Carta às 7 igrejas: Éfeso

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No tradicional e antigo calendário católico, mesmo antes da Idade Média, amanhã, 24 de agosto, foi sempre celebrado como ‘Dia de São Bartolomeu’. Nesse dia, no ano de 1572, protestantes franceses foram assassinados pela Igreja Católica Romana.
Foi o ‘Massacre do dia de São Bartolomeu’. Uma onda de violência da multidão católica que resultou na morte de 3.000 protestantes. Historicamente, isto fez o dia de São Bartolomeu se tornar significativo.

Mas, em 24 de agosto de 1662, 90 anos depois, novamente no dia de São Bartolomeu, um evento marcante e significativo aconteceu na Inglaterra.
Dois mil fiéis pastores puritanos Ingleses foram permanentemente expulsos de suas igrejas pelo governo nacional. Esse evento histórico ficou conhecido como o ‘Ato da Uniformidade’.

A ideia era silenciar todos aqueles que estavam pregando algo diferente das heresias da época.
Não foi um ato isolado. Os pastores puritanos foram despojados de seus púlpitos. Foi, de fato, talvez o maior desastre espiritual na história da Inglaterra.
É um desastre que dividiu a história espiritual da Inglaterra em antes e depois deste fato.

Matthew Mead, um dos puritanos, disse: “Este dia fatal merece ser escrito em letras pretas no calendário da Inglaterra”.
Ele disse que aquilo foi o maior desastre espiritual sobre a Inglaterra. Foi conduzido por líderes apóstatas e consistiu, essencialmente, em um estrondoso ataque à Bíblia, ao Evangelho e ao Senhor Jesus Cristo.

Murray escreveu: “Após o silenciamento dos pastores puritanos, veio uma época de racionalismo, de frieza no púlpito, de indiferença entre o povo. Uma era de ceticismo e mundanismo que transformou a religião nacional inglesa em uma mera paródia de cristianismo”.

Em 1852, J B Marsden escreveu: “Como provas do descontentamento de Deus, desastres em sequência começaram a acontecer. Em cinco anos, Londres foi devastada duas vezes”.
Ele e outros homens viram esses desastres como o juízo de Deus contra a Grande Ejeção [nome pelo qual ficou conhecido o ato de expulsão dos pastores puritanos].

A expulsão dos puritanos ocorreu em 1662. Em 1665, uma praga, transmitida por pulgas de ratos, matou 25% da população de Londres. Historiadores dizem que a cidade foi tomada por cadáveres.
Um ano depois, um grande incêndio consumiu a casa de 70 a 80 mil pessoas, destruindo completamente 90 templos de igrejas.

Marsden, mais uma vez, escrevendo em 1852, disse: “Outras calamidades seguiram-se mais duradouras e muito mais terríveis. A religião foi quase extinta. A lâmpada de Deus saiu. Seguiu-se, na Inglaterra, uma cultura de frieza, uma cultura de esterilidade”.

J C Ryle, que nos enriqueceu tão grandemente com seus escritos, diz, “A ‘Grande Ejeção’ foi um prejuízo para a causa da verdadeira religião cristã na Inglaterra, que provavelmente nunca será reparado”.

Os 25 anos após a Grande Ejeção foi marcado por um longo histórico de tentativas de silenciar os pregadores puritanos, então dispersos.
Por 25 anos, houve dura perseguição aos puritanos, onde quer que etivessem. Eles se esforçaram em calar a boca deles.
Pregar a verdade de Deus tornou-se um crime. É provavelmente verdade que a Inglaterra nunca se recuperou espiritualmente desse trágico evento.

[Nota do site: John Bunyan, autor de “O Peregrino” foi um desses puritanos perseguidos. Passou 12 anos preso. E de fato, antes um dos berços do evangelho, hoje o verdadeiro cristianismo está quase extinto na Inglaterra].

João escreveu: “Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas” (João 3:20).

Eu não sei exatamente onde estamos na história americana. Eu não sei se há uma ‘grande ejeção’ em andamento. Eu não sei quando a verdade de Deus proclamada se tornará um crime.
Mas eu sei que há uma hostilidade crescente em direção à verdade. Esta é uma geração comprometida em fazer o mal a uma velocidade vertiginosa; e todo aquele que faz o mal odeia a luz.
Então, eu penso que, mais cedo ou mais tarde, enfrentaremos crescente hostilidade do paganismo, rapidamente explodindo e dominando.

