A Estabilidade Espiritual – 4

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Nota do site: Esta é uma série de quatro preciosas mensagens sobre a estabilidade espiritual do cristão. Veja os links dos outros sermões no fim deste texto.


Temos abordado a questão de como podemos manter o nosso equilíbrio espiritual, estudando Filipenses 4:1-9.
Como podemos ser espiritualmente estáveis, experimentando a paz, calma, tranquilidade, confiança, um coração constante, conforto e satisfação em meio a todas as tensões em nossas experiências diárias?

No Salmo 38, o salmista estava sob grande stress. Ele diz: “Não me repreendas, Senhor, na tua ira, nem me castigues no teu furor” (v.1). Ele estava experimentando a correção de Deus.
Ele havia sido vítima de tentação. Sua carne tinha sucumbido à investida do mal, e agora ele estava lidando com a culpa do pecado e a punição de Deus.
Ele diz: “Cravam-se em mim as tuas setas, e a tua mão recai sobre mim” (v.2). Ele estava chegando a uma situação extrema: “Não há parte sã na minha carne, por causa da tua indignação; não há saúde nos meus ossos, por causa do meu pecado” (v.3).

E, então, começa a pensar sobre o quão sério o seu pecado é. Ele diz: “Pois já se elevam acima de minha cabeça as minhas iniquidades; como fardos pesados, excedem as minhas forças. Tornam-se infectas e purulentas as minhas chagas, por causa da minha loucura. Sinto-me encurvado e sobremodo abatido, ando de luto o dia todo” (v.4-6).

Ele estava sentindo a dor e a culpa de seu pecado, sentindo a punição e o castigo de Deus. Chegou a um ponto no versículo 8, onde ele diz: “Estou aflito e mui quebrantado; dou gemidos por efeito do desassossego do meu coração”.
No verso 10, ele diz: “Bate-me excitado o coração, faltam-me as forças, e a luz dos meus olhos, essa mesma já não está comigo”.
Sua aflição parece sem fim: “Os meus amigos e companheiros afastam-se da minha praga, e os meus parentes ficam de longe” (v.11).
No verso 12, ele declara que está rodeado de inimigos. Havia chegado a uma conclusão de que não possuía amigos e nem conselheiros. E no verso 14, ele diz que não tem como se defender, pois lhe faltam argumentos.

Aqui está um homem em profunda angústia, sob todos os ângulos. Ele está angustiado por causa de seu próprio pecado e pelo castigo de Deus.
Ele está angustiado porque seus amigos não vêm ajudá-lo. Ele está sozinho, solitário e abandonado.
Ele está angustiado porque ele é atacado por inimigos que procuram tirar sua vida. Ele está angustiado, também, porque ele não tem nenhum argumento, pois conhece o seu próprio pecado. Tudo o que ele pode fazer é orar. Tudo o que ele pode fazer é clamar a Deus.

E assim no versículo 9, ele diz: “Senhor, diante de ti está todo o meu desejo, e o meu gemido não te é oculto”. Ou seja, “Senhor, Tu conheces o meu coração, Tu sabes o que eu estou passando, Tu sabes a minha dor e Tu entendes tudo”.
No versículo 15, ele diz, “Pois em ti, Senhor, espero; tu me atenderás, Senhor, Deus meu”. Em outras palavras: “Eu orei a Ti e eu sei que Tu responderás”.
E no versículos 21-22, ele diz: “Não me desampares, Senhor, meu Deus, não te alongues de mim. Apressa-te em meu auxílio, Senhor, minha salvação”.
Este é um homem de Deus sob grande angústia. Rodeado de inimigos. Tendo amigos de pouca utilidade para ele na sua hora de necessidade. Ele caiu diante de sua carne. Ele está sob a mão disciplinadora de Deus.
Ele está instável, para se dizer o mínimo. Ele está em uma instabilidade exaustiva e extrema.

Este tipo de instabilidade pode ser a experiência de qualquer cristão. E às vezes, isso pode se tornar tão grave, que desesperamos da vida.
Podemos nos tornar tão exaustos com as ansiedades, culpas, hostilidades, perseguições e falta de amor dos amigos, que, literalmente, perdemos totalmente nosso equilíbrio.

