A transfiguração de Jesus – 2

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Isaías, ao profetizar sobre João Batista diz: “Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor; endireitai no ermo vereda a nosso Deus” (Isaías 40:3).
Ele anunciou o precursor do Messias, mas referiu-se a Deus com essas palavras: “E a glória do Senhor se manifestará, e toda a carne juntamente a verá, pois a boca do Senhor o disse” (Isaías 40:5).
Isaías identificou o Messias, o Senhor Jesus, como ‘a glória do Senhor’. O Senhor Jesus Cristo é a glória de Deus manifestada em forma humana.

Deus Se revelou, em Sua glória, em muitas ocasiões.
Moisés disse ao povo de Israel que a glória do Senhor iria aparecer para eles. E isto aconteceu, de acordo com o capítulo 9 de Levítico.
No Monte Sinai, quando Moisés subiu para comungar com Deus, a glória do Senhor cobriu a montanha e resplandeceu no rosto de Moisés (Êxodo 19:18-20; 34:27-30).

No deserto, Deus estava alimentando Israel com o maná, Sua glória foi vista pelas pessoas (Êxodo 16:31-36).
No final da construção do tabernáculo, a glória do Senhor encheu o tabernáculo, e “a nuvem do Senhor estava de dia sobre o tabernáculo, e o fogo estava de noite sobre ele, perante os olhos de toda a casa de Israel, em todas as suas jornadas” (Êxodo 40:38).

A glória do Senhor apareceu na forma de juízo contra Coré, Datã e Abirão. “A terra abriu a sua boca” e os consumiu pela rebeldia deles contra Moisés (Números 16:26-50). E Deus ameaçou consumir todos em um momento.
Na conclusão do templo, a glória do Senhor se manifestou em I Reis 8. Na verdade, por ocasião da primeira oferta no templo, a glória foi vista e as pessoas adoraram.

Onde e quando a glória do Senhor apareceu, foi uma manifestação do próprio Deus. Todas estas aparições eram simplesmente formas pelas quais o Deus eterno se manifestou.
E ele escolheu fazê-lo através de uma luz brilhante, uma nuvem, fogo e chamas de luz.
Ezequiel tentou descrever esta indescritível revelação de sua glória no primeiro capítulo de Ezequiel. Foi um relato cheio de descrições incríveis e misteriosas.
É francamente muito misterioso descrever a Glória de Deus, mas nós temos essas imagens do Antigo Testamento.

A glória do Senhor revelada dessas maneiras ainda está envolta em mistério. Mas, mesmo assim, somos gratos pela autorevelação de Deus, por mais misteriosa que possa ser.
Somos gratos por Deus não ter permanecido em silêncio, invisível e oculto em algum lugar da escuridão eterna.
Ele brilhou a luz da glória, mesmo que no mistério da “Shekinah”, através de formas que eram visíveis e que foram registradas nas Escrituras.
[“Shekinah” é uma palavra hebraica utilizada para designar a habitação ou presença de Deus].
Deus estava presente em sua criação, na providência e na história. E é assim registrado nas palavras do Antigo Testamento. Mas ainda havia mistério.

Jó expressa desta forma: “Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos; e quão pouco é o que temos ouvido dele! Quem, pois, entenderia o trovão do seu poder?” (Jó 26:14).
Essas revelações foram apenas sussurros, apenas uma pequena amostra. Para Moisés, no monte, Ele apenas lhe mostrou Seu crepúsculo (a hora em que o sol está surgindo ou sumindo no horizonte), apenas a orla da Sua glória.
Mesmo para os profetas essa glória ainda estava encoberta, como Daniel que recebeu tais revelações imensas de Deus e visões da glória de Deus, disse: “Eu ouvi, mas não entendi” (Daniel 12:8).

A glória de Deus estava presente, mas muito misteriosa para se compreender completamente. Deus ‘sussurrou’ através do seu “Shekinah”, mas Ele ‘gritou’ através de seu Filho.
É no Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, que a glória de Deus foi mais maravilhosamente e claramente manifesta, pois vemos o complexo de Seus atributos divinos manifestar-se por meio de um ser humano compreensível para nós.

