está à beira da morte, a não ser que se trate de sua autópsia. Isso é profundo. Isso é penetrante. Isso é generalizado. Os escritores das Escrituras misturam todos esses adjetivos negativos para descrever a condição do coração humano. Em uma palavra, isto descreve a profundidade da depravação do homem. Há algo profundamente errado com o que há dentro do homem.

É sempre surpreendente para mim quando a sociedade, a nossa sociedade, tenta descobrir a razão pela qual as pessoas fazem coisas más. Eles correm pelo mundo psicológico tentando encontrar respostas. Por que os padres molestam crianças? Por que os assassinos em série matam e desmembram pessoas? Por que uma mãe afogaria seus filhos?

Quer se trate da supressão do celibato ou depressão pós-parto ou o que quer que seja, há sempre alguma maneira médica de explicar esses atos na nossa sociedade, porque não queremos admitir o verdadeiro problema. O problema é que essas pessoas estão operando através de um coração pervertido. Esse é o problema. Jesus disse isso.

Em Marcos 7:21-22, Jesus declarou: “Porque do interior do coração dos homens saem os maus pensamentos, os adultérios, as fornicações, os homicídios, os furtos, a avareza, as maldades, o engano, a dissolução, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura.” Todas essas coisas malignas vêm de dentro. Jesus chegou mesmo a dizer que não é o que entra em um homem que o contamina, mas é o que sai de um homem.

Não são as influências em torno dele que o tornam perverso. É o seu coração, para começar. A maldade simplesmente tomará várias formas, dependendo de suas influências externas. Porém, o problema cardíaco básico é o núcleo da questão, a trágica condição maligna de todo coração humano. Em seu interior, as pessoas são perversas. E esse é o problema.

Jesus aponta isso nesta parábola. Vamos ver a estória. Depois da introdução da ocasião em que isso ocorreu, que sabemos a partir do relato de Mateus sobre o mesmo acontecimento, Jesus estava ao lado do Mar da Galileia e  estava ensinando uma grande multidão que tinha O empurrado para a beira da água, de modo que  Jesus teve que ir para a água, em um pequeno barco, e falar com eles a partir dali.

E naquela ocasião Ele contou essa simples estória agrícola, cujos componentes todos os ouvintes estavam muito familiarizados, embora o significado só fosse revelado aos discípulos. Aqui está a estória, Lucas 8:5-8:

Um semeador saiu a semear a sua semente e, quando semeava, caiu alguma junto do caminho, e foi pisada, e as aves do céu a comeram;E outra caiu sobre pedra e, nascida, secou-se, pois que não tinha umidade; E outra caiu entre espinhos e crescendo com ela os espinhos, a sufocaram; E outra caiu em boa terra, e, nascida, produziu fruto, a cento por um. Dizendo ele estas coisas, clamava: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

A parábola é um metáfora longa. É uma longa analogia. E esta, em particular, é muito, muito simples. Todo mundo iria entender a estória em si, porque aquelas pessoas viviam em um ambiente agrário e enfrentavam essas situações descritas na parábola. Eles sabiam bem o que era sair com a intenção de semear as sementes e descobrir que algumas delas foram desperdiçadas, pois caíram em solo duro, ou seja em um solo que, debaixo da superfície, abaixo de onde  o arado passou,  havia uma camada de rochas.

E, assim, quando as raízes começaram a crescer e a planta começou a crescer, as raízes não conseguiram penetrar a camada de  rocha, de modo que a planta morreu. E todos eles sabiam o que era ter cultivado o solo da melhor forma que eles poderiam fazer, mas, de alguma forma, restaram raízes de ervas daninhas e espinhos no solo, de modo que quando as plantas começaram a crescer, as ervas daninhas cresceram mais rápido e mais fortes e sufocaram a vida da semente.

Eles também sabiam o que era a semente cair em bom solo e produzir uma colheita, embora  esta não pudesse ser tão grande como a citada no final da parábola. Uma colheita dez vezes maior do que o semeado seria uma grande colheita. Sete vezes mais seria uma boa colheita. Mas, quando Jesus fala em cem vezes,  está falando em hipérbole [n.t., linguagem exagerada] porque Ele está falando, em última análise, sobre a grandeza da fecundidade espiritual.

A história, portanto, é sobre o solo. Nada realmente é dito sobre o tipo de semente. A mesma semente está sendo jogada. O mesmo indivíduo jogando a semente. Portanto, não se trata de uma variação da semente e não é uma variação na metodologia, é uma variação no solo que produz a variação do resultado. Esta é uma rica e inesquecível visão.

A história nunca dá para ser esquecida. Uma vez que você a ouve, você vai sempre lembrar dela. E isso é exatamente por que Jesus usava estes tipos de estórias. Mas, mesmo que o ouvinte lembrasse da estória em si, isso necessariamente não significava que saberia o significado, a menos que Jesus o tivesse esclarecido. A parábola seria apenas uma estória, uma analogia da qual poderiam ser formuladas várias interpretações.

À medida que Jesus ia ensinando, frequentemente Ele fazia a advertência: “Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça.” Isso significa: ‘aqueles no meio de vocês que querem entender, estão entendendo?’ Esse tipo de colocação era um chamado que exigia uma resposta. E esta veio em seguida, no verso 9: “E os seus discípulos o interrogaram, dizendo: Que parábola é esta?

Aqueles que tinham ouvidos para escutar eram os que criam, os que pertenciam a Jesus, os que se importavam em entender a parábola. Eles tinham ouvidos para ouvir. Eles queriam conhecer a verdade espiritual que estava lhes sendo dada através Daquele que eles criam ser o Santo de Deus. E, assim, os discípulos Lhe perguntaram: o que isso significa?’