Um livro escrito recentemente por um pastor, começa assim:

Eu visitei um hospital psiquiátrico várias vezes. Um lugar que causa apreensões. Sempre escutei criminosos insanos, suicidas, deprimidos, alcoólatras, pessoas hostis, viciados, etc. É algo difícil. Eu nunca me senti confortável com isto.
Desta vez, porém, o meu desconforto tinha sido substituído pelo medo, minha apreensão tinha dado lugar a sentimentos de desgraça iminente, a própria atmosfera estava carregada com vislumbres de pressentimentos do imprevisível.
Eu estava traumatizado com a humilhação e o constrangimento. Eu estava lutando contra uma hostilidade rastejando, esperando para me dominar. Desta vez eu estava sendo levado pelos corredores silenciosos daquele hospital como um paciente e não como um pastor.
Por anos, eu tinha lutado para entender as mudanças de humor imprevisíveis, que poderiam me levar de picos de euforia para os vales profundos do desespero.
Eu poderia pregar com fervor e poder, poderia compartilhar Cristo com entusiasmo e sucesso. Poderia aconselhar com discernimento significativo e socializar com puro deleite. Mas, sem aviso, qualquer uma ou todas essas positivas e deleitosas emoções, repentinamente, seriam forçadas a dar lugar a sentimentos de melancolia e períodos de fraqueza. Eu sairia e uma forma de paranoia se instalaria. Eu seria repentinamente oprimido por sentimentos de inadequação e inferioridade. Na ocasião, minha mente dava voltas com pensamentos de autodestruição.

Um pastor pode perder o equilíbrio e ser esmagado? Pode um salmista perder o equilíbrio e ser esmagado? Você pode encontrar-se em tal dificuldade na vida que você está esmagado, perdeu o seu equilíbrio, o equilíbrio espiritual?
Bem, a resposta é sim, aparentemente. Foi assim com o salmista. Foi com este pastor, do qual falei agora.
Todos nós, por vezes, perdemos o nosso equilíbrio espiritual. Podemos nos encontrar fracos e incapazes de ficar de pé.
E diante desta situação… Para quem iremos? Para onde iremos? Não há outra resposta verdadeira, a não ser buscar o socorro em Deus.

Nós temos que fazer isso. É precisamente isto que Paulo quer nos comunicar nesta porção da Escritura.
Precisamos buscar a estabilidade espiritual. Não podemos professar um Deus soberano e poderoso e vivermos como se isto não fosse uma verdade. Um cristão instável é uma terrível contradição perante os incrédulos.

Essa é uma questão muito importante a considerar. As pessoas estão muito mais interessadas no pragmatismo do que em qualquer outra coisa, ou seja, elas estão muito mais interessadas em resultados do que na verdade.
O cristianismo atual está focado em procurar o que funciona e o que pode fazer as pessoas se sentirem bem. A verdade foi jogada para o segundo plano, ela deixou de ser a prioridade da igreja.

Martyn Lloyd-Jones escreveu:

Nós cremos que a obra de Deus, a ampliação do Seu reino, é realizada em parte por Seu povo, e sabemos que, no curso da história da Igreja, Deus frequentemente realizou coisas notáveis através da vida de alguns cristãos muito simples e comuns. Por conseguinte, é muito importante que sejamos libertos de uma condição que dê às pessoas que nos observam a impressão que ser cristão significa ser infeliz, triste, mórbido, e que um cristão é alguém que despreza a alegria e vive dias laboriosos.

Por nós mesmos e pelas pessoas do mundo que estão verificando a validade de nossa mensagem, precisamos ser espiritualmente fortes, o que for diferente disto transforma nosso testemunho em algo danoso.
Somos chamados, como soldados de Cristo, a manter a estabilidade espiritual, assim o mundo pode ver o poder do nosso Deus em nossas vidas.

A pergunta vem: Como podemos ser assim? Como podemos ser estáveis? Paulo nos responde em Filipenses 4:1-9.
Aqui temos a resposta para sermos guardados na paz de Deus, desfrutar um contentamento, vencermos a ansiedade e o desassossego da alma. Ou seja, desfrutarmos aquilo que o próprio apóstolo relata nos versos 11-12:
“…Porque já aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade”.          
Ele resume o segredo para gozar de uma paz inconfundível, mesmo em meio às terríveis tribulações: “Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece” (v.13).