E assim que o escritor de Hebreus começa seu maravilhoso livro com essas palavras:
“Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo. O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo” (Hebreus 1:1-3)

Nunca a glória de Deus foi tão brilhantemente manifesta como na pessoa de Jesus Cristo. Nunca a natureza de Deus foi tão exatamente revelada como na pessoa de Jesus Cristo.
Quando olha para Jesus, você vê a glória de Deus, você vê a natureza de Deus. Ele expressa os atributos de Deus, a essência de Deus, a natureza de Deus para nós.
Assim como o brilho do sol atinge, ilumina e aquece a terra, dando vida e crescimento para a terra, assim, em Cristo, a luz gloriosa da natureza de Deus brilha nos corações de homens e mulheres.

Isso é exatamente o que Paulo disse: “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” (II Coríntios 4:16).
Ele é o Senhor da glória. Ele revela a natureza de Deus e a essência de Deus, de uma forma que os sussurros da criação, do “Shekinah” e dos registros do Antigo Testamento não podiam fazer. Ele é o sol da justiça (Malaquias 4:2).
Tudo isso para dizer: Jesus é a glória de Deus. Jesus é a manifestação do próprio Deus. Ele é o “Shekinah”.

Resumindo os dois pontos que vimos no domingo passado, para avançarmos para os dois seguintes, acerca da transfiguração de Cristo diante de Pedro, Tiago e João.

Lucas 9
26 Porque, qualquer que de mim e das minhas palavras se envergonhar, dele se envergonhará o Filho do homem, quando vier na sua glória, e na do Pai e dos santos anjos.
27 E em verdade vos digo que, dos que aqui estão, alguns há que não provarão a morte até que vejam o reino de Deus.

Aqui Jesus fala da Sua volta, de Sua segunda vinda em uma glória muito maior do que aquela que foi manifestada em sua primeira vinda.
Ele veio, e ficou claro que Ele era a glória de Deus: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (João 1:14).

Mas, mesmo que a glória de Cristo tenha revelado Deus de maneira incomparável em relação aos sussurros do Antigo Testamento, não foi ainda uma revelação completa.
Se você ler Mateus 24 , Daniel 7 e Apocalipse 19, verá que na Sua segunda vinda Jesus virá em plenas chamas de glória.

Como agirão os homens perdidos diante das ardentes chamas de Sua glória?
“E os reis da terra, e os grandes, e os ricos, e os tribunos, e os poderosos, e todo o servo, e todo o livre, se esconderam nas cavernas e nas rochas das montanhas; E diziam aos montes e aos rochedos: Caí sobre nós, e escondei-nos do rosto daquele que está assentado sobre o trono, e da ira do Cordeiro” (Apocalipse 6:15-16).

Então Jesus no versículo 26 diz: “Eu voltarei em glória. Eu sou a glória de Deus”.
Como sabemos que isso é verdade? Como sabemos que Ele é a glória de Deus? Como sabemos que Ele veio pela primeira vez na maior glória que havia sido manifestada, mas voltará na mais sublime glória? Como sabemos isso?

No versículo 27 Ele dá uma promessa afirmando que alguns dos que estavam ali não morreriam antes de ver esta manifestação gloriosa do Reino de Deus.
Momentos antes, Jesus havia dito: “É necessário que o Filho do homem padeça muitas coisas, e seja rejeitado dos anciãos e dos escribas, e seja morto, e ressuscite ao terceiro dia” (Lucas 9:22).

Após sua morte, como você bem sabe, os discípulos tiveram um duro tempo de incertezas a respeito da Sua ressurreição.
Jesus, querendo afirmar e confirmar a fé deles, mesmo para além de Sua promessa, dá-lhes esta prévia do reino de Deus e de Sua verdadeira glória.