Imediatamente,  você tem uma separação no meio da multidão. Há uma enorme multidão de pessoas, definida no versículo 4 como ‘grande multidão’, composta por pessoas de várias cidades que estavam viajando com Jesus, bem como a população local. Esta enorme multidão é agora dividida em  pessoas que querem saber o que significa tal estória, chamadas de discípulos, e as pessoas que não se importam em saber.

Estes são os indiferentes, a multidão que veio por causa dos milagres. Eles vieram para ver os sinais. Eles vieram para ver as maravilhas. Eles vieram pelos milagres que poderiam curá-los ou alimentá-los. Mas, eles realmente não têm qualquer interesse na verdade. De fato, até agora eles têm sido influenciados muito fortemente pelos escribas, fariseus, líderes religiosos de Israel, que estão conspirando para se livrar de Jesus.

E, como eu lhes disse na semana passada, a partir de agora, em Seu ministério na Galiléia, Jesus ensina à multidão apenas através de parábolas. E isto é um julgamento. O versículo 10: “E ele disse: A vós vos é dado conhecer os mistérios do reino de Deus, mas aos outros por parábolas, para que vendo, não vejam, e ouvindo, não entendam.” Em outras palavras:

Eu vou explicar essas coisas a vocês, a quem foi concedido saber, porque vocês colocaram sua confiança e fé em Mim. Mas, para o resto, falo apenas em parábolas, a fim de que, vendo, eles não possam ver e ouvindo, eles não possam compreender.’ Jesus está citando Isaías 6, que trata do terrível julgamento que Deus colocado sobre o povo de Israel nos dias de Isaías, que era:  ‘quando você for pregar a eles, Isaías, eles vão ouvir, mas não vão entender. Eles irão ver, mas não realmente compreender. Seus corações vão ser gordura. Os olhos vão ser cegos. Os ouvidos vão ser surdos.

E aqui em Lucas 8, o próprio Senhor diz: daqui em diante Eu irei lhes falar em parábolas, por duas razões: para revelar verdades a vocês, porque as parábolas vão esclarecer questões a vocês, e para esconder a verdade do resto da multidão, que tem Me rejeitado.’ Este é um julgamento que Cristo traz sobre Israel. É um momento triste em Seu ministério.

Ele está chegando ao fim de Seu ministério galileu. A partir de agora, nós iremos vê-Lo em movimento para baixo, para Jerusalém, no final do capítulo 9. E, no final deste ministério galileu, Ele está agora trazendo um veredicto de juízo: não só vocês não estão dispostos a entender, mas, a partir de agora, Eu vou fazer com que vocês não possam entender.’

Ele não iria falar por mais tempo em textos do Antigo Testamento, como fez nas sinagogas. Certa vez, entrou na sinagoga e leu Isaías capítulo 61 sobre o Messias que estava ali para dar vista aos cegos, para soltar os prisioneiros, libertar os oprimidos e fazer ricos os pobres. Ele não iria falar em termos bíblicos mais.

Ele não iria mais falar através de simples analogias, que são de fácil compreensão. Ele vai falar através de mistérios.  E eles não irão entender. Isso é parte da sentença de juízo que recaiu sobre eles. Ele não iria “dar pérolas aos porcos”. Essa multidão incrédula é comparada a porcos e não a ovelhas. Mas, aos que têm “ouvidos para ouvir”, Ele diz: “Vocês vão entender, porque Eu irei explicar para vocês.” E é isso que Ele faz, a partir do verso 11.

Precisamos entender como ministrar a Palavra.  Estas parábolas – tanto esta, como  muitas outras em Mateus 13 -, ajuda-nos a sermos capazes de entender como realizar nosso ministério nesta era do reino. Isso é crítico, porque mais tarde o Senhor nos entregou a Grande Comissão, para ir e pregar o evangelho a toda a criatura do mundo. Nós somos chamados a ser testemunhas e evangelistas, a fim de espalhar o evangelho.

De modo que é importante para nós entendermos de que forma as pessoas responderão ao evangelho, para que nós não fiquemos surpresos quando, como ocorreu com Isaías, sobra um pequeno remanescente de pessoas que creem, enquanto muitos outros estão deliberadamente cegos e alguns estão judicialmente cegos por Deus, por causa de sua intencional cegueira. E, assim, para os discípulos Ele explica a parábola, porque é muito importante.

Agora, a parábola é isso, diz Ele: a semente é a Palavra de Deus. Não há nenhuma menção do semeador, porque quem semeia a semente é o semeador. O semeador é qualquer indivíduo que espalha a semente. A semente, no entanto, deve ser entendida como sendo a Palavra de Deus. É a Palavra de Deus sobre a salvação, sobre o perdão do pecado, a Palavra de Deus sobre entrar no reino, estar debaixo do governo de Deus.

A passagem paralela, em 1 Pedro 1:23, é muito útil, que diz: “Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre.” O que diz  Romanos 10? “A fé vem pelo ouvir a Palavra de Cristo” ou a Palavra de Deus, dependendo da versão de sua Bíblia. Em ambos os casos, é a mesma Palavra.

A salvação vem por ouvir a Palavra de Deus, a Palavra de Cristo. A mensagem do evangelho é a chave. Então, quando você sai a proclamar o evangelho, você é um semeador lançando sementes. A questão, em seguida, que varia, é o solo. E a que o solo se refere? Ao coração. Vá para a verso 12: “E os que estão junto do caminho, estes são os que ouvem; depois vem o diabo, e tira-lhes do coração a palavra, para que não se salvem, crendo.

