A autodisciplina do cristão – 2

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Continuamos agora o assunto  sobre a atitude fundamental cristã de autodisciplina. Vamos voltar a 1 Pedro 1:13 e brevemente rever o que falamos no sermão anterior:

“Portanto, cingindo os lombos do vosso entendimento, sede sóbrios…”

Além deste, há vários chamados ou comandos no Novo Testamento para autodisciplina. Nós temos estudado juntos há vários meses sobre a anatomia da Igreja, isto é, o funcionamento da Igreja como um organismo vivo. E nós estamos focando nos sistemas internos do Corpo de Cristo, pois esses sistemas carregam, transportam a vida da Igreja, assim como os órgãos do corpo contêm a vida do corpo.

E as atitudes espirituais revelam certamente a vida da Igreja. Nós temos analisado um certo número dessas atitudes espirituais que são essenciais para a saúde da Igreja. E nesta manhã nós começamos a ver a autodisciplina,  pôr em ordem as coisas na nossa vida, estabelecer prioridades e viver de acordo com estas prioridades.

É isto que a expressão ‘sede sóbrios’ significa. Pedro não está se referindo a não estar bêbado, fisicamente falando, mas no sentido de não estar intoxicado com todas as características, valores, distrações que estão a nossa volta e que nos tiram o foco daquilo que é mais importante, vital.

Nós estamos falando sobre ter clareza de mente, firmeza espiritual, prioridades equilibradas, domínio próprio, determinação moral, mente alerta. Não ser alguém carregado pela vida, pelas circunstâncias, variando conforme suas emoções e cedendo a todo tipo de tentações. É absolutamente crucial para nós, cristãos, termos autodisciplina, domínio próprio.

E quais são os componentes desta autodisciplina? Se você deseja ser uma pessoa autodisciplinada espiritualmente, há algumas importantes atitudes, posturas, convicções que você precisa manter, cultivar:

  1. Lembre-se sempre que você não pertence a si mesmo. Você não está mais no comando de sua vida, não é livre para seguir seus impulsos, desejos, sonhos, objetivos. Tudo o que você é e faz deve ser em submissão à direção, à vontade, aos propósitos de Deus, revelados na Palavra de Deus, e sob a direção do Espírito Santo

Então, você deve se lembrar que você não é o seu próprio dono, como Paulo coloca para os coríntios, por ter sido comprado por um preço. Você deve trazer a sua vida em harmonia com a Pessoa que de fato é seu dono, é o seu pai, seu Deus. E você deve ser um filho e um servo obediente.

  1. Em segundo lugar, a autodisciplina é desenvolvida quando você foca no pacto da sua salvação. Isso quer dizer que você sempre deve se lembrar que no momento de sua salvação você fez uma aliança com Deus, na qual se comprometeu a ser obediente a Cristo.

Você O confessou como Senhor, e isso significa que Ele está acima de tudo. Na verdade, isso é exatamente o que Filipenses 2 diz, queDeus Lhe deu um nome que está acima de todo nome’. E qual é esse nome? Qual é o nome acima de todo nome? Senhor. É um nome supremo e diante do qual todo joelho vai se dobrar.

É essencial, então, como crentes, lembrarmos que fizemos um pacto de obediência quando confessamos Jesus como Senhor. Fomos salvos para a obediência na qual Deus tinha antes ordenado que andássemos. E essa submissão é caracterizada por boas obras e obediência à Palavra de Deus.

Essa promessa foi inerente à salvação. No momento em que salvou você, Deus te trouxe perdão, libertação, justificação, te deu o Espírito Santo e, da sua parte, houve o compromisso de obedecer. E você precisa sempre se lembrar disto e ter a integridade de ser fiel à sua promessa original.

Devemos ter uma atitude bastante diferente  da que teve Israel, lembram? Eles disseram: vamos cumprir tudo, fazer tudo o que o Senhor está ordenando.’ (Ex. 24). Por unanimidade, quando ouviram a Lei de Deus falada a eles, e quando depois a ouviram lida por Moisés, eles tiveram a mesma resposta: ‘vamos obedecer a tudo isso’.

Mas, quase que imediatamente eles passaram a desobedecer persistentemente, até que, finalmente, eles estavam sob o julgamento de Deus, e tal julgamento (disciplina) ainda existe hoje. Você lê a Bíblia, você pode ver como Deus julgou Israel. E Israel, mesmo hoje, ainda está experimentando o juízo de Deus por causa do fracasso em cumprir a promessa de obediência.

E, como crente da nova aliança, você deve saber que Deus manterá Sua aliança para com você e poderá te castigar, se você não for obediente a Ele.