Paulo escreveu esta carta enquanto estava padecendo numa prisão por sua fidelidade ao Evangelho.
Mas, em meio a seu sofrimento, ele nos fala de estabilidade espiritual. E a chave principal de tudo está no verso 1: Permanecer firmes no Senhor.
Já vimos os versos de 1 a 8 de Filipenses 4, hoje avançaremos para o nono versículo.
Antes disto, vamos para uma ligeira visão panorâmica do que já vimos.

Primeiro de tudo, a estabilidade espiritual requer cultivar a paz na comunhão. Uma igreja que vive em amor e unidade estabiliza as pessoas, o caos e a discórdia desestabilizam. Vimos isto nos versículos 2 e 3.
Em segundo lugar, vimos que a estabilidade espiritual envolve a manutenção de um espírito de alegria – verso 4 – regozijando-se sempre no Senhor.
Em terceiro lugar, no verso 5, observamos que a estabilidade espiritual requer aprender a aceitar menos do que pensamos que nos é devido. Se não recebermos nada, ficaremos em paz. Isto é a humildade.
Em quarto lugar, notamos, nos versos 5 e 6, que a estabilidade espiritual requer descanso em uma fé confiante no Senhor – o Senhor está próximo, então não estamos preocupados.
Em quinto lugar, observamos que a estabilidade espiritual requer reagir aos problemas com a oração de gratidão. Se nós crermos na soberania e nos propósitos divinos, teremos a atitude de dar graças a Deus por tudo.

Essas cinco virtudes básicas nos conduzem a desfrutar a estabilidade espiritual, ou seja, paz, alegria, humildade, fé e gratidão.
Quem produz em nós essas atitudes piedosas? O Espírito Santo. Então, quando você viver uma vida controlada pelo Espírito, o Espírito de Deus dispensa a paz, a alegria, a humildade, a fé e a gratidão que é preciso para manter atitudes piedosas.
A solução para a ansiedade, dificuldades, problemas, culpas, hostilidades e solidão, são as atitudes certas.
E as atitudes certas de paz, alegria, humildade, fé e gratidão são produzidas pelo Espírito de Deus na vida de um crente que está sob Seu controle.

Em sexto lugar, na última vez, chegamos ao ponto mais alto: uma vida centrada nas virtudes divinas.
É muito salutar uma mente disciplinada. Se você conservar sua mente no que é verdadeiro, nobre, correto, puro, amável e de boa reputação, você vai protegê-la do medo, da ansiedade, da depressão.

E agora chegamos ao elemento final: “O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso fazei; e o Deus de paz será convosco” (Filipenses 4:9). Uma vida de obediência a Deus.
A fim de ser espiritualmente estável, você deve ter atitudes piedosas, pensamentos piedosos e a fonte de todos seus pensamentos deve ser a Palavra de Deus. O resultado de tudo isto é um comportamento piedoso. E o comportamento piedoso é fruto de alguém espiritualmente estável.

Ele agora está chamando para a prática. Uma maneira constante de vida. É a sua rotina normal de viver. “Praticar” vem do grego “prassō”, que significa “repetição, uma ação contínua”.
Paulo está dizendo que esta deve ser a sua prática, seu padrão de vida, como você se conduz no dia a dia.
Ele está falando das atitudes piedosas de paz, alegria, humildade, fé e gratidão. De pensamentos piedosos, verdadeiros, honrosos, justos, puros, amáveis e de boa reputação. E, em seguida, de práticas piedosas, ou seja, atos piedosos.
Observe que a estabilidade espiritual se resume à questão de viver uma vida disciplinada para obedecer ao padrão de Deus.

Eu gostaria de poder levar esta mensagem contra esta cultura contemporânea da igreja. A razão pela qual as pessoas têm tantos problemas, que as levam aos conselheiros, psicólogos, psiquiatras, metodologias e fórmulas vem de uma avaliação inadequada do fundamento para se viver uma vida equilibrada e estável.
O cristianismo genuíno está diretamente relacionado com a realidade de atitudes piedosas, pensamentos piedosos e práticas piedosas.
E como, no mundo, alguém vai te consertar? Porque você é o único que pode corrigir essas áreas no poder de Deus.