Abaixo, no versículo 15, você tem a terra boa. O que é o bom solo? É aquele que ouve a Palavra em um honesto e bom coração. É sobre o coração. É com a realidade do coração que você vai lidar, quando semeia a Palavra. Vamos lidar com doença cardíaca, corações doentes. E nem sempre a condição real do coração é manifesta, clara. Às vezes ela pode, como vimos última vez, estar camuflada.

Vamos olhar, em primeiro lugar, no verso 12 e este é o coração duro, é o solo pisado da beira da estrada. À medida que o semeador semeia a semente, ele joga talvez um pouco longe demais, ou um pouco muito perto, ou o vento desvia a semente que acaba caindo à beira do caminho. Lembrem- se de que de todos os  lado dos campos e entre as suas extremidades havia esses caminhos de terra batida, cozidos e endurecidos pelo sol. Era uma terra não regada e pisada pelo movimento constante de pessoas.

Jesus disse que a semente que cai nesse tipo de solo  ou vai ser pisada, esmagada sob pés, ou assim como os pássaros vêm e carregam a semente, assim também o diabo vem e arrebata a Palavra. A semente não pode penetrar. O solo não está preparado. Não foi arado. Não há resposta diante da apresentação do evangelho. Note o fim do verso, que diz: “…para que eles não possam crer e serem salvos.”

Estas são pessoas que não crêem e não serão salvas, como são os outros dois solos, exceto a terra boa. Esta parábola contrasta as pessoas que ouvem e não são salvas com as pessoas que ouvem e são. As pessoas que ouvem e são salvas são o solo bom. As pessoas que ouvem e não são salvas são os outros três solos.

Em primeiro lugar, há aquele solo duro. Todos nós todos temos oportunidade, ocasionalmente, de apresentar o evangelho a pessoas assim. E é como semear no concreto. Coração duro e dura cerviz, como Israel era, insensível, não convicto, sem sede e fome de Deus, não há arrependimento, fé, não há qualquer interesse. Eu encontro pessoas assim. Já passei muito tempo em conversa com  pessoas assim que absolutamente são impenetráveis.

Eu poderia até supor que deveria ter feito uma apresentação do evangelho melhor. Eu busco apresentar o evangelho de uma maneira fiel à Palavra de Deus e de um modo que a pessoa possa compreender. Mas, mesmo quando tudo isso é dito e feito, a semente não penetra, foi jogada sobre concreto.

O coração é de chão batido, endurecido pelo pecado e incredulidade, de modo que o que quer que seja do evangelho você coloque lá, Satanás vem e arrebata. Portanto, esta pessoa não poderá crer e ser salva. Esse solo nunca foi preparado para receber o evangelho.

Agora, nesta manhã eu quero falar sobre o segundo solo. Esse solo é o superficial. Veja o versículo 13: “E os que estão sobre pedra, estes são os que, ouvindo a palavra, a recebem com alegria, mas, como não têm raiz, apenas creem por algum tempo, e no tempo da tentação se desviam.

Lembre- se, novamente, que não se trata de um solo com um monte de rochas aparentes, mas este é um solo com uma camada de rochas abaixo da superfície, onde o arado não pode chegar e, consequentemente, o Senhor diz que quando as raízes começam a crescer e a descer,  elas não podem ir muito fundo, por causa da camada de rochas que as impede.

Assim, as raízes ainda recebem um pouco de nutrição, um pouco de água. Porém, a planta cresce um pouco, mas já que suas raízes não podem descer e se aprofundar na terra buscando nutrientes e água, a planta seca e morre. Estes, Jesus diz no versículo 13, “são aqueles que quando ouvem  a Palavra, recebem com alegria…“.

Eles são o oposto daqueles de corações duros. Eles parecem receptivos. Eles estão interessados. Não só interessados, mas estão emocionados acerca da Palavra. Eles estão alegres por ela. Estão encantados com ela. E a recebem com alegria. Porém, não têm raiz. “Eles creem por um tempo…“. Isso é uma declaração muito importante, gente. Grife essa declaração.

Há pessoas que crêem por um tempo, porém “no tempo da tentação se desviam.” Você sabe, Jesus disse em João 8: 32 que “se vós permanecerdes em minha palavra sereis meus discípulos.” O escritor de Hebreus fala sobre crentes verdadeiros como sendo aqueles que perseveram. Paulo disse aos Colossenses que o verdadeiro crente continua na fé. Isso contrasta com aqueles que crêem apenas por um tempo.

Inicialmente ouvem o evangelho, eles respondem ao evangelho que receberam. Há uma certa quantidade de alegria, de excitação, emoção. Há  quase uma euforia por se sentir bem com a experiência. E isso, francamente, geralmente convence os cristãos de que esta é uma real  conversão. Oh, havia lágrimas de alegria, abraços, a pessoa, você sabe, estava tão emocionada e feliz e você diz para si mesmo: “isso só pode ser uma experiência real!”

Por outro lado, pode haver  alguém que tenha ouvido o evangelho e respondido de uma forma não muito emocional, embora afirmando sua  fé em Cristo e seu arrependimento, porém sem explodir em emoção. E talvez, pessoas assim podem ficar confusas e até dizer: deveria ter acontecido algo excepcional ou emocionante comigo? Devo sentir algo?