  1. Em terceiro lugar – e acho que isso é essencial para ser uma pessoa disciplinada -, você deve reconhecer todo pecado como uma violação de um relacionamento. Passamos um bom tempo esta manhã falando sobre isso, portanto, não vou recapitular tudo esta noite.

É  um assunto muito importante para nós, reconhecermos que o pecado é primariamente uma violação do nosso relacionamento com Deus. É uma violação da intimidade que compartilhamos com um amado Senhor e Salvador misericordioso. Quando você entender o pecado dessa forma, isso irá levá-lo a um outro nível de vida cristã.

Quando peca, você não está simplesmente violando a lei de Deus, você está violando o seu relacionamento com Ele. Você está negociando  Seu amor. Você está abusando de Sua bondade, Sua misericórdia, Sua compaixão e Sua graça. Deus pagou o preço infinito da morte de Seu próprio Filho por você, fez isso a fim de que Ele possa ter uma comunhão íntima e pessoal com você. E isso é seriamente violado pelo seu pecado.

Essa violação não só fere o Senhor, mas fere a você também. E você se lembra como Davi orou: Restitui-me a alegria da tua salvação.” Ele não perdeu a sua salvação quando pecou, mas ele certamente perdeu a alegria da comunhão.

  1. Quarto princípio: se você quer ser autodisciplinado, tem que aprender a controlar a sua imaginação. Ora, Pedro faz alusão a esta questão no versículo 14 de 1 Pedro 1, quando ele diz: “Como filhos obedientes, não vos conformando com as concupiscências que antes havia em vossa ignorância.”

Antes de ser um salvo, você realmente estava sujeito ao capricho de seus próprios desejos. Você não tinha capacidade real de controlar o seu coração, sua mente e seus desejos, nem capacidade de controlar a sua imaginação.

Agora,  imaginação é uma boa palavra, porque eu penso que nós entendemos bem o que ela significa. Infelizmente, a maioria das traduções modernas da Bíblia substituiu a palavra “imaginação” por algumas outras palavras e, assim, perdemos o valor da compreensão bíblica acerca da questão da ‘imaginação’.

Vamos começar a entender a nossa imaginação olhando para o texto de Gênesis, capítulo 6. E no versículo 5a lemos: “Então, o Senhor viu que a maldade do homem era grande na terra…” Naturalmente, após a queda do homem, a maldade aumentou em proporções massivas e o ‘mau cheiro’ dessa maldade subiu, por assim dizer, ao próprio trono de Deus. E o Senhor viu que a maldade do homem era grande na terra.

E, então, vem esta declaração “…e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente.” (v. 5b). Como eu disse, traduções mais modernas optaram por substituir a palavra ‘imaginação’ desse texto, mas eu gosto da tradução King James, que traz a palavra ‘imaginação’.

Quando Deus olhou para o homem, Ele viu que sua imaginação era má continuamente. Ao longo no oitavo capítulo de Gênesis encontramos uma segunda referência a isso, no versículo 21, que tem a ver com Noé construir um altar e fazer um sacrifício. E o Senhor cheirou o aroma suave e  disse a Si mesmo: “Não tornarei mais a amaldiçoar a terra por causa do homem; porque a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice…“.

Mais uma vez o homem é diagnosticado por Deus como tendo uma imaginação má. Agora, quando a Bíblia fala sobre o ‘coração’ significa a ‘mente’, especialmente no Antigo Testamento. O coração do homem (sua mente) é desesperadamente mau, é enganador.

A mente produz a imaginação. E a imaginação é onde o pecado é concebido, onde ele é fantasiado e é energizado. Assim, se nós quisermos controlar o pecado, temos que o controlar na imaginação.

É muito difícil para nós, eliminar de nossas vidas cada pensamento sobre o pecado, porque o pecado é onipresente, quero dizer, ele está em toda parte. Você pode ouvir palavras pecaminosas, você tem coisas pecaminosas em torno de você o tempo todo. E as pessoas exibem pecado em seu rosto.

Seria muito difícil remover o pensamento do pecado, o pensamento fugaz, o pensamento que passa, a consciência, a sensibilidade ao pecado que é inicial. Agora, onde você realmente tem que combater o pecado é em sua imaginação, que é onde essa exposição inicial ao pecado desenvolve e provoca o seu envolvimento e, finalmente, resulta em sua iniquidade.

A imaginação é o lugar onde a luxúria é ativada. Vamos voltar para Tiago capítulo 1, nos versos 14 e 15, temos algo muito definitivo e ajuda-nos como cristãos na batalha contra o pecado.