Quase oito dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João. Ele fez o mesmo quando ressuscitou a filha de Jairo (Lucas 8:51-55) e no Jardim do Getsêmani (Mateus 26:37). Eram eles os três apóstolos mais íntimos.
Era importante que houvesse três deles, porque a lei dizia que todas as coisas, para serem verdadeiras, deveriam ser confirmadas pela boca de duas ou três testemunhas (Deuteronômio 19:15).
Eles tiveram uma experiência que marcou-lhes a vida para sempre.

Lucas 9
29 E, estando ele orando, transfigurou-se a aparência do seu rosto, e a sua roupa ficou branca e mui resplandecente.
30 E eis que estavam falando com ele dois homens, que eram Moisés e Elias,
31 Os quais apareceram com glória, e falavam da sua morte, a qual havia de cumprir-se em Jerusalém.
32 E Pedro e os que estavam com ele estavam carregados de sono; e, quando despertaram, viram a sua glória e aqueles dois homens que estavam com ele.

Começando, então, no verso 29, chegamos a este evento chamado de “a transfiguração”. Jesus demonstra a Sua glória. Sua glória é aqui revelada em quatro maneiras.
Vamos rever rapidamente os dois primeiros pontos, vistos na semana passada.

Primeiro: A Glória manifesta na transfiguração do Filho

E, no momento da sua oração, a aparência do seu rosto tornou-se “ἕτερον” (heteron), palavra grega que significa “diferente”.
Ficou diferente do que? Diferente do que sempre foi. Mateus explica como “transfigurado”, usando um verbo grego, “metamorphōthē”, significando que uma metamorfose ocorreu.
Você sabe o que isso significa, não é? Um exemplo de metamorfose é quando uma larva (ou lagarta) se transforma em uma borboleta. Ou seja, transformou-se em algo totalmente diferente.

Eles o haviam conhecido apenas como um ser humano. Seu corpo tinha sido um corpo como o corpo de qualquer ser humano.
Jesus não se parecia com algum tipo de alienígena. Ele não flutuava acima do solo. Ele andava, falava. Ele fazia tudo que os homens normalmente fazem.
Mas, de repente, houve uma metamorfose. Lucas diz que Seu rosto era diferente. Mateus diz que brilhou como o sol. Era como olhar para o sol do meio-dia.
E, em seguida, Lucas escreve: “Sua roupa ficou muito branca e brilhante”. Tornou-se deslumbrante, a palavra “leukos”, algo que é deslumbrante, que está brilhando como o diamante branco e reluzente, que é usada para descrever um raio. Então, Seu rosto é como o sol e Seu corpo é como chama do relâmpago que vem através de sua roupa.

O que eles estão vendo? Eles não estão vendo simplesmente uma luz que reflete em Jesus. Eles estão vendo a glória de Deus brilhando a partir de Jesus, vindo de seu interior.
Esta é a revelação de que você tem aqui a “Shekinah”, a mesma presença que andava no jardim pela viração do dia e falou com Adão e Eva (Gênesis 3:8).
A mesma presença gloriosa que repousou no Monte Sinai, apareceu a Moisés e foi refletida em seu rosto (Êxodo 19:18;24:16; 34:2,29).

A mesma presença que apareceu no deserto, levando os filhos de Israel por uma coluna de nuvem durante o dia e uma coluna de fogo durante a noite (Êxodo 13:21).
A mesma luz gloriosa que entrou no tabernáculo e no templo.
Este é Deus. Na transfiguração, a glória de Deus se manifesta a partir do interior de Jesus. Não foi apenas uma glória refletida, como aconteceu com o rosto de Moisés.
A verdade de quem Jesus é foi revelada em Sua transfiguração.

Segundo: A associação dos santos

E, então, uma coisa surpreendente acontece no versículo 30, quando Moisés e Elias estavam conversando com Jesus sobre sua partida deste mundo.
Moisés e Elias, os dois profetas mais representativos do Antigo Testamento.
Moisés, como você se lembra, o doador da lei, e Elias, o maior defensor da lei. Moisés, a lei. Elias, os profetas.
Eles representam muito do Velho Testamento, que era conhecido pelos judeus como ‘a lei e os profetas’.
Por que eles estão lá? Porque eles são duas testemunhas do Antigo Testamento que atestam a divindade de Jesus Cristo.