Bem, deixe-me apenas colocar algo para você de modo simples:  alegria não é a característica distintiva da verdadeira salvação. A alegria não é a característica que atesta a verdadeira salvação. Às vezes, é até mesmo característica da falsa salvação. É certo que a alegria pode caracterizar a verdadeira salvação. Mas, de modo algum,  é a característica distintiva da verdadeira salvação.

Por outro lado, a ausência de alegria não é uma característica que atesta uma conversão falsa. No final, a  alegria não lhe diz nada. Ela não diz nada, porque as emoções não dizem nada sobre a realidade espiritual. Em primeiro lugar, a verdadeira salvação é feita por Deus e é uma obra que não é manifesta. É uma obra espiritual de justificação, regeneração, transformação, que não se manifesta imediatamente.

É por isso que é tão errado ensinar uma fórmula às pessoas para que, através dela, venham a ter certeza de que elas são salvas. Muitos foram ensinados que se fizeram a oração entregando suas vidas a Jesus, mesmo quando ainda eram jovens, não importando o que ocorreu depois em suas vidas, estariam salvos por causa daquela oração. Isso não é verdade. Isso, absolutamente, não é verdade.

E suas lágrimas de alegria, sua exuberância e euforia não provam nada, nada, exceto que eles se sentiram bem com o que fizeram. Mas, isso não significa que Deus fez coisa alguma. Isso também não significa que eles tenham feito alguma coisa do ponto de vista da reconciliação com Deus. Você diz: “Bem, eu não entendo o que você está dizendo.” Bem, deixe-me explicar isso para você em termos mais simples, talvez.

As pessoas, muitas vezes, vão responder positivamente a uma apresentação do evangelho por razões erradas, por exemplo, porque estão no fim de um relacionamento, ou porque acabaram de se divorciar e perderam a esposa e os filhos, ou porque perderam o emprego, ou foi-lhes dito que têm uma doença terminal, ou porque eles estão cansados ​​de ser excluídos  socialmente e agora eles encontraram um grupo ao qual eles podem pertencer…

E há algo que acontece muitas vezes: eles acreditam que se entregarem  suas vidas a Jesus, Ele consertará tudo que está errado em suas vidas. Todas essas são realmente más razões para se tornar um cristão e geram uma resposta superficial ao evangelho. A alegria não significa nada. As pessoas podem se sentir felizes porque são aceitas, ou porque agora pensam que não vão para o inferno. Elas podem até cair felizes por acreditar que agora Jesus vai resolver todos os seus problemas, vai consertar tudo e elas não vão ter tanta dor pessoal,  social ou familiar.

É por isso que você nunca deve apresentar o evangelho dessa maneira. Você nunca deve apresentar o evangelho do tipoJesus quer fazer você feliz’ e ‘se você vir a Jesus, você será feliz’. Você não tem esse tipo de promessa na Bíblia. Há uma alegria profunda e permanente, mas essa alegria profunda e permanente não se traduz em todos os problemas desaparecendo.

Em Mateus 22, Jesus descreve um rei que dá um banquete para seu filho. E ele convida todos a virem, sendo que todas aquelas pessoas vêm ao banquete do filho. Isso simboliza o chamado à salvação. Os convidados entram, mas, para estar no banquete, eles têm que estar vestidos com determinado traje.

Porém, há um sujeito na festa que entrou lá sem a veste. Ele é um tipo de ‘penetra’. E há um monte de gente assim. Eles vêm,  mas nunca foram vestidos com justiça. Nunca tiveram seus pecados cobertos. Não possuem a real experiência. Eles invadiram a festa. Eles querem entrar no banquete de Jesus. Eles gostam da música, talvez. Ou eles gostam das pessoas. Isso acontece. Ou eles têm a ideia de que os seus problemas irão embora.

Para eles é algo divertido. É um novo tipo de lugar para frequentar. Eles gostam da ideia de fazer novas amizades. Quero dizer, há todos os tipos de razões. Eles não se sentiam bem sobre si mesmos e esses novos relacionamentos os fazem se sentir bem consigo mesmos. Assim, eles entram no reino como ‘penetras’, mas nunca foram vestidos com justiça.

E você lembra o que Jesus disse? “Disse, então, o rei aos servos: Amarrai-o de pés e mãos, levai-o, e lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes.” (Mateus 22:13). Quando você sai a semear a Palavra, você só pode ver o solo, mas não pode ver as rochas que estão por baixo. Na superfície, o solo parece ser bom, a planta começa a surgir, mas, quando vem o sol escaldante, e porque as raízes  não podem descer e obter a água, a planta perece. Não há nenhuma raiz.

Essas pessoas creem por um tempo, mas no tempo da tentação elas dão o fora. Mateus usa a figura do sol se levantando no céu, e diz: “e, chegada a angústia e a perseguição, por causa da palavra, logo se ofende” (13:21). É a tentação, os testes de tribulação e perseguição que revelam a verdade.

Há pessoas que creem por um tempo. O que as faz desistir, desaparecer, murchar e morrer? Um teste no qual elas não podem passar. Que tipo de teste? Tribulação, ou  thlipsis (grego), de acordo com Mateus 13:21, que significa pressão, aflição e até mesmo perseguição. Eles pensavam que quando vieram a Jesus iriam livrar-se de todos os seus problemas. Pensaram que teriam saúde, riqueza e felicidade. Que teriam prosperidade, que teriam roupas que não se acabam, dinheiro que cai do céu, milagres corporais e curas, que anjos viriam falar com eles e resolver todos os seus problemas, caso Deus já não os tivesse resolvido.