Primeiro de tudo, no versículo 13a: “Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado“. Alguém poderia dizer: ‘bem, veja, eu quero dizer que eu vivo em um mundo decaído e o pecado está sempre ao meu redor, o que você espera que eu faça? Todo este estímulo pecaminoso vem e eu o vejo e ele se move, capta meu interesse e isso vai longe; eu não pedi para estar aqui, e Deus me colocou aqui, deixou o pecado aparecer, e o que eu devo fazer sobre isso?’

Ninguém pode dizer quando é tentado: ‘estou sendo tentado por Deus’. Deus não pode ser tentado pelo mal e Ele mesmo não tenta a ninguém. Ouça, o fato de que você vive em um mundo decaído e que você está exposto ao pecado ao seu redor o tempo todo através de contatos pessoais e através dos meios de comunicação social e através do que você lê e todas estas coisas, não é uma desculpa para sua iniquidade. Não é na exposição inicial em um mundo decaído que está o  problema.

Vamos ao versículo 14: “Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência.” O problema não é o ambiente, o problema não é a exposição a algum estímulo pecaminoso. O problema não é que você esteja  no mundo. O problema somos você e eu. Nós somos o problema.

E aqui está como isso funciona, versículo 15: “Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte.” Você vê, o que produz o pecado não é algo fora de nós, mas algo dentro de nós. Algo em nós que pega a imagem pecaminosa, a circunstância pecaminosa, a situação pecaminosa, o pensamento pecaminoso, palavra, conceito, seja ele qual for, ou ação que está no mundo ao nosso redor, e começa a internalizá-los.

Isso é quando o verdadeiro problema se desenvolve. Somos tentados quando somos internamente levados, por nossa cobiça e luxúria, a começar a conceber e dar à luz a ‘criança’. E a ‘criança’ é o pecado.

Agora, o que é a imaginação? É o lugar onde a luxúria (concupiscência) concebe. É o lugar onde o pecado é entretido, onde a tentação é entretida e as fantasias começam a se desenvolver. Esta é a imaginação. O pecado trabalha em sua imaginação.

A imaginação é algo maravilhoso. É uma fonte criativa dentro de nós. É onde os artistas concebem a sua grande arte. É onde os músicos cultivam a música que, eventualmente, mostra-se em uma folha e é executada por uma orquestra. É onde as pessoas que possuem um sonho de alguma realização na vida humana começam a cultivar esse sonho, que finalmente vem a ser concretizado em sua vida.

É algo maravilhoso. Falamos com as crianças o tempo todo sobre a importância de estimular a sua imaginação no caminho certo, porque Deus lhe deu uma tremenda faculdade de sonhar e planejar, de inventar e de conceber as ideias que podem frutificar e ser fonte de grande bênção.

Mas é, infelizmente, nessa mesma imaginação, nessa mesma mente, onde se concebe, fantasia e se desenvolve a injustiça. Em Lucas temos também uma referência para a imaginação, no capítulo 1 v. 51, no Cântico de Maria, onde ela está louvando ao Senhor  por ter sido dito que ela seria a mãe do Messias.

Ela diz sobre o Senhor no v. 51: “Com o seu braço agiu valorosamente; Dissipou os soberbos no pensamento [imaginação] de seus corações.” Aqui, novamente, imaginação é mencionada. Agora, imaginação é, de alguma forma, mais profunda do que pensar. É o que energiza o pensamento e o transforma em fantasia, é o que ativa a emoção e a vontade de produzir a ação.

O pensamento vem, ele está energizado na imaginação, que move a emoção, a emoção move a vontade, a vontade cria a ação e, no caso do pecado, a ação cria a morte, como diz Tiago. É na imaginação que a sua carne vem à consciência. É na imaginação que as imagens de fora se tornam as imagens do interior.

É, portanto, em sua imaginação que você deve lançar para fora o pecado, antes de você cometê-lo. É na imaginação que você sente o coração e a raiva que poderiam levá-lo a assassinar alguém – se você não fosse restringido a cometer tal violência –  e é por isso que Jesus disse que você não está obedecendo a lei só porque você não mata alguém, pois, se você odeia seu irmão, você violou a lei.

É na imaginação onde você comete adultério em seu coração. É na imaginação, nas palavras de Tiago, onde a luxúria (concupiscência) é concebida.

E, como cristão, você tem que lutar contra a sua imaginação, porque você sabe o que é certo, mas é tentado pelo que é errado. E assim, há geralmente dois pensamentos em sua imaginação. Um pensamento é: ‘esse pecado trará satisfação. Este pecado vai me trazer algo que eu quero.’