Moisés teve uma morte muito incomum e seu corpo nunca foi encontrado. Houve uma batalha sobre o seu corpo entre Satanás e o arcanjo Miguel (Judas 1:9).
Deus tomou o corpo de Moisés e o enterrou em local desconhecido (Deuteronômio 34:5-6).
E Elias? Este nem mesmo morreu. Ele teve um arrebatamento privado. Foi levado vivo para o céu numa carruagem de fogo (II Reis 2:11). Deus simplesmente o pegou na Sua carruagem particular.

Moisés, o legislador proeminente, Elias, o profeta proeminente, eles representam o Antigo Testamento. Eles representam os santos.
E lá eles estão em pé na presença de Jesus, conversando com Jesus sobre a cruz.
Não poderia haver ninguém mais para dar maior segurança a Pedro, Tiago e João, do que Moisés e Elias.

Prosseguindo hoje, vamos ver o terceiro e quarto pontos.

Terceiro: A sugestão de Pedro

Lucas 9
32 E Pedro e os que estavam com ele estavam carregados de sono; e, quando despertaram, viram a sua glória e aqueles dois homens que estavam com ele.
33 E aconteceu que, quando aqueles se apartaram dele, disse Pedro a Jesus: Mestre, bom é que nós estejamos aqui, e façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés, e uma para Elias, não sabendo o que dizia.

Vimos a transfiguração do Filho. Vimos a associação dos santos. Eu acho que poderíamos chamar esta terceira “os dormentes”.
Há momentos na vida em que deveríamos manter os olhos bem abertos. Um deles é quando estamos ouvindo a ministração da Palavra. Alguns parecem não agirem assim.
Mas isso seria um detalhe menor em comparação com aquela tremenda experiência.

E eu não acho que houve um nível de desinteresse ou apatia por parte de Pedro, Tiago e João.
No grego, o significado é que eles foram ‘superados pelo sono’, não foi algo voluntário.
A linguagem usada significa que não houve indiferença e desinteresse por parte deles. Quando Jesus os chamou para o monte, eles foram, mas estavam cansados e foram vencidos pelo sono.

Eles estavam profundamente sobrecarregados, porque tinham acabado de ser informados que Jesus iria sofrer muito, ser rejeitado e morto pelos líderes de Israel. Isto tinha implicações imensas.
Não só eles ouviram dizer que Jesus iria ser morto, mas que eles, para segui-lo, tinham que assumir a sua própria cruz, o que significa que eles próprios, provavelmente, seriam mortos também.

E assim o fardo foi muito pesado em seus corações.
Mais tarde, no Jardim do Getsêmani (Lucas 22:45), Jesus os levou para o jardim, para orar com ele, na noite em que foi traído.
Ali Jesus estava a poucos momentos da cruz. Eles adormeceram lá também. Antes, Jesus havia dito que sua partida estava próxima.

Bem, quando eles acordaram, você pode imaginar a surpresa que tiveram ao ver a transfiguração de Jesus. Eles devem ter confundido aquela realidade com algum sonho.
Eles viram também Moisés e Elias. Como sabiam que era Moisés e Elias? Deus lhes revelou.

Eles viram o rosto resplandecente de Jesus como o sol. Eles viram o seu corpo como um relâmpago através de suas vestes, e viram também os dois homens que estavam com Ele.
Isso, para eles, foi uma tremenda confirmação que Jesus era, de fato, a glória de Deus. Isto foi atestado por Moisés e Elias, as figuras mais representativas do Antigo Testamento.
Se você quer saber quem é Jesus, esta é uma cena gloriosa que responde a sua pergunta. Eles viram o que o Senhor queria que eles vissem.