Eles pensaram que estavam ingressando numa comunhão de pessoas onde nunca haveria quaisquer problemas, conflitos ou decepções. Eles pensaram que iriam encontrar um novo tipo de vida social. Agora, de repente: problemas, pressão, provações, testes, aflição, e perseguição por causa da Palavra, como Mateus registra. Então, eles pensam:

Não era para tudo ficar melhor? Tudo piorou e agora tenho uma nova experiência na minha vida que eu nunca tive antes: as pessoas que antes me adoravam agora me odeiam! Havia pessoas com as quais me relacionava bem por muitos anos, mas agora, por causa da minha decisão de ser um cristão, elas se ressentem de tudo sobre mim, não querem mais nada comigo. Agora, eu tenho um novo grupo de inimigos que costumavam ser meus amigos.

Mateus 13: 21 registra que Jesus disse, para explicar esta parábola, que a pessoa, por causa da tribulação, por causa da perseguição, torna-se ofendida, escandaliza-se, é pega em uma armadilha. E isso é o teste, a tentação que Ele está falando aqui. Essas pessoas vão crer por um tempo.

Eles não permanecem quando o teste vem, quando a tribulação vem, quando todas as coisas que eles esperavam que Jesus fizesse para eles não acontecem, quando eles não obtêm a saúde, a riqueza, a prosperidade, quando eles não têm o problema resolvido, quando a vida não é eufórica, quando as relações não são o que eles estavam esperando…

Quando eles veem que não consertaram seu casamento, sua família instantaneamente; quando não conseguem vencer seus vícios ou os seus debilitantes hábitos… Enfim, quando eles são testados, eles simplesmente não permanecem.

Volte para o Evangelho de João, capítulo 6. Essa é uma interessante ilustração. Se você fosse identificar o mais poderoso milagre que Jesus fez numericamente, seria o milagre descrito em João 6. De acordo com verso 10, havia cinco mil homens, o que dizer, você sabe, cinco mil ou mais mulheres, dez mil ou vinte mil crianças, ou seja, uma multidão de vinte para trinta mil facilmente. E Jesus os alimentou. Ele, literalmente, criou alimento para todos eles. Este é um espantoso milagre, surpreendente.

Ao mesmo tempo, Jesus está fazendo outros milagres. Volte ao versículo 2. Ele está fazendo sinais em pessoas doentes, curando, dando vista a cegos, audição aos surdos. Pessoas aleijadas estão andando, etc., etc. Quero dizer, aquela multidão está vendo algo de que nunca foi ouvido falar. Estão assistindo a este milagroso trabalho de Jesus.

Bem, depois de serem alimentados com o jantar, eles aparecem na manhã seguinte para o pequeno almoço. Mas, ao invés disso, Jesus lhes dá um discurso sobre ser Ele o pão da vida. Eles estavam com fome, mas Jesus lhes fala que eles precisam realmente é ter fome do pão da vida. Segue-se, então, um discurso maravilhoso sobre o pão da vida, fluindo através da segunda metade de João 6 em diante.

Depois do milagre da multiplicação, o maior milagre em termos de número de pessoas atendidas que Jesus já havia feito,  numa indiscutível exibição de poder divino, seguiu-se o ensinamento profundo, maravilhoso ensino, que inclui até mesmo a vida eterna. Mas, “desde então muitos dos seus discípulos tornaram para trás, e já não andavam com ele.” (Jo. 6:66).

Eles creram por um tempo, mas foram embora. Apesar daquele grande milagre, que não tinha explicação que não fosse sobrenatural, eles foram embora,  partiram. Eles foram embora, porque Jesus começou a falar sobre um preço a pagar. Jesus disse para os doze, nos versículo 67-68: “Então disse Jesus aos doze: Quereis vós também retirar-vos? Respondeu-lhe, pois, Simão Pedro: Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna.

Os verdadeiros discípulos são os que permanecem. Eles não se importam se vierem tribulações e provas. Eles permanecem. Pedro disse que não iria a qualquer outro lugar. Por quê? O versículo 69 responde: “E nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho do Deus vivente.” Em outras palavras: ‘nós não iremos a qualquer outro lugar; nossa fé está ancorada aqui.’

Jesus respondeu, verso 70: “Não vos escolhi a vós os doze? e um de vós é um diabo.” Havia um hipócrita se escondendo entre os doze. Jesus estava se referindo a Judas, filho de Simão Iscariotes, da cidade de Queriote, pois ele, um dos doze, iria traí- Lo. Desde então, e até hoje, há pessoas que crêem por um tempo. Em algum momento, o que quer que seja que eles têm, eles vão perder.

Você sabe, em Mateus 13: 12, Jesus declarou que há  pessoas as quais o que elas têm vai ser tirado delas. Para os crentes verdadeiros, Ele disse que iria dar mais, porém para os falsos, mesmo o que eles têm será tirado deles. Estes possuem uma fé superficial, rasa. Jesus disse, em João 15: 5 a 8:

Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não estiver em mim, será lançado fora, como a vara, e secará; e os colhem e lançam no fogo, e ardem. Se vós estiverdes em mim, e as minhas palavras estiverem em vós, pedireis tudo o que quiserdes, e vos será feito. Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos.

Um verdadeiro discípulo permanece, produz frutos, continua a estar permanentemente na videira. Aquele que não tem qualquer fruto, será descartado e queimado. Então, seja lá qual for a atitude emocional do momento da conversão, ela não serve como atestado do que realmente ocorre no coração.