O outro pensamento é: ‘este pecado vai desonrar a Deus’. Ambos os pensamentos estão na mente e ambos os pensamentos têm um elemento de verdade. O pecado vai lhe trazer algum prazer momentâneo, se não, você não estaria interessado nele.

O pecado traz satisfação à carne, isso é verdade, é momentânea e o preço é alto. E não é uma satisfação igual àquela produzida pela obediência, mas existem, como o livro de Hebreus diz, os prazeres do pecado por um momento.

Também é verdade que o pecado desonra a Deus, desagrada a Deus, viola o relacionamento com Deus e traz castigo sobre aquele que o comete. E, assim, é aí que reside a batalha. Quem vai triunfar? Qual dessas duas verdades irá mover sua emoção? Qual delas irá mover a sua vontade para fazer o que é certo? Qual vai controlar a sua imaginação? Essa é a batalha.

É por isso que é tão crucial ouvir as palavras de Josué 1:8, por exemplo: “Não se aparte da tua boca o livro desta lei; antes medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer conforme a tudo quanto nele está escrito; porque então farás prosperar o teu caminho, e serás bem sucedido.”

É por isso que o Salmo 19:14 diz: “Sejam agradáveis as palavras da minha boca e a meditação do meu coração perante a tua face, Senhor, Rocha minha e Redentor meu!“. É muito, muito importante como você alimenta a sua imaginação. Muito importante o que você coloca lá dentro.

Voltemos a 1 Crônicas, capítulo 29. Davi honrou o Senhor diante de toda a congregação, e isso, é claro, foi no momento em que Salomão estava sendo feito rei e Davi estava reunindo as ofertas para o templo que seria construído por Salomão.

E Davi louvou ao Senhor perante os olhos de toda a congregação e disse, versículo 10: “Por isso Davi louvou ao Senhor na presença de toda a congregação; e disse Davi: Bendito és tu, Senhor Deus de Israel, nosso pai, de eternidade em eternidade”. Dos versos 10 a 16, Davi está honrando o Senhor. Ele agradece ao Senhor.

E, em seguida, nos versículos 18 e 19: “Senhor Deus de Abraão, Isaque, e Israel, nossos pais, conserva isto para sempre no intento dos pensamentos do coração de teu povo; e encaminha o seu coração para ti.  E a Salomão, meu filho, dá um coração perfeito, para guardar os teus mandamentos, os teus testemunhos, e os teus estatutos; e para fazer tudo, e para edificar este palácio que tenho preparado.

Este foi um momento monumental na história de Israel. Este foi um ponto alto glorioso. E Davi diz: “… conserva isto para sempre no intento dos pensamentos do coração de teu povo“. Em outras palavras: ‘Senhor, se isto é para continuar, se este maravilhoso amor para contigo, a expressão de culto e este nível de devoção são para continuar no futuro, o Senhor terá que preservar a imaginação de Teu povo, pois lá é o lugar onde o pecado é concebido e onde dá à luz ao seu filho mortal.’

Amado, na imaginação, nos intentos do coração é onde a batalha é travada. E como eu lhe ensinei há meses atrás, quando nós estávamos falando sobre a consciência, em 2 Coríntios capítulo 1 e versículo 12, discutimos o fato de que Paulo disse que sua consciência estava limpa, em paz.

Quando você está lutando contra o pecado no interior da sua imaginação, sua consciência está lutando sozinha. Ninguém aqui fora sabe que você está travando essa batalha. As batalhas mais importantes você vai lutar sozinho em sua imaginação e em sua consciência e exigirão que você faça escolhas que, como Romanos 2 diz, irão te acusar ou escusar. Isso é o que a consciência faz.

E você precisa estar ciente de que a batalha tem que ser conquistada lá na sua imaginação. Se você vencer a batalha lá, você vai vencê-la do lado de fora. Mas, se você perder a batalha lá,  você vai perdê-la do lado de fora.

Quando alguém cai em iniquidade, cai em pecado, que é o produto de uma imaginação que fantasiou e concebeu o pecado e, consequentemente, veio a produzi-lo. Vença a batalha dentro de você. A questão é você. A questão não é o mundo em que você vive, mas é você.

Suponho que é provavelmente verdade que o mundo em que Paulo viveu foi, pelo menos, igual a nosso mundo de hoje, na sua libertinagem. E eu vou além. Deixem-me contar algo. Depois de ter passado todos estes muitos meses estudando o Antigo Testamento para escrever todas essas notas, eu não sei se eu poderia conceber uma cultura mais devassa do que aquela que cercou a nação de Israel e que os invadiu.