Infelizmente, não só os prédios de igrejas foram queimados na Inglaterra após à Grande ejeção, mas a própria igreja, como eu disse, parece nunca se recuperar.
O que vai acontecer conosco quando a hostilidade atingir esse nível, se isso acontecer? Será que vamos seguir essa história? Eu certamente espero que não. A igreja tem sido sempre uma ilha num mar de paganismo; foi assim desde seu início.

A maior ambição do servo fiel do Senhor William Tyndale (1494-1536), chama por nós. Ele disse:
“Invoco a Deus como testemunha, para o dia em que deva comparecer ante nosso Senhor Jesus, que nunca alterei nem sequer uma sílaba da Palavra de Deus contra minha consciência, nem o faria hoje, ainda que me entregassem tudo quanto nesta terra há, seja honra, prazeres ou riquezas”.
Isto lhe custou a vida. Ele foi morto por causa da verdade, o crime de proclamar a verdade, o crime de traduzir Escrituras.

[William Tyndale foi condenado à morte por haver colocado as Escrituras na mão do povo inglês. No dia 6 de Outubro de 1536 ele foi estrangulado e logo após queimado na estaca em público. Porém, suas últimas palavras antes de morrer foram: “Senhor, abre os olhos do Rei da Inglaterra!”].

Este é o mesmo mundo nas mãos do mesmo diabo, na mesma escuridão, compelido aos mesmos crimes, maldade, injustiça e iniquidade.
É um novo dia, de certa forma para a igreja. Em nosso país, de qualquer forma, ser cristão não é um crime. Suponho que nunca imaginamos antes que seria. Poderíamos basicamente pregar qualquer coisa no passado.
Quanto tempo isso vai ser permitido, eu não tenho certeza. Mas para vermos claramente o que o Senhor nos pede, nos próximos dias, eu quero que você olhe para Apocalipse 2.

Em Apocalipse 2 e 3, temos sete cartas escritas às sete igrejas: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia. Essas são todas cidades da Ásia Menor, o que seria a Turquia moderna.

João, você se lembra, estava na Ilha de Patmos (Apocalipse 1:9). Ele estava exilado porque era crime pregar a Palavra de Deus e testemunhar de Jesus. [Patmos era um lugar em que os romanos mandavam pessoas banidas].
Ele foi enviado para uma colônia-prisão, em seus 90 anos, para quebrar rochas. E quando ele chega lá, o Senhor dá-lhe as visões surpreendentes do livro de Apocalipse.

A visão de abertura, que vimos na semana passada, é uma visão de Cristo se movendo em Sua igreja.
No verso 12 do capítulo 1 de Apocalipse, João ouve uma voz, ele se vira, e vê sete castiçais de ouro, que o versículo 20 diz que representam as sete igrejas.
E depois há também sete estrelas na mão direita do Senhor, que ele vê entre as igrejas. As estrelas são os sete mensageiros, provavelmente os sete pastores dessas sete igrejas.

Entre os versos 13 e 16 do mesmo capítulo, temos uma descrição de como João viu o cordeiro glorificado.
Jesus é visto com uma “túnica até aos pés e cingido pelos peitos com um cinto de ouro” (v.13). Essa é Sua aparência sacerdotal.
“Sua cabeça e cabelos eram brancos como lã branca, como a neve” (v.14). Essa é a Sua sabedoria, sua glória.
“Seus olhos eram como uma chama de fogo. Seus pés eram como bronze polido” (v.14-15). Essa é a Sua onisciência. E em resposta ao que vê, Ele julga.

“Sua voz como o som de muitas águas” (v.15). Esta é Sua Palavra.
“E na mão Ele possui sete estrelas” (v.16). Estes são sete pastores.
“E de fora de sua boca vem uma espada afiada de dois gumes” (v.16). Para defender Sua igreja.
“E seu rosto é como o sol que brilha na sua força” (v.16). A imensurável glória divina em Cristo.