Há um superficial tipo de resposta emocional que pode ocorrer – e ocorre frequentemente – quando alguém ouve o evangelho, por causa da suposição de o que isso vai significar em sua vida. Mas, esta é uma egoísta apreensão do evangelho. Falta-lhe profundidade. Esse é o ponto dessa parábola, não é mesmo? A pessoa assim não tem nenhuma raiz. Ela não irá se aprofundar o suficiente no solo. E o que é o solo?  É o coração. É o interior pessoa. É muito superficial, psicológico.

Essas pessoas não descem às profundezas do coração. Seu coração não foi arado profundamente. Um outro versículo que, você sabe, realmente precisa ser considerado nesta discussão é 1 João 2:19, porque ele fala muito diretamente sobre isso: “Saíram de nós, mas não eram de nós; porque, se fossem de nós, ficariam conosco; mas isto é para que se manifestasse que não são todos de nós.

Eles saíram e isso é a prova de que eles nunca foram dos nossos. Eu tenho debatido sobre isto ao longo dos anos, no que é chamado de ‘a controvérsia do senhorio’. Escrevi um livro muito útil sobre o assunto, que foi “O Evangelho de acordo com Jesus” e, na sequência, “O Evangelho De acordo com os Apóstolos”. Quando alguém vem e professa uma fé em Jesus Cristo e em algum momento a abandona, é porque nunca foi salvo, para começar.

Essa pessoa creu por um tempo. Houve alguma resposta emocional. E, literalmente, a igreja está cheia destes tipos de pessoas. Creio, inclusive, que a maioria dos que professam a fé em Cristo estão nessa categoria. E estas pessoas estão até mesmo em uma igreja como esta, embora isso seja diminuído, porque nós temos o compromisso de pregação do evangelho com clareza e da questão da convicção do pecado com profundidade.

O evangelismo contemporâneo e o reavivamento contemporâneo não lidam com o solo rochoso, bem como os espetáculos de música gospel e os rasos evangelistas de TV, porque eles não alcançam onde deveriam alcançar nas vidas das pessoas que os ouvem. Sua mensagem não alcança o coração. Antes de trazer para a mente o sentido da compreensão do evangelho,  a Palavra tem que penetrar na profundidade do ser da pessoa, para que ela entenda a sua condição pecaminosa.

Diante dos problemas e perseguições, as pessoas que são rasas, cujos corações são terrenos rochosos, essencialmente dizem: ‘Jesus não funciona. Eu pensei que Ele iria consertar minha vida, eliminar todos os problemas e aborrecimentos  e me trazer a um amoroso pequeno grupo de pessoas e eu nunca seria perseguido, nunca teria qualquer problema de relacionamento e seria tudo bem.’ Para essas pessoas, quando suas expectativas se frustram, elas se vão.

Você nunca deve dizer para alguém: “Você precisa vir a Jesus, porque Ele vai fazer você feliz. Ele tem realmente um grande plano e tudo vai ser maravilhoso!” A palavra correta é: “Você deveria vir a Jesus, porque se você não vier, vai ter que sofrer as conseqüências eternas do seu pecado. E você precisa vir em contrição e arrependimento em relação ao seu pecado”. Essa é a forma correta de abordar o pecador. É um tipo de aragem profunda no coração, que precisa ser feita.

Essa obra é o Espírito Santo quem faz. Deus concede arrependimento, disse Paulo a Timóteo. Em João 16, Jesus disse que o Espírito Santo convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo. Esse é um texto muito definitivo. Essa é uma convicção tripla que tem de ser feita pelo Espírito de Deus no coração de uma pessoa. Convencer do pecado significa convencer o homem do que é o pecado e que ele é pecador, que tem o tipo de coração que descrevemos no início.

Convencer da justiça é convencer o homem de que, enquanto ele é profundamente pecaminoso, Deus é profundamente e perfeitamente justo e ele não tem capacidade de ser tão justo quanto Deus. Portanto, o homem está sob julgamento, juízo. Assim, o Espírito Santo convence do pecado, justiça e juízo. Isso é essencial porque, como os puritanos costumavam dizer, você não pode pregar a graça, enquanto você não tenha pregado a lei. Você não pode pregar a liberdade da condenação, enquanto você não tenha pregado a condenação.

Arar o coração é obra do Espírito. É também obra do Espírito dar o novo nascimento. Nós nascemos do Espírito. A salvação é uma obra de Deus. Mas, Deus faz Sua obra salvadora por meio da pregação do evangelho, certo? A fé vem pela audição. Deus usa o evangelho para fazer Sua obra de produzir fé. E ouçam isto: Deus usa a verdade sobre o pecado contida nas Escrituras para fazer Sua obra de convicção.

As pessoas não vão ser convencidas a partir do nada. Elas não vão ser convencidas por causa de uma compreensão cultural do seu pecado, que é distorcida. Mesmo que haja um remanescente da realidade da Palavra em suas consciências, a cultura distorce a perspectiva de uma pessoa sobre o pecado, particularmente a nossa cultura, que é tão boa em mascarar a realidade.

Então, se uma pessoa vai ter a obra do Espírito em arar seu coração o suficiente para retirar a camada de rocha quebrada que está mais no fundo, de modo que a salvação genuína possa ter lugar, tem que haver para essa pessoa uma explicação de uma descrição bíblica da verdadeira condição pecaminosa.

Assim, quando você for apresentar o evangelho,  pregue-o em sua inteireza. É por isso que quando Jesus pregou um sermão evangelístico chamado ‘O Sermão da Montanha’, Ele começou dizendo que as pessoas que estão entrando no reino são os pobres de espírito, são aquelas que reconhecem sua falência espiritual. Isso significa que eles têm olhado para dentro em seu espírito e eles estão em absoluta pobreza. Inclusive, a palavra que nosso Senhor usa, no original, tem a ver com pobreza extrema, não apenas tendo pouco, mas não tendo nada, sendo reduzido a mendigar.