Até mesmo os judeus começaram a cometer o mesmo tipo de devassidão, tal como as nações ao redor deles. O resultado disso foi o cativeiro assírio em 722 aC, quando as dez tribos do Norte foram levadas para o cativeiro do qual realmente nunca mais voltaram, mas foram dispersos.

E então, em 586 aC, o reino do Sul, Judá e Benjamin, foram transportados para o cativeiro babilônico. Quando você lê o Antigo Testamento, entende porque isso aconteceu, e foi por causa da miséria e da maldade do povo de Israel, praticando prostituição, ganância, assassinato, sacrifício de crianças. Esse é o cenário horrendo do comportamento humano no tempo do Velho Testamento.

Na época do Novo Testamento, encontramos o cenário de uma religiosidade falsa e de falsa moral, o que chamamos de farisaísmo. Quando você lê a história do mundo no contexto do Novo Testamento, e quando você analisa o mundo gentio, onde Paulo desenvolveu seu ministério, a cultura dominante era degradada e devassa na medida em que nós conhecemos hoje na nossa cultura. A única diferença é que nós temos a mídia, que o mundo antigo não tinha.

Assim, a batalha foi sempre travada no mesmo ponto. Houve sempre as influências externas. Você não pode correr e se esconder disso, pois esse não é o problema. O problema é o desejo interno que é gerado em uma imaginação que não está sujeita à verdade.

Autodisciplina, assim, começa com a nossa teologia, sabendo quem nos possui, conhecendo o preço que foi pago por nós, lembrando-nos da aliança que fizemos com o Senhor quando chegamos a Ele, reconhecendo também que todo  pecado é uma violação do nosso relacionamento com Deus.

E, então, a autodisciplina se move a partir da nossa teologia para a nossa própria espiritualidade pessoal e, assim, a autodisciplina se torna uma questão de controlar a imaginação. E, para fazer isso, você tem que esconder a Palavra de Deus em seu coração para que ela esteja soando alto e claro, ativando a sua consciência.

Você se lembra o que eu disse sobre a consciência quando estudamos sobre isso provavelmente há dois anos? A consciência não é em si uma lei moral, é apenas um dispositivo que reage à lei moral. Você poderia descrevê-la como uma claraboia, uma janela de vidro no teto para permitir a entrada de luz natural em um ambiente.

Não tem, em si, a luz. É apenas uma claraboia que permite que a luz entre. A luz externa é a verdade de Deus, a consciência é a claraboia que permite a entrada da luz. E você se lembra, Paulo disse para mantê-la limpa, a fim de que a luz entre.

Você poderia também descrever a consciência de outra forma, e eu fiz isso no livro ‘O Desaparecimento da Consciência’. Houve um acidente de avião na Espanha. Foi um acidente trágico. Um avião se chocou contra uma montanha e todos nele morreram. Era um voo da Avianca Airlines.

Quando os investigadores ouviram o gravador de voo, ouviram minutos antes do acidente, a voz do computador de bordo dizendo: “Puxe, puxe, puxe, puxe, puxe para cima.” Inexplicavelmente o piloto disse: “Cale a boca, gringo!!”, em Inglês,  desligou o aviso de alerta do computador de bordo e em questão de minutos o avião se chocou contra a montanha.

Agora, a caixa de voz do computador do avião é como a consciência. Se a consciência diz: ‘puxe, puxe para cima, pare, não faça isso!’ E ela simplesmente reage à informação que lhe é fornecida, como naquele avião. A caixa de voz do computador estava informada da realidade. E o que estava informando a realidade à caixa de voz? Radar.

O radar reconheceu que aquele avião estava voando para uma colisão com uma montanha. E é assim que a nossa consciência funciona. Sã doutrina é a realidade. Compreensão bíblica é a realidade. E se você tiver realidade, a realidade informa a consciência. E onde você tem a sã doutrina informando a consciência limpa, você vai ouvir:  ‘puxe, puxe para cima, pare, não faça isso, não faça isso!’, embora você queira fazer.

Vivemos em uma cultura que assalta de duas maneiras. Primeiro de tudo, a nossa sociedade quer mudar o código moral. E é assim que a sociedade pensa: ‘vamos pegar a Bíblia e nos livrar dela! Nós não aceitamos a Bíblia como nossa lei moral, por isso vamos inventar um novo código moral. Deixemos a definição de moral a cargo da mídia e seus artistas.’

Nós vamos criar a uma nova moralidade. Vamos deixar que a revolução sexual crie a moral e os grupos de gays e lésbicas.’ E como fica a consciência agora? Bem, a consciência tem um problema, porque ela em si mesma não é uma lei moral, mas é meramente um dispositivo que reage ao que você acredita, aos seus valores morais.