Você é o único que deve andar no Espírito para que Ele possa produzir paz, alegria, humildade, fé e gratidão.
Você é o único que deve ir para a Palavra de Deus e encontrar lá pensamentos de verdade, honrados, justos, puros, amáveis e de boa reputação.
Você é o único que deve disciplinar sua vida para fazer o que é justo e piedoso.
Uma pessoa cheia do Espírito tem atitudes piedosas. Uma pessoa, em quem a Palavra de Deus habita ricamente, tem pensamentos piedosos. Uma pessoa que vive uma vida cristã obediente torna-se uma pessoa espiritualmente estável.

Você vê, a primeira coisa que devemos fazer é diagnosticar o problema na sua raiz, identifica-lo como um problema espiritual.
Agora, percebo que pode haver, algumas vezes, complicações físicas em nossas vidas que podem nos debilitar e estragar o nosso pensamento e coisas assim, mas, no entanto, são problemas espirituais. Eles devem ser tratados de uma forma espiritual.

Quando você tem atitudes piedosas produzidas pelo Espírito e pensamentos piedosos produzidos pela Palavra de Deus, juntos eles agem impedindo a ação da carne em direção ao pecado.
Amados, se suas atitudes não são piedosas, geradas pelo enchimento do Espírito, e seus pensamentos não são bíblicos, gerados pela Palavra de Deus, o pecado exercerá livre domínio em sua vida.
É por isso que, até o versículo 9, a prática não vem. Você tem que começar com as atitudes e os padrões de pensamento.

Você vê, é o que Paulo fala em 2 Coríntios 10:3-4, quando ele diz que “andando na carne, não militamos segundo a carne, porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas sim poderosas em Deus…”.
Se você tentar usar armas carnais contra a carne, o fracasso é certo. As armas da nossa milícia são espirituais: atitudes espirituais, verdade espiritual e pensamentos espirituais “levando cativo todo o entendimento à obediência de Cristo” (v.5).

O pecado em seu comportamento produz instabilidade espiritual. O pecado em sua prática produzirá ansiedade espiritual. No entanto, a pureza de comportamento irá produzir a paz e estabilidade.
Isaías 32:17 diz: “E o efeito da justiça será paz, e a operação da justiça, repouso e segurança para sempre”.
Uma pessoa que vive uma vida pura e piedosa experimenta a paz, sossego e segurança. Isso é verdade não só no reino milenar vindouro, mas é uma verdade em sua vida hoje.

Foi na cruz onde a justiça e a paz se encontraram. É a sabedoria de cima que é pacífica, a verdadeira sabedoria. A sabedoria do Deus justo produz paz. Tiago 3:17-18 diz:

A sabedoria, porém, lá do alto é, primeiramente, pura; depois, pacífica, moderada, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento. Ora, é em paz que se semeia o fruto da justiça, para os que promovem a paz.

Romanos 12:21 diz: “Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem”. São palavras diretas. Você tem que praticar estas coisas como um modo de vida. Essas coisas precisam ser seu hábito. Isso exige disciplina.
Eu gostaria que tivéssemos tempo para entrar em toda a questão de como viver uma vida disciplinada, mas é a disciplina de sua vida que cria os hábitos. [Clique aqui e leia dois sermões de John MacArthur sobre disciplinas espirituais].

Se eu fosse descrever o crescimento espiritual, a partir de minha própria experiência pessoal, falaria do desenvolvimento de hábitos piedosos.
Em outras palavras, para se crescer como um cristão, você começa verificando se seus hábitos de vida estão certos.
Substituir maus hábitos por bons hábitos, isso é uma questão de autodisciplina pelo poder de Deus. Quando você disciplina sua vida e começa a cultivar bons hábitos, você começa a ter sua vida sob controle.

Agora, vamos olhar especificamente para o verso e ver a que Paulo está se referindo. Você tem que praticar, diz ele, você tem que fazer destas coisas seu hábito. Que coisas?
O versículo 9: “O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso fazei; e o Deus de paz será convosco”. Esta é uma grande indicação: “As coisas que você aprendeu, recebeu, e ouviu e viu em mim”.

Agora, onde um cristão em Filipos iria obter informações sobre como deveria viver? Você diz: “Bem, eles iriam para as Escrituras”. Sim, mas tudo que eles tinham naquela época era apenas o Antigo Testamento.
Eles tinham que recorrer aos apóstolos para conhecer os padrões de Deus na Nova Aliança.