Não sabemos quanto tempo isso continuou. Mas o versículo 33 diz: “E aconteceu”, o que indica algum intervalo de tempo. Talvez eles tenham participado de alguma conversa ou apenas ouviram.
A cena foi chegando ao fim. Moisés e Elias começaram a sair. Pedro, sempre impetuoso, verbal e porta-voz, faz uma proposta a Jesus.
Bem, se eu fosse me imaginar naquela cena, confesso que gostaria de abrir a boca e dizer qualquer coisa. Mas, o forte impacto seria mais do que eu poderia suportar, ofegante, ficaria sem palavras.

Mas Pedro tinha esta impetuosidade. Foi um ato surpreendente de autoconfiança. Ele agora está fora da dimensão do tempo-espaço, em um sentido.
Ele está fora de seu próprio mundo e reino. Ele está no reino eterno. Ele estava vendo cumprida a promessa sobre a qual Jesus havia dito: “Você vai ver o reino de Deus”.
Ele partiu do reino em que vivemos. Ele está no reino de Deus, e a primeira coisa que ele quer fazer é sugerir sobre o que deve ser feito.

Pedro disse a Jesus: “Mestre, bom é que nós estejamos aqui”.
No original grego, a Palavra “Mestre”, usada por Pedro, significava um tratamento de profundo respeito a alguém.
Pedro foi dominado pela glória do que estava vendo. Ele estava cheio de respeito pelo Senhor glorificado.
E seu primeiro comentário faz sentido: “É bom para nós estarmos aqui”.

Era uma maneira de Pedro dizer:
“Eu gosto disso. É Isso que eu estava esperando. Quando começamos a Te seguir, estávamos à espera do Reino. Agora estamos vendo. Estávamos tristes com a rejeição de Israel a Ti, e com a possibilidade de Tua morte. As coisas não pareciam bem, conforme pensávamos, mas agora as coisas estão melhores”.

Acho que houve algum santo temor naquele momento. Mas Pedro também reconhece que esta é a melhor experiência de sua vida. E ele está certo.
Isto é muito melhor do que a dor, a cruz, rejeição e assassinato. E aqui temos o testemunho dos apóstolos que este era o reino de Deus. Este é o lugar onde queremos ficar.
Assim, o testemunho da transfiguração de Jesus prova que Ele é a glória de Deus. O testemunho da associação dos santos prova que Ele é o Filho de Deus.
E a sugestão dos apóstolos, quando Pedro afirma que aquele era o lugar que eles estavam esperando, prova que Jesus é a glória de Deus, porque no meio daquela glória, eles haviam sido levados para essa visão do reino de Deus.

E assim, Pedro diz: “Eu tenho uma proposta: Façamos três tendas: uma para Ti, uma para Moisés, e uma para Elias”. A Palavra diz que ele não sabia do que estava falando. Ou seja, “temos que ficar aqui”.
Agora há humildade nisto. Ele não disse: “Vamos fazer seis tendas”. Ele não se inclui, bem como a Tiago e João. Ele sabe que ele mesmo não é digno de ser tão honrado, como aqueles que pertencem ao reino eterno.
A ideia de Pedro não é apenas honrá-los, mas fazer um lugar permanente, afim de que ele possa permanecer diante daquela maravilhosa realidade.

Ele tinha ouvido a profecia de que alguns não morreriam sem ver o reino e ele sabia que estava vendo.
Sua emoção chegou ao ponto mais elevado quando ele viu a glória de Cristo, bem como Moisés e Elias associados dentro do reino eterno.
Ele havia ouvido sobre a partida de Cristo e, talvez, pensou que isso poderia significar que o reino era iminente.
E aqui foram dois grandes profetas, Moisés e Elias, prontos para libertar as pessoas da escravidão do pecado e leva-las para o reino de Deus.
Talvez ele tenha pensado que este foi apenas o primeiro elemento na vinda real do reino eterno.

Foi também em um momento muito especial no calendário do ano judaico. Naquele momento, no mês de Tishri, seis meses antes da Páscoa, um evento muito especial estava acontecendo em Jerusalém.
Na cronologia do Novo Testamento, a transfiguração ocorreu na época da Festa dos Tabernáculos (ou das cabanas), que comemora o êxodo do Egito.
Pedro sabia que, em Jerusalém, estava sendo comemorada a Festa dos Tabernáculos, um festejo sobre o êxodo do Egito.