Os muçulmanos têm consciência. Budistas têm consciência. Eles não sabem a verdade de Deus, mas sua consciência é um mecanismo humano que reage ao seu sistema de crenças. Então, o que acontece em nossa sociedade é que ela está fundamentada em um  sistema moral errado, enganoso, infernal, condenável.

E agora o que você tem é informação errada indo para a consciência. Assim, o ‘radar’ não funciona. Além disso, temos a psicologia mundana. E qual é o objetivo da psicologia moderna? É treinar as pessoas a ignorar a sua consciência.

Ela diz mais ou menos assim: ‘Sua consciência está fazendo você se sentir culpado? Isso está errado. Você não é uma pessoa má, você é bom, você apenas não possui autoestima. Na verdade, você é muito melhor do que você pensa que é e a maioria dos seus problemas existem porque você não sabe como você realmente é bom. Então, quando sua consciência diz que você é culpado, isso está errado e você deve silenciar essa consciência.’

Assim, por um lado, a cultura desenvolve um novo sistema de moral e, por outro lado, treina as pessoas a ignorar a sua consciência. Então, você tem toda uma civilização de pessoas de pedra, voando às cegas e que irão quebrar e queimar todo o lugar, assim como aquele avião.

E nós estamos no meio disto como cristãos que têm a Palavra de Deus, que conhecem a Palavra de Deus com uma consciência plenamente informada, clara. Também somos orientados a ouvir a consciência. E quando a consciência diz: ‘Suba, não faça isso, pare, faça o que é certo’, ela é um dom dado por Deus.

Podemos ainda comparar a consciência com a dor física. Você pode pensar que a dor não é uma ferramenta boa, mas é. A dor é boa porque ela diz a seu corpo que há um problema. Se você não sentir nenhuma dor, você apenas morreria, porque você não iria tentar resolver ou remediar a sua condição.

Lembro-me de anos atrás fazer um estudo sobre a lepra, porque eu estava interessado no que a Bíblia diz sobre leprosos. E, assim, eu pesquisei o lado médico da lepra. Antes disso, eu sempre presumi que a lepra era uma doença que devorava o corpo, pois toda vez que eu vi um leproso, e eu tinha visto alguns, que eu vi fotos ou li sobre leprosos, não lhes restaram dedos, narizes, orelhas, mas havia grandes buracos em seus rostos. Seus braços e pés tinham desaparecido ou eram apenas tocos.

Eu presumia, então, que esta é uma doença que começa nas extremidades do corpo e segue a devorá-lo. Mas, quando eu estudei, descobri que não é nada disso. O que a lepra faz é matar todos os nervos, fazendo com que o doente não possa sentir nada, nenhum sentido, nenhuma dor. Dessa forma, todas as  extremidades do corpo vão sendo desgastadas.

As pessoas que são leprosas perdem o nariz, por exemplo, por esfregá-lo com força a ponto de desgastá-lo e arrancá-lo fora, porque não podem sentir o quão forte estão esfregando e os leprosos, literalmente, esfregam e arrancam para fora todas as suas extremidades, como orelhas, dedos.

Algumas das imagens de doentes nessas circunstâncias são muito grotescas, você vê, eles não podem sentir nada e quando você não pode sentir a dor, você entra num modo de autodestruição.

Quando a dor vem, é a maneira de o corpo dizer: ‘pare de fazer isso, você está prejudicando seu corpo!’ Do mesmo modo, quando a consciência começa a gritar com você, é um dom de Deus para você, dizendo ‘pare com isso, você está prejudicando a sua alma!!’.

E é no nível da consciência que você tem que travar a batalha  para controlar a sua imaginação. Portanto, mantenha a sua consciência altamente informada. Você sabe, essa é uma das maravilhosas vantagens de estar em uma igreja e ser ensinado e treinado na Palavra de Deus. É maravilhoso para aqueles entre vocês que conhecem a Palavra de Deus de forma sadia e solidamente.

Por quê? Porque sua consciência é plenamente informada. E é muito importante que você não acredite nas mentiras da psicologia moderna que querem te despojar de qualquer culpa e fazer você se sentir completamente exonerado de qualquer culpa, de qualquer tipo.

Essa é uma maneira muito, muito devastadora para silenciar um dom que nos foi concedido por  Deus, que funciona como um sistema de alerta nas almas dos homens e mulheres: a consciência. E essa campanha da psicologia moderna é muito eficaz, acredite.

Mas aqui estamos nós, como cristãos, com uma consciência plenamente informada, uma consciência plenamente sensibilizada e sabemos o suficiente para ouvir quando ela fala, pois a consciência do cristão é informada pela Palavra de Deus e nos capacita a controlar a  imaginação.