Em Atos 2, quando Pedro pregou no dia de Pentecostes, três mil pessoas creram e foram batizadas. Eles perseveravam na doutrina dos apóstolos. Por quê? Porque essa era a fonte da verdade até que todos os livros do Novo Testamento fossem reunidos.
Portanto, antes da composição do Novo Testamento e sua plena aceitação como uma Escritura revestida da autoridade divina, o padrão cristão de fé e comportamento tinha como fonte o ensino e exemplo dos apóstolos.
É por isso que Paulo diz: “Sede meus imitadores, como também eu de Cristo” (I Coríntios 11:1).

Então o que ele diz agora? Você quer saber como viver? “O que você aprendeu, recebeu, ouviu, viu em mim… assim faça”.
É importante notar, amados, que os apóstolos realmente viveram entre o povo. Eles comiam, dormiam e viviam no meio deles. O exemplo deles foi o modelo da igreja do primeiro século.

Agora, vamos olhar para esses quatro termos: “Aprendestes, recebestes, ouvistes e vistes… em mim”. Cada um deles destaca um aspecto muito importante.
A primeira palavra é “aprendestes”. E isso vem da raiz do verbo grego para a palavra “discípulo”.
E isso tem a ver com a ideia de ensinar, instruir e discipular. A palavra grega “Mathetes” significa um aprendiz, aquele que recebe instrução.
Assim, Paulo aqui está se referindo a sua instrução pessoal a eles: pregando, ensinando, conversando, dialogando, discipulando.

Em Atos 20, quando ele ministrava, ia de casa em casa. Às vezes, ele estava apenas conversando com uma família em torno de sua mesa de jantar. Paulo diz:

Jamais deixei de vos anunciar coisa alguma proveitosa e de ensina-la publicamente e também de casa em casa. Porque nunca deixei de vos anunciar todo o conselho de Deus. Portanto, vigiai, lembrando-vos de que durante três anos, não cessei, noite e dia, de admoestar com lágrimas a cada um de vós. Agora, pois, encomendo-vos ao Senhor e à palavra da sua graça, que tem poder para vos edificar e dar herança entre todos os que são santificados. (v. 20,27,31-32).

Para Timóteo, Paulo diz: “Tu, porém, tens seguido, de perto, o meu ensino, procedimento, propósito, fé, longanimidade, amor, perseverança” (2 Timóteo 3:10).
De quem Timóteo aprendeu as lições para sua vida? A partir do exemplo e ensino de Paulo.
E esta foi a função fundamental dos apóstolos, não somente revelar a verdade, mas vivê-la de modo que a igreja tivesse um modelo a seguir. E, assim, ele diz:

Sede também meus imitadores, irmãos, e tende cuidado, segundo o exemplo que tendes em nós, pelos que assim andam. Porque muitos há, dos quais muitas vezes vos disse, e agora também digo, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo (Filipenses 3:17-18).

Ou seja, “sigam o meu exemplo e o exemplo de pessoas que seguem meu exemplo”. Era assim naqueles dias. Eles tiveram que seguir um padrão humano, de homens que imitavam a Cristo. Esta foi uma função dos apóstolos.
Então a primeira coisa é: “Você deve praticar as coisas que eu ensinei, as coisas que você aprendeu de mim”.

Então, em segundo lugar, diz ele: “As coisas que recebestes”.
Agora, alguns podem dizer, “Bem, ele não quis dizer nada diferente aqui, ele está apenas usando outro termo. É um sinônimo”.
Bem, poderia ser. Por outro lado, o termo “recebido” tem alguns usos interessantes no novo testamento. E a maioria dos comentaristas concorda que o termo “recebido” pode ser usado como específico para a revelação direta de Deus.
Ou seja, não foi apenas quando os apóstolos faziam exposição das Escrituras, mas a própria Palavra que eles receberam de Deus.

Veja o que Paulo diz: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo. De fato, eu vos louvo porque, em tudo, vos lembrais de mim e retendes as tradições assim como eu as entreguei”.
Ele está dizendo: “Não apenas você deve seguir o meu exemplo e ouvir o que eu digo, mas reter as tradições da mesma forma que eu as entreguei”.
Creio que Paulo tem muito mais em mente, a própria revelação de Deus.

Em 1 Coríntios 15:1-3, ele segue com outra declaração muito semelhante. Ele fala sobre o tesouro das Escrituras, da necessidade de perseverança no que ele havia ensinado.