[A Festa dos Tabernáculos durava uma semana e durante este período o povo habitava em tendas construídas com ramos. Era uma lembrança da peregrinação, quando o povo vivia em pequenas cabanas (ou tendas) no deserto e do sustento dado pelo Senhor].

Pedro pensou: “Uau, que grande momento! Vamos colocar algumas tendas temporárias aqui, para que sejam habitadas por um tempo, como na primeira fase do êxodo e trazer o povo da escravidão do pecado e do mundo, para este glorioso reino”.
Ele deve ter pensado que aquilo talvez pudesse ser a primeira fase do reino, para a qual ele havia esperado por tanto tempo.
Ele deveria conhecer Zacarias 14, que fala sobre o Reino Milenar, o glorioso reino de Cristo, onde a Festa dos Tabernáculos será realizada todos os anos como a lembrança do êxodo; e não apenas o êxodo do Egito, mas o êxodo da escravidão do pecado para a vida gloriosa em Deus.

Então, houve alguns elementos que incitaram a sugestão de Pedro. Mas o comentário de Lucas é de que ele não sabia o que estava falando.
O que isso significa? Bem, Pedro não percebeu que tudo aquilo não era o início do reino.
Como Elias e a Festa dos tabernáculos estão associados à vinda do reino, ele imaginou ter chegado o grande momento.
Todos os elementos do reino que Pedro havia desejado estavam lá; a glória de Cristo foi exibida. Por que voltar?

Mas ele não percebe o que está dizendo. O plano eterno tinha uma cruz. O Filho do Homem deveria morrer como os profetas disse que faria.
Ele deveria ser o servo sofredor de Isaías 53. Ele deveria ser ferido pelas nossas transgressões e iniquidades.
O julgamento de Deus a nós deveria cair sobre Jesus. Ele deveria morrer como sacrifício pelo pecado.
E Ele deveria ser o último e definitivo Cordeiro, o sacrifício que aperfeiçoa para sempre os que são santificados.

Não pode haver coroa sem cruz. Não pode haver reino sem um Calvário.
Ali foi apenas uma prévia para firmar sua fé, de modo que ele conhecesse para sempre as tremendas realidades eternas do reino que virá, não importando o que acontecesse.
Não importando a morte do próprio Cristo na cruz; a do próprio Pedro também numa cruz; a de Tiago, morto pela espada e a de João, perseguido e exilado na ilha de Patmos.
Eles lembrariam que nada disto é o fim da história. Há um glorioso reino além desta vida.
O Rei virá naquele glorioso reino à terra; Sua glória encherá a terra. Isso virá, mas não era ainda o momento.

Quarto: A soberana revelação de Deus

Lucas 9
34 E, dizendo ele isto, veio uma nuvem que os cobriu com a sua sombra; e, entrando eles na nuvem, temeram.
35 E saiu da nuvem uma voz que dizia: Este é o meu amado Filho; a ele ouvi.

Nesta cena temos o testemunho de Cristo como Deus, através de Sua transfiguração, a associação dos santos, a sugestão de Pedro, e, finalmente, a soberana revelação de Deus.
Aqui vem a Shekinah. E eles ficaram com medo, quando Jesus, Moisés e Elias entraram na nuvem e uma voz saiu da nuvem, dizendo: “Este é o meu amado Filho; a ele ouvi”.

Você gostaria de Deus aparecer a você e te dizer: “Você poderia ficar quieto e escutar?”. Isso é muito intimidante.
Pedro para de falar e escuta. Como se Deus dissesse: “Você está tendo uma prévia de um reino eterno e glorioso, mas ainda quer fazer uma sugestão?!”. Aquele era um momento de ouvir apenas.