Tudo bem, deixe-me dar-lhe um quinto ponto e pode haver muitos mais, e provavelmente devem haver, mas com certeza eu quero dar-lhes mais este e depois vamos concluir.

  1. Se quiser ser uma pessoa autodisciplinada, você deve se concentrar em uma causa nobre fora de si mesmo. Talvez eu pudesse dizer isso assim: as pessoas cujas vidas são focadas em Deus não se importam consigo mesmas. Você sabe o que quero dizer com isso? Pessoas que estão concentradas nos propósitos divinos têm pouca consideração por seu próprio sucesso, conforto, realização.

Em Atos 20, Paulo diz no versículo 22: “Eu estou indo para Jerusalém…”. E ele disse, nos versos seguintes, em outras palavras: ‘Eu estou ligado no espírito. Quer dizer, eu estou obrigado, eu sou conduzido, eu tenho que ir. Eu estou no meu caminho para Jerusalém e eu não sei o que vai acontecer comigo lá. Eu sei que estou indo  direito para a boca do leão, eu sei disso. Eu conheço o que pensam sobre mim, eu sei que isso pode resultar em tragédia, prisão, morte, eu sei disso.’
Além disso, no versículo 23, ele diz: “o Espírito Santo de cidade em cidade me revela, dizendo que me esperam prisões e tribulações.” Paulo estava dizendo que sabia o que iria lhe acontecer, mas que iria seguir seu ministério assim mesmo. Por que? Verso 24: “Mas de nada faço questão, nem tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira, e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus.

Você vê, a questão era que havia algo muito além de Paulo que o levou a não fazer conta da própria vida. Pessoas cujas vidas realmente se importam com Deus não se importam consigo mesmas. Elas realmente não se colocam em primeiro plano. Elas estão comprometidas com uma causa nobre fora de si mesmas.

Agora, essa abnegação em prol de uma causa maior ocorre também em assuntos simples, seculares. Alguém, por exemplo, que componha obras-primas da música tem um compromisso transcendente para com esse processo, que faz com que a pessoa  seja capaz de perseverar, sem dormir, negar a si mesma todos os tipos de conforto e distrações, a fim de alcançar o objetivo maior, de alcançar esse fim nobre.

Pessoas que têm um grande desejo de se destacar em algum projeto, seja no campo acadêmico, ou científico, ou seja o que for na realização humana, fazem imensos sacrifícios, porque há uma causa nobre além delas mesmas. Essas pessoas fazem grandes sacrifícios.

Certamente, muito do que desfrutamos hoje foi fruto do trabalho árduo executado por pessoas que sacrificaram tudo, e em alguns casos, suas vidas. E às vezes a causa nobre é muito banal, como chegar ao topo do Monte Everest. Quem se importa? Ou algo assim. Mas, é uma causa transcendente que leva as pessoas a se sacrificarem a um nível que às vezes é difícil de entender.

E, certamente, o mesmo é verdade para nós, como cristãos. Você vai começar a puxar as pontas soltas de sua vida quando você não estiver vivendo mais para si mesmo, quando você estiver muito além disso. A disciplina é a única maneira de você poder chegar à meta que está além de você.

Você sabe que não pode alcançar o alvo com um esforço medíocre. Você só pode conseguir isso com todo o esforço, dando tudo o que você tem, como disse o apóstolo Paulo:Porque para mim o viver não é Paulo, é Cristo. Quer dizer, seu alvo era o avanço da glória de Jesus Cristo.

E esse nobre objetivo transcendente o arremessou para além de pensamentos pessoais, de conforto e criou no apóstolo Paulo uma imensa capacidade de autodisciplina e auto sacrifício, a fim de alcançar o que era tão nobre. Ele disse que tudo o que fez, foi para a glória de Deus.

E nos encorajou a comermos,  bebermos, ou seja lá o que fizermos, que façamos tudo para a glória de Deus. Quer dizer, essa é a maneira como ele viveu. Ele disse: ‘Se eu vivo, é para o Senhor. Se eu morrer, eu morro para o Senhor. Então, se eu viver ou morrer, eu sou do Senhor.’

Se eu for lá e eles me colocarem em correntes, tudo bem. Se me colocarem na prisão, tudo bem. Se tirarem a minha vida, tudo bem. Se eu tiver que ficar sem comida e se eu tiver que estar noite e dia sem dormir, com fome e em perigo (como ele lista em 2 Coríntios 11), se eu tiver que ser açoitado com varas, chicoteado, apedrejado e deixado como morto, ou ser um náufrago…. Tudo bem…’

Porque há algo tão grande e tão sublime que fazem esses sacrifícios serem nada, absolutamente nada. E essa é a honra do Senhor Jesus Cristo, o avanço do Evangelho, a esperança de algum dia ouvir o ‘bem está, servo fiel, entre no gozo do teu Senhor.’

Paulo podia orar com todo o empenho: “Pai nosso, que estais no céu, santificado seja o Teu nome, seja feita a Tua vontade, venha o Teu reino”. Porque isso era o que o consumia. Era o avanço do reino de Deus. Era o cumprimento da vontade de Deus. Era a glória do nome de Deus. Era isso.

É uma questão de viver por uma  grande causa. É uma questão de ficar além de si mesmo. O que também não é fácil em nosso mundo, pois temos a sociedade mais egoísta, certamente, na história da América e talvez na história da humanidade. O nosso nível de egoísmo está além da descrição.

E vivendo nesse tipo de sociedade onde tudo é focado no indivíduo, em sua auto realização,  faz com que seja muito difícil perder a vida pela causa de Cristo.

Quando falamos sobre as tendências atuais em evangelismo, dissemos que esta é uma das tendências mais trágicas: este novo tipo de pregação que é toda construída em torno da realização humana, este novo tipo de evangelizar onde tudo o que é exposto para a pessoa não convertida é a realização pessoal que o Senhor pessoalmente irá cumprir em sua vida.

Porque quando essa é a razão para que alguém venha a Cristo, a  busca é apenas por auto realização, e este é um processo totalmente inverso da santificação.

A pessoa ouviu esse falso evangelho e pensa: ‘bem, aqui estou eu, Jesus, complete-me, satisfaça-me, tape todos os buracos na minha vida, dê-me relacionamentos perfeitos, traga-me felicidade, sucesso…’.

Quando, na verdade, uma atitude adequada seria: ‘Senhor, salva-me por causa de Jesus, eu não sou digno de qualquer coisa e, de alguma forma, faça a minha vida ser útil para o avanço do Teu Reino, mesmo que isso me custe tudo.’ Isso é viver por uma causa nobre. Isso é ficar além de si mesmo e isso é absolutamente essencial.

Você vê, a questão de autodisciplina é uma questão de pensamento correto, é uma questão de batalha no interior. É uma questão de lembrar a quem você pertence, lembrar do pacto que fez quando prometeu ser obediente e manter a integridade dessa promessa, reconhecendo o pecado como uma violação de sua relação com o Senhor e aprender a controlar a sua imaginação, que é a parte de sua mente onde a luxúria concebe e produz o pecado, mas que é santificada pelo profundo conhecimento da Palavra de Deus.

Também é necessário responder  instantaneamente a uma consciência sensível. E então, finalmente, em nossa lista de cinco, viver a sua vida por uma causa nobre, que está muito além de você mesmo, de modo que a crítica injusta, o fracasso, a reputação, o conforto, não importarão. Apenas o que importa é o avanço da glória de Deus e a honra de Jesus Cristo no Seu Reino.

E agradeço ao Senhor, com todo o coração, porque muitos de vocês são cristãos disciplinados, pois isso é evidente em suas vidas e na vida desta igreja.

Vamos orar.

Senhor, nossos corações são encorajados com a verdade, encorajados porque Tu mostraste para nós como devemos viver, como ordenar nossa vida.
Mas nós somos, ao mesmo tempo, desencorajados por saber o que sabemos e mesmo assim falhamos tantas vezes.
Ajuda-nos, Senhor, a sermos fortes no homem interior, a termos autodisciplina espiritual que nos leve a vencer a batalha no nosso interior e, assim, a sermos triunfantes no exterior. Dê à Tua igreja esta disciplina.
Que todos nós possamos ver a realidade desses padrões em nossos corações e, quando deixarmos de vê-los, possamos nos arrepender e pedir a Teu Espírito para nos renovar, porque queremos ser disciplinados, pois isto Te honra e nos faz úteis e frutíferos.
E o que mais importa nesta vida, senão que devemos dar frutos para a eternidade?
Então nos ajude, Senhor, a amarrar todas as pontas soltas, para estabelecer nossas prioridades na Tua palavra e mantê-las para a Tua glória, até que Jesus venha, em Teu nome oramos. Amém.


Este sermão é uma série de 2:

A autodisciplina do cristão – 1
A autodisciplina do cristão – 2


Este texto é uma síntese do sermão “Fundamental Christian Attitudes: Self-discipline – 2”, de John MacArthur em 01/12/1996.

Você poderá ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

http://www.gty.org/resources/sermons/90-131/fundamental-christian-attitudes-selfdiscipline-part-2?Term=Self%20discipline

Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno


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