Irmãos, venho lembrar-vos o evangelho que vos anunciei, o qual recebestes e no qual ainda perseverais; por ele também sois salvos, se retiverdes a palavra tal como vo-la preguei, a menos que tenhais crido em vão. Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras.

Em Gálatas 1:9, ele diz: “Assim, como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema”.
Aqui ele salienta a autenticidade da revelação de Deus proferida pelos apóstolos.

Entre outras tantas referências em suas cartas, Paulo está dizendo: “Olha, eu quero que você pratique o que eu te ensinei. Eu quero que você pratique em sua vida o que eu entreguei a você da própria Palavra de Deus. A Palavra e as minhas instruções vêm Dele”.
Foi assim que ele disse a Timóteo: “Tu, pois, meu filho, fortifica-te na graça que há em Cristo Jesus. E o que de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros” (2 Timóteo 2:1-2).
Então, ele está passando o bastão, por assim dizer, da palavra revelada a ser transmitida novamente a outros ao longo dos séculos.

Agora, observe o terceiro termo que é usado aqui, o termo “ouvido”, “e o que você ouviu”. Alguns sugerem que apenas significa a mesma coisa que “aprendeu” e “recebeu”.
Mas, certamente, aqueles irmãos ouviram falar, de outras pessoas, muitas coisas sobre o ministério de Paulo, sua reputação, mensagem, estilo de vida e testemunho.
Ele os chama a praticar tudo que chegou a eles em coerência com a mensagem revelada.

E, em seguida, em quarto lugar, ele diz: “O que vistes em mim”. Ou seja, “Não é somente o que vocês ouviram de mim, ou do testemunho de outros sobre mim, ou a verdade da palavra que foi entregue a vocês, mas aquilo que vocês viram na prática de minha vida ou no meu modo de vida”.

Amados, os apóstolos foram chamados, não só para andar com Cristo, mas eles foram chamados para serem modelos de Cristianismo do Novo Testamento. Essa era a vocação deles.
Eles modelaram o padrão da vida cristã. No meio de terríveis tribulações, eles viveram em paz, na alegria, em humildade, na fé e em gratidão.
Eles pensavam sobre o que era verdadeiro, nobre, justo, puro, amável e de boa reputação. Eles andaram de acordo com a verdade revelada. E assim Paulo diz: “Vivam como eu vivo”.

Quando os livros e cartas do Novo Testamento foram reunidos, eles se tornaram o padrão para a igreja.
Não temos nada e nem podemos acrescentar nada ao padrão estabelecido por Jesus e pelos apóstolos. Ninguém tem esta autoridade. Isto foi feito por Cristo e por aqueles a quem Ele constituiu para isto.

No final do sermão do monte, Jesus pôs um selo inconfundível em seus ensinos imutáveis:

Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras, e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha; E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e não caiu, porque estava edificada sobre a rocha. E aquele que ouve estas minhas palavras, e não as cumpre, compará-lo-ei ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia; E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e caiu, e foi grande a sua queda  (Mateus 28:24-27).

Veja o que Tiago diz: “Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. Aquele que considera, atentamente, na lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte negligente, mas operoso praticante, esse será bem-aventurado no que realizar” (Tiago 1:22,25).

Assim como Paulo chama os irmãos a perseverarem no Evangelho, assim como ele mesmo perseverava, numa vida de frutos espirituais abundantes, nós temos que também no posicionar neste mundo com um testemunho da vida de Cristo em nós.

E qual é a promessa relacionada a esta realidade? “E o Deus da paz estará convosco” (Filipenses 4:9).
Agora, Deus é o Deus de tantas virtudes. Ele é o Deus de amor, de graça, de misericórdia, de compaixão, de toda consolação, da justiça, de poder, da luz, da vida.
Por que ele diz o Deus da paz? Ele está falando de fortaleza espiritual. Ser estável, firme e confiante no meio da dificuldade. Em meio às tribulações, podemos dizer como o apóstolo:
“Aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece” (Filipenses 4:11-13).

Ele está falando de viver contente em qualquer coisa e em tudo. E é por isso que ele chama de o Deus da paz. É por isso que no verso 7, ele mencionou a paz de Deus.