Enquanto Pedro estava interrompendo Moisés, Elias e Jesus, Deus o parou. Deus fez uma aparição naquela montanha, na Galileia, naquela noite.
Uma nuvem formada começou a ofusca-los. Mateus diz que “uma nuvem luminosa os cobriu” (Mateus 17: 5). Claro que não foi uma nuvem escura. Deus é luz. Foi a Shekinah de Deus.
O mesmo Deus que apareceu em uma coluna de nuvem em Êxodo 13. Que apareceu novamente como a glória do Senhor, na nuvem, em Êxodo 16, como também a nuvem da glória do Senhor que encheu o tabernáculo (Êxodo 40).

E eles estavam com medo, porque agora a cena é suficiente para causar pânico. Eles ficaram aterrorizados.
“E os discípulos, ouvindo isto, caíram sobre os seus rostos, e tiveram grande medo. E, aproximando-se Jesus, tocou-lhes, e disse: Levantai-vos, e não tenhais medo. E, erguendo eles os olhos, ninguém viram senão unicamente a Jesus”. (Mateus 17:6-8).

Eles estavam com tanto medo quanto Ezequiel, quando ele caiu com o rosto em terra, no momentos em que a gloria de Deus apareceu para ele (Ezequiel 1:28).
Tanto medo quanto Isaías, que pronunciou uma maldição sobre si mesmo quando a glória de Deus apareceu para ele (Isaías 6:5).
Eles estavam com o mesmo medo que João teve, ao ponto de cair como morto, quando o Cristo glorificado se revelou a ele (Apocalipse 1:17).

Uma nuvem formada ofuscou Moisés, Elias e Jesus. No grego, a imagem é que a nuvem, a nuvem do reino, a representação de Deus engole Jesus, Moisés e Elias.
Os apóstolos estão fora da nuvem. Diante do temor que eles tiveram da nuvem, a voz de Deus sai da nuvem para eles e diz “Este é o meu amado Filho; a ele ouvi”.

A glória de Cristo foi provada através de Sua transfiguração, de Sua associação com os profetas, pela confirmação dos apóstolos, que perceberam que era o reino, Ele era o Rei e provou isso.
E agora o maior atestado, a palavra do Pai. Foi algo semelhante ao que o Pai tinha dito anteriormente, após seu batismo por João Batista: “Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo” (Lucas 3:22).
A afirmação definitiva do Pai. Este é o meu Filho, a mesma natureza, a mesma essência, a mesma divindade. Este é o meu escolhido, este é o único em quem me comprazo.

Mateus juntou tudo: “Este é o meu amado Filho, em quem me comprazo; escutai-o” (Mateus 17:5).

É o que foi profetizado por Moisés: “O Senhor teu Deus te levantará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, como eu; a ele ouvireis” (Deuteronômio 18:15).
Este evento, surpreendente e incrível, atesta que Jesus Cristo é a glória de Deus. Ele é o glorioso Deus em forma humana. Ele declara isto em sua transfiguração. Os santos do Antigo Testamento e do Novo Testamento o declaram. O próprio Pai declara.

Lucas 9
36 E, tendo soado aquela voz, Jesus foi achado só; e eles calaram-se, e por aqueles dias não contaram a ninguém nada do que tinham visto.

Aquela cena surpreendente tem um final estranho. Quando a nuvem se foi, apenas Jesus permaneceu lá. Acabou.
Não era o momento para o reino; não foi o tempo para construir algumas habitações provisórias e começar a primeira fase do reino. Tinha acabado.
Foi uma pré-visualização. Uma prévia. E por aqueles dias eles não contaram a ninguém nada do que tinham visto.

Você diz: “Espere um minuto. Isso é bizarro. Eles não eram testemunhas da glória de Cristo? Não era importante que eles proclamassem o que tinham visto? Por que eles não disseram nada? Eles foram infiéis à sua responsabilidade?”

Eles tinham acabado de ver uma imagem da segunda vinda de Cristo, bem como uma afirmação de Cristo.
Na Sua Segunda Vinda, Cristo aparecerá em resplandecente glória. Apocalipse 19 diz que Ele virá com os Seus santos.
Aqueles que morreram são representados por Moisés. Aqueles que serão arrebatados vivos são representados por Elias.
E quando Ele vier com seus santos, Ele virá ao Seu povo, pronto para receber o reino, representado por Pedro, Tiago e João.
E Ele aparecerá primeiramente no monte das Oliveiras (Atos 1:9-12), assim como foi em uma montanha lá. De uma forma notável foi uma prévia da segunda vinda de Jesus.

Mesmo sendo uma prévia da Segunda Vinda de Jesus, uma incrível visualização do reino eterno, a confirmação da divindade de Jesus Cristo e a manifestação da sua glória, por que o silêncio deles?

Resposta: “E, descendo eles do monte, Jesus lhes ordenou, dizendo: A ninguém conteis a visão, até que o Filho do homem seja ressuscitado dentre os mortos” (Mateus 17:9).

Poderia ser uma questão da própria incredulidade das pessoas. Apenas aqueles que creriam na sua ressurreição dariam crédito àquela visão.
Alguns sugerem que a divulgação de que tinham visto o reino eterno e que Jesus era o Rei iria despertar um ataque precipitado dos judeus e dos romanos, para uma execução prematura de Jesus e dos apóstolos.

Também poderia provocar um despertamento político dos judeus contra Roma. E eles poderiam pensar em Jesus como um líder revolucionário contra Roma.
Foi exatamente este sentimento que houve na multidão, quando Jesus entrou em Jerusalém, na semana da cruz (João 12:12-19).
Após sua ressurreição, aqueles que cressem, iram certificar-se que Jesus não veio excitar os judeus contra Roma. Perceberiam que Ele veio para destruir o império da morte e não para conquistar os romanos.

Depois da ressurreição, eles poderiam falar o que viram. Eles precisavam dizer que Jesus voltaria para estabelecer seu reino. É por isso que Jesus lhes deu essa visualização.
Eles veriam sua morte, ressurreição e ascensão na glória. Ali eles estavam tendo uma visualização de sua volta na glória do reino eterno, como Jesus havia prometido.

Eles deram testemunho disto. Nós não sabemos o testemunho que Tiago deu. Ele morreu muito cedo, como um mártir, transpassado por uma espada (Atos 12:2) e não escreveu qualquer Escritura.
O livro de Tiago foi escrito pelo irmão de nosso Senhor, e não pelo apóstolo Tiago.

Mas, João disse: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (João 1:14). “Vimos a glória! Vimos a glória!”

Pedro escreveu seu testemunho:
“Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade. Porquanto ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando da magnífica glória lhe foi dirigida a seguinte voz: Este é o meu Filho amado, em quem me tenho comprazido. E ouvimos esta voz dirigida do céu, estando nós com ele no monte santo” (II Pedro 1:16-18).

João diz: Eu vi a glória! Pedro diz: Eu vi a glória!
E o resultado é que o Rei glorioso, que morreu, ressuscitou e subiu aos céus em glória está vindo novamente para trazer o reino.
Ele virá! Ele virá! E a Pedro e João foi dado o privilégio de dar testemunho bíblico para essa realidade.
Jesus Cristo é Deus. Sua morte foi profetizada, bem como a sua segunda vinda.
Isso é o que procuramos dizer com o apóstolo João: “Ora vem, Senhor Jesus” (Apocalipse 22:20).

Pai, nós Te agradecemos por esta parte gloriosa e poderosa das Escrituras.
Obrigado por dá-la a nós.
Isso nos dá a esperança de que o nosso Salvador está vindo novamente.
Oramos para Tua glória. Amém.


Este sermão é uma série de 2:

A transfiguração de Jesus (1)

A transfiguração de Jesus (2)


Este texto é uma síntese do sermão “A Glimpse of the King’s Return, Part 2”, de John MacArthur em 22/12/2002.

Você poderá ouvi-lo integralmente (em inglês) no link abaixo:

http://www.gty.org/resources/sermons/42-125/a-glimpse-of-the-kings-return-part-2

Tradução e síntese feitos pelo site Rei Eterno


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