E, então, Ele diz que tais pessoas choram por conta dessa condição, porque é assustadora. Isso é tão destrutivo, debilitante e condenatório. E daquela atitude quebrada, de luto, vem uma humildade e depois uma fome e sede de justiça. Não uma fome e sede de popularidade, aceitação, felicidade, pertencimento ou qualquer outra razão psicológica que geralmente leva as pessoas a fazerem alguma afirmação rasa de fé em Cristo.

A conversão verdadeira ocorre quando o que a pessoa tem é fome para ser liberto de uma carga de pecado esmagadora e profunda, obtendo justiça diante de Deus. Isso é o que tem de ser pregado ao pecador, e isso é o que em grande parte é deixado de fora na apresentação formulada moderna do evangelho, que diz que Jesus quer que você seja feliz e viva a vida ao máximo.

Eu não estou dizendo que Jesus não oferece vida abundante, mas Ele fornece vida abundante para as pessoas cujos corações rochosos e pedregosos foram lavrados profundamente e substituídos por Deus, como Ezequiel 36:26 diz, por com um coração de carne, onde o coração foi suavizado. E, sim, isso é obra de Deus, e sim, é obra do Espírito Santo, mas não aparte do que a Bíblia diz sobre o pecado. Portanto, nossa responsabilidade é falar a palavra que o Senhor usará para arar o coração.

Você pode até dizer: ‘Sim, mas isso ofende as pessoas. Mas, essa é a maneira que tem que ser. Se você reduz a mensagem do Evangelho, você vai acabar como Charles Finney disse no final de sua vida de evangelismo, que foi algo como isto, pois esta é uma paráfrase: “Parece ter sido que o meu quinhão na vida foi ter produzido muitos ‘meio-convertidos’.”

Nota do tradutor: Charles Finney foi um pregador de Nova York, do séc. XIX, muito citado no meio evangélico, mesmo atualmente, inclusive no Brasil. O que poucos conhecem é que Finney defendia sérias heresias, tais como a negação do pecado original, que Cristo não morreu para expiar os pecados dos homens, mas que somos salvos ao seguir o exemplo de Cristo, assim como somos pecadores não porque nascemos pecadores, mas por seguirmos o exemplo de Adão. A teologia defendida por Finney se baseava na moralidade humana. Negava que o novo nascimento fosse um dom de Deus, afirmando que era, na verdade, obra do esforço humano em querer mudar suas atitudes. Por isso o pastor John MacArthur faz essa referência a Finney nesse sermão, usando as próprias palavras daquele para ilustrar o que significa pregar um evangelho distorcido.

Se você não disser ao pecador que ele está  sob a lei de Deus e não fazê-lo entender que ele mesmo não pode fazer nada para contribuir para a sua salvação, que só resta a ele clamar a um Deus de misericórdia a fim de que seja gracioso a este pecador que, por causa de sua desesperança, deve implorar a esse Deus que lhe conceda uma justiça que ele não tem e nunca poderia obter por outro meio, você realmente pregou um ‘meio-evangelho’. E esse é um evangelho ‘não-salvador’.

E quando Finney terminou sua obra, tudo o que você tinha em Nova York era a área desgastada, onde você não podia nem mesmo pregar o evangelho, porque as pessoas não queriam mais saber. Provou ser tão vazio quanto poderia ser. Então, se você vai tentar evitar esta semeadura rasa, você tem que ir fundo. Você tem que orar para que o Espírito de Deus faça a obra de profunda convicção, mas você precisa colocar na mente da pessoa o instrumento que o Espírito de Deus usa para fazer esse convencimento, e isso é uma compreensão bíblica da condição pecaminosa do homem.

E, quando as tribulações vêm, você sabe o que acontece com o verdadeiro crente? Tiago diz que quando você cair em várias provas, tenha o que? Alegria, porque quando as provações vêm, elas têm um efeito completamente diferente sobre um verdadeiro crente. É o que ele diz. “A prova de sua fé produz resistência.” O teste, para a falsa fé, acaba com a resistência. Produz abandono, desistência. A pessoa vai embora. Acabou.

No caso de um verdadeiro crente, o teste produz resistência. E a resistência gera um resultado de aperfeiçoamento. Os testes vêm. Eles revelam quem é de verdade. O teste vêm, a tribulação vem, a perseguição, tanto quanto Deus permita, tão severas quanto Ele queira que sejam, e no final, todo teste produz resistência e maturidade espiritual.

O apóstolo Paulo por três vezes pediu ao Senhor que Ele retirasse o espinho, removesse o espinho. O Senhor disse que não. O que Paulo fez? Disse ‘eu desisto, estou fora,  não estou crendo mais, pois o Senhor não fez o que prometeu, não consertou minha vida, onde estão minha saúde, riqueza e prosperidade?’ Essa não é sua resposta. A resposta de Paulo é essa:

Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte. (2 Coríntios 12:10).

Você vê, o mesmo tipo de teste, o mesmo tipo de tribulação, o mesmo tipo de perseguição tem resultados diferentes. Se alguém se ofende, sai, abandona a fé, nega o Senhor, dizendo ‘ já basta, eu vou embora’, é porque nunca creu de verdade. Nunca nasceu de novo. Era solo rochoso. O mesmo tipo de situação, o mesmo tipo de dificuldade afeta o verdadeiro crente de modo oposto: elas o tornam mais forte, produzem maior resistência, maior fé e maior utilidade. Jesus disse a Pedro:Satanás virá, ele vai te peneirar mas, quando acabar, você será mais forte do que nunca, poderá fortalecer os irmãos’.