Se você tem atitudes, pensamentos e atos piedosos, você será guardado pela paz de Deus e o Deus da paz. Que tremenda declaração.
É aí que reside o seu conforto, a sua tranquilidade, a calma e a sua confiança. Foi tão real para ele, que ele começou a proclamar Deus como o Deus da paz.
Isso significa que o Deus cujo caráter é paz e o Deus que é o doador da paz, é a fonte, a origem da paz. Ele começou a pensar em Deus dessa forma.
Por quê? Porque ele estava com problemas sem fim o tempo todo. Leia 2 Coríntios 11: 23-33 , sempre em dificuldades, circunstâncias difíceis, hostilidades, perseguições, provas, etc.

E ele tinha encontrado Deus como o Deus da paz. Por quê? O Espírito havia concedido a ele atitudes piedosas, a Palavra havia concedido a ele pensamentos piedosos, e ele tinha disciplinado sua vida, por esses meios, para práticas piedosas. Assim ele conhecia a paz de Deus.

Ele declarou muitas vezes isto:

E o Deus de paz seja com todos vós. Amém. (Romanos 15:33)

E o Deus de paz esmagará em breve Satanás debaixo dos vossos pés. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja convosco. Amém (Romanos 16:20).

O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso fazei; e o Deus de paz será convosco (Filipenses 4:9).

E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo (I Tessalonicenses 5:23).

Como você pode conhecer o Deus de paz e a paz de Deus? Como você pode estar tranquilo? Como você pode ter uma calma interior no meio das angústias, medos, dúvidas, hostilidades, etc.?
A resposta é viver de acordo com o padrão de Deus, pensando de acordo com o padrão de Deus. Atitudes corretas, pensamentos corretos e ações corretas. Você tem que policiar sua própria vida. Isto lhe trará estabilidade. Isso significa que você tem que ser disciplinado.

Martyn Lloyd-Jones, em seu livro, depressão espiritual, diz:

Eu desafio vocês a lerem a vida de qualquer santo que já adornou a vida da Igreja, sem perceber imediatamente que a grande característica da vida dessa pessoa era ordem e disciplina. É invariavelmente a característica universal e marcante da vida de todos os grandes homens e mulheres de Deus. Leiam sobre Henry Martyn, David Brainerd, Jonathan Edwards, os irmãos Wesley, e Whitefield — leiam seus diários. Não importa a que ramo da Igreja pertenceram — todos disciplinaram suas vidas e insistiram na necessidade disso; e obviamente é algo bíblico e absolutamente essencial.

Temos de ser disciplinados para acrescentar à nossa fé a virtude – conduta pura, os padrões de vida, as práticas de justiça.
E isto lhe torna capaz de se contentar em qualquer circunstância e encontrar o Poder de Cristo. Esta é a minha oração por você.

Pai, obrigado pela boa palavra, a grande sabedoria santa e divina dispensada a nós através deste texto e através da incrível vida de Paulo.
Ajuda-nos, Senhor, a termos essas atitudes, sentimentos, esses pensamentos, ações que conduzam à estabilidade espiritual.
E, Pai, quando estamos instáveis e vacilantes, quando estamos entorpecidos e esmagados, como o salmista, e quando nossos corações são agitados, Senhor, ajuda-nos a fazer a checagem: como estão minhas atitudes? E meus pensamentos? E minhas práticas? Então, encontrar lá o problema e encontrar em Ti a solução.
Enche-nos com o Teu Espírito para que possamos sentir o que devemos. Enche-nos de Tua palavra para que possamos pensar da maneira que devemos, e usa Teu Espírito e a Palavra para policiar nossa carne, a fim de que possamos viver da maneira que devemos, para desfrutarmos da paz de Deus e do Deus de paz. Dá-nos a grande, grande bênção de Tua paz. Amém.


Esta é uma série de sermões sobre estabilidade espiritual, conforme textos listados abaixo.

01. Estabilidade espiritual – Parte 1 
02. Estabilidade espiritual – Parte 2
03. Estabilidade espiritual – Parte 3
04. Estabilidade espiritual – Parte 4    


Este texto é uma síntese do sermão “Spiritual Stability, Part 6: Obedience”, de John MacArthur, em 08/10/1989.

Você poderá ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

https://www.gty.org/resources/sermons/50-42/spiritual-stability-part-6-obedience

Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno


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