Esta é uma exuberante manifestação da glória de Jesus Cristo. É tão grande que João cai como um homem morto (v.17).
Então, João escreve: O Senhor “pôs sobre mim a sua destra, dizendo-me: Não temas; Eu sou o primeiro e o último; E o que vivo e fui morto, mas eis aqui estou vivo para todo o sempre. Amém. E tenho as chaves da morte e do inferno” (v.17-18).

Então o Senhor lhe diz: “Escreve as coisas que tens visto, e as que são, e as que depois destas hão de acontecer; O mistério das sete estrelas, que viste na minha destra, e dos sete castiçais de ouro. As sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete castiçais, que viste, são as sete igrejas” (v.19-20).
Estas eram igrejas reais em cidades reais em sete lugares da Ásia Menor. Mas elas são como igrejas ao longo da história. Sempre haverá igrejas como essas igrejas.
Ásia Menor era pagã. Elas são, de novo, “ilhas em um mar de paganismo”. Você percebe que elas estão sofrendo. João está sofrendo.
João diz: “Eu, João, que também sou vosso irmão, e companheiro na aflição, e no reino, e paciência de Jesus Cristo…” (v.9).

Estas são as igrejas que experimentavam tribulação, perseguição, invasão do mundanismo, falsos mestres, falsas doutrinas, frieza, indiferença. Estas são as igrejas como quaisquer outras igrejas verdadeiras, em toda a história da Igreja.
Duas delas são fiéis: Esmirna e Filadélfia. Só há elogios. Cinco delas estão em perigo grave: Éfeso, Pérgamo, Tiatira, Sardes e Laodicéia.
Nosso Senhor fala a cada uma dessas igrejas, confrontando o perigo que ameaçava envolvê-las, uma vez que estavam situadas no meio de uma cultura pagã.

Há uma espécie de sequência para elas também – vamos ver isso à medida que avançarmos.
Mas tenha em mente algumas coisas: Estas eram igrejas verdadeiras, igrejas históricas em cidades reais, eram compostas de crentes reais.
Mas elas são representativas das igrejas ao longo da história. Algumas delas são boas e fiéis, mas isso é a exceção.
A maioria delas é uma mistura do bem e mal. Aprendemos os perigos que enfrentamos num mundo hostil.

Jesus se apresenta em formas diferentes, todas elas manifestando sua excelsa glória. Isso é como Cristo é descrito na primeira parte do capítulo 1. Em cada caso, Cristo está falando a Sua Igreja.

A Éfeso Ele diz: “Isto diz aquele que tem na sua destra as sete estrelas, que anda no meio dos sete castiçais de ouro” (Apocalipse 2:1).
A Ismirna: “Isto diz o primeiro e o último, que foi morto, e reviveu” (Apocalipse 2:8)
A Pérgamo: “Isto diz aquele que tem a espada aguda de dois fios” (Apocalipse 2:12)
A Tiatira: “Isto diz o Filho de Deus, que tem seus olhos como chama de fogo, e os pés semelhantes ao latão reluzente” (Apocalipse 2:18)

A Sardes: “Isto diz o que tem os sete espíritos de Deus, e as sete estrelas” (Apocalipse 3:1).
A Filadélfia: “Isto diz o que é santo, o que é verdadeiro, o que tem a chave de Davi; o que abre, e ninguém fecha; e fecha, e ninguém abre” (Apocalipse 3:7).
A Laodicéia: “Isto diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus” (Apocalipse 3:14).

Veremos hoje a carta à igreja de Éfeso.

Apocalipse 2
1 Escreve ao anjo da igreja que está em Éfeso: Isto diz aquele que tem na sua destra as sete estrelas, que anda no meio dos sete castiçais de ouro.

Então nós dissemos na semana passada que o conteúdo do capítulo 1 é Cristo trabalhando em Sua igreja, a obra de Cristo em Sua Igreja. No capítulo 2 é a palavra de Cristo à sua Igreja. Agora, esta é a igreja em Éfeso.
A cidade de Éfeso (na atual Turquia) é hoje chamada de “Kusadasi”. As ruínas da antiga Éfeso ainda estão incrivelmente notáveis lá. É uma das grandes ruínas existentes no mundo. É uma incrível experiência ir lá.

A igreja em Éfeso era espiritualmente forte. Nela havia líderes, pregadores e mestres de altíssima qualidade.
Provavelmente foi fundada por Áquila e Priscila, que foram deixados lá por Paulo (Atos 18:18-21).
Mais tarde, Apolo veio e influenciou aquela igreja. Ele veio de Alexandria e era poderoso nas Escrituras. Ele só conhecia o batismo de João. Então Áquila e Priscila ensinaram-lhe o Evangelho de Jesus Cristo (Atos 18:24-28).

Ele deixou um grupo de seguidores de João Batista lá, a quem Paulo mais tarde encontrou em sua terceira viagem missionária, quando chegou a Éfeso.
Ele esclareceu o Evangelho para os seguidores de João Batista, batizou-os em nome do Senhor Jesus, e então permaneceu por lá três anos (Atos 19).
Paulo treinou os pastores ali (Atos 20). Eles o amavam tanto que levantaram profundos lamentos na sua partida (Atos 20:36-38).

Mais tarde, Timóteo pastoreou a igreja em Éfeso. De fato, quando Paulo escreveu para ele, deu-lhe instruções sobre como fazê-lo (I Timóteo 1:3).
Outro servo fiel, chamado Tíquico, pastoreou lá (II Timóteo 4:12). E, finalmente, o grande apóstolo João.

[Após exercer o seu ministério em Jerusalém, João foi pastor em Éfeso, morreu entre os anos 95 e 100. Policrates (ano 190), bispo de Éfeso, escreveu: “João, que se reclinara no seio do Senhor, depois de haver sido uma testemunha e um mestre, dormiu em Éfeso”. Com sua morte se encerrou uma era, a das testemunhas oculares da vida, ministério, morte, ressurreição e ascensão de Jesus].

Então você diria que eles tiveram pastores de altíssima qualidade: Áquila, Apolo, Paulo, Timóteo, Tíquico e João.
Realmente foi firmemente fundada na terceira viagem missionária de Paulo, quando ele esteve lá por três anos. Foi um início surpreendente.

Enquanto o Evangelho chega com Áquila e Priscila, e é enriquecido por Apolo, as coisas realmente avançam no capítulo 19.
Paulo chegou a Éfeso e encontrou alguns discípulos. Eles eram os produtos de Áquila e Priscila.
Ele disse-lhes: “Vocês receberam o Espírito Santo quando creram?”. Eles disseram: “Não, sequer ouvimos que há um Espírito Santo”.
Eles eram ainda ligados a João Batista. Paulo lhes diz a verdade do Evangelho; eles creem, são batizados; e em certo sentido, a Igreja nasce.
A partir de Éfeso, outras cidades ouviram o Evangelho.

“E [Paulo], entrando na sinagoga, falou ousadamente por espaço de três meses, disputando e persuadindo-os acerca do reino de Deus. Mas, como alguns deles se endurecessem e não obedecessem, falando mal do Caminho perante a multidão, retirou-se deles, e separou os discípulos, disputando todos os dias na escola de um certo Tirano.
E durou isto por espaço de dois anos; de tal maneira que todos os que habitavam na Ásia ouviram a palavra do Senhor Jesus, assim judeus como gregos. E Deus pelas mãos de Paulo fazia maravilhas extraordinárias. E foi isto notório a todos os que habitavam em Éfeso, tanto judeus como gregos; e caiu temor sobre todos eles, e o nome do Senhor Jesus era engrandecido.
E muitos dos que tinham crido vinham, confessando e publicando os seus feitos. Também muitos dos que seguiam artes mágicas trouxeram os seus livros, e os queimaram na presença de todos e, feita a conta do seu preço, acharam que montava a cinqüenta mil peças de prata. Assim a palavra do Senhor crescia poderosamente e prevalecia”
(Atos 19:8-20)

Mais tarde, nesse capítulo 19, há um motim por causa da deusa Diana. Os inimigos do Evangelho começam uma revolta. Paulo teve que se ocultar para salvar sua vida.
Por que houve o motim? Porque o Evangelho destruiu o negócio de venda de ídolos em Éfeso (Atos 19:24-41). Foi um incrível começo.

Éfeso era o lugar onde João viveu, acho que cerca de 100 quilômetros de onde ele estava na ilha de Patmos. Aparentemente, João foi para lá depois da queda de Jerusalém (ano 70). Ele estava em seus 90 anos, era o último apóstolo e patriarca da era da igreja.
Aparentemente Pérgamo era a capital real, mas Éfeso foi, de longe, a maior cidade. Foi chamada a “Luz da Ásia”, por muitas razões.
Ela tinha o maior porto da Ásia Menor e havia também quatro grandes estradas que levavam a Éfeso. E assim, era um lugar de intenso comércio de bens.

Em tempos posteriores, quando os mártires cristãos foram trazidos da Ásia para serem jogados aos leões nas arenas de Roma, Inácio chamou Éfeso de a “Estrada dos Mártires”.
Éfeso tornou-se a ‘feira de vaidades’ do mundo antigo. Politicamente, era uma cidade livre. Roma deu a Éfeso o direito de se governar. Não havia tropas romanas lá, ela tinha a sua própria independência.

Em Éfeso, todos os anos, no mês de maio, havia os “grandes jogos” rivalizando com os jogos olímpicos. Havia atletismo, dramas e sacrifícios.
Quando Paulo disse: “Ficarei, porém, em Éfeso até ao Pentecostes; Porque uma porta grande e eficaz se me abriu; e há muitos adversários” (I Coríntios 16:8-9), ele se referia à oportunidade de se pregar às multidões durante este evento.
Provavelmente, ele não conseguiu manter-se por causa do motim iniciado pelo ourives, por causa da deusa Diana (Atos 19:24-30).

Do ponto de vista religioso, Éfeso era o centro do culto a Ártemis ou Diana – às vezes chamada de Ártemis, às vezes de Diana.
Uma das características do antigo paganismo ea a perda da distinção entre os sexos. Isso não é novo, isso é parte do antigo paganismo.

Diana ou Ártemis foi a deusa mais sagrada no antigo mundo greco-romano civilizado. O templo de Diana, em Éfeso, foi uma das Sete Maravilhas do mundo antigo.
Esse templo era um santuário para os criminosos. Os piores criminosos do mundo encontraram segurança em Éfeso, o que só levou à libertinagem da cidade.

Os ricos mantiveram seus tesouros no santuário interno do templo, porque era sagrado. Era uma coisa bem estranha ter o mesmo templo como um santuário para criminosos e como um banco.
Foi um grande negócio, e o grande negócio era a venda de ídolos. Historiadores dizem que havia um grande número de eunucos, milhares de sacerdotisas, prostitutas, dançarinas, etc.
A adoração era uma espécie de histeria: devassidão, embriaguez, desvio sexual, loucuras de mutilações, etc. Não havia qualquer pudor.
Heráclito escreveu que a moral daqueles adoradores no templo de Diana era pior do que a moral dos animais. Ele disse: “O povo que se envolvia neste tipo de adoração só servia para ser afogado”. [Um declaração de juízo pejorativo.]

Inserida no meio desta cidade de tanto pecado, estava um grupo de homens e mulheres proclamando a mensagem de Jesus Cristo.
E, apesar de seu ambiente terrível, algumas das maiores vitórias da graça foram ganhas na cidade de Éfeso. A igreja floresceu; a igreja cresceu.
A pregação de Paulo tinha afetado o culto dos ídolos, prejudicando seu comércio. O pequeno e fiel rebanho começou a crescer, ensinado por Timóteo, e, finalmente, por João.
Todas as pessoas que se converteram romperam com aquela cultura dominante e maligna. Esta é uma igreja que deve ser elogiada.

Apocalipse 2
2 Conheço as tuas obras, e o teu trabalho, e a tua paciência, e que não podes suportar os maus; e puseste à prova os que dizem ser apóstolos, e o não são, e tu os achaste mentirosos.
3 E sofreste, e tens paciência; e trabalhaste pelo meu nome, e não te cansaste.
6 Tens, porém, isto: que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio.

“Conheço as tuas obras, e o teu trabalho”. No original grego, a palavra é “Kopos”, que significa ‘um labor até ao ponto de exaustão’ (trabalho duro).
Um tipo de labuta que exige o máximo da mente e da força dos músculos. Esta era uma igreja de pessoas que trabalharam para o bem do reino, para o bem do Evangelho.
Eles não eram preguiçosos e indiferentes, eles estavam ocupados. Eles estavam dando tudo o que tinham. Um cenário contrário ao que vemos no meio cristão de hoje, composto em grande parte por meros espectadores.

Há um grande número de espectadores e observadores que gostam de comer o fruto da colheita, mas não querem participar do planejamento e do cultivo.
Não era o caso Éfeso. Ali estava uma igreja engajada em arar o campo e semear a semente do Evangelho de Cristo. Havia uma prática do Evangelho.

Os cristãos de efésios não só eram conhecidos por seus atos e sua labuta, mas por sua perseverança e paciência. No original grego é usada a palavra “hupomonē”, que expressa a ideia de suportar ou permanecer firme sob circunstâncias difíceis.
Esta não era uma resignação desagradável, não era apenas dar-se, mas uma atitude corajosa que aceita a provação, o sofrimento, a perseguição e a perda.
Esta era uma atitude invencível, atitude daquele que não é abatido, que persiste. Eles foram persistentes. As suas obras eram honrosas ações glorificando a Deus. Eles trabalharam duro para isso, e eles ficaram sob as dificuldades e perseveraram.

Além disso, versículo 3 diz algo mais sobre eles: “Não podes suportar os maus”. Os cristãos efésios eram intolerantes com o pecado. Eles eram sensíveis à presença do mal e odiavam malfeitores, como Deus odeia.
Eles reconheciam o dano que o pecado faz para a comunhão e testemunho. Eles viram que o pecado na igreja destrói a unidade e o testemunho da igreja.
Eles odiavam tudo o que era moralmente ruim, tudo o que era espiritualmente ruim. Eles sabiam dos perigosos danos de um pequeno desvio.

Paulo lhes tinha dito, na carta que ele escreveu para a igreja: “Não deis lugar ao diabo” (Efésios 4:27). E eles assim procederam.
Eles não queriam contato com o que procedia de Satanás. Claro, eles odiavam o mal fora da igreja, mas também eles odiavam o mal dentro da igreja.

Talvez eles seguissem as instruções do Senhor, em Mateus 18, quanto ao procedimento de se tratar o pecado.
Eu não sei o que mais você poderia dizer sobre a nobreza daquela igreja, que trabalhava incansavelmente sob tremenda coação e pressão, e nunca desistiu, e combatia o mal ao mesmo tempo.

Além de tudo, uma igreja com discernimento: “E puseste à prova os que dizem ser apóstolos, e o não são, e tu os achaste mentirosos”.
De onde é que o discernimento vem? Do conhecimento da verdade, certo? A única maneira que você pode discernir o erro é sabendo o que? A verdade. Você tem que ter a verdade, a fim de ver o erro.
Veja o que o Senhor diz no verso 6: “Odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio”.

[Heresia semelhante ao ensino de Balaão (Apocalipse 2:14-15). Nicolau significa “o que conquista as pessoas”.
Irineu escreveu que Nicolau foi nomeado diácono em Atos 6. Era um crente falso e apostatou. Mas por causa de sua posição, desviou muitos.
E como Balaão, conduziu muitos à imoralidade e perversão. Os seguidores de Nicolau, os “nicolaítas” seduziam a igreja. Clemente de Alexandria escreveu que eles pervertiam a liberdade cristã e a transformavam em libertinagem.
Transcrito da Bíblia de Estudos MacArthur – SBB].

A igreja de Éfeso era realmente uma igreja surpreendente e notável. Eles tinham a sã doutrina porque foram ensinados desde o início, por homens como Áquila, Apolo, Timóteo, Tíquico, Paulo e João.
Sua formação na Palavra era tão boa que poderiam discernir o erro e denunciá-lo. Usando as palavra do apóstolo Pedro, eles poderiam dar, para qualquer homem, “a razão da esperança que havia neles” (I Pedro 3:15).

Muitas pessoas perversas entram em congregações, e isso ocorreu especialmente no início da igreja. Satanás estava infiltrando essas pessoas nas igrejas primitivas o tempo todo.
Judaizantes, falsos mestres estavam por toda parte. Esta igreja levou a advertência a sério. O apóstolo Paulo lhes avisou, quando se despedia da igreja de Éfeso:

“Porque eu sei isto que, depois da minha partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não pouparão ao rebanho; e que de entre vós mesmos se levantarão homens que falarão coisas perversas, para atraírem os discípulos após si. Portanto, vigiai, lembrando-vos de que durante três anos, não cessei, noite e dia, de admoestar com lágrimas a cada um de vós” (Atos 20:29-31).

Quando os perversos de todos os tipos, emissários de todo os tipos de heresias, mudavam-se para a igreja em Éfeso, eles eram expostos, testados e reprovados.
Os únicos acolhidos naquela igreja eram os fiéis ao ensino da Palavra de Deus.
Trabalhadores, perseverantes, intolerantes com o pecado, conhecedores da verdade ao ponto de discernir os verdadeiros e falsos mestres.
Enfim: “E sofreste, e tens paciência; e trabalhaste pelo meu nome, e não te cansaste” (v.3).

Apocalipse 2
4 Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor.
5 Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; quando não, brevemente a ti virei, e tirarei do seu lugar o teu castiçal, se não te arrependeres.

Mas, no versículo 4, saímos do elogio para a condenação: “Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor”. Inconfundível: “Você deixou o seu primeiro amor”.

O que você quer dizer com isso? Você perdeu o amor ardente que tinha para com Cristo quando foi libertado do reino das trevas.
Você perdeu o coração ardente que tinha, como aqueles na estrada para Emaús (Lucas 24:13-34), quando na Escritura, e por experiência, você viu o significado da morte e ressurreição de Jesus Cristo.
Você perdeu o amor que tinha quando pôde responder ao Senhor, por três vezes, como o apóstolo Pedro: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo” (João 21:17).
Você perdeu a devoção a Cristo, sendo consumido com Ele, substituindo agora por uma espécie de frieza obediente e doutrinária. O calor do primeiro amor foi embora… Os efésios haviam perdido o coração ardente pelo Senhor.

Isto é um perigo para todos nós. Acho que estamos muito parecidos com a igreja de Éfeso: trabalhamos duro, perseveramos, suportamos, conhecemos a verdade, temos discernimento, odiamos o pecado, somos capazes de expor o erro.
Mas, o perigo para nós é deixar o primeiro amor. Isso realmente encontra um paralelo em Jeremias 2:

“E veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Vai, e clama aos ouvidos de Jerusalém, dizendo: Assim diz o Senhor: Lembro-me de ti, da piedade da tua mocidade, e do amor do teu noivado, quando me seguias no deserto, numa terra que não se semeava. Então Israel era santidade para o Senhor, e as primícias da sua novidade; todos os que o devoravam eram tidos por culpados; o mal vinha sobre eles, diz o Senhor” (Jeremias 2:1-3).

E essa é a mensagem que o Senhor deu a Igreja de Éfeso: ‘Você deixou o primeiro amor. A lua de mel acabou’.
O Amor a Cristo esfriou e isso é muito perigoso. O esfriamento do amor a Cristo é o precursor da apatia espiritual. A apatia é o precursor do amor sendo direcionado para outro objeto.
O amor que não é por Cristo, mas por qualquer outra coisa, significa compromisso com o mal, e isso significa corrupção, e isso significa morte, e isso significa julgamento.

E essa é a sequência de Éfeso, Pérgamo, Tiatira, Sardes e Laodicéia. Você acabará por se tornar uma igreja que o Senhor cospe da sua boca.
Doutrinária, moral pura, zelosa, trabalhadora, disciplinada, nascida de uma maneira incrível no meio do paganismo, de forma milagrosa, com sinais, maravilhas e uma explosão do Evangelho.
Teve o privilégio de ter possuído muitos dos melhores líderes possíveis. Ela ainda cria, cantava, pregava, mantinha a verdade, mas já não amava Cristo como antes. Tinha perdido o principal.

Quando o coração se torna frio, você está em perigo. Quão sério é isso? O versículo 5, o Senhor diz: “Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras…”.
Ou seja, o Senhor manda que ela volte ao amor de quando cada um ali veio a Ele. Arrepender-se e restaurar o amor. Arrepender-se de sua falta de amor a Deus, de não colocá-lo em primeiro lugar.
Ter novamente o amor ensinado por Jesus: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento” (Mateus 22:37).

Você diz: “Bem, isto não deve ser algo muito sério, não é?” Não. Se você olhar para o versículo 5, Ele diz: “…quando não, brevemente a ti virei, e tirarei do seu lugar o teu castiçal, se não te arrependeres”. Em outras palavras: Eu acabarei com essa igreja!

Você pode imaginar quando o pastor de Éfeso leu a carta àquela igreja? O Senhor estava chamando-os ao arrependimento, caso contrário iria exterminar aquela igreja.
Será que isso aconteceu? Sim, isso aconteceu. E tudo era tão maravilhoso. Hoje, não há nenhuma igreja em Éfeso, nem mesmo uma cidade lá.

Apocalipse 2
Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida, que está no meio do paraíso de Deus.

Outra maneira de dizer: “Você está ouvindo? Você está ouvindo o que eu digo?”
Isso vai para além daquela igreja e atinge a nós aqui. Isto é para todos os cristãos, para todas as igrejas, em todos os tempos.
Compreender o perigo de deixar o seu primeiro amor e encantar-se com outra coisa que não seja Cristo e Seu reino.

E então uma promessa: “Ao que vencer”. Quem vencerá? “Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé” (I João 5:4).
Aos vencedores Ele vai conceder a comer da árvore da vida que está no paraíso de Deus. Essa é uma imagem do céu.
O Éden era o paraíso criado por Deus na terra (Genesis 2 e 3). O Céu é o paraíso de Deus no infinito (Apocalipse 22).

Por que Ele disse “ao que vencer”? Porque se você está lá e você é um crente fiel e verdadeiro, e o Senhor exterminou a igreja da qual você fazia parte, você não está perdido.
Para o vencedor, mesmo em uma igreja que tenha deixado o seu primeiro amor, Deus promete o céu.
Precisamos nos certificar que estamos no primeiro amor, no lugar onde o Senhor quer nos encontrar.

Senhor, nós somos tão gratos que Tu nos deste a Tua Palavra. É tão rica e poderosa. Ela abre para nós o que precisamos saber, entender, ouvir. Mas, ao mesmo tempo, Senhor, com todas as suas maravilhas, todas as suas belezas, é muito convincente.

Livrai-nos, Senhor, da perda do primeiro amor. Isso certamente pode significar uma pessoa que faz uma pretensão e se afasta e não é um vencedor – não permanece, não permanece; como um tipo de Judas. Mas, também até mesmo para nós que somos verdadeiros cristãos, precisamos nos lembrar de uma verdadeira conversão, amor verdadeiro, nos arrepender de nossa frieza, e retornar ao fogo desses anos iniciais. Que nunca Tu tenhas que dizer a ns: “Volte para o seu primeiro amor ou Eu vou colocar a sua luz para fora.”

Nós Te amamos, Senhor, e queremos Te amar mais. Queremos Te amar com todo o nosso coração, alma, mente e força. Queremos viver nas maravilhas do primeiro amor, quando tudo clareou em nossos corações escuros e mentes, e nós fomos arrastados na alegria da salvação. Que os fogos do amor queimem em nossos corações para que a nossa luz possa continuar a brilhar. Essas coisas pedimos em nome do Teu Filho, Pai. Amém.


Este sermão é uma série de 7:

Carta às 7 igrejas: Éfeso
Carta às 7 igrejas: Esmirna
Carta às 7 igrejas: Pérgamo
Carta às 7 igrejas: Tiatira
Carta às 7 igrejas: Sardes
Carta às 7 igrejas: Filadélfia
Carta às 7 igrejas: Laodiceia


Este texto é uma síntese do sermão “The Lord’s Word to His Church: Ephesus”, de John MacArthur em 23/08/2015.

Você poderá ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

http://www.gty.org/resources/sermons/90-472/the-lords-word-to-his-church-ephesus

Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno


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