Hebreus, capítulo 12 e versículo 11, diz: “E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela.” Você sabe o que acontece com um falso crente? As provações produzem injustiça. Para um verdadeiro crente, as provações produzem justiça. Para um crente falso, as tribulações os levam de volta para o pecado. Para um verdadeiro crente, elas os levam a uma santidade crescente.

Quanto mais provações vêm na vida de um verdadeiro cristão, mais forte se torna a unidade com Deus. Na verdade, há outro verso que não consigo resistir. Eles continuam a aparecer na minha cabeça. Primeira Pedro 5:10. Pedro está falando, neste contexto, sobre Satanás, dizendo que ele vem como um leão rugindo, tentando devorar. E, agora, no versículo 10, esta é uma grande provação, você sabe, com Satanás atacando e tentando devorá-lo. É uma prova significativa.

Versículo 10, ele diz: “E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória, depois de havemos padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça.” Pedro diz que o efeito das provações é a perfeição, confirmação, fortalecimento e estabelecimento. Isso é, na vida de um verdadeiro crente. Venha o que vier, mesmo que o próprio Satanás venha como um um leão rugindo, o efeito final da disciplina, do castigo, da prova, da pressão, perseguição,  sofrimento, seja o que for, o efeito final não é o abandono da fé, mas a sua confirmação.

As provas não me deixarão fraco, mas forte. Não vão me fazer pular de um galho para outro, mas me farão estabelecido. Isso é o que vai acontecer quando o problema chega a um verdadeiro crente, mas não quando se trata de um superficial. E é por isso que nos incumbe na obra de evangelismo assegurar que, enquanto somos adeptos de apresentar o lado positivo da glória da doutrina da justificação em toda a sua beleza, não podemos deixar de apresentar a realidade da depravação absoluta e desesperada do homem.

E, de volta a Charles Finney por um minuto, esse era o ‘meio-evangelho’ que ele pregava e que teve resultados tão devastadores. Ele se saía bem em pregar que Jesus salva, mas ele não acreditava na verdadeira depravação do homem e, assim, os pecadores que o ouviam  realmente eram levados a acreditar que poderiam contribuir para a sua própria conversão. Isso é metade da verdade e é uma apresentação mortal do evangelho.

Qualquer metade seria por si só mortal. Pregar a pecaminosidade do homem, fixar-se nisso e não igualmente na graça de Deus também seria uma falsificação do evangelho. Somente Deus pode quebrar um coração de pedra, mas nossa responsabilidade é trazer a verdade a esse coração. E eu sei que isso não é popular no evangelismo de nossos dias, mas é fundamental. E, no final, isso é tudo o que você pode fazer.

Se o coração vai resistir e não vai ser quebrado, então, nós fizemos o que poderíamos fazer, certo? Novamente eu digo, não é a semente, nem mesmo o semeador. É o solo que faz a diferença. O melhor que podemos fazer é trazer a verdadeira semente do evangelho, lei e graça, condenação e, então, esperar, orar para que Deus prepare graciosamente o coração para o arrependimento e  fé.

Mas como eu disse, há muitas pessoas que estão nesta condição superficial e há alguns de vocês aqui nesta manhã que estão nessa condição. Você está superficialmente ligado a Jesus por qualquer motivo. Você pode se sentir tocado emocionalmente sobre isso neste momento, mas você não vai sobreviver, a menos que você tenha vindo a Ele porque estava tão completamente e totalmente sobrecarregado com sua condição pecaminosa, sendo que  a conseqüência disso foi o clamor de seu coração por uma justiça que você sabia que precisava para escapar do julgamento e ter qualquer tipo de relacionamento com Deus.

Bem, da próxima vez, vamos terminar e falar sobre os dois últimos tipos de solo, incluindo o solo bom.  Oremos.

Nosso Deus, esta é uma experiência tão rica para nós. É como se estivéssemos lá naquele dia na praia, ouvindo nosso Salvador abençoado contando essa estória, em pé com os discípulos, como Ele explicou seu significado. Ajuda-nos, Pai, a examinar nossos próprios corações para conhecermos a condição dos mesmos. Tragas provações suficientes para manifestar isso, tragas perseguição para revelar isso. Que sejamos regozijados com o fato de que, quando vier a prova, quando chegarem as provações, quando a tribulação chegar, quando a perseguição chegar, nós seremos achados duradouros, seremos confirmados, fortalecidos e estabelecidos. Mas, Pai, para aquela alma que foge, abandona e nega, que Tu possas ser gracioso e levar a cabo uma conversão verdadeira e genuína. Oramos para que haja ainda esperança para aqueles cujo conhecimento de Cristo é superficial. Que eles possam entender a verdadeira condição de seu coração. O que eles precisam não são relacionamentos melhores, mais aceitação, uma vida mais feliz. O que eles precisam é ser resgatados do pecado e da Tua justiça iracunda e do juízo. Oramos para que Tu faças essa grande obra em muitos corações para a Tua glória eterna. Amém.


Esta é uma série de 3 sermões. conforme links abaixo.

01. A Parábola dos Solos (Parte 1) 
02. A Parábola dos Solos (Parte 2) 
03. A Parábola dos Solos (Parte 3) 


Este texto é uma síntese do sermão “Receptivity to the Gospel, Part 2″, de John MacArthur em 05/05/2002.

Você pode ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/resources/sermons/42-104/receptivity-to-the-gospel-part-2

Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno


Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *